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Mito do Sol e da Lua

No documento alencarmirandaamaral (páginas 183-187)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Anexo 21) Mito do Sol e da Lua

Sol e Lua são conhecidos pelos Maxakali como um par de irmãos demiurgos, protagonistas em uma série de episódios. Para os Maxakali, seria Lua o irmão mais velho e o seu comportamento não conduziria, necessariamente, ao fracasso as ações do Sol, alterando a Ordem. Mais propriamente, repetiria estas ações com fracasso. Neste caso, Lua não ocuparia a figura tradicional que altera a Ordem mítica perfeita e introduz a morte, a mentira, o erro – o limite – inaugurando a ordem humana imperfeita. Lua aparece como uma figura desastrada que faz errada as mesmas ações de sol e fracassa. Exceção ao clássico, contudo o mais importante, episódio da morte da mãe do par de demiurgos (ALVARES; 1992, p.201).

Anexo 21a) Sol desejava fazer uma roça. Fala então a seu irmão mais velho, Lua , que ele andara até o meio do caminho do céu e sentar-se-á. E quando seu irmão o vir sentado deverá fazer uma grande roça para ele. Sol assim fez e, quando Lua o viu sentado no meio do céu, foi até a mata e derrubou várias árvores grandes, abrindo uma enorme clareira. Somente quando Lua acabou seu trabalho, Sol continuou seu percurso até chegar à terra. Foi até onde Lua havia limpado o terreno e falou: Está bom. Vou plantar muitas coisas. Aqui nascerá qualquer semente: milho, amendoim, mandioca, etc. Sol plantou as sementes. No dia seguinte, tudo havia nascido. Sua roça estava grande e bonita. Lua, vendo a roça de Sol, desejou também uma para si e fez a mesma proposta ao irmão. Quando chegou a noite, Lua andou pelo caminho do céu e sentou-se. Quando chegou ao meio, Sol foi para mata,

mas Lua não esperou que seu irmão terminasse o trabalho e o prosseguiu. Sol apenas derrubou as árvores menores, deixando as grandes no meio do terreno. Na manhã seguinte, quando Lua veio olhar a roça, encontrou-a cheia de árvores e não pode plantar (ALVARES; 1992, p.201/202).

Anexo 21b) Outra versão mais elaborada do mesmo episódio:Um dia Sol foi até sua roça, colheu um cacho de bananas verdes e levou-o para sua casa. Pendurou-o no telhado e esperou até que as bananas amadurecessem. Quando elas ficaram maduras ele as levou até o cominho das formigas cabeçudas – “Munihim” – e colocou-as no meio do caminho. Falou à “Munihim”: Comam todas estas bananas e, quando eu estiver sentado no meio do caminho do céu, vocês vão até a mata e cortem muitas árvores porque eu quero fazer uma grande roça. Naquela época não havia facão nem machado. Portanto era muito difícil derrubar árvores para plantar. “Munihim” assim o fizeram. Comeram toda banana e foram para mata esperar o Sol sentar-se no meio do caminho. Quando o viram sentado no céu, cortaram várias árvores e abriram uma enorme clareira. Quando “Munihim” acabaram, Sol continuou seu percurso até descer a terra e foi olhar o terreno. Há! Está bom! Vou plantar muitas sementes e varas de mandiocas aqui. Ele plantou as sementes e, no dia seguinte, sua roça estava grande e bonita. Seu irmão Lua viu sua roça e também desejou uma para si. Foi procurar Sol e disse: Sol você mamou do meu leite! Ou seja , veio depois de mim, mamou o leite da minha mãe, é meu irmão caçula. ( Esta é um expressão usada pelos Maxakali para designarem seus irmãos mais jovens.) Ensina-me como fazer uma roça grande! Sol o ensinou como fazer. Lua foi a sua roça, pegou um cacho de bananas verdes e levou-o até sua casa, pendurou-o no telhado e esperou que as bananas amadurecessem. Quando estavam amarelinhas, Lua as levou até o caminho de “Munihim” e disse-lhes “Munihim” comam todas estas bananas e quando eu estiver sentado no meio do céu vão até a mata e cortem muitas árvores grandes pois eu quero fazer uma roça.”Munihim” novamente assim o fizeram. Comeram todas as bananas e foram para mata esperar Lua sentar-se no céu. Quando Lua sentou-se no alto, na terra “Munihim” começaram a cortar as árvores. Lua, quando viu “Munihim” trabalhando, gritou-lhes: “Munihim” esperem. Não cortem as árvores agora. Quando eu chegar a minha casa, de manhã cedo, vocês trabalham. “Munihim” voltaram para sua casa e não cortaram mais árvores para o Lua. Lua continuou

o seu caminho após falar com “Munihim”e, na manhã seguinte veio ver o seu terreno. Nenhuma árvore havia sido cortada e ele não pode plantar (ALVARES; 1992, p.202/203). Anexo 21c) Sol desejou descer à terra. Transformou-se em uma pena de gavião e desceu devagar, pousando no chão suavemente. Lua o viu descer e desejou também vir a terra desta forma. Foi procurar o irmão e disse: Sol, você mamou do meu leite. Ensina-me como fazer a descer a terra! Sol o ensinou como fazer. Mas Lua não entendeu direito e transformou-se em uma fruta que caiu rapidamente, espatifando-se no chão. Quando caiu a fruta fez um barulho que atraiu a cutia, que veio correndo comê-la. Mordeu-a e Lua gritou: Ai! Não me come não! Sou eu! (Estes episódios que narram as desventuras de Lua sempre terminam com muitas risadas e zombarias dos fracassos de Lua) (ALVARES; 1992, p.203/204).

