Um dos interesses maiores da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto é des- crever em pormenor aquilo que no século XVI podia acontecer a portugueses no estrangeiro. Sobre isto existe, e não apenas na literatura relevante, uma versão indisputada. A versão é: a coisa mais interessante que pode acontecer a portu- gueses no estrangeiro é ver o estrangeiro e conhecer estrangeiros. A atitude que subjaz a esta versão é a que perfidamente Fernando Pessoa atribuiu a Mário de Sá-Carneiro: “V. admira Paris.” O maior motivo de interesse que para mim existe na Peregrinação é diferente. Muito mais interessante que conhecer estrangeiros é um português no estrangeiro reconhecer outro português. A possibilidade de dois cães se conseguirem reconhecer é sempre mais misteriosa que o episódio trivial de um cão que reage a uma formiga ou a uma luz intensa.
Nunca que eu saiba foi devidamente sublinhado o facto de ao longo do livro muita gente, sobretudo portugueses, passar a vida a conhecer-se, reconhecer- -se, perder-se de vista, e voltar a encontrar-se. O “estrangeiro”, na Peregrinação, é essencialmente um contentor fechado cheio de distracções, episódios sensoriais e animais parecidos uns com os outros. Esta ideia geral, que não vai ser reite- rada, mas que a ser exacta nos pouparia gastos com as noções de “orientalismo” e de “alteridade”, tem a ver com uma segunda ideia geral, que também não vou desenvolver aqui: a de que aquelas distracções são distracções (o que aliás explica que o livro tenha sido entusiasticamente recebido, e depois traduzido, tantas vezes como distracção). No resto, o celebrado Oriente de Fernão Men- des Pinto não é muito diferente do Oriente de Álvaro de Campos: é pequeno, fechado e, com algum esforço, perfeitamente inteligível. Bem entendido, para Fernão Mendes Pinto é inteligível nos termos de Fernão Mendes Pinto. Mas para si não há outros, e tal não se deve ao facto de ter nascido em Montemor-o-Velho. A ideia de ‘inteligível para mim em termos que não são os meus’ é ininteligível.
182
Sobre portugueses no estrangeiro existe uma segunda doutrina consuetudi- nária. A doutrina é a seguinte: como cães, e aliás como húngaros ou espanhóis, os portugueses no estrangeiro imaginam que se podem reconhecer facilmente uns aos outros. Como conseguem fazê-lo? Quase ninguém leva a sério, pelo menos em voz alta, a fiabilidade de características morfológicas. E, pese embora alguma evidência circunstancial, não existem opiniões a que possamos chamar prima
facie portuguesas. A maior parte das pessoas porém parece levar a sério a lín-
gua portuguesa. Reconhecemos um português, diz-se muitas vezes, porque fala português (em português, como em alemão, sente-se a confusão entre adjectivos para nacionalidades e nomes para línguas). A teoria é ubíqua e foi há não muitos anos resumida no preâmbulo de uma resolução do Conselho de Ministros por- tuguês. “No que se refere às comunidades portuguesas,” explica-se aí, “a língua portuguesa torna-se fundamental como elemento estruturante do reforço dos vínculos de identidade cultural e afectiva... assim como forma de afirmação de Portugal e dos Portugueses no mundo”.1
Não parece justo negar que a língua a que chamamos português desem- penhe um papel nas variadas cerimónias de reconhecimento entre portugueses no estrangeiro. Para efeitos do reconhecimento, porém, aquilo que entendemos por português são apenas barulhos característicos, exactamente como reconhe- cemos o som de um piano quando alguém, independentemente de saber tocar piano, carrega nas teclas de um piano. Não é por isso requerido que os barulhos portugueses se percebam e, muito menos, que façam sentido. Ter de satisfazer estes dois requisitos elevaria a fasquia de modo irrazoável e transformaria o por- tuguês numa das línguas menos faladas do mundo.
