CAPÍTULO 5 – INIMIGOS E OUTRAS GENTES
5.1. Mihua e awatea
5.1.1. Mitos
Ouvi a história a seguir em 2016, em Pindaré-Mirim. Itaxĩaa passou um tempo comigo e Flávia em casa, fazendo algumas traduções e trocando algumas lições de awa e português conosco. Certa noite estávamos folheando um livro com uma coletânea de mitos indígenas (MINDLIN, 2001) e chamou a atenção de Itaxĩa o início de um mito tupari, narrado à Betty Mindlin em 1989 por Konkuat Tupari. O mito narra a o começo da humanidade, quando havia apenas um homem, Toba, e sua esposa. Um dia, Toba percebe que sua colheita de milho estava desaparecendo e fez uma tocaia para espiar a cutia, de quem desconfiava como autora dos saques. Toba então descobriu que não era a cutia, mas gente que debaixo da terra esticava a mão para pegar o milho. Havia um buraco tampado por uma rocha que permitia que essas pessoas colocassem a mão para fora. Toba levantou a rocha e, segurando-a, permitiu que as pessoas saíssem. Assim elas são descritas:
As pessoas foram saindo. Tinham mãos de pato, com os dedos grudados. Eram horrendas, diferentes das de hoje, com chifres, queixos protuberantes, narizes compridos e dentes aguçados, salientes. Iam saindo com todos os seus pertences, cestas, colares, arcos e flechas. Vinham fazendo barulho, brigando para ficar cada uma com mais milho que a outra (MINDLIN, 2001, p. 14).
O mito prossegue com a saída daqueles que dariam origem aos tupari e aos brancos, povoando a terra. O que, particularmente, chamou a atenção de Itaxĩa foi a descrição das pessoas do mundo subterrâneo, pois os Awa também conheciam histórias sobre pessoas com mãos de pato, dedos grudados, chifres etc. Essas pessoas viveram em tempos muito antigos, no tempo dos awatea. Ele passou, em seguida, a contar sobre esse tempo.
Aprensentarei em seguida o relato transcrito, que revelam detalhes da vida dos Awa antes da entrada dos karai em cena e quando ainda conviviam com os mihua. Itaxĩa lembrou primeiro de Hary Irakajaraxa'amỹ. Ele morava em uma casa muito grande, de algumas centenas de metros. Era uma casa de madeira, com piso e janelas. Naquela época, havia sempre o perigo de um conflito com os kamara, mas Hary Irarakajaraxa'amỹ protegia a sua família na casa. Os kamara tinham mãos de tatu, papagaio, tucano e jacaré. Eles apareciam e atacavam a casa, mas a família do awatea não era atingida. Alguns kamara também tinham asas, outros pareciam-se com lontras. Eles também tinham espingardas. Hary Irarakajaxa'amỹ saiu um dia para caçar e
não voltou mais. Ninguém sabe se ele foi mortou ou se ainda está no mato. Naquele tempo não havia karai, apenas kamara. Eles queriam matá-lo, mas não conseguiram. Segundo Itaxĩaa, o mais bonito dessa história, que transcrevo a seguir, é que “a família dele não morreu e ele matou os kamara”.
Meu avô Xipaxa'a contava para mim. Os kamara gostavam de ficar no rio, onde ainda tem o rio. O tucano avisava sobre o pássaro que eles matavam. O jacu avisava também. Agora não. Hoje em dia a gente não sabe o que o pássaro está cantando, acha que é só zoada. Papagaio, jacupemba, jakumixĩ. Por exemplo, se chegássemos hoje, fizéssemos tapiri, o tucano avisaria e o parente ficaria escabreando. Então nós vamos encontrar alguém, o kamara vai encontrar a gente. Aí, no outro dia, o kamara atacava.
