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Migrações internas e estratégias hereditárias

No documento [Download Integral] (páginas 165-171)

de tradições migratórias

3. Migrações internas e estratégias hereditárias

As migrações sazonais ou temporárias no Noroeste de Portugal foram um fenó- meno muito complexo em virtude da grande variedade das ocupações profissionais, da duração da ausência e das diferentes épocas de partida e de retorno. A quantidade

dos homens que partiam mudava rapidamente em função das conjunturas políticas e económicas. Apesar desta complexidade que torna as migrações diferentes segundo as aldeias da região, é evidente que nas aldeias onde as migrações tinham uma grande tradição, a vida social e económica era profundamente alterada pelo fenómeno (Poi- trineau, 1962 : 5-50). Esta relação constata-se ao nível demográfico, ao nível da orga- nização familiar, da reprodução e da mobilidade social e ainda ao nível económico.

Neste estudo chamar-se-á a atenção, sobretudo, para as relações entre as migra- ções e as estratégias de herança que condicionavam a organização familiar e as for- mas de reprodução social.

Do ponto de vista da sucessão e da herança, a lei portuguesa prescrevia a parti- lha igualitária entre os descendentes quando os bens eram livres e sem comportar qualquer carácter de bens vinculados (Durães, 2001 :175-218). No entanto, a mesma lei permitia a qualquer testador dispor livremente da terça parte do seu património. Este “terço” era utilizado para aumentar de alguma maneira a legítima de um dos descendentes ou fazer legados e doações a outros familiares ou a outras pessoas que não tinham de ter forçosamente qualquer laço de parentesco com o testador. Para atingir este objectivo os testadores utilizavam escrituras jurídicas — testamentos, doações ou constituições de dote. Só através destas escrituras os testadores podiam dispor do seu “terço” deixando-o a alguém.

Por isso, não ficamos surpreendidos com as informações veiculadas nas actas tes- tamentárias que foram consultadas. São testamentos que pertencem a habitantes da freguesia de Areosa já mencionada, e que mostram uma preferência pela forma de sucessão única aliada à herança beneficiada. É uma amostra formada por testa- mentos pertencentes a testadores que eram pequenos e médios lavradores que pos- suíam a plena propriedade das explorações agrícolas e de todos os seus bens. Nestes casos, a Lei Geral do Reino (Ordenações) determinava que, quando alguém morria sem testamento, o seu património devia ser fraccionado de modo a ser distribuído de modo igualitário por todos os herdeiros legítimos. Todavia, existiam situações fami- liares que levavam um grande número de homens e mulheres a redigir o seu testa- mento. De modo a impedir a partilha igualitária, os testadores utilizavam um certo número de disposições nos seus testamentos que tinham como principal finalidade regular a sucessão e a partilha dos bens de uma forma que eles consideravam mais correcta e justa.

Para uns, a principal razão que os levava a escrever um testamento era o facto de não ter descendentes directos e a necessidade de escolher alguém, entre os mem- bros da família, que merecesse ser o herdeiro do seu património. Para outros, sobre- tudo para aqueles que estavam casados, o testamento onde redigiam a sua última vontade, mostrava uma preocupação especial com o bem-estar do cônjuge que iria sobreviver, tentando que nada lhe faltasse depois do seu desaparecimento. Segundo a Lei Geral do Reino, os cônjuges eram excluídos da herança. Por isso, homens e mulheres casados tentavam assegurar a sobrevivência dos seus cônjuges por meio da elaboração de um testamento onde eles lhes atribuíam a propriedade ou o usu-

2ADVC, Livro de Testamentos da Freguesia da Areosa, fol. 15 3ADVC, Id., ibid., fol. 17V

4ADVC, Id., ibid., fol. 29V 5ADVC, Id., ibid., fol. 30 6ADVC, Id., ibid., fol. 28V

fruto dos bens que cabiam no terço. Todavia, para a maioria dos testadores possui- dores de um certo número de filhos, o acto testamentário era utilizado para benefi- ciar um dos filhos com o «terço» e assim aumentar a sua quota-parte. Em geral, o filho ou a filha que via a sua legitima beneficiada era aquele que ficava a habitar com os pais, ajudando-os nos trabalhos agrícolas ao longo da sua velhice ou quando ficavam doentes (Durães, 2002).