Anexo 21d) Sol desejou tomar banho. Foi então a beira do rio. Empurrou com o pé uma tartaruga que ficou rodando num redemoinho formado pelo rio. Sol entrou no rio e banhou- se. Lua, novamente observava o irmão e desejou banhar-se também. Repetiu-lhe o mesmo pedido: Sol você bebeu do meu leite, ensina-me como tomar banho. Sol explicou-lhe como fazer e Lua foi até a beira do rio. Chegando lá empurrou a tartaruga com o pé, como havia ensinado o irmão. Contudo, quando entrou no rio mandou-a para longe, insultando-a. A tartaruga foi nadar bem longe de Lua. Enquanto ele tomava banho a água ficou brava – “yngãn” – e transformou-se em uma cascata que arrastou Lua correnteza abaixo. Ele tentava sair da água mas ela o jogava novamente para dentro, rodando como acontecera com a tartaruga.

Lua consegue safar-se. Ele tem uma idéia para tomar banho. Transforma-se em uma formiga cabeçuda – “Munihim” – e morde com força um galhinho de árvore que boiava na beira do rio. A água do rio, com raiva, o encobria, mas o galho voltava a boiar novamente. E assim, Lua foi descendo o rio até atingir os igarapés. Lua solta então o galhinho e levanta-se, saindo do rio sem problemas. Esta foi a única vez que Lua saiu-se bem (ALVARES; 1992, p.204/205).

Anexo 21e) Sol e Lua moravam juntos com a mãe. Um dia ela morreu e Sol enterrou o corpo debaixo de uma árvore. Abriu uma cova rasa, cobriu-a apenas com a terra e voltou para casa. Quando chegou em casa, sua mãe saiu de dentro da cova e seguiu o filho. A mãe do par de demiurgos morreu outras vezes, e sempre Sol a ressuscitava da mesma forma – enterrando seu corpo em uma cova rasa. Numa destas mortes Sol deu o corpo para que seu irmão Lua o enterrasse e o recomendou para que o fizesse em uma cova rasa. Lua levou o corpo para o mesmo lugar em que Sol sempre o enterrava. Cavou, contudo, uma cova bem funda, e jogou o corpo e o cobriu com terra socada. Colocou uma pedra por cima e falou para sua mãe: Agora você morreu de verdade. Não volte mais! Lua voltou para casa e encontrou Sol que esperava pela mãe. Sol ficou muito triste quando soube o que fizera seu irmão. Chorou por sua mãe e decidiu vingar sua morte.

Um dia, quando Lua foi a mata olhar as armadilhas que colocara, Sol segui-o de longe e ficou a espreita do irmão. Aproveitando quando este abaixou-se para desarmar uma armadilha, Sol transformou-se em um jaguar – “hãngãy”- e pulou nas suas costas, quebrando-lhe o pescoço. Comeu toda sua carne. Sol devorou uma parte do corpo de Lua até encher seu estômago. Foi até o rio e vomitou a carne ingerida, a qual foi levada pelas águas. Voltou ao corpo para comer outras tantas vezes. Quando a carne de Lua acabou, o jaguar triturou os seus ossos, sempre voltando ao rio para vomitar o que tinha devorado. Por fim lambeu todo o sangue que escorrera e molhara as folhas e a terra. Quando não restava mais nada do irmão Sol sentou-se no meio do caminho do céu. Imponente e desafiado, ainda como um jaguar, dizia ao irmão: Agora você acabou. Não volte mais. Mas um pequeno fio de sangue que ficara escondido sob a folha seca, permitiu a Lua ressuscitar. Lua voltou pelo caminho do ceou ao encontro do Sol. De longe Sol viu o irmão chegando e sentiu pena porque ele estava amarelo(?). Decidiu que não iria mata-lo novamente.

Lua aproximou-se de Sol (que já não estava mais como um jaguar) e queixou-se com ele: Um jaguar me matou, comeu todo meu corpo e você não foi me socorrer. Sol respondeu: Eu não vi. Você não gritou. Se o tivesse feito, eu teria escutado e iria socorre-lo. Lua retrucou: mas o jaguar quebrou meu pescoço. Eu não pude gritar. E assim Lua voltou novamente a morar com Sol (ALVARES; 1992, p.205/206).

No documento alencarmirandaamaral (páginas 183-187)