De que falamos quando falamos de reconhecimento? Proponho que nos concentremos numa das mais complexas cenas de reconhecimento na Peregri-
nação. Como é complexa, requer uma preparação laboriosa e comparações com
outras sequências do livro. No Capítulo 116 (336)2, Fernão Mendes Pinto está em
Quansy, na China, e vai a uma floresta apanhar lenha. De regresso, conta, “me sahio ao caminho hum homem velho vestido de hNJas roupas de damasco preto forradas de peles de cordeyras brancas”. O homem velho “escarrou alto para que eu o ouuisse”. O processo parece dar resultado porque, conta Fernão Mendes, “eu ouuindo o escarro leuantey os olhos.” Depois, prossegue, “vi qѺ me acenaua com a mão, como qѺ chamaua por mym.” Nessa altura, “lhe disse pela lingoa do Chim, potau quinay? que quer dizer, chamasme? A que elle sem responder palavra
1 Resolução do Conselho de Ministros 188/2008, de 16 de Julho, publicado no DR, 27.11.2008, preâmbulo. 2 Todas as referências parentéticas no texto são a Fernão Mendes Pinto, Peregrinação, Ed. diplomática
me deu a entender por acenos que sy.” A interacção parece inconclusiva. Fernão convence-se de que é “negaça” e decide fugir. “Porem”, continua, “o homem enten- dendo o meu propósito, tornou a escarrar muyto mais alto, & tornando eu a olhar para elle, o vy sentarse em joelhos & mostrarme hNJa Cruz de prata de quasi hum palmo de comprido, & leuãtar as maõs para o Ceo”. Nessa altura Fernão muda de ideias e decide segui-lo para “yr saber o que era, ou o que queria:” “chegando a elle, sem atè então cuydar delle outra cousa senão que era Chim”. E segue-se o reconhe- cimento propriamente dito: o velho
... se me lançou aos peis, & com grandes soluços & muytas lagrimas come- çou a dizer: Bemdito & louuado seja o dulcissimo nome de nosso Senhor Jesu Christo, pois a cabo de tanto tempo & em tamanho desterro permitio verӁ
meus olhos homem Christão, que professasse a ley de meu Deos posto na Cruz. Quãdo eu ouuy hNJa cousa tão noua, & tão lõge do q- eu esperaua, fiquey tão sobressaltado, q- afastandome rijo atras mais q- pasmado, lhe disse alto: Eu te esconjuro da parte de nosso Senhor Jesu Christo que me digas quem és, a que elle cõ muytas lagrimas respõdeu, sou, irmão meu, hum pobre Christaõ Portuguez, por nome Vasco Caluo... (336-337).
A primeira coisa que há a dizer é que o reconhecimento de Vasco Calvo por Fernão Mendes Pinto é precedido do reconhecimento de Fernão Mendes Pinto por Vasco Calvo. A segunda coisa, que a palavra ‘reconhecimento’ está aqui empregada de modo sui generis. De facto, quer Vasco quer Fernão não reconhe- cem, respectivamente Fernão ou Vasco, isto é, pessoas que já conhecessem, desig- nadas por nomes próprios. A sua surpresa não vem de encontrarem alguém, mas de não esperarem encontrar quem encontraram. Aliás, se Vasco Calvo se apre- senta (“irmão de Diogo Caluo q- foy Capitão da nao de dom Nuno Manoel, natural de Alcouchete”, 337), o Fernão da Peregrinação é menos que o Marcel de Proust: a apresentação, no sentido formal, não é recíproca e nenhum nome próprio é trocado. Em terceiro lugar, sabemos qual foi a causa do reconhecimento de Vasco (“ouuy hNJa cousa tão noua”, a saber, alguém a quem se tinha dirigido em chinês falar português), mas não sabemos qual foi a causa do reconhecimento de Fernão como “homem Christão”. Em quarto lugar, sabemos que nenhum critério comportamental foi suficiente para Fernão reconhecer Vasco mas que nenhum critério linguístico foi necessário para Vasco reconhecer Fernão. Aquilo a que o Conselho de Ministros português chamou o “elemento estruturante do reforço dos vínculos de identidade cultural e afectiva ao nosso país” não parece capaz de assegurar afinidade automática entre Montemor-o-Velho e Alcochete.
184
Estes quatro pontos sugerem um sem-número de dificuldades. Interessam- -me sobretudo duas. A primeira foi muitas vezes glosada por comentadores em tons diferentes de aprovação: para todos os efeitos práticos, ‘cristão’ e ‘portu- guês’ não são termos coextensivos. Nem todos os portugueses são cristãos e nem todos os cristãos são portugueses. Nuno Rodrigues Taborda, no Capítulo 176, apresenta-se a Fernão e companhia tendo em conta estas peculiaridades meta- físicas: “Eu senhores & irmãos meus, sou Christão, inda que no trajo volo não pareça, & Portuguez de pay & mãy, natural de Penamacor” (541). O peso dessas peculiaridades assenta todo na segunda ocorrência da palavra ‘&’. ‘Cristão e portu- guês’ é como ‘modelo e detective.’
