CAPÍTULO 1. PROCEDIMENTOS E HERMENÊUTICA-FENOMENOLÓGICA
1.1 Dimensões Metodológicas
1.1.1 O procedimento para o levantamento documental - ‘as narrativas’
2.1.1.2 A ‘Minhadade’ Exposta nas Narrativas
O conceito de ‘minhadade’ é proposto por Ricoeur (2007) para indicar quando o sujeito compreende sua vivência, à medida que consegue concatenar o passado, o presente e refletir para o futuro, esta ação humana é identificada:
[…] nos três laços que costumam ser ressaltados em favor do caráter essencialmente privado da memória. Primeiro, a memória parece de fato ser radicalmente singular: minhas lembranças não são as suas. Não se pode
transferir as lembranças de um para a memória do outro. Enquanto minha, a memória é um modelo de minhadade, de possessão privada, para todas as experiências vivenciadas pelo sujeito. Em seguida, o vínculo original da consciência com o passado parece residir na memória. (RICOEUR, 2007, p.
107).
O vínculo com o passado é importante para que haja a narrativa, ela depende das espacializações vividas. Desse modo, a consciência percebida em cada narrativa deve ser sentida, pois cada especificidade exposta na fala tem sua singularidade que reflete a ‘minhadade’ dos narradores. Em cada narrativa foi retirado um trecho significativo e colocado como citação, a partícula extraída do corpo da narrativa buscou evidenciar a essência do dito percebida durante o campo e na narrativa:
[…] é à memória que está vinculando o sentido da orientação na passagem do tempo; orientação em mão dupla, do passado para o futuro, de trás para a frente por assim dizer, segundo a flecha do tempo da mudança, mas também do futuro para o passado segundo o movimento inverso de trânsito da expectativa à lembrança, através do presente vivo. É sobre esses traços recolhidos pela experiência comum e a linguagem corriqueira que a tradição cujos grandes precursores se encontram na antiguidade tardia de matiz cristão. (RICOEUR, 2007, p. 108).
Segundo Ricoeur (Ibidem) na narrativa ocorre a articulação entre as lembranças no plural e a memória no singular, esta singularidade foi encontrada nas narrativas dispostas neste trabalho, encontra-se ainda a ‘minhadade’, que é o ato de alteridade que ocorre ao reconhecer na memória a temporalidade e a espacialidade vivida, tendo entendimento do que se foi no passado e percebendo o que se é no presente.
Explicamo-nos acerca dessa dupla relação do sujeito, por um lado com a significação, por outro lado com a redução. A primeira firmou: o sujeito, com efeito, é aquilo que tem referência a si na referência ao real; retro referência e referência ao real constituem-se simetricamente. A segunda relação não acrescenta nada a primeira no plano da descrição; ela diz respeito as condições de possibilidade da referência a si na referência a alguma coisa:
neste sentido, é como o “transcendental” em relação ao “empírico”. (IDEM, [1969] 1988, p. 251).
Dessa maneira, a ‘minhadade’ de cada narrativa começa pela experiência de cada narrador. A primeira narrativa é de um homem já idoso, que desde sua juventude participa das expressões culturais lúdicas do Çairé na parte do rito e do
entretenimento. É um dos fundadores do grupo musical Espanta Cão12, possui uma força física extraordinária para sua idade, pois faz-se presente em todos os dias do festejo, sua mobilidade é difícil, mas com ajuda de sua esposa que lhe é companheira e de amigos ele sempre é um dos primeiros a chegar no Barracão e o último a sair.
No decorrer do ano juntamente com os outros anciãos que fazem parte do Çairé participa dos ensaios dos músicos da folia e do Espanta Cão. A prática oral de ensinamento é realizada, pois os mais velhos do grupo ensinam os mais jovens a aprenderem como tocar o ritmo do Çairé.
A segunda narrativa foi a da procuradeira do Çairé, com orgulho de possuir esse cargo que desempenha durante o ano todo, pois alguns adereços das expressões culturais lúdicas do Çairé e o próprio símbolo Çairé é guardado em sua casa. O café da manhã da primeira procissão para a busca do mastro é realizado participam das expressões culturais lúdicas do Çairé são alvos de suas interseções no período do festejo. Austero em seus afazeres e amável com os mais idosos sempre visto realizando o rito com devoção e amor.
A quarta narrativa é de um dos mais novos integrantes da folia. Ele veio de outro estado para ‘visitar’ Alter do Chão e foi encantado pela paisagem natural e mítica, ao conhecer o lugar decidiu ficar, aos poucos foi criando vínculo com os moradores e no período atual tem uma função especial, é o músico que toca a rabeca, o instrumento que ‘espanta o cão’, por isso tocam-no durante as expressões culturais lúdicas do Çairé, para que mesmo com as danças e bebidas o ‘cão’ não apareça.
