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CAPÍTULO II: A PROFISSÃO DE CAIXEIRO

“MOÇOS DO COMÉRCIO”

A inexistência de registros cadastrais dos caixeiros dificulta o estudo da composição etária do grupo.

Para tanto não dispomos senão de referências esparsas em fontes escritas secundárias e em depoimentos orais. Umas e outros, sem fornecer dados exaustivos, indicam algo que supomos ter sido uma das características dos caixeiros da Bahia na Primeira República: a predominância, entre eles, de adolescentes, entre os 12 e os 18 anos, aproximadamente.

Nos tempos do Império, às vezes, ou quase sempre, uma das qualificações exigidas para o ingresso nas casas de comércio era a idade, que deveria variar dos 11 aos 14 anos. (7)

Até meados da Primeira República, a situação deve ter-se mantido, talvez ligeiramente alterada: os novos empregados recrutar- se-iam entre adolescentes de 12 a 15 anos.

Frequentemente, em jornais desse período, tomam-se, como sinônimos da palavra caixeiro, as expressões: moços do comércio,

rapazes do comércio, mocidade do comércio e mocidade cai- xeiral. A juventude do grupo era atributo que se destacava.

Em sete testemunhos orais, encontramos o início da profis- são entre 11 e 14 anos e, embora este reduzido número de informan- tes não se constitua em amostra significativa do universo global da pesquisa, tomamos seus depoimentos à guisa de experiências particu- lares que, hipoteticamente, poderíamos, generalizando, estender a uma certa faixa da população da cidade.

Supomos, assim, que, em muitas famílias, ao atingirem os filhos do sexo masculino a idade dos 11 aos 14 anos, deveriam contri- buir suplementarmente para o orçamento doméstico. Também ao jovem adolescente que não era dado sonhar com o anel de doutor, bacharel ou engenheiro, ou, nem ao menos, cirurgião-dentista ou far- macêutico, não restaria muito a escolher diante do mercado de traba- lho: era colocado numa casa comercial.

Nem sempre o começo do trabalho implicaria em uma ex- pectativa de remuneração imediata. Raramente se estipularia o paga- mento antes de um tempo de experiência inicial. Via de regra, o caixeiro recém-admitido atuava como uma espécie de aprendiz não remunera- do, recebendo, às vezes, um pagamento simbólico.

No depoimento oral de B. L. G. S., encontra-se que seu irmão J. A. G. foi posto a trabalhar pelos pais aos 11 anos a fim de “tomar gosto”. Parece-nos clara a situação: concluído o curso primário e não havendo possibilidade financeira de manter o filho nos estudos, o pai preferia preencher-lhe o que poderia ser uma longa fase de ócio até atingir a idade mínima para o ingresso no funcionalismo público. Colo- cava-o na única atividade que, além das fábricas e oficinas artesanais, admitiria auxiliares de tão tenra idade.

O emprego de meninos mal entrados na puberdade deveria ser prática generalizada em todo o comércio do país, já avançada a Primeira República. Sugere-o o projeto de lei do deputado federal Nica- nor do Nascimento, datado de 1911, que proibia o trabalho de menores de 10 anos em casas comerciais, permitindo-o porém dos 10 aos 15,

“quando soubessem ler e escrever”. Também dispunha que os estabe- lecimentos com mais de trinta menores analfabetos teriam de manter escolas para o ensino de noções elementares de escrita e cálculo (8). A Bahia, particularmente, não diferia do geral.

Em outubro de 1911, a Fiscalização Geral do Município de Salvador publicou edital que executava a postura 50A concernente ao trabalho no comércio:

“[...] Fica proibido doravante aceitar-se em qualquer casa comercial, seja de que natureza for, menores de 14 anos de idade, nacionais ou estrangeiros, sob as penas da lei”. (9)

Oito dias depois, entretanto, o Intendente Municipal, discu- tindo publicamente o mérito da norma, diria:

Acho o limite de idade muito elevado. Com muito menos de 14 anos, há nas fábricas e nas casas comerciais muito quem, sem prejuízo para a higiene do corpo e do espírito, sem os perigos da moléstia ou do analfabetismo, ganhe já para as suas necessidades, senão para as da família.

O trabalho é uma escola; afastar dele as crianças é corrermos o risco de atirá-las aos desastrados efeitos da vagabundagem, escola também, mas onde só se aprende a prática de vício, que é porta aberta para o crime. (10)

Deixando de lado a sinceridade das convicções pessoais do Intendente, vemos nas entrelinhas do seu comentário uma realidade. O desemprego forçado de um contingente de mão-de-obra abundante e barata poderia ter descontentado os patrões que talvez tivessem influ- enciado na atitude do prefeito. (11)

Por outro lado, há o ponto de vista dos próprios caixeiros que seriam lançados ao desemprego por um ato, em princípio, protetor, mas que, em termos imediatos, não os beneficiava. A respeito, o Diário de Notícias publicou a seguinte nota:

Horas de Trabalho

Os menores de 14 anos, golpeados nos seus direitos de traba- lhar onde quiserem, pela postura 50A, reúnem hoje, às 8 horas da noite, no lugar indicado, para tratarem da anulação da aludida postura que os impede de ganhar o pão de cada dia. (12)

Observemos que esta notícia fora publicada no dia 17 e a mudança de atitude do Intendente apareceu nove dias depois. Objeti- vamente, não nos interessa, agora, discutir os motivos de revogação da cláusula da Postura Municipal nem quanto ou como foi sensível o Poder a esta ou aquela reação. Basta não perdermos de vista que o fato expressa a importância do trabalho de menores de 14 anos no comér- cio da cidade.

Aqui, ainda merecem atenção especial os caixeiros portu- gueses. Muito cedo eles se iniciavam no labor do balcão, via de regra, trazidos de Portugal pelos compatrícios aqui estabelecidos. A prática, que foi rotineira no Império, deve ter continuado frequente nos pri- meiros tempos republicanos.

O uso de admitir caixeiros menores de 14 anos foi inicial- mente português, ainda na Colônia. Ampliou-se o costume no século XIX por força do crescimento mercantil. Por interesse dos próprios lusos em dar emprego a patrícios a quem mais tarde pudessem confiar seus negócios e, também, pela carência nos centros urbanos, de mão de obra livre e isenta de preconceitos contra as tarefas humildes das lojas e armazéns, intensificar-se-iam, então, as entradas de meninos portugueses.

Prevaleceria o costume português de empregar meninos impúberes até o fim do Império, o qual se estenderia daí em diante aos filhos da terra, à medida que o grande e pequeno comércio foram passando, gradualmente, às mãos de brasileiros. Não por mera imita- ção, é óbvio, mas pela disponibilidade daquele tipo de mão-de-obra.

Assim, em meados da Primeira República, permanecia o comércio de Salvador, como um mercado de trabalho para menores de catorze anos. Para as duas décadas finais do período, não há referênci- as, seja em notícias de jornais ou em Relatórios das Diretorias das asso- ciações caixeirais. Contudo, imaginamos que a prática deve ter prosse- guido até às primeiras providencias da legislação trabalhista dos anos trinta, algumas das quais viriam regular o trabalho de mulheres e me- nores, de modo geral.

E a verificação de uma forte presença de adolescentes no seio do grupo profissional dos caixeiros é, até certo ponto, significativa para compreendermos certos mecanismos de mando e obediência nas relações entre patrões e empregados do comércio de Salvador no período em apreço. (v. capítulo III)

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