Os números aos quais chegámos na nossa pesquisa, e que mostram uma ten- dência muito forte para a supremacia do sistema de herança desigual através do qual se privilegiava um único herdeiro excluindo da sucessão todos os outros possí- veis concorrentes, devem ser submetidos a uma análise mais fina que possa colocar em relevo as múltiplas circunstâncias associadas a este sistema.

Além disso, a escolha do herdeiro não era totalmente livre. A lei, embora dei- xando ao testador uma relativa liberdade para decidir a quem ele queria deixar o seu património, impunha-lhe algumas restrições de modo a proteger os membros da família mais próximos. Daí que na sucessão testamentária, eram os laços familiares que presidiam a todas as formas de devolução do património material e simbólico da sociedade camponesa. Deste modo, os filhos encontravam-se no cimo das preferên- cias dos testadores, seguidos pelo cônjuge e só depois apareciam os parentes colate- rais. No entanto se nós procedermos a uma leitura mais cuidada dos dados é possível verificar que entre os casais, a preferência recaía sobre o cônjuge e só depois dele sur- giam os descendentes directos.

A decisão que Manuel Enes tomou, quando em 1743 fez o seu testamento pode ser- vir de exemplo para este comportamento. Como ele estava doente e quase a morrer, chamou o padre e pediu para lhe escrever a sua última vontade. No testamento ele declarava que “em razão do amor que ele tinha pela sua mulher, ele a nomeava her-

deira do terço dos seus bens, tanto dos bens móveis como dos bens de raiz. Esta parte do património pertencer-lhe-ia até à hora da sua morte deixando à sua livre vontade a escolha do filho que poderia herdar este terço”2. Com o mesmo propósito de prote-

ger a sua esposa que lhe iria sobreviver, mas de maneira mais restrita, pode-se men- cionar o testamento de Manuel Pires Frosso, falecido no mesmo ano de 1743. No seu testamento ele legava o usufruto do terço de todos os seus bens a sua mulher Maria Martins, mas nomeava como herdeira dos bens que pertenciam ao terço “uma das

suas filhas, aquela que ficasse a habitar com eles”3. Vontade idêntica foi expressa

por Domingos Bamba4, Francisco Martins5ou Manuel Pires6, todos lavradores que

habitavam na paróquia de Areosa. Ainda que os testadores tivessem descendentes, quando eles ditavam o seu testamento, legavam aos cônjuges o usufruto do “terço” na condição de ele mais tarde o deixar em proveito de uma das filhas que o casal

tinha tido. Era pois o cônjuge, sobretudo a mulher, que presidia a este universo tes- tamentário camponês. No dizer dos testadores que escolheram as mulheres como herdeiras e sucessoras principais, era o seu bom senso, a sua habilidade, a sua expe- riência e a sua capacidade para cultivar, reger e governar a exploração agrícola que fazia delas as administradoras mais eficazes (Durães, 2000: 376-385).

Os descendentes estavam presentes nos testamentos porque a lei, considerando-os como herdeiros obrigatórios, não permitia que fossem excluídos da herança salvo em casos excepcionais. Os filhos eram citados porque era preciso fazer contas e saber se todos estavam “compostos”, evitar as injustiças e prever o futuro daqueles que ficariam em casa sob a autoridade do herdeiro principal e sucessor designado. E nos casos observados, os testadores da amostra não pareciam submetidos ao princípio da primogenitura e ainda menos ao da masculinidade. Ao contrário do que se passava noutras regiões de direito escrito de influência romana e com o mesmo tipo de cons- trangimentos jurídicos no que diz respeito à posse das explorações agrícolas, nesta região as filhas não eram de modo nenhum excluídas da sucessão. Apesar das nor- mas que estipulavam que as filhas deviam ser afastadas em benefício dos rapazes, em numerosas ocasiões as filhas foram escolhidas como herdeiras principais em detrimento dos rapazes tendo sido utilizado, tanto pelos pais como pelas mães, a sucessão testamentária para o conseguir.