12 Grupo musical, possui este nome devido em 1971 quando os fundadores discutiam sobre qual o melhor nome um deles percebeu a forma de cruz que era feita quando se tocava a rabeca, deste modo diziam que quando tocavam a rabeca o cão ia embora, nesse caso o cão significa o demônio, a maldade.
Com a narrativa de número cinco, tem-se um olhar de quem observa os momentos em que as expressões culturais lúdicas do Çairé estão ocorrendo com agudeza, ao narrar, o ritual, as brincadeiras, as disputas de forma à transmiti-las ao público presente, ação que ele faz a quarenta e um anos, é reconhecido pela comunidade. Como narrador das expressões culturais lúdicas do Çairé, ele entende que é o doar-se e a união da comunidade que significa o sentido do Çairé.
A sexta narrativa expõe a vivência dupla do narrador, de um lado enquanto integrante das expressões culturais lúdicas do Çairé, e de outro como pesquisador, que voltou ao lugar de sua infância para uma pesquisa e sem notar foi invadido pelo amor ao lugar. Ele faz parte da folia do Çairé e do grupo musical Espanta Cão, é professor, sua narrativa está direcionada a sentimentos e sentidos vividos em Alter do Chão, historiciza, conceitualiza e até mesmo propõe algumas análises em sua narrativa para que a paisagem, o lugar e o Çairé sejam percebidos com honra e reverência.
A narrativa sete foi cedida por um folclorista, participa da folia do Çairé e toca cavaquinho no grupo Espanta Cão, demonstra como se dá os ensinamentos dos anciãos. Expõe a ‘reforma’ que está ocorrendo no grupo para crescimento e melhor alcance de novos públicos. Possui um desejo de evidenciar a cultura alterense, como forma de enaltecer sua terra.
A oitava narrativa foi cedida pelo coordenador do rito religioso. Ele possui carisma com os anciãos do Çairé, conseguindo solucionar os problemas que ocorrem durante o rito, o festejo e a disputa. Percebeu-se que ele tem uma ampliação em sua coordenação, compra o que falta, negocia se há alguma devolução a ser feita, problemas técnicos ou algum gosto que não fora feito, ele tenta resolver, diz que deve procurar a melhor solução possível, para que tudo dê certo.
A nona narrativa ocorreu por haver a necessidade do olhar de quem mora em Santarém, mas no período que ocorre as expressões culturais lúdicas do Çairé são envolvidos. Dessa maneira sua perspectiva do que é entendido por quem trabalha no órgão público que está diretamente envolvido na elaboração do festejo é importante, houve uma entrevista com o secretário de cultura, mas esta com o restaurador demonstra sua espontaneidade pelo que entende serem as expressões culturais lúdicas do Çairé.
A narrativa de número dez foi cedida por um dos idealizadores da disputa dos botos que ocorre durante as expressões culturais lúdicas do Çairé. Ele informou que primeiramente a disputa dos botos foi pensada para ocorrer em Santarém, contudo a procura turística em Alter do Chão estava em baixa, então foi decidido que a disputa entrasse como mais um atrativo durante o Çairé.
A décima primeira narrativa foi realizada com o diretor do documentário que estava sendo filmado sobre as expressões culturais lúdicas do Çairé, o olhar do evidenciadas nas expressões culturais lúdicas do Çairé nesta pesquisa utilizam-se da visão do sensível e do entendimento intelectual, no sensível consiste evidenciar fenomenologicamente a paisagem percebida, exposta a partir do vivido dos moradores. E a intelectual consiste em evidenciar de maneira concatenada o trajeto de compreensão das representações expostas nas ações para a formação do lugar vivido e da paisagem percebida.
O “fenômeno” é manifestação, numa “expressão apreensível”, “de uma operação interior que apenas se pode assegurar daquilo que é esforçando-se em direção a essa expressão”. O fenômeno é o correlato dessa segurança de si na diferença a si próprio. Visto que nós não estamos imediatamente na posse de nós próprios, mas sempre não-iguais a nós próprios, porque, segundo a expressão da Experiência interior da liberdade, jamais produzimos o ato total que reunimos e projetamos no ideal de uma escolha absoluta, - temos eternamente que nos apropriar daquilo que somos através das expressões múltiplas do nosso desejo de ser. O desvio do fenômeno está então fundado na própria estrutura da afirmação originária como diferença e como relação entre a consciência pura e a consciência real. A lei do fenômeno, é indivisamente uma lei de expressão e uma lei de ocultação. (RICOEUR, [1969] 1988, p. 218).
Desta maneira, os alterenses e os visitantes apropriam-se da paisagem ao contempla-la experienciam-na e vivenciam-na dando sentido próprio de lugar. Desde a primeira ida a campo a hermenêutica-fenomenológica já foi aplicada. Pois o