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81 Cf. BASTO – História da Santa Casa, p. 201-236.

82 Cf. DUARTE, Luís Miguel – Retalhos da vida de um reino. In O TEMPO de Vasco da Gama. Dir. Diogo Ramada Curto. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998, p. 305-318.

83 Cf. IAN/TT: Chanc. de D. João III, Doações, liv. 20, fl. 79v. Como vimos anteriormente, embora não tivesse sido formalmente anexado pela Misericórdia, a provedoria do hospital coincidiu na mesma pessoa.

84 Cf. IAN/TT: Chanc. D. Manuel I, liv. 18, fl. 21 [1518.06.11].

85 Cf. IAN/TT: Chanc. de D. João III, Doações, liv. 41, fl. 31-31v. [1518.04.24].

da Misericórdia do Porto, magnificamente estudada por Magalhães Basto. No entanto, este autor não deixa de integrar os primórdios da confraria no contexto de relações díficeis que a cidade mantinha com o rei por esses anos. Entre 1499 e 1505 o rei tomou várias medidas impopulares: tentou criar o lugar de juiz de fora (os protestos obrigaram-no a recuar de imediato), decretou que as pautas das eleições concelhias lhe fossem enviadas para confirmação e autorizou os fidalgos, até aí interditos, a morar na cidade81. No

entanto, este e outros casos do mesmo teor não deixam de parecer episódicos quando inseridos num período de 70 anos, como o que nos ocupa no presente trabalho. A maioria das fontes disponíveis indica um processo pacífico de implantação das misericórdias, com a lentidão inerente a qualquer processo de construção institucional. A médio ou longo prazo, a relação de conveniência recíproca entre câmaras e misericórdias parece ser um facto.

O quotidiano das populações nos inícios da Idade Moderna era marcado pela violência. Mesmo as localidades rurais desmentem a ideia de que estas comunidades seriam mais harmoniosas e solidárias do que as das cidades. Basta ler a narrativa de Luís Miguel

Duarte relativa a vários episódios violentos da vida rural para o comprovar, para o caso português, durante o reinado de D. Manuel82.

A violência do quotidiano encontra-se também documentada para as misericórdias. Vejamos Coimbra, em que o palco dos conflitos é, em 1515, o próprio hospital, onde os doentes, por serem de

condição forte e alguns tomados de vinho causavam brigas e arruídos. O rei ordenava em consequência

que nessas ocorrências não interviesse o alcaide da cidade a prender nenhum pedinte no seu interior (os hospitais eram mesmo para os muito pobres), mas que deixasse o seu provedor castigar os desordeiros83.

Duas localidades nos surpreendem pela obtenção de um privilégio peculiar: em Santarém e Moura os 13 irmãos oficiais da Misericórdia foram formalmente autorizados a circular armados de noite, desde que andassem no serviço da confraria. No caso de Moura, queixavam-se os irmãos que, tendo acorrido ao chamamento para enterrar um pobre, tinham acabado a função depois do sino do correr tangido, pelo que as suas espadas tinham sido apreendidas pelo alcaide e um seu ajudante, sendo-lhes posteriormente atribuída uma multa em julgamento. O rei, ao corrente do sucedido, censurava o alcaide e o seu ajudante por “estorvarem” o serviço de Deus no cumprimento das obras de misericórdia, em vez de o ajudar como deviam84.

No mesmo ano, alcançavam os irmãos da Misericórdia de Santarém o mesmo benefício de andar com armas e punhais depois do correr do sino. Invocavam uma razão diferente para o seu pedido: era mais conveniente efectuar as visitas a pobres envergonhados de noite “por ser mais escondido” e andarem durante o dia ocupados em “seus misteres e fazendas”85.

Os textos deixam entrever o carácter do trabalho dos irmãos: no terreno, e ainda sem a presença de instituições de assistência que se verificará posteriormente, o serviço voluntário incluía de forma omnipresente a visita domiciliária. Estava-se ainda longe da institucionalização dos pobres de que fala

86 Cf. WOOLF, Stuart – Prefácio: Ideologias e práticas de caridade na Europa ocidental do Antigo Regime. In SÁ, Isabel dos Guimarães – Quando o rico se faz pobre: misericórdias, caridade e poder no Império português, 1500-1800. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1997, p. 8.

