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O minimalismo recebe diferentes definições, porém todas com a mesma essência.

Müller (2017, p. 5) alega que os conceitos de ouro, são: “ter somente o que é necessário, nada mais, nada menos” e “qualidade é muito mais importante do que quantidade”. Pollak (2016 apud RODRIGUES et. al 2021, p. 6) complementa afirmando que o minimalismo vai além de um comportamento de consumo, é sobre um estilo de vida em que “busca-se o equilíbrio e a plenitude se desfazendo dos excessos”. Para Mocarzel e Rojas (2015, p. 136), “não se trata de romper com a sociedade industrial [...]: os minimalistas estão inseridos na sociedade, trabalhando, se relacionando, apenas abrindo mão do consumo desenfreado”. Porém, não é preciso romper com a sociedade industrial para confrontá-la e apontar os seus erros.

O estilo de vida minimalista ganha adeptos na sociedade de consumo, justamente pelo bombardeio de informações publicitárias, pela lógica implacável do consumismo, pelas cobranças cada vez mais marcantes do

mercado de trabalho e pela redução da qualidade de vida em função da necessidade de se produzir mais para se consumir mais (MOCARZEL;

ROJAS, 2015, p. 136).

Nascido a partir de manifestações artísticas ocorridas em meados do século XX, a definição do movimento foi construída ao longo de décadas no mundo das artes, se formulando com base em experimentações de artistas de grande relevância, o que gerou a definição que temos hoje (MOCARZEL; ROJAS, 2015). Sequeira (2012) afirma que foi nos Estados Unidos, na década de 60, que o minimalismo se consolidou enquanto movimento artístico, período em que a arte cartesiana europeia dominante foi negada e que as barreiras entre pintura e escultura foram quebradas; nesta ocasião, as pinturas ‘decorativistas’ foram contrariadas.

Apesar da definição concreta no mundo das artes, Mocarzel e Rojas (2015) explicam que na cultura material o conceito do movimento ainda está em construção. Entretanto, Webster Negretto (2013) sugere que sua base, marcada pela busca por uma vida simples e sem excessos, não é nova na história da humanidade. A autora cita Buda - “quanto mais coisas você tem, mais terá com o que se preocupar” (BUDA, [21--] apud WEBSTER NEGRETTO, 2013, p. 64), - para exemplificar a afirmação, podendo o movimento artístico minimalista, em seu período de concretização, ter agido como um gatilho para a retomada deste pensamento.

Além disso, outras questões também abarcam o nascimento do estilo de vida, como a própria preocupação ambiental, a abundância de informação trazida pelos avanços tecnológicos, os efeitos produzidos pela crise de 2008 e uma certa inquietação em torno das sequelas causadas pelo crescimento econômico de países (WEBSTER NEGRETTO, 2013).

Enquanto movimento que recebe influências e que dá abertura para múltiplas áreas, o minimalismo pode ser analisado por várias perspectivas. De maneira geral, a literatura atual prioriza uma abordagem voltada aos benefícios psicológicos (apesar de ser perceptível que este cenário está mudando, conforme artigos e podcastspublicados em 2021), enfatizando o quão ‘mais leve' se sentirá o indivíduo após sua adesão, deixando outras questões em segundo plano. É o que podemos observar em livros e em conteúdos digitais publicados por autores reconhecidos, como, por exemplo, Michaels, Milburn e Nicodemus. “Quando você começar a simplificar a sua vida de maneiras significativas, se dará conta que tem um caminho melhor, mais feliz e mais gratificante pela frente”, alega Michaels (2014, p. 4). A principal abordagem gira em torno do que Alves contempla:

A simplicidade contagia. Não é à toa que o estilo de vida minimalista ganha adeptos em plena sociedade de consumo. Nunca na história da humanidade tivemos acesso a tantas possibilidades de escolhas. Estamos cada dia mais expostos a cobranças sociais e do mercado de trabalho para reduzirmos nossa qualidade de vida em detrimento de uma maior produção. Quanto mais produzimos, mais consumimos. Porém, mesmo com todas essas mercadorias disponíveis, jamais tivemos tantos índices de doenças psicossomáticas, como a depressão, a síndrome do pânico e a ansiedade. Precisamos urgentemente mudar nossos hábitos com relação ao consumo desenfreado (ALVES, 2018, p. 10).