Na amostra documental que foi construída a partir dos testamentos pertencendo à paróquia de Areosa do concelho de Viana do Castelo, o número de vezes em que as filhas aparecem mencionadas como as herdeiras beneficiadas com o “terço” é de tal modo importante (69%) que não se pode deixar de insistir na exclusão e na desi- gualdade com que os descendentes masculinos foram tratados. A apoiar a nossa afir- mação encontram-se numerosos testamentos nos quais o testador designa uma só filha ou todas as filhas para receber o terço e assim ver a sua porção beneficiada com as casas e os bens de raiz enquanto os descendentes masculinos recebem legí- timas muito mais humildes.

A fim de explicar este comportamento em matéria de herança é indispensável dar uma vista de olhos sobre o conteúdo, por exemplo, do testamento de Joana Fer- nandes e do seu marido João Parente, redigido no ano de 1744 quando ela, testa- dora, se encontrava doente e quase a morrer. Nas escrituras jurídicas que este casal mandou lavrar para estabelecer a sua última vontade, os dois testadores indicavam a existência de seis filhos, cinco rapazes e uma filha. A filha, casada e habitando com os pais, apesar do dote que já tinha recebido na ocasião do casamento, foi bene- ficiada, segundo o testamento, com uma soma que representava os serviços que ela prestou em casa “no trabalho da terra, ajudando a ganhar dinheiro para pagar os

juros de algumas dívidas de que eles eram devedores”. Estas dívidas foram contraí-

das para poderem instalar os restantes filhos. Dois de entre eles seguiram os estu- dos para aceder à carreira eclesiástica, tendo os pais pago todas as despesas. Além dos estudos os pais também lhes deram um património de modo a poderem viver com dignidade conforme o seu estatuto. Com o outro filho eles despenderam 30.000rs

para o pedido de dispensa que teve de fazer para se poder casar. Além desta soma, deram-lhe ainda uma pequena caixa, um cobertor, uma enxada e um foucinhão de mato. Ao quarto filho deram-lhe, na ocasião do casamento, uma leira, um cobertor, uma enxada e um foucinhão de mato como o anterior já tinha recebido. Com o quinto filho eles despenderam 24.000rs em moedas de ouro para que ele pudesse oferecer esse ouro à noiva na ocasião do casamento e 19.200rs na compra de um fato. Além disso, e apesar de todo este dote, os pais ainda lhe ofereceram como a seus irmãos, um cobertor, uma enxada e um foucinhão de mato. Deste modo, eles conseguiram estabelecer toda a sua descendência. Mas, ao contrário do que se passava em outras regiões portuguesas e europeias, aqui, os rapazes tiveram de partir à procura de uma situação que lhes possibilitasse começar uma nova vida fora da sua família e da sua terra de origem. Para isso, os pais ajudaram-nos segundo as suas possibili- dades económicas e ofereceram-lhes os utensílios fundamentais que lhes permiti- riam trabalhar e ganhar de que viver não importa onde: uma enxada e um foucinhão para roçar o mato.

Exemplo semelhante é o que encontramos no testamento de Manuel Martins Oleiro e de sua mulher Isabel Vieites, redigido em 1743. Tendo seis filhos (três filhos e três filhas), o casal repartiu a casa entre as suas três filhas, enquanto dois dos filhos receberam 48.000rs para emigrar para o Brasil. O terceiro filho, já casado, tinha recebido na altura do casamento um pequeno dote (uma caixa e roupa) que lhe foi descontado na legítima a que ele teria direito.

Sempre com o objectivo de ilustrar esta exclusão masculina, não podemos deixar de mencionar um outro caso exemplar dos comportamentos hereditários destas comunidades rurais. Em 1739, Maria Afonso e seu marido Francisco Martins fize- ram o seu testamento para decidir como iriam partilhar o “terço” dos seus bens entre as três filhas que tinham tido em conjunto. No testamento eles reafirmaram a vali- dade do conteúdo da escritura jurídica de dote que eles tinham feito à mais velha, onde eles determinavam que ela receberia o terço das casas de habitação e do “lugar”. A segunda filha, que também já estava casada, e uma neta do casal (filha da terceira filha, já morta) deveriam partilhar entre elas a outra metade do terço dos bens que estavam fora do “lugar”. Embora o benefício tenha sido para a filha mais velha que habitava com os pais, esta maneira engenhosa de partilhar foi, sem dúvida, o processo encontrado para não excluir ninguém da possessão de bens fun- diários já que todos os descendentes eram do sexo feminino.