Como ele [Hary Irarakajaxa'amỹ]134 não podia sair de casa... ele tinha, parece, duas mulheres. Aí ele levou a mais nova. Quem fica em casa é a mais velha, com o menino dele e com o cachorro dele. Ele tinha pegado peixe. “Ah, eu vou dar uma caçada, para onde nós vamos seguir, lá para onde a gente vai, se tiver movimento eu vou voltar e a gente volta para trás”, ele foi dizer para a outra mulher. “Ah, então tá bom” [respondeu a mulher]. A mulher ficou na casa dele. Aí ele foi. Os kamara sabiam também. Por exemplo, não tem índio por perto. Não canta nada, nem pássaro. Quando tem gente por perto, os bichos todos cantam.
Aí ele foi caçar. [Os kamara] encontraram uma índia e mataram a índia. Ainda mais, flechou o cachorro, o cachorro lá dela. Eram cinco na família: duas meninas e três meninos. Aí como o cachorro era meio difícil para matar, ele foi flechado e foi atrás do dono. O cachorro latia, uivava, tipo assim, avisando, pedindo socorro. “Rapaz! Será que aconteceu alguma coisa em casa?” Aí ele desviou do caminho e já veio o cachorro com a flecha para ele. Aí ele reconheceu a flecha dos kamara. Foi kamara que matou ela. Aí eles mataram ela, comeram ela, partiram ela, assaram ela e espetaram o meninozinho e a meninazinha. Deixaram a cabeça enfiada nos paus. Assaram a banda da mulher dele e levaram os outros pedaços. Aí ele se zangou. É difícil achar os parentes como agora. Como ele não flechou, não matou. Comeram a família dele aqui. Tinha farinha, derramaram no chão, tinha arroz e feijão. Ele se zangou e foi seguindo. Os kamara estavam como daqui para Santa Inês135, no
barco deles. Aí ele foi seguindo, seguindo, seguindo. Foi catando caroço de arroz, de feijão e prato de plástico.
Aí ele voltou para fazer feitiço (makwaha). Ele não é do mal. Por exemplo, se a gente, como ele, perdeu a família... ele tem que fazer alguma coisa! Ele juntou caroço de arroz, feijão, farinha, botou na folha, cavou buraco e deixou por lá. Parece que depois de três semanas ele se afastou e foi embora, passar um dia para lá. Aí depois ele voltou. “Então bora lá para onde nós estávamos”. Porque assim, a gente vivia no mato, comendo babaçu, coco e farinha. [É] difícil a gente largar isso. Aí foi obrigado a voltar para comer babaçu. Ele viu o caminho. Não tinha mais caminho dos kamara. Ele arrodeou todinha a casa.
134 Ao longo do relato, Itaxĩa refere-se ao personagem principal sem mencionar seu nome. 135 Distância de cerca de 9 km.
As casas estavam todas caídas, virou mato. Aí ele viu facão. Ele achou bom conseguir fazer isso. Aí ele levou facão, panela, prato, as coisas todas. Ele avisou para a mulher dele. “Morreu”. A mulher não acreditou não. “Como é que eles morreram de repente?” Ele não falou nada para a mulher dele. Aí eles sossegaram. Aí demorou um pouco e apareceram outros kamara de novo. Aí o outro kamara... não sei se eles atravessaram o rio. Aí tem outro filho com outra mulher. Aí ele esqueceu a outra mulher que ele tinha. Pa!136
No mito encontra-se uma descrição da feitiçaria, makwaha. Hary Irarakajaxa'amỹ tem sua família morta pelos kamara antropófagos e realiza sua vingança com a feitiçaria. O feitiço é feito de restos de alimentos da sua vítima embrulhados e enterrados. Há sempre o risco de, ao deixar restos de alimentos pela mata, que algum feiticeiro os recolha e os use para fazer makwaha. O makwaha, no entanto, não é imputado apenas a uma ação guerreira, a vingança entre inimigos, mas também como uma vingança pelo desrespeito a um comportamento inadequado em relação à divisão dos alimentos e da ocupação do território, como será descrito na continuação da história contada por Itaxĩaa. O enredo se passa em uma “aldeia na mata” (Garcia, 2010, p. 49), um lugar onde os Awa que circulam por vários hakwaha, caminhos, se encontram e caçam e coletam frutos juntos, sendo também um espaço de trocas entre os grupos (O’DWYER, 2002, p. 67).137
Ele138 se acostuma. Ele matou outro parente, mihua. Aí ele vai indo, vai indo,
vai indo. Aí ele encontra mihua. Aí ele não pode fazer nada. Como eles viviam no mato, tudo junto. Cada um num canto. Aí ele fala: “vou conversar com
mihua”. Ele era gente também, era índio também. Eles aceitaram. “Tu vai
fazer teu barraco onde?” [disseram os mihua]. “Ali”, [respondeu ele]. Um pouco distante. A gente sabe que não pode, não é certeza de se aproximar. Eles são meio... um pouco... inimigos. Eles [os Awatea] ficaram. Era tempo do pequi. Aí ele foi caçar. Como eu estava falando, ele não queria fazer mal com ninguém. Como o outro mihua139 que fez mal com ele, com a mulher dele.
