• Nenhum resultado encontrado

Os entrevistados da comunidade do Mingau vivem um conflito em torno do uso do ambiente, conforme já tratado no capítulo anterior. O conflito está relacionado ao acesso do gado de Arirambinha à água, impossibilitado quando Urutau e Curicaca resolveram explorar a atividade turística, por meio das atividades de lazer no rio. O conflito envolve, então, a própria atividade turística. Para Arirambinha, o turismo realizado na comunidade do Mingau, por Urutau e Curicaca não é adequado, a atividade a incomoda e, além disso, não gera retorno:

Eu num sei nem comentar porque isso tem me dado é dor de cabeça. O Urutau e o seu Curicaca resolveu deixar o pessoal entrar pro rio. O Urutau vê o negócio do lixo, e tudo. [...] Eu preferia assim, que o pessoal passasse só lá pelo Urutau, e isso tem dado dor de cabeça, porque vem pro rio e deixa o colchete aberto até no asfalto, e aí eu tenho que sair correndo pra ir buscar a vaca, e é perigoso se bater num carro, a gente é que tem que pagar. Nós botamos placa e até cadeado, e eles quebraram o cadeado. E eu briguei com o homem, e ele falou um monte de coisa pra mim. Eu num tenho precisão de disso, eu num ganho nada que o turista traz, mas eles num cobram, isso é que me chateia. Eles tão levando prejuízo, porque é degradação, vem com bebida, vem com mulher, já teve até denúncia de prostituição com umas menina. E tem gente, a maioria, traz bebida em isopor que vem lá de São João e aí ele num ganha nada. Aí seu Curicaca, falou o seguinte: eu faço a cerca aí. O gado ta pra cá, o nosso só bebia lá quando era tudo aberto, quando começou a explorar aí acabou.

Para Arirambinha o uso de bebida e o som alto demonstram o descuido dos turistas com o meio ambiente:

Do jeito que é praticado aqui eu acho que num tem nada a ver. As pessoas que vem pra cá acho que num tá preocupado com o meio ambiente. Põe o som na última altura, assim lata de cerveja você vê, toco de cigarro. Mas os moradores é que catam. Primeiro tem que falar com o pessoal lá, que desse jeito que eles tá fazendo ta errado. Eu vejo que da trabalho pra eles ficar catanto esse lixo, eles acham bom porque deve dá algum dinheiro com a venda de cervejas. Primeiro tem que muda a mentalidade das pessoas.

Arirambinha acredita que a atividade não traz benefícios para a comunidade, só para os proprietários e, mesmo assim, acha que não compensa o trabalho que eles têm para manter o local limpo em troca de pouco retorno financeiro. Ela fala sobre o turista e o turismo, enquanto possibilidade de atividade econômica:

Eu num quero me envolver com isso, assim do jeito que é eu num quero. Eu preciso tirar isso da minha cabeça primeiro, eu num sei o que que o pessoal acha, mas já denunciaram aí. É por isso que eu num sou a favor do jeito que eles fazem aqui eu num sei. Eu num tenho conhecimento se eles vem explorar ou passear. Mas o que eles fazem aqui, pra mim num é turismo. Pra mim eles são um monte de desocupado, desse jeito eu num gosto. O pessoal lá de São João fala pra gente fazer uma comida, vender uma bebida, mas isso eu num quero de jeito nenhum, num quero isso de tá preocupado com isso todo final de semana. O pessoal bebe, eu já tive problema de alcoolismo na minha família, se o turismo é essa farra de final de semana, eu num quero isso pra mim de jeito nenhum.

Na visão de Arirambinha, se Urutau e Curicaca fizessem um controle, cobrando para entrar, a situação ficaria melhor porque os turistas seriam selecionados logo na entrada, porém explica: “Eu já conversei com o Urutau pra ele fazer um controle, tem que cobrar, mas ele num consegue fazer isso, ele fala, porque é meu amigo, ele num tem coragem de cobrar” (ARIRAMBINHA).

