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Militância e trabalho: como conciliar tarefas?

Foto 23: Momento de apresentação artística no 6º Congresso Nacional do MST

5.3 Militância e trabalho: como conciliar tarefas?

Estar num cargo de liderança política requer preencher uma série de critérios e de competências instrucionais na ideologia do Movimento. A primeira é saber versatilizar-se para a conciliação das atividades na casa, no lote, no acampamento, no assentamento e fora dele. É por assim dizer que militar é uma missão, e como toda ela, requer renúncias.

Não é pré-requisito do MST ter um alto nível de escolarização, mas de oito lideranças que entrevistamos, apenas duas não têm ensino superior, alguns têm especialização e outros são mestrandos. Praticamente todos participam de grupos de estudo para estarem se preparando intelectualmente. Vejamos o relato de uma liderança sobre essa questão:

Meu trabalho é na formação de base, é mais local, mas é muito importante porque formação é tudo, é o jeito de viver. No movimento a gente cria espaços de formação com diversas atuações como o curso de formação de militantes de base, na sede dos próprios assentamentos e grupos de novos militantes para ensinar, discutir, o porquê que o movimento luta, pregar princípios básicos..., questões básicas da luta, formação teórica, com grupos de estudos que estuda o marxismo e com várias discussões teóricas do socialismo (Liderança Eliane).

E agora a fala masculina sobre sua concepção de estudo:

Ser militante, trabalhar e estudar não é fácil, mas eu gosto de estudar, e não estudo pra ir pra o mercado de trabalho, estudo pra entender a luta de classe e no meu tempo, tentar fazer as mudanças e organizar o povo, dentro do meu tempo de vida. A formação política e científica que o MST me permitiu até hoje não foi pra ir pra mercado de trabalho, foi pra gente fazer a luta pra mudar a sociedade! (Liderança Gilmar)

Uma outra característica observada foi a de que nas lideranças mais “bem

resolvidas”, os companheiros dessas mulheres também possuem um histórico de militância no Movimento. Além disso, para realizar a conciliação de multitarefas essas lideranças contam com a ajuda da família. Em uma de nossas entrevistas perguntei a coordenadora do setor de gênero se sua sogra era militante e ela me respondeu:

Ela (a sogra) participa assim..., a gente fala que existe dois tipos de contribuição: aqueles que estão lá participando da formação e aqueles que possibilitam alguns de estarem lá. Eu passo muito tempo fora, eu e meu marido, aí ela é quem cuida das crianças (dois enteados), da minha casa, dos meus bichos e da minha plantaçãozinha, ela é militante passiva, porque ela conhece nossa luta, sabe nossos objetivos..., ela não está lá, mas possibilita que eu esteja. As crianças não podem faltar aula então ela é quem cuida deles (Liderança Viviane).

Nossa única liderança masculina entrevistada reconheceu que não tem conseguido dar conta de conciliar vida familiar, militância-liderança e sua especialização. Ele narra que conta com a ajuda da esposa, e que a vida no campo requer acordar cedo, então isso compromete seu ritmo de estudo, leituras e trabalhos acadêmicos e domésticos.

Nos demais casos constatamos que ou as lideranças eram mães solteiras e só podiam contar com a família mesmo, ou viviam com companheiros também engajados na luta. Não constatamos nenhum caso de liderança que conseguiu visibilidade política em que seu companheiro (a) fosse “anônimo”. Talvez por isso, tenhamos um Movimento tão solidificado, pois inclusive nas entrevistas obtivemos “falas” muito bem construídas, discursos bem articulados de pessoas muito bem preparadas politicamente com a causa do campo. Pessoas que estudam e que se articulam com os familiares para alcançar espaços diferenciados de debates, lutas e embates em prol dos sem-terra e que por isso ganharam visibilidade pública.

5.3.1“Não só ajudo meu marido, eu trabalho para ajudá-lo”

Sobre a concepção de trabalho, essa é uma questão de gênero que tem sido bem discutida, pois algumas mulheres concebem seu trabalho somente como ajuda ao companheiro, no entanto, outras têm buscado desconstruir essa ideia. Ajuda é esporádica, trabalho é rotineiro. Mas esse impasse parece estar longe de se resolver:

Embora se tenha hoje essa história de igualdade, as próprias mulheres não reconhecem seu trabalho, elas dizem que ajudam o marido e o dinheiro é todo pra casa. Elas se preocupam muito com alimentação e em vestir os filhos. Acabam dando o dinheiro pra o marido ir no mercado fazer a feira, são

pouquíssimas que reconhecem seu trabalho, que dizem, eu não só ajudo meu marido, eu trabalho para ajudá-lo. Embora elas ganham igual ou mais que eles, mas elas falam que é um complemento, para ajudar nas despesas de casa, quando na verdade arcam com tudo (Liderança Viviane).

Por muito tempo o embate do binômio ajuda x trabalho no campo protagonizou as relações familiares entre os gêneros, e embora tenhamos tentativas de superação da concepção de que a mulher trabalha para ajudar o companheiro, ainda constatamos uma certa vigorosidade dessa concepção, que é principalmente difundida pelas próprias mulheres. Essa (in)visibilidade é fruto do ranço machista e patriarcal que está diluído na cotidianidade das relações de gênero e que as vezes apresenta resistência e que se (re)afirma despretensiosamente, como se fosse algo natural.

Daí surge talvez a maior indagação em relação ao trabalho feminino: como elaborar articulações que permitam o trânsito do trabalho “fora” com o trabalho doméstico, materno e marital? Essa é uma indagação que não está restrita só as mulheres camponesas, mas as da cidade também. Ela independe de grau de escolaridade, faixa etária ou classe e espaço social.

Na maioria das vezes, se recorre ao suporte dos familiares para estabelecer negociações com a divisão de tarefas que envolvem os espaços privado e público. Se criam estratégias de convivência buscando combinar as atividades que são exigidas para um militante e uma liderança. E assim as práticas ora se simplificam e se “ajeitam”, já em outros momentos se complexificam criando tensões e conflitos de quem faz o quê, quando e como.

Dessa forma, a política é feita com disputas de poder entre os gêneros, sejam essas racionais ou inconscientes. A busca da afirmação de novos espaços de atuação é uma constante que ora se flexibilizam, ora se radicalizam, nos discursos e práticas dentro e fora do Movimento, experienciados por homens e mulheres, tanto no rural, quanto no urbano, tanto no privado quanto no público.