Aí eles ficaram, ficaram e a mulher adoeceu. No tempo do pequi, a mulher do
mihua ia cedo pegar o pequi. Levava tata140para poder pegar antes dos outros. Aí quem acordava tarde, quando ia não tinha mais pequi debaixo do pé. Aí ele chegou, conseguiu matar capelão e macaco141. Ele chegou em casa e pegou capelão. Falou para a mulher: “O que nós vamos comer hoje? A carne já tem.
136 “Acabou!”.
137 Cf. Otto (2016) para uma discussão sobre a relação entre a aldeia e a mata, tendo como referência a organização
sazonal das atividades dos Awa.
138Itaxĩa novamente não menciona o nome do personagem principal da história. 139Itaxĩa refere-se aqui aos kamara como mihua.
140 “Fogo, luz”.
141 O capelão não é considerado pelos Awa como uma espécie de “macaco”. Para uma etnografia da
Cadê a mistura?”. A mulher respondeu: “Não, nós chegamos lá tinha e tinha os parentes, com marakõa142”. Ela continuou: “Voltaram cheios de peras. Trouxemos só três. Está aí!”. Estava duro, não estava cozido. O pequi é assim: ele cai de noite, cai no chão e fica mole. Mas, se ele cai duro, fica duro. Aí corta aqui para quebrar e fica a casca dura, com gosto ruim, amargo. “Então tá bom, deixa para amanhã”. Comeram capelão e fígado de capelão. Aí ele falou com a outra, se juntou com a outra mulher. Eles conversaram: “Então vamos fazer assim: vamos sair cedo para pegar, senão a mulher do mihua vai pegar de novo”. Aí eles aceitaram. “Então tá”.
Aí no outro dia de manhã eles acordaram e foram buscar pequi. Conseguiram o pequi e o marido foi caçar. Ele disse: “Vamos fazer assim, quem acordar primeiro vai buscar o pequi”. Amanheceu e eles já foram. A mulher do awa chamou a outra de amỹ. “Não, amỹ, eu vim mais cedo, vou levar”. “Ah, então tá bom”.
