2. NARRATIVA TELEVISUAL
2.1 Gêneros e formatos televisivos
2.1.1 Minissérie
A minissérie brasileira descende da telenovela (PALLOTTINI, 2012), no entanto, há uma importante diferenciação entre esses dois gêneros da teledramaturgia. A minissérie não oferece abertura para interferências do espectador ao longo de sua etapa de produção, cabendo à atuação do diretor, como autor, a articulação entre todas as etapas de produção e consequentemente do discurso fílmico (MUNGIOLI, 2013). E como aponta Mungioli (2006),
as tramas e as personagens das minisséries possuem uma linha de desenvolvimento bem delineada desde o começo, o que permite ao diretor e ao elenco de atores uma exploração mais profunda das situações dramáticas. Em termos de tratamento dos elementos narrativos, o fechamento do texto também permite ao diretor um tratamento estético e um acabamento temático mais refinado, uma vez que não está tratando com um texto em construção (MUNGIOLI, 2006, p. 106).
Costuma–se atribuir a esse fechamento do texto e, ao consequente maior tempo dedicado por toda equipe à produção, um refinamento voltado para os detalhes da produção, como enquadramentos, iluminação, cenografia, figurino. É a articulação entre esses elementos que se traduz visualmente no produto final. Neste trabalho, consideramos o diretor da minissérie Capitu, Luiz Fernando Carvalho, como o responsável por essa articulação, como o construtor da narrativa televisual, juntamente com sua equipe.
As minisséries brasileiras surgiram com a Globo em 198215, desde então foram exibidas pela emissora 84 obras16. A partir da tabela (Anexo I) é possível observar que as minisséries tem sido exibidas predominantemente no horário noturno e a partir de 2009 o número total de episódios foi reduzido quando comparado aos anos anteriores, como mostra o gráfico a seguir.
Gráfico 1 – Evolução do número de capítulos das minisséries (1982–2015).
O gráfico acima é distribuído a partir das minisséries e quantidade de episódios de cada obra. As diversas linhas apontam que em determinados anos foram produzidos mais de uma minissérie, sendo que nos anos 1987, 1996 e 1997 a Globo não exibiu minisséries inéditas produzidas pela emissora em sua programação. Observamos também que nos últimos anos as minisséries apresentaram uma queda no número total de episódios.
A minissérie é um formato marcado pelo enredo segmentado em episódios, com narrativa fechada e arco narrativo definido desde sua produção. Já que não é influenciada pela recepção da audiência, normalmente a minissérie encontra–se finalizada, com todos os episódios gravados, desde o momento do início de sua exibição. Tais características permitem uma maior liberdade autoral na construção técnica e discursiva. As equipes responsáveis pela
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A primeira minissérie produzida pela Globo foi Lampião e Maria Bonita, exibida entre 26 abril e 05 maio de 1982 no horário das 22h.
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Levantamento realizado com base nos dados do site Memória Globo considerando o recorte temporal pra pesquisa entre os anos de 1982 até abril de 2015, disponível em:
<http://memoriaglobo.globo.com/Memoriaglobo/0,55750,5265,00.html>. Acesso em: 10 jun. 2013.
0 10 20 30 40 50 60 1982 1983 1984 1985 1986 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015
construção cênica dispõem de tempo e recursos mais amplos para concretizar o trabalho com personagens, cenários, figurinos. Além disso, o horário de exibição na grade da emissora, conta como outro fator que possibilita a liberdade criativa dos roteiristas e equipe de diretores. Com tudo isso, as minisséries apresentam–se como produções que chamam atenção pela qualidade discursiva e visual, explorando novas composições, e buscando, muitas vezes, inovações na linguagem (BALOGH, 2002).
A minissérie é uma espécie de telenovela curta, cujo texto está totalmente fechado, [...] procura se conter num plot, num conflito básico, numa linha central de ação bem definida, não comportando a diversidade de linhas de ação da telenovela, às vezes só consolidadas depois que ela já está em andamento (PALLOTTINI, 2012, p. 28–29).
Essa inovação e experimentalismo estão presentes na própria inconstância no tamanho das minisséries produzidas. Desde 1982 o número de episódios variou entre dois17 e 6018 episódios. Segundo Balogh “são frequentes os momentos em que a minissérie pode se tornar um espaço para testar os limites do televisual e enfrentar o desafio de inovar a linguagem ou de ultrapassar as próprias servidões da linguagem televisual” (2002, p. 127). Com maior refinamento, tempo de pesquisa e equipe bem qualificada (BALOGH; MUNGIOLI, 2009) as minisséries trazem inovações na estrutura e na linguagem.
De maneira geral, pode–se dizer que os bons resultados colhidos por essas produções devem–se, em grande parte, a uma proposta que busca aliar a qualidade de temas e obras de reconhecido valor social e estético ao trabalho de autores experientes, cujos roteiros, produzidos em grande cumplicidade com diretores talentosos e elencos exaustivamente preparados com vistas a essas produções, tem conseguido desenvolver obras de elevada qualidade (MUNGIOLI, 2010, p. 60).
No Brasil, as minisséries possuem um histórico que mostra a prevalência de adaptações literárias de obras brasileiras para o audiovisual, “no período de 2000 e julho de 2009, das 21 minisséries produzidas, onze foram apresentadas como adaptadas ou baseadas em obras literárias” (BALOGH; MUNGIOLI, 2009, p. 332).
A construção de uma narrativa visual nos produtos televisivos de ficção seriada requer a formação de uma linguagem voltada para o desenvolvimento de personagens e ambientes.
É preciso acrescentar que as minisséries adaptadas, assim como aconteceu com as telenovelas, também tem apresentado tramas baseadas em mais de uma obra literária, buscando dessa forma reunir elementos dramáticos que possam de alguma
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A minissérie Fernando da Gata foi a minissérie mais curta produzida pela Globo, com 2 episódios exibidos em 14 e 15 de fevereiro de 1983, no horário das 22h.
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A minissérie Aquarela do Brasil teve um total de 60 episódios exibidos entre 22 de agosto e 1 de dezembro de 2000, no horário das 22h30.
maneira contribuir para a complexidade das tramas, personagens, ambiente” (BALOGH; MUNGIOLI, 2009, p. 331).
Outro ponto que podemos ressaltar na elaboração das minisséries brasileiras é a presença da personagem feminina na trama. O protagonismo de heroínas que se destacam nas narrativas autobiográficas, biográficas, como também em roteiros originais.
Há nas trajetórias dessas heroínas um grande número de transgressões, dado que a maioria das sociedades primou por fixar padrões bem menos rígidos para os mesmos aspectos da vida dos homens. Razão pela qual as transgressões femininas exigem um grau de coragem e audácia maiores, são mais dolorosas e envolvem grandes riscos para as transgressoras e têm, consequentemente, um grande impacto dramático e implicam alto grau de intensidade e tensão (BALOGH, 2006, p. 97).
Ponto importante para demarcarmos no nosso trabalho, uma vez que Capitu se apresenta como uma protagonista que transgride o comportamento esperado para uma mulher no século XIX – marca resgatada da obra original de Machado de Assis, tida como moderna para a época.
Para melhor compreender a construção narrativa da minissérie em questão, torna–se importante refletir tanto sobre o desenvolvimento das personagens e do formato televisivo quanto sobre os elementos da linguagem corresponsáveis pela produção de sentido e construção visual da obra audiovisual. Para isso, trabalharemos a seguir na construção de uma leitura da linguagem audiovisual, refletindo sobre as escolhas dos planos de captação.