Muitos educadores se opõem à implementação de um atendimento às neces- sidades do superdotado em função de ideias preconceituosas e desatualizadas que possuem acerca deste aluno. Além disso, uma vez que muitos educadores acreditam
1 O termo utilizado pelo Ministério da Educação (MEC) (BRASIL, 1995) para designar o aluno com alto potencial é aluno com altas habilidades/superdotação. Por isto, neste texto, utilizaremos os termos super- dotados ou com altas habilidades de forma intercambiável.
que o aluno com altas habilidades vai se sair bem independente do contexto educa- cional em que esteja inserido, ele pode se tornar “invisível” na sala de aula, ou seja, não é considerado um aluno com necessidades educacionais especiais e, consequen- temente, não é necessário pensar e implementar estratégias de inclusão para este educando (GALLAGHER, 2006). Com base nestas crenças, alguns mitos foram criados sobre o estudante superdotado e hoje estão incorporados à cultura educa- cional, conforme abordo a seguir.
o superdotAdo possui reCursos inAtos superiores
Os educadores e os leigos em geral acreditam que a superdotação é uma característica exclusivamente inata e, por isso, o superdotado teria recursos para desenvolver por si só suas habilidades, sem necessidade de estimulação ou de um ambiente promotor de seu potencial. Nesta concepção, o superdotado seria um privilegiado por apresentar recursos intelectuais inatos superiores, sendo injusto e antidemocrático oferecer-lhe mais privilégios, por exemplo, apoio para se desenvolver educacionalmente.
umA CriAnçA superdotAdA se tornArá um Adulto eminente
Podemos acrescentar ao mito anterior a falsa noção de que uma criança su- perdotada necessariamente se tornará um adulto eminente. E aqui vale ressaltar uma vez mais a relevância das condições do ambiente que podem contribuir para o desenvolvimento do talento da criança ou inibi-lo (WINNER, 1996), isto é, à criança com talentos potenciais é necessário que se deem condições ambientais e estímulos para que os mesmos sejam desenvolvidos ao máximo.
Aluno superdotAdo ApresentA bom rendimento esColAr
Outro mito muito veiculado em nossa sociedade é o de que o aluno com altas habilidades/superdotação apresenta necessariamente um bom rendimento es- colar na maioria das disciplinas. Entretanto, dados de pesquisas apontam que, em muitos casos, ele apresenta um desempenho aquém de seu potencial, o que pode ser explicado por inúmeros fatores, entre eles, aulas monótonas; repetição excessiva de conteúdo que o aluno já domina; ritmo lento da classe; pressão exercida pelos colegas, que muitas vezes isolam ou utilizam nomes pejorativos para designar o
aluno com alto rendimento; e baixas expectativas por parte do professor em relação ao seu desempenho. Além disso, geralmente, o superdotado tem uma área de talento em que se sobressai. Nas demais, ele apresenta um desempenho semelhante ao dos demais alunos da classe.
É importante os educadores entenderem que os talentos de alguns estudantes podem se manifestar em diferentes culturas de maneiras distintas, por exemplo, algumas valorizam mais as habilidades verbais, enquanto outras enfatizam a matemática ou as artes. Eriksson (2006) explica que o conceito de superdotação deve ser definido culturalmente para que reflita os valores e as normas da herança cultural do aluno e, internacionalmente, para que os padrões de realização e os objetivos educacionais específicos de cada sociedade ou nação sejam considerados.
superdotAdos Constituem um grupo homogêneo
Também bastante difundida em nossa sociedade é a crença de que os indiví- duos superdotados constituem um grupo homogêneo em termos de características cognitivas, sociais e emocionais. Entretanto, evidências empíricas indicam que não existe um perfil único de aluno com altas habilidades/superdotação (SILVER- MAN, 1993; WINNER, 1996). Podemos identificar características que são mais comumente encontradas neste grupo (veja Quadro 1), porém, isto não significa que todos têm que se encaixar em uma forma pré-estabelecida. Como bem explicam Davis e Rimm:
Crianças superdotadas diferem entre si não apenas em termos de tamanho, forma, cor, mas também com relação às habilida- des cognitivas e linguísticas, interesses, estilos de aprendizagem, motivação e níveis de energia, personalidades, saúde mental e autoconceito, hábitos e comportamentos, experiências [...] Elas diferem também em termos de padrões de necessidades educa- cionais (DAVIS; RIMM, 1994, p. 25).
