A monogamia é um desafio para quem estuda a evolução dos comportamentos sociais. Primeiro, porque ela está longe de ser a norma: menos de cinco em cada 100 espécies de mamíferos preferem
ser fiéis a um único parceiro. Segundo, porque se a monogamia tem suas vantagens para a fêmea de espécies cuja prole nasce imatura (e portanto mãe e filhotes se beneficiam de um pai por perto para ajudar), todo macho que, digamos, pula a cerca tem aumentadas suas chances de deixar descendentes. E terceiro, porque se estudar as bases cerebrais de um comportamento complexo como a escolha de um parceiro sexual deve ser difícil, mais complicado ainda deve ser estudar a evolução de genes associados ao comportamento que possam explicar por que algumas espécies são fiéis, outras “não são de ninguém”, e outras... bem, até que tentam.
E aqui a natureza deu uma mãozinha à neurociência, quando criou o arganaz. Arganazes são bichinhos pequenos e corpulentos, mais simpáticos do que camundongos, e existem naturalmente nas versões monógamo-e-social, representada pelo arganaz-do-campo ( Microtus ochrogaster ), e polígamo-e- livre-leve-e-solto, representada pelo arganaz-do-prado ( Microtus pennsylvanicus). As duas versões são igualmente peludas, e virtualmente idênticas ao olho incauto. Mas seu cérebro apresenta uma diferença importante: apenas o do arganaz-do-campo fica vidrado naquela fêmea com a qual ele se acasala.
Deixe um casal de arganazes juntos, e em 24 horas eles terão copulado entre 15 e 30 vezes. Cada episódio sexual culmina na liberação do hormônio vasopressina no cérebro masculino. E aqui acontece a mágica: havendo quantidade suficiente do receptor que sinaliza a presença desses hormônios, receptor e hormônio levam à ativação do sistema de recompensa do animal. Como resultado, o macho passa a preferir aquela parceira acima de qualquer outra.
No entanto, a mágica só parece acontecer no sistema de recompensa do arganaz-do-campo, a espécie monógama e social. Hormônios não são o problema, já que vasopressina é liberada em quantidades semelhantes nas duas espécies durante o sexo. A única diferença está na quantidade do receptor para vasopressina, chamado V1aR, encontrada no sistema de recompensa: muito maior em espécies monógamas, como o arganaz-do-campo e o sagüi, do que em espécies polígamas, como o arganaz-do prado e outros primatas. Arganazes-do-prado podem copular à vontade, mas na ausência de V1aR
suficiente, não há como o sistema de recompensa se ligar na parceira – e, portanto, fidelidade é algo que não se cogita nessa espécie.
Uma série de experiências com arganazes, nas versões monógama e polígama, explicaram o papel dos hormônios do orgasmo e do sistema de recompensa sobre a formação da preferência por um parceiro. Primeiro: com níveis naturais dos hormônios circulando no sistema de recompensa, é preciso que haja cópula para que um macho ou fêmea de arganaz-do-campo, a espécie monógama, forme preferência pelo parceiro. Ou seja: normalmente, o simples convívio social não basta para que um animal conhecido seja eleito por outro na hora do sexo. O que quer dizer que, enquanto a relação não se tornar sexual, amigos serão apenas amigos.
animal efetivamente polígamo, quer dizer, incapaz de formar preferência por uma única parceira (o mesmo vale, é claro, para as fêmeas). Isso é mais uma indicação de quanto vale o prazer de um orgasmo para se conseguir um parceiro fiel.
Terceiro: se o rapaz é por natureza polígamo, dono de raros receptores para vasopressina no sistema de recompensa, ainda assim tem jeito. “Basta” uma pequena manipulação genética para aumentar o número de V1aR no sistema de recompensa, e deixar o arganaz-do-prado tão sensível aos charmes de um orgasmo com a parceira quanto qualquer arganaz monógamo por natureza[84].
Agora, ao que interessa aos humanos, solteiros, recém-casados ou recém-enamorados: existe uma variação semelhante na quantidade de V1aR no sistema de recompensa entre homens, dependendo das versões do gene que cada um leva no seu DNA. Claro que é bem alta a probabilidade de versões diferentes do gene determinarem as chances de cada rapaz se tornar fiel à sua moça após uma única maratona de amor, no melhor estilo arganaz-do-campo. E é claro que, seguindo o exemplo dos arganazes, a melhor maneira de assegurar a fidelidade do(a) seu(ua) parceiro(a) é... oferecer-lhe sexo, com orgasmo, com você.
E também é claro que não era preciso dizer nada disso para que os adolescentes se lançassem ao sexo. Adolescentes de várias gerações parecem ter descoberto as propriedades “amarradoras” do sexo por conta própria. Quem não ouviu histórias na sua própria família ou em filmes de época pode recorrer aos livros para descobrir aquela frase clássica: fazer sexo “para segurar a pessoa”. Julgamentos de valores e interpretações sociológico-culturais à parte, o negócio funciona, e de uma maneira impressionante – uma prova a mais de que somos uma espécie animal dotada de receptores para os hormônios do orgasmo no sistema de recompensa.
Se por um lado todas essas estórias de arganazes significam que a melhor maneira de ter um(a) parceiro(a) fiel é provocar liberação de hormônios do orgasmo no seu sistema de recompensa, por
outro, um aviso é absolutamente necessário – principalmente para adolescentes afoitos e aflitos para se entregar à exploração dessa nova fonte de prazer, ainda mais em tempos de liberdade sexual e ovens esclarecidos e com acesso a camisinhas e anticoncepcionais. Além dos outros riscos mais óbvios, ir para a cama despreocupadamente com aquela pessoa nova ainda pode ter outro preço alto: deixar você muito mais amarrado nela do que gostaria...