O fenómeno é generalizado na Peregrinação à maior parte dos pares de ter- mos que denotam aquilo a que hoje chamaríamos nacionalidade e aquilo a que já aí se chama religião. Disso nos lembra o ocasional arménio, e, claro está, uma galeria de cristãos renegados, um dos quais “se tornara Mouro por amor de hNJa Grega Moura com que era casado” (19). Para Fernão, nem um arménio é um cristão honorário nem uma moura pode ser uma grega cultural ou afectiva (um caso parcialmente converso e ilustração de dissabores variados foi descrito mais ou menos na mesma altura por Shakespeare a propósito de Veneza).
Muito mais tarde, no Capítulo 162, “hNJa molher Portuguesa [que] se casara cõ hNJ jogue... [e] não se atreuia a viuer entre Christãos” declara que “ainda q- a víssemos aly daquela maneyra, & naquelles trajos do diabo, nunca deixaria de ser verdadeyra Christã” (490). Fernão e companhia, momentanea- mente seduzidos pela tese da coextensividade, convidam-na a vir ter com eles daí a dez dias para “acabar seus dias na pouoação do Apostolo S. Tomè”, mas “ella em tudo nos faltou, por q- nNJca mais a vimos, nӁ soubemos nouas della” (490). Será porque era portuguesa? Tal porém não impede que, no Capítulo 176, Nuno Rodrigues Taborda, vinte e três anos prisioneiro entre “GӁtios” e, “como a carne he fraca”, “quisesse seguir suas opinioӁs” (541), tenha decidido seguir Fernão, depois de provido “doutro vestido mais Christão que o que tra- zia.” Será porque era português? Não há regras que nos permitam prever o que um cristão, um português, ou aliás um modelo ou um detective vão necessaria- mente fazer.
Daqui resulta (e este é para mim o ponto mais interessante) que ninguém pode ser reconhecido satisfatoriamente como português ou seja, que uma indica- ção como ‘português’ é insuficiente para individuar uma pessoa. De dizer que alguém é português não se segue necessariamente mais conhecimento sobre essa pessoa. ‘Português’ é parecido com ‘sobrinho’ ou ‘mais alto que’ e não com ‘assassino’ ou ‘ruivo’. Tem semelhanças com aquilo a que por vezes se chama
um predicado relacional. O facto de as pessoas serem individuadas com recurso a predicados relacionais parece-me uma característica muito importante da psicologia moral de Peregrinação, e uma característica que não é geralmente salientada, e não só a propósito da Peregrinação. Não é por exemplo salientada na resolução do Conselho de Ministros português. Tal como a definição de alguém como sobrinho só pode ser especificada se determinarmos de quem o sobrinho é sobrinho, assim a definição de alguém como português requer para Fernão outras pessoas a quem os mesmos predicados são aplicados. Aquilo a que o Conselho de Ministros chamou “afirmação de Portugal e dos Portugueses no mundo” é na Peregrinação uma actividade desnecessária e por isso inexistente. Nenhum músculo afirmativo, isto é, nenhuma atitude proposicional específica, é requerido pela utilização de certos predicados. Em consequência, ninguém se torna mais português por afirmação e muito menos por estipulação.
A segunda dificuldade colocada pela cena de reconhecimento de Fernãos e Vascos é menos aparente. Trata-se da noção de que falar uma dada língua (neste caso, português) não é nem necessário nem suficiente para reconhecer um português. De facto, se por um lado a língua parece desempenhar um papel no reconhecimento de Vasco por Fernão, não parece desempenhar nenhum no reconhecimento de Fernão por Vasco. A pátria de Vasco não é a língua portu- guesa. Como Vasco é português, a língua é quando muito uma pátria opcional, a saber, a pátria opcional de Fernão. Ora se a língua é uma pátria opcional, a língua não é pátria de ninguém. Não há pátrias opcionais.
Como foi Fernão reconhecido por Vasco? Relembremos uma observação que fiz de passagem atrás, a saber, que tal aconteceu antes de Fernão ter reconhe- cido Vasco. A cronologia das duas anagnoreses sugere que a primeira é causa da segunda: foi porque Vasco reconheceu Fernão que Fernão reconheceu Vasco. Em consequência, o contrafactual ‘Se Vasco não tivesse reconhecido Fernão, Fernão não teria reconhecido Vasco’ parece verdadeiro. O que poderia não ser mais que um ornamento a uma constatação de facto é no entanto de mais consequência. Com efeito, Vasco percebeu que Fernão era Fernão (isto é, um “homem Chris- tão” e, como ele, talvez “hum pobre Christaõ Portuguez”) sem que Fernão tivesse aberto a boca em português. Será que a pronúncia de Fernão na “lingoa do Chim” denotava um nativo de Montemor-o-Velho? A ideia é tão fantástica como imaginar que os escarros de Vasco Calvo são característicos de Alcochete. Para descrever esta dificuldade, teremos de esclarecer melhor alguns aspectos gerais.