Ia começar uma briga. Outro mihua estava gostando da mulher dele e queria ficar com ela. Aí a outra mulher dele falou que não dá mais para ficarem tranquilos. “Para onde nós vamos?” “Não sei, a gente vê amanhã cedo”. Aí ele se aproximou da mulher dele. Aí ele viu. “Se eu não deixar ele ficar contigo vão me matar, então vamos embora!”. Aí amanheceu. Aí eles começaram a arrumar as coisas. A mulher do mihua pediu para a mulher do Awa: “Awa tem que ficar, não sei que, para onde que eles vão...”. “Não, amỹ, não dá para eu ficar aqui, eu tenho que caçar outro rumo”. Aí ela disse: “então tá bom”. Ela disse que ela não ia conseguir chegar lá. A mulher do mihua também sabe
makwaha. No meio do caminho, as duas mulheres adoeceram. A outra passou
mal, com diarreia. Estavam cuidando dela. Ela não sabia, achou que era uma doença que tinha pegado de repente. Deram remédio do mato para ela. Tiraram casca de sapucaia, caju, outros remédios do mato. Até ela ficar bem. Depois se esqueceram, foram embora para lá e voltaram. “Ah, esse pequi está botando de novo!” Eles pensavam que o mihua tinha ido embora. “Não sei se os parentes foram embora”. Eles não foram embora, estavam lá. Depois que ele voltou, primeiro sozinho, viu o caminho do mihua. Falou para a mulher dele: “O mihua não foi embora não, tá aí”. “E aí, o pequi está caindo?” A mulher disse: “tá!”. Aí foi de novo falar com ele. O mihua disse para ele vir para a aldeia. Ele disse que não: “vou ficar aqui mesmo”. [Naquele tempo] tinha aldeia. Aí ele [o mihua] chamou para o meio da aldeia. Ele disse não. “Vou ficar ali mesmo, qualquer coisa eu vou voltar para o mato”. Aí a mulher chegou lá, a mulher do awa, chegou lá para dizer para ela [a mulher do mihua]: “E aí, amỹ, como é que tá?”. “Ah, graças a deus que eu tô, tô gorda”. Isso quer dizer estava bem, né? Mihua falou para ela: “O que é que você tinha? Tá tudo magro, não sei que”. Aí ela [a mulher do Awa] contou: “Assim que nós saímos daqui nós estávamos mal, cagando na roupa”. Aí ela [a mulher do mihua] até achou graça. Ela [a mulher do awa] não ficou desconfiada não. Pois é... “Quando vocês vieram estavam todos magros”. “E aí, amỹ, o pequi tá caindo”. “Tá aí, tem assado, cozido”. [Os mihua] ofereceram para eles e eles comeram. Ela contou, a mulher do mihua: “Eu pensava que eu estava falando besteira aqui”. “Não, xikari, assim que vocês saíram... aí eu tava falando besteira, dizendo para você que você não ia chegar lá”. Aí eles desconfiaram. A mais velha ficou desconfiada: “Foi amỹ que jogou feitiço em nós”. “Sabe por que?” “Nós trouxemos pequi, mas não demos nenhum para ela, ela ficou com raiva
de nós e fez makwaha”. “Queria matar”. “Não sei, se fosse para botar para matar, tinha matado”. “Então fez leve né”.
“Foi mesmo?”. “Foi, estava só falando besteira aqui”. Chegou à noite, estava noite. Aí lá vem o marido dela de caçar. A mais nova não esconde nada, qualquer coisa vai contando para ele. Arapahanuhũxa'a era o nome dele143.
“Você acredita que nós fomos lá na casa, amỹ144?” “O que vocês foram fazer
lá?”. “Fomos só lá mesmo”. A outra tinha dito: “Não conta para ele o que ela disse para a gente não”. E ela foi e contou mesmo para ele: “Sabe o que ela falou para nós? Ela disse que foi ela que jogou makwaha em nós”. “Hãj?”145
“Hum hum, falou mesmo na nossa cara”. “E foi?”. “E ainda disse que tava falando besteira, que achava que nós não íamos chegar lá, lá na outra área”. Ele não falou nada. Só disse: “Então tá bom”. “Será que vai aguentar assim também a dor com outro? Com o que ela fez?”, [ele pensou]. Aí ele avisou a mulher dele: “Amanhã de manhã você não vai buscar o pequi, tem que deixar ela ir buscar”. Aí a outra mulher disse: “Por quê? O que nós vamos comer?”. “Tem carne aí”. “Mas tem que ter a mistura né?”. “Tem o babaçu, o coco, palmito, aí a gente come carne com isso”. Aí a mais nova ficou teimando: “Eu vou buscar sozinha, se ela não vai, eu vou”. “Eu tô falando sério para vocês não irem”.