87 Caso de Coimbra em 1510.10.15 (cf. IAN/TT: Chanc. D. João III, Doações, liv. 20, fl. 79); de Leiria em 1546 (cf. Ib., liv. 43, fl. 57v.). 88 Cf. Ib., liv. 17, fl. 97 [1529.08.27].

89 Cf. IAN/TT: Chanc. D. João III, Privilégios, liv. 2, fl. 64v.-65. Confirmação de 1549.02.05 de alvará de 1521.08.17.

Stuart Woolf, distinguindo entre a caridade praticada no interior e exterior de instituições86. Também não

se imaginam as misericórdias nestes primeiros anos a praticar uma caridade burocrática, que passava pela escrita de petições ao provedor e mesários, como acontecerá nos dois séculos seguintes. Para já, os irmãos iam ao encontro dos que precisavam, quer os pobres se encontrassem nas prisões ou em suas casas. Não admira, portanto, que existisse uma projecção forte entre a Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel e as “visitações” (designação que possuem nos próprios textos) efectuadas por irmãos. A caridade representava antes de mais o uso constante dos espaços públicos: andar nas ruas para aceder às casas ou prisões, para acompanhar enterros, para integrar cortejos processionais. Mas não pode dizer-se que pertencia apenas à esfera pública, uma vez que a visita domiciliária, por vezes sigilosa, a relegava para o espaço privado e conduzia a relações de proximidade entre doadores e receptores. Estamos ainda longe da caridade-espectáculo, predominantemente barroca, que enfatizava relações de tipo burocrático entre ambos, embora encenasse actos de magnanimidade pública destinados a sublinhar a generosidade de pessoas e instituições.

O exercício da caridade limitava os irmãos aos espaços urbanos. Conhece-se, por exemplo, a natural relutância das localidades em proceder a enterramentos que os afastassem das cidades ou vilas e seus arrabaldes imediatos. No entanto, para os mamposteiros, percorrer estradas e caminhos era inerente à sua actividade de recolha de esmolas. As áreas de peditório (sempre delimitadas para evitar conflitos) foram maiores numa fase inicial e nalguns casos estendiam-se aos territórios do bispado87, prerrogativa

que deve ter sido de pouco agrado dos prelados. Um texto, relativo à Misericórdia de Amarante, refere que o pedidor novamente ordenado podia pedir esmola na vila e nos lugares comarcãos em que não houvesse esta confraria88. Os lugares de mamposteiro da misericórdia eram muito cobiçados, pelas vantagens que

proporcionavam. Uma delas era a isenção de encargos concelhios, e, para evitar atropelos, os pedidores eram registados nos livros das câmaras.

Irmãos e mamposteiros raras vezes foram compensados directamente em benefícios materiais. Os mamposteiros tardo-medievais recebiam uma parcela das esmolas recolhidas a título remuneratório. O mesmo se pode dizer dos administradores de hospitais, que podiam embolsar parte do rendimento destes. Os homens que serviam as misericórdias não colhiam benefícios deste teor. As contrapartidas dos irmãos deveriam ser espirituais e consistiam, sobretudo, em aguardar a benevolência da justiça divina no dia do Juízo. Mesmo os privilégios que obtiveram os oficiais da Mesa – isenções de carácter concelhio, de aposentadorias e comedorias – eram justificados com a necessidade de lhes poupar o tempo e os recursos para o exercício das suas funções na confraria. Estes privilégios apareceram também desde muito cedo na orgânica da Misericórdia de Lisboa e outras, e generalizaram-se às restantes. Sofreram um pequeno acidente de percurso no seguimento da publicação das Ordenações, que contradiziam algumas destas prerrogativas. No entanto, foram rapidamente repostos, uma vez que as misericórdias se apressaram a pedir a confirmação dos privilégios que possuíam. A Misericórdia de Évora, em 1521, reclamava por os seus oficiais serem obrigados a servir de almotacés em resultado da ordenação que proibia as pessoas de se isentarem desse cargo através de privilégios (como sabemos, o mais baixo no conjunto dos cargos concelhios). O rei apressou-se a abrir-lhe uma excepção e tudo voltou à boa ordem inicial89. Em Goa, em 1552, o

90 Cf. Arquivo Histórico de Macau: Santa Casa da Misericórdia, Livro de Registo de Alvarás, Cartas e Provisões Régias, Lisboa, Goa, Malaca, Macau, liv. 300, fl. 37v.-38.