A Peregrinação está cheia de ocasiões de reconhecimento não-linguístico. No Capítulo 171 Fernão faz parte de um grupo de portugueses “confusos & indeterminados” (529) que é avistado por “hNJa molher Christam por nome
186
Violante” (530). A informação sobre o seu nome (e aliás sobre vários porme- nores circunstanciados da sua vida) não é cometida a nenhuma inferência instantânea e não suscita por isso a necessidade de nenhum esclarecimento particular. Não é conteúdo cognitivo de nenhuma cena de reconhecimento. Saberemos mais tarde que os portugueses foram “curados com muito gasa- lhado” (530) em sua casa. O que Fernão sabe sobre Violante é apenas apendido à descrição inicial da sua aparição, através de uma deflecção cronológica fami- liar a qualquer contador de histórias. O reconhecimento propriamente dito é de Fernão (e companhia) por Violante. “[E]sta em nos vendo deu hum grande grito & disse, Iesu, isto são Christãos que eu vejo diãte de mim?” (530)
Estes gritos têm uma longa tradição, desde o Édipo (v. 1265) até ao “Ah! La maledizione!” da última cena do primeiro acto e depois do acto final do Rigoletto. A explicação geralmente aceite, que parece prima facie razoável, é que denotam ou acompanham uma experiência crucial. Afinal de contas Rigoletto e Édipo perceberam alguma coisa. Não é todavia claro qual possa ser o conteúdo da expe- riência crucial de Violante. “Em nos vendo,” escreve Fernão, “deu hum grande grito”. Mas que viu Violante em quem viu? Que traço crucial de quem ela viu o seu grito acompanha? Só o tempo o dirá, e só o tempo permitirá a Fernão relacionar os gritos de Violante com outras ocorrências sublunares.
Nem sempre a ligação entre grito e causa é tão difícil de imaginar. No Capí- tulo 111, e numa passagem em que Fernão Mendes Pinto mostra que domina a difícil arte das metáforas mistas, uma mulher, depois de ter mostrado no seu braço, a Fernão e companhia, “hNJa Cruz que nelle tinha escolpida como ferrete de Mouro” (255), interroga-os (“conhece por ventura algum de vos outros este sinal que a gӁte da verdade chama Cruz, ou ouuistelo algNJa hora nomear?”, 255- 256), e obtém uma resposta afirmativa.
... [Ao] que ella dando um grito, & levantando as mãos para o Ceo disse alto, Padre nosso que estàs nos Ceos, santificado seja o teu nome, & isto disseo na lingoagem Portuguesa, & tornando logo a falar Chim, como que não sabia mais do Portuguez que estas palavras... (256).
Neste caso, a experiência crucial consiste em ouvir uma resposta afir- mativa (em “Chim”) a uma pergunta (também em “Chim”). A frase “em lin- goagem Portuguesa” é uma explicação ou corroboração do grito, que por sua vez foi causado pela resposta a uma pergunta. Não levanta porém quaisquer dúvidas sobre as causas da experiência que descreve ou da experiência a que se segue. Estas causas não têm nada de linguístico, isto é, não estão ligadas a
propriedades cometidas a qualquer língua particular: são gerais, semânticas e cognitivas. A natureza dos barulhos trocados é irrelevante para a experiência: basta que seja constante.
