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Nas lições de Costa e Francischetto, a teoria do conhecimento aponta três formas de saber como meios para explicar os fenômenos do mundo e da vida, quais sejam: a teologia, a filosofia e a ciência. Entretanto, na modernidade, houve o rompimento com as explicações teológicas e filosóficas, colocando a forma de saber científica em supremacia. Essa modernidade tem como característica evidente uma racionalidade calcada na razão humana, ou seja, rompe-se com o modelo anterior, o pré-moderno, e se estabelece como fim último o homem e o atendimento às suas necessidades. Passou-se a uma busca incansável pela verdade, mas não qualquer verdade, senão a verdade advinda da ciência, considerada como sendo a única capaz de dar uma resposta satisfatória às angústias humanas. Passou-se, pois, a cientificizar o mundo, uma vez que as respostas para todas as perguntas só poderiam ser encontradas dentro do saber científico. A esse paradigma dá-se o nome de positivismo, que no direito se desdobra no positivismo jurídico.338

337 GONZALEZ, Wenceslao J. Novelty and Continuity in Philosophy and Methodology of Science. In:

GONZALEZ; ALCOLEA, 2006.

338 COSTA, Lucas Kaiser; FRANCISCHETTO, Gilsilene Passon Picoretti. Neutralidade Científica e Ciência Jurídica: as disfunções do paradigma positivista e suas influências no direito. Confluências, Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito, Niterói, v. 20, n. 3, pp. 57-72, 2018. p. 58.

Segundo Costa e Francischetto, como forma de justificar a dominância do saber científico de modo a reduzir a possibilidade de questionamentos, o positivismo cientificista traz como uma de suas características marcantes a neutralidade, ou seja, independentemente da subjetividade do investigador, os procedimentos científicos obtêm seus resultados, uma vez que para essa forma de conhecimento a verdade está sempre no objeto, cabendo ao pesquisador a única tarefa de descobrir.339 Entretanto, a “sobredita neutralidade é inexistente, vale dizer, não passa de um mito. E isso porque, assim como ocorre com as demais formas de saber, também na ciência suas reflexões e seus procedimentos são sempre parciais, existenciais, contextuais.”340 E continuam:

São, portanto, sempre frutos de escolhas. Dito de outro modo, o caminho que se trilha através da ciência, enquanto instrumental, na busca pela verdade, depende de escolhas feitas por quem dela se vale; escolhas essas que variam de acordo com cada indivíduo, seu contexto, seu aspecto existencial, entre outros. E é exatamente essa parcialidade que nega a neutralidade científica.341

Sob essa perspectiva, o direito é visto como um processo neutro, em que a produção jurídica acadêmica aborda as temáticas por ela defendidas com voz de autoridade, embasado na suposta neutralidade científica, negando a frequente marginalidade do direito, ignorando o constante jogo de classes e negando as bases frágeis da literatura jurídica.342

No campo jurídico, o próprio conceito de cientificidade aplicada ao direito se trata de uma condição necessária para que se possa considerar a existência de uma pesquisa científica.

O conceito de cientificidade aplicado ao direito surge a partir da afirmação da possibilidade de que um sistema de regras possa ser compreendido de forma sistemática.343 Entretanto, é importante o afastamento da tese positivista da neutralidade científica, que não existe, mas

“no entanto, penetrou nas ciências sociais exercendo uma grande influência que ultrapassa o campo estritamente positivista.”344

No entanto, é importante mencionar que o direito possui forte influência do positivismo. Isto porque, mesmo antes do período de formalização das ideias positivistas pelo

339 COSTA; FRANCISCHETTO, 2018, p. 58.

340 Ibid., p. 58.

341 Ibid., p. 58.

342 TRUBEK, David M.; ESSER, John. “Empirismo Crítico” e os estudos jurídicos norte-americanos: paradoxo, programa ou caixa de Pandora? Revista de Estudos Empíricos em Direito Brazilian Journal of Empirical Legal Studies, vol. 1, n. 1, p. 210-244, jan. 2014. p. 214.

343 VERONESE, Alexandre. Pesquisa em direito. Enciclopédia jurídica da PUC-SP. In: Celso Fernandes Campilongo, Alvaro de Azevedo Gonzaga e André Luiz Freire (coords.). Tomo: Teoria Geral e Filosofia do Direito. 1. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2017. Disponível em: Disponível em:

<https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/141/edicao-1/pesquisa-em-direito>. Acesso em: 30 ago. 2019.

344 CHAGAS, Bárbara da Rocha Figueiredo. Positivismo e marxismo: o debate sobre a neutralidade científica e a construção do projeto profissional do Serviço Social brasileiro. Serviço Social Revista, Londrina, v. 17, n.2, p.169-186, jan./jun., 2015. p. 174.

francês Augusto Comte (1798-1895), conhecido como pai do positivismo, tais concepções já estavam difundidas na sociedade.345 Inclusive, “O positivismo esteve presente de forma marcante no ideário das escolas e na luta a favor do ensino leigo das ciências e contra a escola tradicional humanista religiosa. O currículo multidisciplinar – fragmentado – é fruto da influência positivista”.346 Ocorre que a ciência em si não é a única fonte de conhecimento, como apregoava o positivismo.