91 Cf. os seguintes documentos: 1513.06.25: Misericórdia de Lisboa: alvará para os almotacés mandarem dar a seus oficiais a carne necessária (IAN/TT: Chanc. D. João III, Doações, liv. 50, fl. 228); 1532.11.01. Misericórdia de Lisboa: certidão de privilégios a seu carniceiro (Ib., liv. 18, fl. 107v.); 1553.05.04. Misericórdia de Montemor-o-Novo: Carta para poderem ter carniceiro (IAN/TT: Chanc. D. João III, Privilégios, liv. 1, fl. 121-121v.); 1564.12.02. Misericórdia de Lisboa: carta de privilégio para o carniceiro (IAN/TT: Chanc. D. Sebastião e D. Henrique, Privilégios, liv. 4, fl. 222-223).

92 Cf. IAN/TT: Chanc. D. João III, Doações, liv. 41, fl. 30-30v. [1500.03.25 e 1500.03.28] 93 Cf. Ib., liv. 50, fl. 226-229.

general Nuno da Cunha ordenou que o provedor e irmãos da Mesa da Misericórdia não fossem na armada, uma variante inédita na metrópole90.

O abastecimento de carne aos pobres que as misericórdias ajudavam foi objecto de alguns cuidados legislativos. Com D. Manuel obrigaram-se os almotacés de Lisboa a fornecer carne à Misericórdia, mas nos reinados seguintes a instituição possuía já o seu carniceiro, agraciado com privilégios próprios. Vilas de menor importância esforçaram-se também por assegurar um abastecimento preferencial de carne, como por exemplo Montemor-o-Novo91. Impõe-se referir que o consumo terapêutico de carne era

amplamente utilizado nos hospitais da época, e com maior razão se aplicaria a camadas da população eventualmente subnutridas, como o seriam os pobres assistidos pelas misericórdias. A logística do exercício das obras de Misericórdia, mesmo antes da anexação dos hospitais locais, tornava a carne um género de primeira necessidade para estas confrarias. A documentação deixa entrever uma acesa rivalidade entre as instâncias locais pelo seu abastecimento, tornando fundamental o estabelecimento de precedências. Não é certamente desprezível o facto de se ter assegurado que as misericórdias garantissem à partida o acesso aos açougues em condições preferenciais.

Entrar nas cadeias, limpá-las, dar de comer e tratar na doença os presos pobres, zelar para que fossem rapidamente processados e condenados e assegurar a execução rápida do transporte para o degredo foram obrigações das misericórdias desde o início da sua

fundação. As primeiras disposições dizem respeito a Lisboa e são datadas de 1499, mas encontramo-las também em Santarém, em Março do ano seguinte, algumas delas específicas. Entre estas últimas, a que isentava o porteiro que se ocupava dos presos da Misericórdia de ultrapassar o limite de três léguas em redor da vila em ocupações de justiça, ou a que obrigava os presos a sair da cadeia três dias depois de pronunciada a sentença92.

Em Lisboa, sucediam-se os diplomas: o meirinho da Relação não devia levar dinheiro aos presos que fossem degredados, o procurador da confraria seria ouvido em primeiro lugar nas audiências, o corregedor e juízes do crime deviam fazer audiências dentro da cadeia em dias certos, os carcereiros deviam comunicar à Misericórdia quais eram os presos necessitados, os presos pobres não deviam pagar despesas de chancelaria, etc... Todo este processo culminou em 1518, com a nomeação de três juízes para as causas da Misericórdia, com precedência nas audiências93. Embora nas restantes misericórdias não se tivesse

montado nenhuma estrutura judicial semelhante, as confrarias tiveram a assistência aos presos como uma das suas obrigações regulares. Um pouco por todo o lado os alvarás reiteram a necessidade de encurtar as estadias na cadeia, de não os demorar nela depois da sentença (isentando-os para isso do pagamento de custas) e de os enviar rapidamente para os degredos. Nas colónias determinou-se que aguardassem soltos o embarque, como aconteceu em Goa e em S. Tiago de Cabo Verde. Note-se, para acabar, que as

As Misericórdias