2.3 Material e métodos
2.4.2 Mineralização aparente do C da palha e dos dejetos
A mineralização aparente do C dos materiais orgânicos, obtida pela diferença entre as quantidades de C-CO2 dos tratamentos com materiais orgânicos e dos
tratamentos sem materiais orgânicos em cada uma das duas modalidades de aplicação dos mesmos (em superfície e com incorporação), indica valores acumulados aos 158 dias de 19,5 % (511 kg ha-1 de C) do C adicionado pela palha que permaneceu na superfície do solo e de 37,4 % (981 kg ha-1 de C) do C adicionado pela palha quando esta foi incorporada (Figura 17a).
Esse valor de 19,5 % de mineralização do C da palha de milho em aproximadamente cinco meses é próximo daquele encontrado por Marques (2005) que avaliou a decomposição de palha de milho em superfície e sob condições edafoclimáticas semelhantes as do presente trabalho. Esses baixos índices de mineralização do C da palha de milho, quando mantida na superfície do solo, podem ser atribuídos às condições climáticas predominantes no inverno, especialmente às baixas temperaturas, e, principalmente, ao contato deficiente da palha com o solo, o que limita o acesso dos microrganismos à fonte de C e a difusão do N mineral do solo até os sítios de decomposição, para atender a demanda biossintética microbiana.
Na Figura 17b, onde é apresentada, para o período dos primeiros 40 dias, a mineralização aparente do C do tratamento com o uso isolado de palha de milho e do tratamento com palha e dejetos observa-se que, com a manutenção apenas da palha em superfície, menos de 1% do C adicionado foi mineralizado nos primeiros 15 dias. Quando os dejetos foram adicionados sobre a palha e ambos
permaneceram na superfície do solo a mineralização do C da mistura foi de aproximadamente 5% no mesmo período. A maior contribuição nesse índice de mineralização certamente foi da palha, já que a adição de C pelos dejetos foi de apenas 337,6 kg ha-1. É provável que a mineralização do C da palha tenha sido favorecida pela adição da fração líquida dos dejetos, o que compensou em parte a deficiência hídrica inicial, e principalmente, pelo N mineral adicionado pelos mesmos.
Considerando que nos primeiros 15 dias a quantidade de chuva foi de apenas 4,5 mm (Figura 16), o N mineral aplicado com os dejetos, descontando-se as eventuais perdas de N por volatilização de NH3, permaneceu junto da palha podendo
ser utilizado pelos microrganismos que já estavam na própria palha e por aqueles aplicados com os dejetos e capazes de viver sob condições aeróbias utilizando constituintes da palha como fonte de nutrientes e energia. O N mineral fornecido diretamente pelos dejetos e aquele N proveniente da reciclagem microbiana devem ter sido utilizados por esses microrganismos decompositores.
Deve-se considerar, porém que as condições existentes quando a palha e os dejetos permaneceram na superfície do solo não foram suficientes para atingir as condições potenciais de mineralização do C já que a incorporação apenas do resíduo de milho proporcionou maior mineralização de C do que aquela da mistura de palha e dejetos em superfície (Figura 17a). Nesse caso, o aumento na mineralização do C foi proporcionado pela fonte de C que foi incorporada ao solo e pelo N mineral proveniente da mineralização da MOS. O potencial de mineralização do C, para as condições em que o experimento foi conduzido, foi atingido no tratamento em que a palha e os dejetos foram utilizados conjuntamente e ambos incorporados ao solo. Nesse caso, a mineralização do C adicionado pela mistura de palha e dejetos foi de aproximadamente 38 % em 158 dias.
Tempo após a aplicação dos dejetos 0 20 40 60 80 100 120 140 160 C mi nera li zado (% do C adi c io nado ) 0 10 20 30 40 50 Palha em superfície Palha com incorporação Palha + dejetos em superfície Palha + dejetos com incorporação
(a)
10/05 19/06 29/07 07/09 17/10
(Dias)
Tempo após a aplicação dos dejetos
0 10 20 30 40 C mi neral izado (% do C ad ic io n a d o ) 0 2 4 6 8 10 12 14 Palha em superfície
Palha + dejetos em superfície (b)
(Dias)
10/05 20/05 30/05 09/06 19/06
Figura 17 – Mineralização aparente do C nos tratamentos com palha e palha + dejetos durante todo o experimento (a) e nos tratamentos com palha em superfície e palha + dejetos em superfície, durante os primeiros 40 dias (b). Santa Maria, 2009.
Quanto à mineralização do C dos dejetos observa-se na Figura 18 que com a manutenção dos mesmos na superfície do solo cerca de 50,4 % do C adicionado foi mineralizado em 158 dias. Utilizando também a dose de 40 m3 ha-1 de dejetos líquidos de suínos sem incorporação, em solo similar ao do presente trabalho e utilizando o mesmo dispositivo para quantificar a emissão de C-CO2 Chiapinotto
(2003) encontrou valores de 23 e 27 % de mineralização do C dos dejetos em dois experimentos conduzidos no verão. Trabalhando na mesma época do ano em que foi conduzido o presente trabalho e utilizando a dose de 44,2 m3 ha-1 de dejetos líquidos de suínos, Marques (2005) encontrou aproximadamente 30% de mineralização do C dos dejetos em 62 dias, de trabalho sob condições de campo, com aplicação dos dejetos na superfície do solo. No presente trabalho a mineralização do C dos dejetos aos 60 dias foi de aproximadamente 42%. Esse valor, superior em 12% ao encontrado por Marques (2005), apesar dos trabalhos terem sido conduzidos sob condições similares, se deve provavelmente a diferenças na constituição física e química dos dejetos utilizados.
Tempo após a aplicação dos dejetos
0 20 40 60 80 100 120 140 160 C m ineral izado (% do C adicionado) 0 10 20 30 40 50 60 Dejetos em superfície Dejetos com incorporação
(Dias)
10/05 19/06 29/07 07/09 17/10
Figura 18 – Mineralização aparente do C dos dejetos mantidos na superfície do solo e incorporados. Santa Maria, 2009.
Quando os dejetos foram incorporados ao solo foi possível calcular a mineralização do C dos dejetos apenas durante os primeiros 60 dias, já que, conforme pode ser observado na Figura 18, a partir dessa data o tratamento em que o solo foi mobilizado começou a apresentar sistematicamente valores de C-CO2
liberados superiores ao tratamento em que os dejetos foram incorporados. Esse fato resulta em valores de mineralização negativa do C dos dejetos o que constitui uma anomalia. Por isso, na Figura 18 a curva relativa à mineralização aparente do C dos dejetos incorporados ao solo foi construída apenas com os valores calculados para os primeiros 60 dias do experimento.