Quadro 1. Características cognitivas e afetivas de indivíduos superdotados Características cognitivas Características afetivas
Vocabulário avançado para a idade Perfeccionismo na realização das tarefas
Ritmo de aprendizagem rápido Senso de justiça exacerbado
Habilidades de pensamento criativo (fluên-
cia, flexibilidade e originalidade de ideias) Alto nível de energia envolvido na realiza-ção de atividades. Intensidade emocional Habilidades de leitura e escrita em tenra
idade Interesse por problemas filosóficos,morais, políticos e sociais Habilidades de pensamento analítico Tendência a questionar regras e autori-dade
Interesses diversos Paixão por aprender
Grande poder de concentração Persistência
Boa memória Desenvolvimento moral avançado
Imaginação vívida Consciência aguçada de si mesmo
Grande bagagem de informações sobre
temas de interesse Facilidade para interagir com crianças mais velhas ou adultos Preferência pelo trabalho independente Dificuldade em aceitar críticas
Habilidade para perceber discrepâncias
entre ideias e pontos de vista Grande empatia pelo outro
Curiosidade Grande sensibilidade
Interesse por livros e outras fontes de
conhecimento Tédio em relação às atividades curricula-res regulares Facilidade para entender princípios gerais Senso de humor
Independência de pensamento Independência de valores
estereótipo do superdotAdo
Predomina ainda em nossa sociedade o estereótipo do indivíduo superdotado como excêntrico, desajustado emocionalmente e isolado socialmente, além de ser franzino e usar óculos de lentes grossas. Várias pesquisas assinalam que o indivíduo com alto potencial tende a apresentar maior estabilidade emocional e ajustamento social (ALENCAR; FLEITH, 2001). Isto não significa que ele seja “imune” a qual- quer problema afetivo. É importante esclarecer, entretanto, que não é a superdota- ção que “provocará” tais desajustes, mas a maneira como ocorre a interação entre este indivíduo e o ambiente, ou seja, em que extensão a sua condição de vida está em sintonia com as suas necessidades.
superdotAção oCorre em FAmíliAs de poder Aquisitivo médio/ Alto
Outra ideia preconceituosa em relação ao fenômeno da superdotação é a de que ele só ocorre em famílias de poder aquisitivo médio e alto. Acredita-se que famílias desfavorecidas do ponto de vista socioeconômico não oferecem condições apropriadas de estimulação e incentivo ao potencial superior. Ademais, muitos dos instrumentos utilizados na identificação da criança superdotada refletem a cultura, a linguagem e os valores das classes mais abastadas. Como resultado, muitas crian- ças provenientes de famílias desfavorecidas não são identificadas e encaminhadas a programas de atendimento ao aluno superdotado (ALENCAR; FLEITH, 2006; RECH; FREITAS, 2006).
superdotAção impliCA desempenho inteleCtuAl superior
Também bastante comum é a associação entre superdotação e desempenho intelectual superior. Entretanto, superdotação não pode ser considerada exclusi- vamente como sinônimo de Quociente de Inteligência (QI) alto. Os indivíduos savants, por exemplo, caracterizam-se por apresentar concomitantemente habilida- de superior em uma área específica, como música ou artes, e comprometimento intelectual. Neste sentido, utilizar apenas testes de inteligência para identificar o superdotado não é suficiente. Tendências atuais na identificação destes indivíduos sugerem a utilização de uma multiplicidade de fontes de informação e instrumen- tos que possam avaliar não somente o QI, mas também outros aspectos, como a criatividade, os estilos de aprendizagem e de expressão e os interesses (ALENCAR; FLEITH, 2001).