Aí ele foi, mais de noite, a mihua. Ela foi juntando pequi. Aí jogou a lagarta lá debaixo do pé de pequi. E a mulher ficou junto, achando bom, pensando que ia levar. Até amanhecer um pouco. Quando o sol saiu, ela ia juntar e pegar o pequi. Escorou ele e matou a lagarta. “Mas o que está escorando aí? Ah, machucou só um pouquinho, vai passar a dor”. Aí foi levando o pequi. Pelo caminho, ela desmaiou. Aquela coisa queimou ela. Quando queima não mata a gente não. Aí, parece que eram 6 horas, ela deixou. Nem levou o pequi. Ficou gemendo, gritando para buscarem ela. Aí o mihua fez todo o remédio para curar e não adiantou. Aí chamou eles: “Haty!146Minha mulher está
passando mal”. “Foi buscar o pequi, diz que é só miruhua147”. “O que foi,
aty148?, [perguntou o Awatea]”. “Não, aty, foi só miruhua que queimou ela
aqui”. “Será que é mira149 mesmo?”. Demorou e o mihua foi chamar de novo. “Vai curar minha mulher? Ela vai morrer mesmo”. Aí falou para ele: “O que eu posso fazer? Não posso fazer nada também não”. Aí ele voltou e disse para os outros: “Ele disse que não tem com curar, que não tem cura”. Mas ele disse: “Não é assim uma coisa grave que esporou ela. Ela vai ficar boa, não vai morrer”. “Se fosse assim uma coisa grave, com muita dor...”. Aí confiaram nele. Aí ele se zangou e jogou mais veneno, mais makwaha nela. Matou a mulher. Mihua não descobriu. Dificilmente descobre. Nem médico descobre. Amanheceu e enterraram ela. Os mihua foram embora e ele ficou por lá. Ele
143 O nome do personagem principal é revelado. Apesar da continuidade entre a primeira e a segunda parte da
história, na primeira parte temos Hary Irakajaraxa'amỹ com personagem principal e na segunda parte Arapahanuhũxa'a. Não fica claro pelo relato e não consegui uma explicação de Itaxĩa se são dois personagens distintos, nomes diferentes para o mesmo personagem ou se há uma transformação de um personagem no outro. No entanto, os demais personagens permanecem os mesmos.
144 Nesse ponto Itaxĩa ressalta que a mulher do mihua é chamada de amỹ devido à sua idade. 145 “É mesmo?”.
146 “Meu parente!” 147 “Lagarta”. 148 “Parente”. 149 “Lagarta”.
não pode fazer mal. Se o mihua recebe bem, ele não pode fazer mal. Se o
mihua recebe mal, ele tem que fazer essas coisas.
Acabou o pequi, ele foi embora. Não foi atrás do mihua, foi pelo caminho. Lá se encontraram de novo. O mihua desconfiou: “O que você acha que matou minha mulher?”. “Será que foi Awa que jogou feitiço nela?”. “Rapaz, não sei, não sei”. “Ah eu vou descobrir!”. Aí indo para lá, eles foram embora. O mihua também. Aí demorou um pouco. Não sei se o mihua que vai assim, não sei se ele, foram por aqui. Lá no meio do caminho se encontraram de novo. O mihua foi direto e o Awa foi beirando. Era época da bacaba. O mihua tirou uma. Aí ele viu o caminho do mihua. “Rapaz, tem um caminho!”. Aí ele foi caçar. Aí ele voltou e falou para a mulher: “Rapaz, eu vi o caminho e não sei se é do Awa, se é do mihua.” Aí a mulher: “Não sei, talvez Awa”. “Eu vi um rastro lá, diferente do Awa”. Ficaram pensando. “Será que é do kamara, do Awa?”. Amanhã vou para lá de novo. Amanheceu e ele foi de novo. Ele pegou o caminho e foi seguindo. Ele queria saber onde é que eles estão. Foi, foi e encontrou o mihua. “Rapaz, vocês aqui de novo?”. “Como vocês vieram parar aqui?”. “Não, é que eu vi o caminho e pensei que fosse de vocês.”. “O meu barraco tá bem ali”. “Então tá”. “O que vocês mataram?”. “Matamos só veado, capelão, coisa assim”. “Então tá, vou voltando”. Aí voltou e falou para a mulher: “São Awa não, eles são mihua mesminho”. “Será que vão nos matar?” “Não sei, já fui falar com eles”.
