3. HISTÓRIAS ORAIS DA COMUNIDADE NIKKEI PARACATUENSE:
3.1. Experiências diaspóricas na busca por novas perspectivas de vida
3.2.3. Migrantes do PRODECER e seus horizontes de vida
Conhecidas as experiências diaspóricas de seus antepassados, ainda que em poucos detalhes, mas marcados por elas, e após participar dos deslocamentos de suas famílias no território brasileiro, descendentes de japoneses realizam nova diáspora para regiões de Cerrados em busca de novas fronteiras agrícolas – incluindo as que foram abertas por programas como o PRODECER –, conduzindo suas famílias, ancestrais e descendentes, no processo. A maior parte dos nikkeis relatou participação no PRODECER, própria ou de membro da família.
Nesta seção, os nikkeis relatam os motivos do deslocamento para o município de Paracatu, geralmente associado à abertura de fronteiras agrícolas em regiões de Cerrado, as condições em que mudaram e as primeiras impressões em relação ao Município, especialmente em comparação às localidades em que residiram anteriormente.
Antes da chegada dos nikkeis vinculados ao PRODECER a Paracatu, a família Kayashima havia sido a primeira composta por japoneses e descendentes a residir no Município, conforme trecho a seguir:
Quando eu vim pra Paracatu, só existia a minha família de japoneses. Então, meus amigos, todos são brasileiros. Depois, é que veio outras pessoas, outra colônia de japoneses, do Paraná, do São Paulo. Porque teve aqui em Paracatu um programa chamado... era um financiamento do Japão para agricultura aqui no Brasil. Então, se
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instalaram vários japoneses aqui, de colônias diferentes, e todos eles têm uma história, não igual à minha, mas todos eles são descendentes de japoneses. Tem uns que são
issei. Mas, antes, eu só convivia com brasileiros.
(Yoshifumi Kayashima, 61 anos, issei, natural de Fukuoka, Japão, vive em Paracatu desde 1961).
O deslocamento da família do depoente a Paracatu – após a vinda do Japão e um breve estabelecimento em São Paulo – foi motivado por propostas de trabalho recebidas por seu pai em fazendas da região. Com uma visão de desenvolvimento voltada para o trabalho na agricultura, em que tinha experiência, o pai do entrevistado não percebeu uma oportunidade de ganhos financeiros com as terras localizadas no Morro do Ouro que lhe foram oferecidas a preço baixo, porque “não achava uma gota de água por lá”, apenas pedras, impossibilitando o plantio de bananas, que era de seu interesse. Outra oportunidade deixada de lado, segundo o depoente, foi a obtenção de terras em Brasília, em grande extensão, que eram fornecidas “a quem quisesse plantar alguma coisa lá”.
Por outro lado, a atividade agrícola empreendida pela família permitiu que frutas e verduras até então desconhecidas pela população paracatuense passassem a ser produzidas e vendidas localmente. Enquanto seu pai trabalhava na produção e sua mãe na venda desses produtos, Yoshifumi Kayashima e seu irmão caçula, nascido no Brasil, cuidavam do almoço e da limpeza e estudavam. Mas sempre achavam um espaço para se divertir pela cidade, na companhia de amigos que não eram japoneses ou descendentes; desse modo, o depoente, nascido no Japão, “virou brasileiro”. No trecho a seguir, o depoente conta sobre a experiência de sua família após a chegada em Paracatu:
Yoshifumi: A gente, quando veio para Paracatu... meu pai voltou ao Brasil e chegou em São Paulo. Lá, um senhor de Patos de Minas que estava em São Paulo conheceu meu pai e o levou para Patos de Minas. A fazenda desse senhor era aqui em Paracatu, onde funciona a atual Mineira de Metais. [...] Aí, um senhor de Paracatu que foi a Patos de Minas conheceu o meu pai. Ele trabalhou muito na área rural, e foi quando eu adoeci. Tive pneumonia, algo assim. Eu era muito pequeno. Por isso, vieram a Paracatu [...]. Esse senhor de Paracatu chamou meu pai, trouxe ele para trabalhar em uma área que fica atrás da Cooperativa, na Fazenda Guerra. Com o tempo, conquistou a independência e comprou terras no São Sebastião, a Fazenda Julião. Trabalhou muito.[...] eu me lembro de que o pessoal não conhecia verduras, não tinha costume de comer verduras.