Além dos benefícios psicológicos, muitos outros são apontados, sendo, alguns deles:

vivenciar um estilo de vida que está em maior harmonia com a natureza, administrar finanças, quitar dívidas e juntar dinheiro com mais facilidade, adquirir mais tempo no dia a dia, ter mais facilidade em se organizar e em manter cômodos organizados, entre outros. No entanto, o caminho para convencer novos adeptos ao movimento minimalista é longo, visto que ainda há muitas deturpações acerca do que é ser minimalista, fazendo com que os autores atuais precisem se apropriar de artimanhas fixadas nos benefícios práticos e quase imediatos, além de desmentir inverdades e criar atrativos.

Apesar de Mocarzel e Rojas (2015, p. 135) alegarem que “ainda não podemos considerar o minimalismo uma subcultura”, esta concretização pode estar mais perto do que nunca, a partir do posicionamento de pessoas que, além de se manifestarem contra o consumismo, também se colocam ativamente em defesa do meio ambiente e do futuro do planeta. A proposta deste trabalho é justamente desencadear esta assimilação, promovendo o despertar para um segmento que se aprofunda na vertente ‘minimalismo + desenvolvimento sustentável’, compreendendo que o movimento pode ser uma das bases para este desenvolvimento.

No entanto, a escassez de abordagem voltada completamente para este segmento pode estar relacionada aos problemas de entendimento que o minimalismo ainda enfrenta, como mencionado acima. Dessa forma, os autores reforçam frequentemente sobre o que realmente se trata a ideia, por ser um movimento consideravelmente novo e que desperta curiosidades.

Milburn e Nicodemus, do The Minimalists (2021), explicam que muitas pessoas rejeitam o movimento por acreditar que este se trata de “viver com menos de 100 coisas, não ter um carro, uma casa ou uma televisão, não ter uma carreira [...]”, enquanto não é sobre isso, apesar de haver minimalistas que, por vontade própria, aplicam restrições de quantidade de objetos em suas vidas. Há ainda a teoria defendida por Francine Jay (2016), traduzida no conceito arquitetônico que também gera confusão:

Ele [o minimalismo] parece ter adquirido um ar meio intimidador, elitista, associado muitas vezes a lofts multimilionários decorados com apenas três ou quatro móveis. A palavra evoca imagens de cômodos espaçosos, abertos, com pisos de cimento queimado e superfícies brancas reluzentes. Tudo parece muito sóbrio, sério e estéril. Como é que isso se encaixaria em vidas cheias de crianças, animais de estimação, hobbies, folhetos de propaganda e roupas para lavar? (JAY, 2016, p. 7).

Estes não são os reais significados do minimalismo, e quando o indivíduo adquire esta compreensão, pode se sentir motivado a fazer parte. Quando a decisão de pertencer ao movimento é tomada, dúvidas sobre por onde começar surgem. Jay (2016) traz em sua bibliografia 10 passos iniciais simples, mas com dificuldade de implantação que varia de pessoa para pessoa. Portanto, antes de apresentar as sugestões da autora, não se deve anular a possibilidade de que a adaptação ao estilo de vida minimalista talvez seja extremamente difícil (até mesmo para aqueles muito abertos e interessados). Além disso, esta é apenas uma sugestão de metodologia para auxiliar iniciantes, e não uma regra universal.

Como primeiro passo desta metodologia, Jay (2016) cita o ato de recomeçar. Este recomeço é sobre esvaziar-se de objetos, primeiro colocando a vista e observando tudo o que tem em sua casa/no ambiente que desejar (caso queira dividir em etapas), compreendendo que ficará apenas com artigos realmente úteis. O segundo passo é separar estes objetos em três categorias “tralha, tesouro e transferência”, podendo colocá-los em recipientes. "Tralha" será composta pelo material inutilizável e não reaproveitável; em “tesouro” ficarão aqueles desejados e que permanecerão com o indivíduo; a última categoria, “transferência”, será para todos os artigos em boas condições e que podem ser doados e/ou vendidos.