Voltemos agora ao episódio Calvo. Depois de mutuamente reconhecidos, Vasco convida Fernão e companhia para jantar e leva-os “para outra casa onde estaua sua molher com dous meninos, & duas moças filhas suas” (337). Depois de jantar, a mulher de Vasco, que tem “parentes honrados” na cidade mas no geral “receyo... dos Gentios”, abre um oratório e procede “como tinha por custume” a “dar Chris- tammente graças a Deos em segredo”. Nessa altura, abruptamente, a história passa a ser contada em discurso directo:
Verdadeyro Deos, nós pecadores confessamos diante da vossa Cruz como bons Christãos a santissima Trindade, Padre, Filho & Espirito Santo, três pessoas & hum só Deos, & assi prometemos de viuer & morrer na nossa santissima Fé Catholica como bõs & verdadeyros Christãos, confessando & crendo na vossa santa verdade tudo o qѺ tӁ & cré a santa madre Igreja de Roma & destas nossas almas co vosso precioso sangue remidas, vos fazemos preito & menagӁ, para com ellas vos seruirmos toda a vida, & na hora da morte volas entregarmos como a Deos & Senhor, cujas confessamos qѺ saõ por criação & por redempção. (337-338)
O discurso directo instancia, claro está, esse costume de “dar Christammente graças”. Várias perguntas difíceis no entanto se colocam, e colocam crucialmente, a Fernão. É “dar Christammente graças” falar? Estão os Calvos a falar português? Indícios para uma resposta à segunda pergunta, mais geral, podem encontrar-se na expressão que introduz a passagem em discurso directo. Os Calvos, conta Fer- não, “disseraõ estas palavras pelo Portuguez, & bem pronNJciado” (337).
Note-se primeiro que a maneira como Fernão conta a história é afectada pela natureza singular da acção que está a descrever, e precipita-se num par de decisões pouco idiomáticas. Podemos até deixar de lado a referência à pronún- cia, que será uma opinião sobre a qualidade daquilo que os Calvos estão a fazer, mas não ajuda a determinar aquilo que, para Fernão, estão a fazer. Para perceber o que estão a fazer temos nós de tentar perceber o que quer Fernão dizer com “disseraõ estas palavras pelo Portuguez.”
A locução ‘dizer palavras’ é desajeitada, a ponto de sugerir um tom depre- catório (estará ‘dizer palavras’ para ‘falar’ como ‘carregar em teclas’ para ‘tocar piano’?) No entanto não existe qualquer outro motivo para imaginar a pas- sagem como deprecatória. Trata-se além disso, diz Fernão, de dizer palavras
188
“pelo Portuguez.” A escolha da preposição é pelo menos tão oblíqua como a locução ‘dizer palavras’ e, como ela, não é fácil de parafrasear. Palavras por
meio do português (como ‘a diplomacia por outros meios’)? Palavras segundo o
português (como ‘evangelho segundo São João’)? Palavras por português (como ‘gato por lebre’)? Em qualquer dos casos, trata-se para Fernão de palavras inde-
pendentes do português. A relação entre estes dois objectos (as “palavras” e o
“Portuguez”) é difícil de descrever. Sem de novo entendermos o termo como deprecatório, e com a vantagem de poder acomodar as paráfrases que fizemos, não parece inexacto dizer que as palavras dos Calvos são uma espécie de imita- ção de português. Tal imitação, que “a todos... fez derramar muytas lagrimas” (338), é aquilo em que “dar Christammente graças” consiste. Mas, seja o que for, dar graças não é aquilo a que comummente se chama falar português.
Não se trata isto de um paradoxo moderno, embora motivado pelas inten- ções louváveis que muitas vezes temos de resgatar autores obscuros por preo- cupações reconhecíveis. De facto, Fernão desenvolve logo a seguir a sua própria teoria sobre o que os Calvos estão realmente a fazer. A teoria de Fernão é uma teo- ria sobre aquilo que aqueles que dizem “palavras pelo Portuguez” podem estar a fazer. “Aquelles meninos innocentes, em terra taõ apartada, & sem conheci- mento de Deos,” escreve, estão a “[confessar] a sua ley com palavras... santas.” (338) Os Calvos não estão a dizer nada: estão a fazer outra coisa. Montemor-o- -Velho, apesar da proximidade ameaçadora de Coimbra, explica a Oxford que dar graças não é um acto de fala.
O que é então esta imitação não-linguística do português que gera tan- tos gritos e comoções de reconhecimento, que faz de chineses pessoas como nós, e que, segundo Fernão, consegue mais que uma resolução do Conselho de Ministros português? No Capítulo 111, a que já aludimos, a mulher com uma cruz “escolpida como ferrete de Mouro” (255), cujo nome se revela ser Inez de Leiria, e para cujo pai aliás trabalhara Vasco Calvo (mais um exemplo do Oriente semelhante e pequenino da Peregrinação), e que, relembremos, não fala português, descreve uma cerimónia muito parecida com a que discutimos a propósito dos Calvos. O seu pai, Tomé Pirez, que “fora por Embaixador a el Rey da China” (256), tinha sido degredado para a cidade de Sampitay, “onde se casara com sua mãy, porque tinha algNJa cousa de seu, & a fizera Christam” e tinha vivido durante vinte e sete anos “conuertendo muytos Gentios â fé de