[...] Conheciam mandioca, abóbora d’água, essas coisas que são tradicionais na região. Mas não conheciam couve-flor, alface... [...] meu pai começou a trabalhar na Fazenda Guerra; depois do Guerra, ele comprou umas terras no São Sebastião, a Fazenda Julião. Ele começou a trabalhar plantando arroz com outras fazendas, na meia, era meeiro, arrendava terras. Na Fazenda Julião, ele plantava só verduras; inclusive teve um dos primeiros pomares de laranja poncã de Paracatu. O povo daqui não conhecia a poncã, apenas a laranja, a laranja bahia, a laranja cravo... [...] Plantou 800 pés dessa laranja. [...] Nossa Senhora, ganhou dinheiro demais! Quando começou a dar muita laranja poncã e o pessoal daqui não conseguia consumir, levou para Brasília, que estava começando... Se meu pai tivesse ido para Brasília naquela época, em 1968, 1969... o Governo estava dando terras para quem quisesse ir
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plantar alguma coisa lá, e era muita terra, o incentivo não era pouco não! Ninguém acreditava em Brasília, meu pai muito menos. [...] O Cerrado tem a terra mais procurada hoje, a terra com areia. É o que o agricultor sempre fala por aqui: “o homem sabe fazer chover, mas parar de chover ele não dá conta não”. É preferível estar em um lugar onde não chove, porque você pode fazer chover, mas parar de chover ninguém consegue. E outra coisa que meu pai também não fez, quero dizer, também não sabia é que... lá no Morro do Ouro, morava a família de meu padrinho, e ele disse que tinha terras para vender ao meu pai. Meu pai estava querendo plantar banana prata. [...]. O meu pai olhava, olhava, mas não achava uma gota de água por lá e pensava que não teria como plantar banana, em uma terra só com pedras. Dizia: “Eu vou te vender barato, você pode fazer o que quiser”. Meu pai tinha o dinheiro para comprar, mas falou: “não quero isso aqui não, não serve nem pra criar cabrito!” [risos] Meu pai também não tinha essa visão assim, ele não tinha muito estudo. Tinha experiência na agricultura. Se eu fosse ele, perguntaria: “Por que ali se chama Morro do Ouro?” [...] Meu pai ficava lá [na fazenda] porque acreditava que o olho do dono é que engorda o gado. Ele morava na roça e minha mãe vendia tudo o que ele plantava. E ela morava na cidade comigo e meu irmão, e nos colocou para estudar. [...] Um dia, ela me contou que meu pai trazia duas carroças de verduras por dia, uma de manhã e a outra de tardezinha. Ele não tinha duas carroças, apenas uma, e tinha que trazer as verduras duas vezes por dia. Como ele não dava conta de trazer duas na mesma hora, trazia uma cedo e outra ao anoitecer. [...]. Assim, tanto os que compravam cedo como os que acordavam mais tarde levavam verduras novas. Ela vendia, vendia, eu e meu irmão é que fazíamos almoço, limpávamos o chão. A gente ficava cansado e ela chegava o reio em nós! Não, tem que trabalhar! E nós só queríamos ir para a rua, íamos para o tanque, jogar bola, ou para a praça da capelinha, que fica em frente ao cemitério hoje.
Nanahira: Curioso que, na época, os únicos japoneses e descendentes da sua geração, entre os amigos, eram só você e seu irmão, né?
Yoshifumi: Não tinham outros. E a gente andava a cidade inteira. A gente era pinta, sabe? Nadávamos no matinho todo final de semana [...] A gente pescava no matinho piaba, lambari, timburé, traíra. Era desse jeito, minha vida era boa demais. Aí, o que aconteceu? Eu virei brasileiro.
(Yoshifumi Kayashima, 61 anos, issei, natural de Fukuoka, Japão, vive em Paracatu desde 1961).
No próximo trecho, os Srs. Guentaro Alimura e Mituo Muraoka, que participaram de diferentes projetos de colonização do PRODECER – Novo Mundo e Entre Ribeiros I – como cooperados da CAC e da Coopervap, relatam suas experiências e apresentam suas impressões sobre os acontecimentos que marcaram essa fase de suas vidas.
Filhos da diáspora japonesa do início do Século XX, os depoentes protagonizam um novo deslocamento em busca de oportunidades para melhorar suas condições de vida, e de suas famílias. Assim como ocorreu na época da lavoura cafeeira, as oportunidades residiam na expansão da agricultura. O trabalho como colonos agrícolas no PRODECER representava um caminho de desenvolvimento seguido pelos nikkeis em contextos de mudanças tecnológicas e trabalhistas. A mecanização, que substituiu o trabalho braçal, exigia áreas maiores para locomoção. A aplicação de direitos trabalhistas em áreas rurais, como décimo terceiro salário e férias, oneravam os produtores rurais que empregavam muita mão-de-obra, como o Sr. Alimura, para quem 15 famílias trabalharam por mais de 10 anos.