Conforme determinamos o que pertence às nossas pilhas de Tesouro, devemos seguir o princípio de Pareto (também conhecido como princípio 80-20). Nesse contexto, ele significa que usamos 20% de nossas coisas durante 80% do tempo. Leia de novo, com mais atenção: usamos 20% de nossas coisas durante 80% do tempo. Isso significa que podemos viver com apenas um quinto de nossas posses atuais e quase não notar a diferença. Puxa vida! Vai ser mais fácil do que pensamos! Se quase nunca usamos a maioria de nossas coisas, não haverá problema em reduzi-las ao essencial. Tudo o que precisamos fazer é identificar os nossos “20%” e estaremos perto de nos tornar minimalistas (JAY, 2016, p. 49).

No passo número três, a autora solicita que seja atribuída uma razão para cada objeto que foi colocado na pilha de “tesouros”, a fim de garantir que se tenha um bom motivo para continuarem ali. Neste momento é possível entender que objetos com funções semelhantes e

sem funcionalidade não possuem motivos; cabe requerer a ajuda de amigos/familiares nesta etapa. Já o quarto passo é constituído pela frase “um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar”. Neste tópico, é preciso separar os bens que permaneceram em “círculo próximo”

(constantemente usados), “círculo distante'' (pouco usados) e “estoque oculto”

(materiais/alimentos estocados).

O quinto passo é sobre a importância de manter superfícies vazias, evitando qualquer possibilidade de bagunça acumulada. “Ao criar nossos módulos, colocamos em prática um sistema que elimina e impede o excesso - tornamos nossas posses equivalentes às necessidades e, depois, colocamos uma pedra sobre esse assunto” (JAY, 2016, p. 58). Agora, no passo seis, o iniciante ao minimalismo irá subdividir seus pertences conforme suas finalidades. No próximo passo, de número sete, limites serão impostos, seguindo a opinião e as preferências do adepto. É questionada a necessidade de se comprar e acumular coleções de livros, por exemplo, que muitas vezes sequer são lidos ou utilizados. A autora sugere:

Os limites podem e devem ser aplicados a praticamente tudo. Divirta-se impondo restrições às suas coisas: exija que todos os DVDs caibam na prateleira designada; todas as blusas, na gaveta definida; toda a maquiagem, no estojo de cosméticos. Limite o número de sapatos, meias, velas, cadeiras, lençóis, panelas, tábuas e artigos colecionáveis que possui. Limite as assinaturas de revistas e o número de objetos na mesinha de centro. Limite a decoração de Natal a uma caixa e seus equipamentos esportivos a um canto da despensa. Limite pratos, xícaras e talheres ao tamanho de sua família e seus equipamentos de jardinagem às necessidades do quintal (JAY, 2016, p.

60).

Passo oito: “entra um, sai outro”. Esta “regra” simples propõe que para cada novo objeto introduzido, outro de função semelhante seja retirado. Porém, neste caso é preciso se atentar às trocas desnecessárias. Já no passo nove, explica que a partir de agora, com os passos anteriores colocados em prática, impor novas restrições de consumo a si mesmo não será tão difícil. Chegou o momento de reduzir posses às necessidades básicas, compreendendo que “necessidades básicas” têm significados diferentes para pessoas diferentes, portanto, somente o indivíduo em adaptação poderá dizer quais pertences são essenciais, seguindo sua rotina, seu trabalho e afins, sem esquecer de utilizar-se do bom senso. "O equipamento de mergulho que o velejador considera essencial muito provavelmente seria considerado um item supérfluo para nós” (JAY, 2016, p. 65).

O último passo consiste em realizar uma “manutenção diária” para evitar que todo o processo retorne à estaca zero. “Não adianta só enxotar todas as nossas posses numa sessão

pesada de organização e depois anotar na lista como ‘feito’”, afirma Jay (2016, p. 68). O mais importante, segundo ela, é continuar atento ao que entra na residência. Por fim, apresentado o minimalismo em sua abordagem clássica, além de uma metodologia simples para aplicá-lo, cabe o questionamento: em que sentido ele está relacionado à conservação e preservação do meio ambiente, e como ele é capaz de fomentar a redução de impactos ambientais negativos?

3.6 COMO A ADESÃO AO MINIMALISMO FOMENTA A DIMINUIÇÃO DE