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CAPÍTULO II – MÍSTICA DA LINGUAGEM

2.5 MITOS E SÍMBOLOS

O que os místicos procuram é a expansão do significado pela utilização de símbolos da experiência religiosa, pois “toda expressão religiosa é simbólica e não existe sem o símbolo: um dado que abre caminhos e orienta”17, porém “símbolos, por sua própria natureza, servem para descrever uma experiência que em si carece de expressão.”(SCHOLEM, 1988, p. 31) A linguagem funciona aqui como uma espécie de subversão à própria impossibilidade de expressão. Em lugar de uma imobilidade a que os textos poderiam ser submetidos por carecer de expressão, são alçados à condição de símbolos. Por meio da interpretação dos textos sagrados, o misticismo descobre novos significados e profundidade internos à tradição. “A riqueza de significado que eles parecem irradiar empresta nova vida à tradição, sempre exposta ao risco de ficar congelada em formas mortas – processo esse que prossegue até que os símbolos morram ou mudem.”(SCHOLEM, 1988, p. 32) Dessa forma, a vitalidade dos símbolos religiosos pode ser mantida, insuflando novos significados no interior do conservadorismo religioso. Para os cabalistas, a linguagem é simultaneamente o alvo e a flecha, isto é, o meio pelo qual transcendem, mas também a meta a ser atingida porque parte da expressão divina.

É por isso que Scholem (1989, p. 5) assim define os cabalistas como “os principais simbolistas do judaísmo rabínico. Para a Cabala, o judaísmo em todos os seus aspectos era um sistema de símbolos místicos que refletiam o mistério de Deus e o universo, e a meta dos cabalistas era descobrir e inventar chaves para a compreensão desse simbolismo.” Precisamente - e diferentemente de outros misticismos - a Cabaláh judaica procura essas chaves de compreensão do divino e sua relação com a criação dentro do universo da linguagem. Não se trata de alegorias, por meio das quais se fala uma coisa querendo dizer outra em linguagem figurada, pois

o alegórico pode ser sempre expresso por um outro modo diferente, é sempre traduzível, sempre relacionável a uma outra coisa existente no mundo. Fato diferente ao observado nos símbolos que dizem respeito aos fatos que se revelam e comunicam, não em si mesmos, mas exclusivamente na transparência em outros objetos, em outros fatos.

17 CROATTO, José Severino. As Linguagens da Experiência Religiosa: uma introdução à fenomenologia

Os símbolos não podem ser traduzidos. Eles expressam algo que não é exprimível, que se esquiva da comunicação lingüística de forma direta. Nos símbolos dos místicos transparece um mundo de transcendência, que está oculto o tempo todo à nossa linguagem. Um simbolista, nesse sentido exato, é uma pessoa para a qual o mundo se torna transparente em sua interioridade fechada e para a qual surge da realidade das coisas algo de inexprimível, algo que não poderia aparecer em si mesmo, algo de divino. (SCHOLEM, 1999, p. 72-73)

Paradoxalmente, é no mundo da linguagem que os cabalistas encontraram o instrumento de expressão mais rico – de certa forma infinito – em significações ou transignificações além ou por trás de seu sentido primário (CROATTO, 2001, p. 87), por meio da produção ilimitada de seus mitos, para expressar o inexprimível. Como bem precisou Max Müller18:

tudo a que chamamos de mito, é (...) algo condicionado e mediado pela atividade da linguagem: é, na verdade, o resultado de uma deficiência linguística originária, de uma debilidade inerente à linguagem. Toda designação lingüística é essencialmente ambígua e, nesta ambigüidade, nesta ‘paronímia’ das palavras, está a fonte primeva de todos os mitos.

Nessa brecha aberta pela ambigüidade da linguagem é que reside a fonte fértil da qual sorvem os místicos da Cabaláh o néctar de sua hermenêutica lingüística. Seja na produção de seus novos textos interpretativos ou mesmo nos mitos criados em torno das personagens a que os mestres foram elevados por seus discípulos – sobretudo na Cabaláh produzida pelo movimento chassídico –, observamos que uma “mitologia, no mais elevado sentido da palavra, significa o poder que a linguagem exerce sobre o pensamento, e isto em todas as esferas possíveis da atividade espiritual.19” É nesse aspecto, diz Müller, que a mitologia é a “obscura sombra que a linguagem projeta sobre o pensamento”20.

18 Citado por CASSIRER, Ernst. Linguagem e Mito. Trad. Jacob Guinsburg e Miriam Schnaiderman. São Paulo, Perspectiva, 2003, p. 18.

19 Idem, p. 19. 20

Se o poder de transcendência observado nos mitos simbólicos repousa costumeiramente sobre objetos ou sacerdotes21, no caso da Cabaláh ele se encontra na linguagem. “A religião se nos apresenta como um certo tipo de fala, um discurso, uma rede de símbolos”22. Isto não quer dizer, em absoluto, que os símbolos religiosos do judaísmo sejam desprezados pelos místicos cabalistas, porém não se comparam ao poder que a linguagem exerce, porque, em sua interpretação, esta pertence à ordem do divino e tem por finalidade religar criatura e Criador; o que remonta à etimologia grega de símbolo (sun- ballo ou syn-ballo), conforme Croatto (2001, p. 85-85), referida como a união de duas coisas ou dois objetos, que eram quebrados em duas partes no ato de celebração de um contrato que, uma vez reunido, tinha por mérito o reconhecimento de uma amizade que permanecia intacta.23

O símbolo religioso representa e celebra uma ausência, algo que não pode ser explicado em palavras simples, algo que precisa ser completado com a experiência do sagrado ou da transcendência (CROATTO, 2001, p. 117). Assim, é possível aproximar-se do Sêfer Yetsiráh, um livro que narra o mito da criação a partir da utilização da linguagem como acontecimento originário, no qual Deus age para dar sentido a uma realidade significativa, à sua própria criação em um tempo primordial, a-cronológico, lugar onde “há uma primordialidade pré-cósmica, sem história, que antecede a cosmogonia. É a primordialidade que supõe Gn 1,1 ao situar-se in illo tempore com a expressão be’reshit.” (CROATTO, 2001, p. 213)

Nesse livro enxerga-se a força que uma linguagem originária adquire, semelhante à descrição que nos faz Croatto (2001, p. 216) de um interessante mito indígena dos m’byá-guarani do Paraguai que “designam suas histórias sagradas: palavras formosas primeiras (ñe ‘ê porá tenondé)”; ou, em um modelo cosmogônico similar à tradição bíblica do Gênesis pertencente aos maoris da Nova Zelândia, que Croatto (2001, p. 230) recupera de Eliade: “E começou a pronunciar estas palavras,

21 CROATTO, José Severino. As Linguagens da Experiência Religiosa: uma introdução à fenomenologia

da religião. Trad. Carlos Maria Vásquez Gutiérrez. São Paulo, Paulinas, 2001, p. 53. 22 ALVES, Rubem. O que é Religião? São Paulo, Edições Loyola, p. 25.

23 Até hoje o ato de uma cerimônia de noivado, ou compromisso judaico, é marcado pela quebra de um prato entre as mães do noivo e da noiva. Selam a relação de confiança entre as duas famílias e o compromisso simbólico assumido, que tem valor até maior que o próprio casamento.

deixando de permanecer inativo: ‘Que as trevas sejam trevas dotadas de luz’ e de repente apareceu a luz.”

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