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Handa (1987, p. 790) faz referência a mudanças no modo de produção na porção norte do Paraná na década de 1960, em que ganha força a “mecanização da lavoura com o objetivo de economizar legislação rural trabalhista”. Para o autor, “O problema atual é como conseguir sair desse impasse”: de um lado, “já passou a época em que os pequenos produtores batalhavam [...] com a mão-de-obra dos seus próprios familiares”, de outro, “com o método de produção alicerçado nas atuais relações trabalhistas, não pode haver estabilidade produtiva”; além disso, “se um terreno de 10 ou 20 alqueires for dividido entre os filhos, não terá muito valor como herança” (HANDA, 1987, 791).
Para o Sr. Alimura, “o PRODECER era uma boa oportunidade de obter área grande, financiamento do governo de longo prazo, área bem plana”. Foi descartada a opção de ser decasségui no Japão, movimento que se iniciava na época dos primeiros projetos de colonização do PRODECER, na primeira metade da década de 1980.
Alimura: Nós ficamos 44 anos com café e rami. No ano de 1970, naquela região, entrou o Ministério do Trabalho, que avisou: “olha, vocês que estão trabalhando de sol a sol, são só oito horas de trabalho, têm direito a 13º salário e salário mínimo”. Na época, acabou o café, entrou o Ministério do Trabalho na zona rural, e veio a mecanização para diminuir o trabalho braçal. Só que, para mecanizar, precisa ter área. Antigamente, era a base de enxada ou tração animal. Nós tínhamos um total de 30 alqueires antes de vir para cá, eram três lugares de 10 alqueires cada um. Com a mecanização, era necessário locomover o maquinário. Lá também, a depender da região, a topografia não ajudava a movimentar. Só podia mecanizar 65%, os outros 35% era de território acidentado ou de pedra. Para mecanizar, o jeito era procurar uma área grande. Aí surgiu o PRODECER, binacional, era oportunidade boa. [...] Não tinha condição de a gente ficar. Por isso, nos mudamos de Uraí. Já estavam surgindo decasséguis no Japão, mas... isso aí não... Aí, o PRODECER era uma boa oportunidade de obter área grande, financiamento do governo de longo prazo, área bem plana. [...]
Nanahira: [...] assim como eu perguntei ao Sr. Alimura sobre a questão da mudança para Paracatu por conta do PRODECER, foi o mesmo motivo?
Muraoka: É, foi mais ou menos o mesmo motivo, porque eu plantava aqui, ali, plantava em três, quatro lugares também. Com a mecanização, o transporte do maquinário era muito difícil.
Alimura: Ah, faltou dizer que, na época em que entrou a mecanização e a lei trabalhista, como o rami utiliza muita mão-de-obra, eu tinha muitos empregados em família. Tinha famílias comigo há mais de 10 anos. Como pagar a indenização? [...] Teria de vender um bom pedaço de terra pra pagar. [...] Eu tinha quase... tinha 15 famílias. [...] Então surgiu nesse sentido. A mecanização entrou, o rami acabou por causa do sintético, e tinha a lei trabalhista. Daí, decidi mudar de ramo né. O café já não tinha condição de plantar devido à topografia da região. Então, a maioria dos japoneses que entraram no Paraná tinha a ideia de que o café era bom negócio. Então, nesse sentido, foi assim que vim pra cá, no meu caso. [...]
Erica: Ele [Sr. Muraoka] participou do primeiro projeto do PRODECER em Paracatu. O Alimura-san já participou no segundo ou terceiro projeto, não é?
Alimura: Lá foi PCPER. Um pouquinho diferente, a fonte de financiamento. Foi apoiado pelo BDMG.[...]
Muraoka: Na época, no projeto Mundo Novo, o nosso pessoal entrou em dois terços, foi a Cotia que escolheu, e a população da região participou em um terço, a Campo que escolhia
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Nanahira: E no projeto Entre Ribeiros, também existia uma divisão entre a Campo e a Coopervap na escolha dos colonos? Como era?
Alimura: Eram 41 lotes, e mais ou menos 10 famílias foram escolhidas entre os locais, pela Campo ou pela Coopervap.