Para cá, o caminho dele, para lá, o caminho do mihua. E o mihua arrodiou e vai por aqui. Aqui o pé de bacaba, o caminho dele é para cá. Ele pegou outro caminho. Aqui a aldeia do mihua, aqui o pé de bacaba, o caminho dele é para cá. Ele pegou outro caminho. Aqui a aldeia do mihua, aqui o pé de bacaba. O
mihua já tinha tirado um cacho de bacaba. Aí ele também andou por lá e viu
bacaba. Tinha dois. Mihua tirou um e ficou o outro. Aí já tinha tirado um. Aí ele disse: “Vamos tirar”. Aí ele foi e tirou bacaba. Não sabia que o mihua ia para lá. Deu de tardezinha ele ouviu o mihua vindo no caminho. “Será que ele vem pegar bacaba?”. Aí tava tirando a bacaba no cacho. “Rapaz, vou ficar aqui”. Aí o mihua chegou, viu que tinham tirado bacaba e xingou muito ele. Tinha três, ficou um só cacho de bacaba. Ficou só um pouquinho. O mihua xingou de todo nome. Ele se zangou.
Então, se ele estava caçando conversa com ele, sabia que tinha... Mihua foi subindo e falou: “Ele não vai para a casa dele não, não vai chegar na casa dele não”. Ele foi subindo, subindo. “Vai dar dor de barriga nele”. “Quem vai se dar mal são vocês”. Aí quando o Awa foi tirando a bacaba, quando foi cortar, estava aquela lagarta, que parece calango, igual xiramukỹ150, tarapepehua. Acredita que essse tarapepehua, que nunca matou gente... Que pode morder, mas não mata gente, não tem veneno. Ele gosta de bacaba, né? Quando ele foi cortar a bacaba, o tarapepehua mordeu a mão dele. Aí ele se espantou: “Rapaz, tem um negócio aqui me mordendo”. Ele caiu. A mulher dele estava debaixo, no chão. Aí ele matou o tarapepehua. Aí sentiu dor. “Rapaz, não sabia que tarapepehua mordia e doía tanto assim”. Aí ele ficou sorrindo, o índio, o Awa: “Não, deixa essa bacaba aí”. A dor não deixa né. Levou o
tarapepehua morto para mostrar para o parente dele. Levaram, aí ele foi
chegando, gemendo, gritando também. Então vêm os parentes correndo na direção dele: “O que foi?”. “Foi tarapepehua que mordeu ele”. “O que ele estava fazendo?”. “Foi tirar babaca”. “A bacaba até estava no chão”. Fizeram
remédio, o mesmo que remédio que fizeram [antes] e não serviu para nada. Foi ficando, ficando, morrendo. Foram chamar de novo. “Ê parente! Meu irmão está passando mal”. “Que foi que aconteceu mesmo?”. “O tarapepehua mordeu ele”. “Mas é uma dorzinha de nada, vai passar”. Falou a mesma coisa que o outro tinha dito para ele. Ele estava com raiva. Ele podia ter dito para mulher dele: “Ah tá, xa'ỹ151, eles que pegaram aí, deixa eles comerem, vamos caçar outro”. Mas ele xingou de tudo que é nome. Por exemplo, “vamos procurar outro!”. Podia falar isso. Mas xingou o cara de tudo que é nome, falou que ia dar dor de barriga nele. Na língua né. Aí ele falou. Aí ele falou, o cara chamando, chamando. Aí a mulher dele falou: “Tem que ir lá, senão vai desconfiar”. A mulher dele sabe o que ele tá fazendo. “É melhor você ir lá, senão vão desconfiar”. Aí ele foi, fazer o gosto da mulher, né? Aí ele foi e falou na cara do cara, falou na cara dele: “O que foi que tu estava fazendo?”. “Não, eu fui tirar bacaba, aí eu fui cortar e o diabo do tarapepehua me