superdotAdos são super-heróis
O termo superdotado é carregado de várias conotações, sendo a mais comum a do indivíduo super-homem. Por isso, não é incomum a difusão da ideia de que não se deve comunicar ao indivíduo superdotado ou à sua família que um dos seus membros possui altas habilidades. Isto criaria uma expectativa muito grande por parte da família, que passaria a exigir cada vez mais de seu filho. Entretanto, é fundamental que a família seja informada e orientada a respeito de como poderia contribuir para desenvolver o potencial do superdotado. Aliás, o cenário ideal seria que família e escola, em parceria, pudessem discutir estratégias de melhor atendimento às necessidades do aluno superdotado.
superdotAção é um Fenômeno rAro
Outra ideia enraizada no pensamento popular é a de que a superdotação é um fenômeno raro, sendo muitas vezes associado à genialidade. O que tem sido enfatizado pelos estudiosos da área é que existe um continuum em termos de habilidades e talentos. O gênio é considerado aquele indivíduo, adulto, que apresenta uma contribuição original e de grande valor para a humanidade (ex.: Einstein, Picasso, Freud), enquanto o superdotado apresenta uma habilidade superior à média da população. Renzulli explica que a “superdotação é uma condição que pode ser desenvolvida em algumas pessoas se houver uma interação apropriada entre a pessoa, seu ambiente e uma particular área do conhecimento” (RENZULLI, 1986, p. 5).
Notamos que existe uma grande confusão conceitual que envolve a área, sendo os termos gênio, superdotado, prodígio e precoce utilizados inadequadamente como sinônimos. Vale esclarecer que designamos de prodígio a criança que apresenta um desempenho excepcional para a idade sem que tenha recebido treinamento formal para isso. Já a criança precoce é aquela que antecipa determinados comportamentos relativos à idade em que são esperados, especialmente nos primeiros anos de vida. Curiosamente, as pesquisas indicam que um número limitado de crianças precoces obteve na vida adulta alto nível de desempenho e produção. Assim, “tudo indica que precocidade não é sinônimo de potencial” (GUENTHER, 2000, p. 34).
ACelerAção esColAr ACArretA problemAs emoCionAis pArA o superdotAdo
Do ponto de vista educacional, é também comum ouvirmos de educadores, e mesmo de familiares, que a aceleração escolar (ex.: adiantar uma série, aceleração por disciplina, completar dois ou mais anos de estudo em um ano, entrada precoce na escola etc.) acarretará problemas emocionais para o aluno superdotado.
Resultados de pesquisas indicam que a aceleração não implica prejuízos ao aluno com altas habilidades (COLANGELO; ASSOULINE; GROSS, 2004; GALLAGHER, 2006), desde que implementada com cuidado e após uma avalia- ção criteriosa da criança, bem como do nível de receptividade do professor e da tur- ma que irão recebê-la. Portanto, esta prática a priori não é boa ou ruim; depende das condições em que ela seja implementada. Benbow (conforme citada em FREEMAN; GUENTHER, 2000) recomenda que os seguintes fatores sejam considerados na decisão acerca de se acelerar ou não um aluno superdotado:
a) não existir pressão para acelerar;
b) o professor que receberá o aluno ser favorável ao processo;
c) os pais se sentirem bem informados acerca do processo de aceleração; d) o aluno ser avançado em termos do conteúdo curricular;
e) o aluno ser maduro e estável emocionalmente; f) o aluno querer ser acelerado.
Conforme apresentado anteriormente, são inúmeras as ideias falsas, estere- otipadas e preconceituosas a respeito do superdotado. Tais mitos inevitavelmente são incorporados pelos educadores e se refletem nas práticas educacionais, sociais e familiares que, em vez de criarem ambientes educacionais propícios ao progresso dos talentos, oferecem oportunidades limitadas de desenvolvimento à expressão da inteligência, à criatividade e aos interesses. A falta de oportunidades acarreta, por sua vez, enorme desperdício de talento e potencial humano tanto no Brasil como em outros países. Neste sentido, é imperativo informar e preparar educadores de forma apropriada a respeito de quem são estes alunos e sobre como criar condições favoráveis ao seu desenvolvimento.