Muraoka: Não era tudo da Coopervap, a maioria? Quem escolheu o senhor, assim? Alimura: Não. No meu caso, foi a Campo. Descendentes de japoneses eram colocados mais pela Campo lá no Entre Ribeiros. Na época de 1974, eu tinha um pouco de conhecimento do que era Minas Gerais, porque meu irmão estava trabalhando em Patrocínio e Monte Carmelo. Ele comprou terra pra plantar café, e o financiamento era por lote de módulo, cada um de 60 hectares. Então a gente já participava. [...] Nanahira: Veio alguém do Japão, da JICA, da Campo, para ajudar com assistência técnica?
Muraoka: A JICA tinha o escritório pra fazer a experiência deles. Vinham mais técnicos locais, do Brasil, enviados pela Campo.
(Guentaro Alimura, 81 anos, nissei, natural de Vera Cruz-SP, vive em Paracatu desde 1983)
(Mituo Muraoka, 77 anos, nissei, natural de Uraí-PR, vive em Paracatu desde 1981) (Erica Mayumi Muraoka Sakazaki, 48 anos, sansei, natural de Uraí-PR, vive em Paracatu desde 1981)
Antes de sua mudança para Paracatu, familiares do Sr. Alimura também passaram a viver em cidades mineiras localizadas em regiões de Cerrado: São Gotardo, Patrocínio, Araguari e Monte Carmelo. Por serem os primeiros a plantar café nessas localidades, são considerados “desbravadores do Cerrado”, de um lado, e “doidos” por outro.
Aí, meu irmão já estava mexendo, em 1975, já tinha começado um pouquinho aqui na região de, no estado de Minas Gerais, mas Patrocínio. E depois compramos um área lá em Monte Carmelo. Aí, meu irmão começou a plantar café. Tinha sete famílias que eram desbravadores do Cerrado, que, descendentes de japoneses que primeiro vieram plantar café naquela região, em, 75. Aí, considerava que japonês era doido pra vir plantar café naquela região. Aí, iniciou depois em São Gotardo também, naquela região de Patrocínio, Araguari, Monte Carmelo, assim virou celeiro de café né. Era um dos desbravadores, não eu, meu irmão e mais 6 famílias. Aí, a gente mesmo já tinha comprado terreno em meu nome também né. Naquele tempo, módulo era 60 hectares do lote né, mínimo, então podia fazer plantio de café, então eu mesmo já tinha lote lá, mas quem tomava conta era meu irmão. Aí, surgiu Monte Carmelo, Patrocínio, pra lá, primeiro binacional de Cerrado iniciou em Iraí de Minas, né, era quase vizinho o município. Aí, entraram mais pessoal do Rio Grande do Sul, gaúcho né? Aí, parece que segundo foi esse Mundo Novo, que começou com Cooperativa Cotia. Aí, nós também perguntamos como é que era tudo, aí falamos, uai, 20, 30 alqueires assim em Uraí, permanecer com filhos, não quer mexer atrás de burro né, tem que ser trator ou colhedeira, então área é muito pequena para mecanização. Aí, surgiu esse projeto de Entre Ribeiros, né, aí viemos em 1983. Aqui já tá chegando quase 33 pra 34 anos. Porque agricultura precisa ser uma área mais ou menos grande, e bitolado no sistema de mecanização né. Como surgiu lei trabalhista, até hoje ainda tem problema, no rural, sabe?
(Guentaro Alimura, 81 anos, nissei, natural de Vera Cruz-SP, vive em Paracatu desde 1983)
As experiências nas cidades mencionadas, sobretudo São Gotardo, serviram como modelo a embasar as atividades agrícolas iniciadas em Paracatu pelos nikkeis participantes do
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PRODECER. Contudo, diferenças de clima, umidade e altitude, comprometeram a produção, como esclarecem os Srs. Alimura e Muraoka a seguir.
Alimura: Só que a gente veio aqui e não sabia do veranico.
Muraoka: A maioria de nós veio para cá baseados na experiência de São Gotardo, onde não há veranico. É maior a altitude, de 1.000m, e o clima é mais fresco, chove mais.
Alimura: Essa pesquisa não foi feita. Entramos no Entre Ribeiros, e a altitude era de 500 metros. No primeiro ano, foram 72 dias de veranico. Desde o dia 1º de janeiro, foi chover só em meados de março. Acreditava que, de outubro a março, choveria 1.200mm. Sabe que, nesse período, não choveu nem 800mm? Então a cultura foi arrasada. Isso foi de 1983 para 1984. De 1984 para 1985, também foram duas ou três vezes de veranico, não prolongados, mas divididos em 20 dias, 30 dias. Para a cultura, foi fatal.
Nanahira: E o que o senhor plantava lá?