Já para Urutau, o turismo é uma boa oportunidade de alternativa econômica para a comunidade, que pode ser envolvida de outras formas, como, por exemplo, aproveitando o local para venda de produtos e artesanatos. Urutau não cobra para entrar na sua parcela e utilizar o lazer proporcionado pelo balanço e o rio (Foto 5). Ele pretende cobrar, mas só quando tiver uma melhor infra-estrutura: “O que me falta agora é recurso para eu trabalhar uma coisa legal. Que seja de visita de pessoas, com freezer, com uma variedade de atrativo, eu sonho em conseguir uma tirolesa. A gente já pratica aqui o bóia – cross”. Segundo Urutau, a atividade está totalmente vinculada à questão ambiental: “[...] com esse negócio de Mulheres das Águas, eu via a quantidade de lixo, aí nos descemos com a canoa para ir limpando, eu vi as corredeira, ai eu falei vamos criar um negócio assim”. Esse negócio é também uma forma de trabalhar com educação ambiental, de envolver um maior número de pessoas: “As pessoas vão vendo o jeito da gente trabalha e vai aprendendo”.

Foto 5 – Balanço do Mingau, atrativo turístico. Foto de Guilherme Alves Barbosa

Urutau fala sobre os desafios de envolver a comunidade:

Eu acho que o processo mais é esse aí. Eu acredito, que, no geral pode ser bom para comunidade, porque é uma atividade muito procurada. Acho que muita gente num tem essa visão, e também num ta envolvido. Eu viajo muito e vejo as coisas, lá na Chapada, em Alto Paraíso. Meus meninos eu já coloquei pra fazer curso de guia e de primeiros socorros. Eu quero fazer umas trilhas aqui pra envolver toda a comunidade, lá tem uma mina, o pessoal antigo fala que lá era uma serralheria. A idéia é ir até lá e depois para nas comunidades, saber da vida deles. Eu quero fazer um trabalho de envolver as pessoas, mas têm aqueles que num quer, mas desde que quem num quer, que faça suas atividades sem prejudicar os outros.

Ele acredita que algumas pessoas não se interessam porque falta informação sobre o potencial econômico da atividade. Anambé, que também faz parte da comunidade do Mingau, acha que Urutau já deveria estar cobrando entrada. Ele também acredita que outras pessoas da comunidade poderiam ser envolvidas, mas de acordo com a “aptidão de cada um”, pois, assim como ele, muitos podem não se identificar com este tipo de trabalho: “Na verdade, tem muitas pessoas que num tem vontade de trabalhar com outras pessoas. Tem uns que quer ficar mais no seu canto. Eu gosto de conversar, trocar idéia, mas receber não”.

O conflito pelo acesso à água do rio foi agravado pelas divergências quanto ao tipo de turismo que vem sendo desenvolvido e, pela passagem dos turistas na parcela de Arirambinha. O conflito está relacionado também às diferentes concepções entre ambiente social e natural, assim, identificar a origem dessas divergências, das diferentes representações não parece ser suficiente já que os interesses continuam sendo diversos. Segundo Moscovici as diferentes concepções de realidade, gerando conflitos entre grupos e indivíduos não podem ser, em geral, tão simplesmente resolvidas pela identificação da natureza destas divergências. “[...] Descobre-se, então, que os adversários não partilham de um referencial comum e não se referem aos mesmos aspectos dos problemas e que sua avaliação de perdas e ganhos não é, de modo algum, idêntica. [..]” (MOSCOVICI, 2005, p. 124). Dessa forma, mais do que propor a substituição da competição por cooperação é necessário que, ao identificar representações sociais, não nos esqueçamos que elas estão atreladas a desejos e necessidades, os adversários, em geral, estão bem familiarizados com seus oponentes. A cooperação é apenas uma, entre várias outras opções de movimento, que pode incluir desde de “definição de limites”, ou mesmo, o exercício de influências. (MOSCOVICI, 2005).

Alguns pontos de conflito entre Urutau e Arirambinha podem ser melhorados como, por exemplo, com a colocação de placas indicando às pessoas a entrada correta, a utilização de bom-senso do proprietário, demandando sua interferência na altura do som, dentre outros. Esses aspectos podem ser tratados com o apoio do grupo envolvido no Projeto Mulheres das Águas, desde que os mesmos percebam também como esses conflitos podem ser prejudiciais ao desenvolvimento do Projeto naquele local, respeitando, evidentemente os devidos interesses dos proprietários e do Projeto. Aqui também existem limites, os limites das próprias concepções de cada um. Contudo, é necessário considerar que se trata de uma comunidade, em que as parcelas estão bem próximas, com demarcações bem definidas, e em uma condição de poucos recursos financeiros e muitas necessidades básicas e urgentes.