No Alto Minho as montanhas parecem querer, não somente, dominar e delimitar o horizonte, mas também, impedir e tornar difícil a possibilidade daí se instalarem mais homens. Simultaneamente elas parecem querer proteger as mulheres. Para se aplicar um modelo como este, os testamentos estão cheios de cláusulas que têm como principal objectivo o bem-estar e a sobrevivência das mulheres, quer elas sejam casa- das, quer elas sejam solteiras ou viúvas.

Este conjunto de estratégias serve não somente as situações particulares de cada família, mas ele faz parte também de um modelo cultural que foi construído a par-

tir de instituições jurídicas. É um modelo caracterizado pela transmissão post mor-

tem do património, pela impossibilidade de uma exclusão total dos filhos legítimos

e pela utilização frequente do “terço” de maneira a beneficiar, sobretudo, as filhas que decidem habitar com os pais até à hora da sua morte.

O testamento de João Gonçalves, concebido em 1741, mostra a que ponto este modelo estava bem enraizado na mentalidade e nos comportamentos que deveriam ser adoptados em relação às formas de devolução do património. Uma vez doente, moribundo o testador chamou o padre que lhe redigiu o testamento, onde ele dizia ter uma filha mas, igualmente, que a sua mulher estava de novo grávida. Assim, ele dei- xava a sua esposa, como era hábito nas comunidades rurais, o usufruto do seu “terço” a fim que pudesse dele gozar até ao fim dos seus dias. Depois da sua morte e no caso de o nascituro ser um rapaz, o “terço” seria entregue inteiramente à filha, sendo esta obrigada a dar a seu irmão a quantia de 30.000rs. Mas se o nascituro fosse uma menina, então o “terço” deveria ser repartido igualmente entre as duas filhas.

Ainda que esta situação seja um exemplo extremo, fora do comum, onde um rapaz já estava a ser deserdado antes de nascer, pela simples razão de ser rapaz, este caso permite compreender a situação vivida pelos homens destas comunidades rurais. Eles eram excluídos da herança da terra ou, quando muito, recebiam somente peque- nas explorações formadas por parcelas dispersas com as quais não podiam susten- tar uma família.

Com esta sorte, eles não tinham outra solução a não ser encontrar um ofício ou então partir com a enxada e o foucinhão à procura de trabalho como criados, jorna- leiros ou “homens ganhões”.

As diversas razões apresentadas pelos testadores que escolheram como sucesso- res e herdeiras principais pessoas do sexo feminino estavam em relação directa com a ausência dos homens de casa durante a maior parte do ano.

Porém, a nomeação de um sucessor era, em geral, acompanhada por um conjunto de encargos que não deviam de modo nenhum ser desprezados. Legados pios, dotes ou legados em dedução da legítima, legados simples, usufrutos, pensões, pagamen- tos de dívidas eram as principais rubricas que agravavam os herdeiros que tinham sido beneficiados pelo “terço”.

A necessidade de “acomodar”aqueles que deixavam a casa, de dar a cada um dos descendentes “em dinheiro a parte que lhe pertencia”, ou a obrigação de “compor com

os irmãos a parte que lhes pertencia depois de deduzidas as despesas” eram algumas

das expressões utilizadas nos testamentos indicando que a escolha de um herdeiro universal ou beneficiado não se fazia gratuitamente.

Como exemplo das dificuldades vividas, temos o testamento de Joana Fernandes e de João Parente, de que nós já falamos. Todos os filhos receberam as legítimas às quais tinham direito. A filha recebeu o terço e quase todas as propriedades fundiá- rias que pertenciam a seus pais. Mas, à hora do falecimento, no seu testamento, os pais declararam que tinham muitas dívidas e que eles já não sabiam se os bens que possuíam seriam suficientes para pagar os dotes, os patrimónios e reembolsar as

dívidas, deixando livre de obrigações o “terço” que eles tinham atribuído à sua filha. Ela era a herdeira principal. Mas qual foi o preço que ela teve de pagar para rece- ber esse benefício? Será que seu marido também fez parte daquele grupo de homens casados, que teve necessidade de acompanhar os cunhados e vizinhos, em algumas saídas, a fim de poder ganhar dinheiro e ajudar a sua mulher e sogros a pagar todas as dívidas?

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