Alimura: Primeiro, recomendavam mais o plantio de arroz, devido à acidez da terra. No Cerrado, a média do ph é de quatro, quatro e meio. Para soja e milho precisa de seis, seis e meio. Então leva dois anos para corrigir. Aí, comecei a plantar soja, depois de dois anos.
Nanahira: E aqui o senhor também começou a plantar arroz?
Muraoka: Plantamos arroz apenas em uma parte. De resto, plantamos soja, porque tinha uma variedade resistente no cerrado, e trigo. Mas, a plantação foi castigada pela estiagem, o veranico que a gente não sabia [risos]. Pensávamos que era igual a São Gotardo.
(Mituo Muraoka, 77 anos, nissei, natural de Uraí-PR, vive em Paracatu desde 1981) (Guentaro Alimura, 81 anos, nissei, natural de Vera Cruz-SP, vive em Paracatu desde 1983)
O casal W. E. e H. E., participante do projeto Mundo Novo, esclarece tanto “a ideia dos governos brasileiro e japonês”, ou seja, os interesses de ambos os países na realização do PRODECER, detalhando fatos registrados pela história oficial, quanto “o objetivo do nosso grupo”, os motivos da mudança de agricultores cooperados vindos da região Sul do Brasil, filhos de imigrantes estrangeiros, para regiões de Cerrado, como é o caso dos depoentes.
De um lado, esses agricultores tinham interesse em “conseguir uma área maior para produção agrícola, terras mais baratas” comparativamente às de localidades em que viviam, nos estados de São Paulo e Paraná. De outro, o Brasil tinha interesse em “construir um polo de desenvolvimento agrícola em Paracatu”, onde, “em termos de economia, não havia quase nada [...], apenas gado e um pouco de mineração”. O Japão procurava “outros lugares onde pudessem ter uma fonte, uma segunda alternativa de compra de produtos”, haja vista o embargo norte- americano a exportações de soja, referido no capítulo da tese sobre o PRODECER. Desse modo, “essa cooperação nipo-brasileira não se deu pensando na colônia japonesa” presente no Brasil, em que pese a participação de nikkeis e de uma cooperativa estabelecida por imigrantes japoneses no Programa.
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Como fizeram os Srs. Alimura e Muraoka, o Sr. E. também menciona a intenção de proveito do know-how de São Gotardo para embasar as atividades em Paracatu.
W. E.: A ideia dos governos japonês e brasileiro foi... nos anos de 1979, 1980, Brasília era recentemente construída, e, em termos de economia, não havia quase nada na região de Paracatu, apenas gado e um pouco de mineração, mais nada, agricultura era zero, correto? A intenção era trazer tecnologia para o interior, trazer mão-de-obra mais especializada. Isso seria pela cooperativa, com filhos de imigrantes, agricultores lá do Sul, para construir um polo de desenvolvimento agrícola em Paracatu. Depois de um tempo, começaram a vir gaúchos, holandeses... O PRODECER aumentou, realizado em Iraí de Minas, PCPER I, II, III, IV, passaram-se dois, três, quatro anos. Começou a produção da soja, quando o Cerrado passou a ser conhecido no mundo inteiro. Descobriram o segredo do Cerrado, que é o calcário, abundante na região. Se você analisar, toda casa de mineiro fica em terra boa, com fácil acesso à agua. Em terreno plano, terra vermelha e plana, não. Na área de Cerrado propriamente dita já havia “barba-de-bode” Para pasto também não dava. Se plantasse um pé de milho no Cerrado assim, na parte acidentada do terreno, não produziria nada. O tratamento do solo, com calcário, corrigiu a acidez, aí mudou. A Cotia aproveitou o know-how de São Gotardo e começou aqui nos mesmos moldes. Também era Cerrado, mas São Gotardo fica mais ao sul e tem altitude maior, onde também chovia mais. Aqui não, a altitude é um pouco menor, fica mais ao norte e é mais seco. A temperatura é maior ainda. Era preciso se adaptar a tais condições e demorou muito para essa adaptação. A irrigação só veio com o PCPER, no Entre Ribeiros.
H. E.: O objetivo do nosso grupo era conseguir uma área maior para produção agrícola, terras mais baratas. Em São Paulo, no Paraná, as áreas próprias eram menores. Viemos recém-casados; eu me casei em 1980 e chegamos aqui em 1981. Nossas duas filhas nasceram aqui.
W. E.:Aqui, eu participei do projeto Mundo Novo. A cooperação nipo-brasileira foi feita pelo Governo de Geisel, junto com Primeiro-Ministro do Japão. A ideia inicial mesmo foi que os americanos começaram a fazer uma certa pressão com relação aos