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Mitigação de Danos v Culpa Concorrente nos Instrumentos de Direito Internacional

2.4 Instrumentos de Direito Internacional

2.4.2 A Doutrina e Precedentes Judiciais e Arbitrais sobre a Mitigação de Danos nos

2.4.2.6 Mitigação de Danos v Culpa Concorrente nos Instrumentos de Direito Internacional

Para o escopo deste trabalho e em vista da comum identificação feita entre a regra de mitigação de danos e a responsabilidade concorrente ou exclusiva da vítima pelo mesmo dano por alguns autores,179 mereceu avaliação o modo como os principais instrumentos de Direito Internacional abordavam – se fosse o caso – essa possível distinção. Reforçando suas principais identificações com os sistemas de Civil Law¸180 verifica-se que tanto os Princípios UNIDROIT 2010 quanto os PECL previram regras próprias, distintas dos dispositivos sobre mitigação de danos, para endereçar o tema da responsabilidade da parte prejudicada pelos danos sofridos, total ou parcialmente, por sua própria responsabilidade. Observe-se:

Princípios UNIDROIT 2010

ARTIGO 7.4.7

(Danos parcialmente causados pela parte prejudicada)

Nos casos em que o dano se deve em parte a uma ação ou omissão da parte prejudicada ou a outro evento pelo qual aquela parte suporte o risco, o valor da indenização deverá ser reduzido na medida em que esses fatores tenham contribuído para o dano, levando-se em consideração a conduta de cada uma das partes.

Princípios sobre Direito Contratual Europeu

Artigo 9:504 – Danos atribuíveis à parte prejudicada (novo, anteriormente parte do art. 4.504)

A parte inadimplente não é responsável pelos danos sofridos pela parte prejudicada na medida em que a parte prejudicada tiver contribuído para o

178 SAIDOV, Djakhongir. Op. cit., p. 195-6. No mesmo sentido, McGregor cita a regra enunciada no caso Westinghouse Electric and Manufacturing Co. Ltd. v. Underground Electric Railways Co. of London Ltd., que pode ser traduzida: “‘a transação subsequente, se para ser considerada, deve ter sido ocasionada como consequência do inadimplemento do contrato’ e mais, que ela ‘seja parte de como se lidou com essa situação ... e não como uma transação independente ou não relacionada’.”. No original: “‘the subsequent transaction, if to be taken into account, must be one arising out of the consequences of the breach’ and, further, that it ‘formed part of a continuous dealing with the situation … and was not an independent or disconnected transaction’.” (MCGREGOR, Harvey. Op. cit., p. 338).

179 Conforme já abordado na parte final da Seção 2.1.

180 FARNSWORTH, E. Allan. Duties of Good Faith and Fair Dealing under the UNIDROIT Principles, Relevant International Conventions and National Laws, p. 63.

inadimplemento ou para os seus efeitos. (tradução nossa).181

A CISG, diferentemente, prevê a regra expressa de mitigação de danos, bem como de corresponsabilidade de um dos contratantes pelo inadimplemento do outro,182 mas não trouxe dispositivo específico sobre a corresponsabilidade da parte prejudicada pelos danos autoimpingidos. Ainda assim, a doutrina entende que a mesma distinção é possível através do confronto com a regra de causalidade, prevista no artigo 74 da Convenção de Viena, que deixa claro que só são indenizáveis os danos sofridos em consequência do descumprimento contratual.183 Reforça-se, assim, o vínculo entre a questão da responsabilidade concorrente ou exclusiva da vítima pelos danos como tema atinente ao nexo causal, o que não se confundiria com a regra de mitigação dos danos, como um dever de conduta subsequente.

Essa primeira análise já permite concluir a existência de uma distinção conceitual entre, de um lado, a mitigação de danos, e, de outro, a responsabilidade concorrente ou exclusiva da vítima para o dano. Todos os documentos, de maneira mais ou menos expressa, identificam a figura da responsabilidade concorrente com a situação em que a vítima contribui para o próprio inadimplemento do contrato184 ou para a configuração do dano inicial, envolvendo sua conduta nesse momento prévio.185 Diferentemente, a avaliação da mitigação de danos costuma estar associada à conduta da parte prejudicada após o inadimplemento contratual ter ocorrido, como uma omissão (deixar de agravar o dano) ou ação (reduzir ou eliminar o dano) a posteriori.

Não bastasse a diferença conceitual, os juristas também apontam diferenciações entre a mitigação de danos e a culpa concorrente, com importantes consequências práticas. Em primeiro lugar, dada a já apontada diferença, a mitigação de

181 No original: “Article 9:504 – Loss Attributable to Aggrieved Party (new; previously part of 4.504) The non-performing party is not liable for loss suffered by the aggrieved party to the extent that the aggrieved party contributed to the non-performance or its effects.”

182 Segundo Komarov, a regra do artigo 80 da CISG incorpora o tema da culpa ou responsabilidade concorrente pelo inadimplemento contratual, porém especificamente a concorrência de culpas ou responsabilidade pelo dano decorrente do inadimplemento contratual. (KOMAROV, Alexander. Op. cit., p. 261).