Nesse sentido, Boaventura de Sousa Santos traça que a hermenêutica crítica tem como marco inicial “analisar a ciência que se faz para que seja compreensível e eficaz a crítica da ciência que se faz, do mesmo modo que uma teoria crítica tem de começar por analisar a sociedade que existe para que seja compreensível e eficaz a crítica da sociedade que existe”.347 Nessa linha, ele conclui que:

Tabela 5 - Conclusões de Boaventura de Sousa Santos sobre a hermenêutica

CONCLUSÃO

1 Todo conhecimento é em si uma prática social, cujo trabalho específico consiste em dar sentido a outras práticas sociais e contribuir para a transformação destas;

2 Uma sociedade complexa é uma configuração de conhecimentos, constituída por várias formas de conhecimento adequadas às várias práticas sociais;

3 A verdade de cada uma das formas de conhecimento reside na sua adequação concreta à prática que visa constituir;

4 A crítica de uma dada forma de conhecimento implica sempre a crítica da prática social a que ele se pretende adequar;

5 A crítica de uma dada forma de conhecimento não se pode confundir com a crítica dessa forma de conhecimento, enquanto prática social, pois a prática que se conhece e o conhecimento que se pratica estão sujeitos a determinações parcialmente diferentes.

Fonte: Autora com dados extraídos de SANTOS, 2010, p. 51.

A partir de uma visão crítica, Santos investiga como construir o conhecimento e a forma como este é apresentado, rompendo com o positivismo e sua falsa pretensão de neutralidade. Naturalmente, o cientista, por sua própria natureza humana, trata da pesquisa de maneira imparcial, todavia não pode ser neutro. Tem-se uma retomada dos valores éticos na

345 ISKANDAR, Jamil Ibrahim; LEAL, Maria Rute. Sobre positivismo e educação. Revista Diálogo Educacional, Curitiba, v.3, n.7, p. 89-94, set./dez. 2002.

346 ISKANDAR; LEAL, 2002, p. 3.

347 SANTOS, Boaventura de Sousa. Introdução a uma ciencia pós-moderna. 5 ed. São Paulo: Graal, 2010. p. 51

ciência jurídica. Não apenas o Direito, mas todas as ciências humanas e sociais passaram a valorar o seu objeto de pesquisa, posto que a neutralidade trouxe consigo complicações e abstrações que, muitas vezes, ocasionaram prejuízos sociais, intelectuais, ambientais, humanos, entre outros.

No caso específico do Direito, essa transposição da lógica positivista para o mundo jurídico, por meio da cientificização do direito, trouxe consigo os problemas a ela inerentes, tais como os seus mecanismos de dicotomia científica, convertendo a dicotomia do verdadeiro/falso no binômio legal/ilegal, lícito/ilícito, tão utilizado pelos operadores do Direito.348

Para Costa e Francischetto:

Na modernidade349, a ciência passou a exercer papel de primazia no que diz respeito às constatações da verdade e da falsidade acerca das coisas do mundo, em detrimento das demais formas de saber. Verificou-se, assim, a partir da racionalidade moderna, a supremacia do conhecimento científico. A cientificização do mundo, por sua vez, influenciou os demais campos do conhecimento, dentre os quais o próprio direito; advém, daí o positivismo jurídico. Ocorre, porém, que as características inerentes à ciência – dentre as quais, a neutralidade –, a partir da complexificação das relações sociais, passaram a se mostrar insuficientes para oferecer repostas às demandas dessa mesma sociedade, o que levou ao esgarçamento das disfunções desse paradigma positivista.350

Dessa forma, tem-se que a neutralidade do cientista social é inalcançável, uma vez que seu objeto de estudo, diferente das ciências naturais, está situado no campo das relações sociais, sendo estudado e analisado sob concepções de sociedade diversas e antagônicas.

Portanto, ao(à) pesquisador(a) é impossível ignorar os conflitos ideológicos e afastar seus (pré)conceitos, de modo que a eliminação das ideologias próprias do(a) cientista social para a realização da pesquisa é uma proposta positivista que não se concretiza no campo prático.351

Assim, segundo Japiassú, a epistemologia atual reconhece que “a” ciência não existe mais, existem “as” ciências. Inclusive, ele entende que talvez fosse mais adequado falar de práticas científicas, porque “a” ciência é uma tese idealista e abstrata. Já quando se fala em práticas científicas, remete-se à “significação” da ciência, ou seja, a ciência enquanto prática humana;352 posicionamento com o qual corrobora.

348 COSTA; FRANCISCHETTO, 2018, p. 59.

349 Segundo Santos, “A relação entre o moderno e o pós-moderno é uma relação contraditória. Não é de ruptura total como querem alguns, nem de linear continuidade como querem outros. É uma situação de transição em que há momentos de ruptura e momentos de continuidade.” SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: O social e político na pós-modernidade. 4. ed. São Paulo: Cortez, 1997. p. 102-103.

350 COSTA; FRANCISCHETTO, op. cit., p. 57.

351 CHAGAS, 2015, p. 173.

352 JAPIASSU, Hilton. O mito da neutralidade científica. Rio de Janeiro: Imago,1981. p. 22.

2.4 INTERCULTURALIDADE, TENDÊNCIA ATUAL DA PRODUÇÃO DO