183 SAIDOV, Djakhongir. Op. cit., p. 131.

184 A questão da contribuição da parte prejudicada para o próprio inadimplemento do contrato encontra-se expressa nos PECL (“na medida em que a parte prejudicada tiver contribuído para o inadimplemento”). Embora não tenha sido prevista de maneira tão literal no artigo 7.4.7, os comentários aos Princípios UNIDROIT 2010 permitem a ilação de que esse dispositivo está vinculado à regra prevista no artigo 7.1.2 (interferência da contraparte), segundo a qual uma parte não pode valer-se do inadimplemento da parte contrária se tal inadimplemento tiver sido provocado por sua própria ação ou omissão ou por outro evento pelo qual tenha assumido o risco.

danos seria uma forma de “limitação” do valor da indenização e não propriamente um elemento caracterizador da responsabilidade civil contratual. Distinguir-se-ia, assim, da culpa concorrente enquanto aspecto da análise do nexo causal na apuração do dever de indenizar.

Em segundo lugar, e mesmo em decorrência dessa primeira distinção, a mitigação de danos e a culpa concorrente teriam distinções quanto ao ônus da prova. Como regra geral, a prova da causalidade entre descumprimento contratual e dano incumbe à parte inocente, que pleiteia a respectiva reparação por perdas e danos, incluindo, por exemplo, que o dano não seria remoto ou indireto.186 Ao buscar a reparação, a parte prejudicada pelo inadimplemento não teria que comprovar, ab initio, ter adotado as medidas de mitigação necessárias. Caberia, portanto, ao contratante inadimplente o ônus de provar que a extensão do dano poderia ter sido reduzida caso a parte autora tivesse, de modo razoável e no momento oportuno, adotado as medidas mitigatórias possíveis.187

Não obstante essas distinções nos pareçam absolutamente acertadas, certamente existiriam exemplos de situações em que a indenização poderia ser recusada quer por falha no dever de mitigação de danos, quer por responsabilidade concorrente da própria vítima do dano. Um exemplo seria a situação em que a parte contratante, após o inadimplemento, adota medidas não razoáveis e majora o dano causado: v.g., o comprador de um maquinário que, ciente de um defeito apresentado pelo equipamento, inicia sua utilização e produz mercadorias defeituosas.188 Sob a perspectiva do dever de mitigar danos, pode-se concluir que o comprador deixou de adotar medidas mitigatórias ou, se imaginava que a produção não seria diretamente afetada pelo defeito do equipamento, deixou de agir razoavelmente ao iniciar a produção sem realização prévia dos testes necessários. A indenização pelo dano causado à produção poderia, portanto, ser excluída. Outra abordagem diferente que permitiria a mesma conclusão seria entender a conduta do comprador como concorrente para o dano causado – ao menos no que tange à produção defeituosa – e afastar a indenização pela ausência de causalidade entre o inadimplemento do contrato e o dano.

Do mesmo modo, como se comentou em nota sobre o caso Rockingham

County v. Luten Bridge Co.,189 a situação da parte contratante que, após o descumprimento

186 MCGREGOR, Harvey. Op. cit., p. 331. 187 SAIDOV, Djakhongir. Op. cit., p. 130.

188 Exemplo extraído de: SAIDOV, Djakhongir. Op. cit., p. 131. 189 Cf. Seção 2.3.1.1.

contratual da outra, continua a executar o contrato e majora, desse modo, os seus prejuízos, também pode ser citada como exemplo que receberia igual solução quer sob a ótica da mitigação, quer sob a ótica da concorrência de responsabilidades. Mesmo depois de cientificada de que a cidade de Rockingham não tinha mais interesse nos serviços e deixaria de pagar o preço contratado, a Luten Bridge continuou a executar a construção da ponte, incorrendo em despesas adicionais que poderiam ter sido evitadas. Assim, quer por falha no dever de mitigação, quer por responsabilidade concorrente da construtora pelos prejuízos, o fato é que a indenização deveria ser limitada.

Portanto, verifica-se que os instrumentos de Direito Internacional apontam e reconhecem a distinção conceitual entre mitigação de danos e responsabilidade concorrente, que são tratadas como figuras diversas e regulamentadas em dispositivos próprios. Em alguns cenários específicos – especialmente naqueles casos em que o contratante inocente acaba por majorar seus danos, por continuar a executar o contrato ou pela adoção de medidas mitigatórias inadequadas que acabam por ter o efeito oposto190 – é bastante provável que ambos os fundamentos sirvam de suporte para uma mesma decisão de não indenizar a vítima ou de indenizá-la apenas parcialmente.

O fato de terem os mesmos efeitos práticos em situações específicas não significa, contudo, que as figuras possam ser confundidas ou, pior, que a regra de mitigação de danos possa ser tida por desnecessária se adotada a regra que afasta ou reduz a indenização dos danos causados, total ou parcialmente, pela própria parte prejudicada, por inexistência de nexo causal. Se sob exame situação em que a parte prejudicada poderia reduzir o dano decorrente do inadimplemento através da adoção de medidas razoáveis, concluir-se-á que a omissão ou recusa em adotar essas medidas só poderia ter consequências jurídicas se reconhecido o dever de mitigação de danos.