• Nenhum resultado encontrado

3 VIAJANDO – A INVESTIGAÇÃO

3.4 MO(VI)MENTOS DA VIAGEM

3.4.1 Mo(vi)mento 1 – Construindo o roteiro

O campo de pesquisa foi concebido à luz dos pressupostos teóricos bakhtinianos, em especial, do conceito de dialogismo. Fizemos essa escolha porque o projeto desenvolvido para o doutorado foi fortemente influenciado pela pesquisa realizada no mestrado. A dissertação, cujo tema foi “Tecnologias digitais na escola pública: formação continuada de professores com ênfase no exercício de autoria” (SOUZA, 2005), teve a sua fundamentação nos pressupostos teóricos de Mikhail Bakhtin, com ênfase no conceito de autoria. Naquele estudo, a teoria bakhtiniana se mostrou produtiva para pensar, além da autoria, questões relacionadas à produção de sentidos, alteridade, enunciação, exotopia.

Portanto, na tese, o campo empírico foi, inicialmente, concebido segundo a perspectiva teórica da interação dialógica (BAKHTIN, 2000) em ambiente virtual de aprendizagem, configurando-se como uma possibilidade para a formação de professores de cursos online. Apresentamos o conceito de interação dialógica seguindo as discussões desenvolvidas pelo grupo de pesquisa do Laboratório de Estudos em Linguagem Interação e Cognição (LELIC/UFRGS). A interação dialógica tem como base o dialogismo bakhtiniano e indica que a relação dialogal implica a alteridade e que, a todo enunciado (mesmo quando de efeito retardado em relação a uma expressão anterior), corresponde sempre uma atitude responsiva ativa83 prévia, dando conta de um contexto pragmático, interacional e enunciativo- responsivo, como pressuposto da linguagem e da relação entre os sujeitos de linguagem. O diálogo pode acontecer não só entre duas pessoas, mas, também, entre textos, culturas, teorias. A escuta ativa e compreensiva leva, mais cedo ou mais tarde, a réplicas multifacetadas, plurais, que integrarão o fluxo dialógico, participando de sua composição (AXT, 2006).

No intuito de descrever o processo da pesquisa, explicitaremos o conceito bakhtiniano de dialogismo no contexto em que o utilizamos.

Para Bakhtin (2000), o próprio ser do homem significa comunicar. Os tópicos por ele desenvolvidos podem ser agrupados por um conjunto de ideias intitulado “dialogismo”, em

83 A atitude responsiva ativa está ligada à predisposição do ouvinte para a resposta. “Ele concorda ou discorda (total ou parcialmente), completa, adapta, apronta-se para executar, etc., e esta atitude do ouvinte está em elaboração constante durante todo o processo de audição e de compreensão desde o início do discurso” (BAKHTIN, 2000, p. 291).

razão da forte preocupação com o diálogo, que, para ele, não é apenas a inter-relação verbal, mas a vida é, por sua natureza, dialógica. Viver significa participar de um diálogo: perguntar, prestar atenção, responder, concordar e assim por diante. Esse diálogo acontece durante toda a vida.

A interação verbal é posta no centro das relações sociais. Segundo Bakhtin (1979, p.182): "toda parte verbal de nosso comportamento (quer se trate de linguagem exterior ou interior) não pode, em nenhum caso, ser atribuída a um sujeito individual considerado isoladamente”. Bakhtin, com o conceito de dialogismo, demonstra uma atitude de vida extremamente social.

Para o autor, o monologismo84 está presente na cultura ideológica dos tempos modernos. O dialogismo se opõe ao monologismo e se refere aos diferentes diálogos que existem entre os diferentes discursos de uma comunidade, cultura, sociedade. Estes diferentes diálogos entre diferentes discursos podem se mostram nas interações dos professores no ambiente virtual de aprendizagem, apontando para as tensões no encontro de enunciados e para as negociações de sentido que aí se instauram. Bakhtin sugere que

[...] a verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas, nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua. (BAKHTIN, 1979, p. 123)

O Espaço Dialógico foi construído na perspectiva da interação, da construção coletiva, do dialogismo, como condição fundamental para a formação em AVA. O conceito de dialogismo em Bakhtin está intimamente ligado à concepção de alteridade. A alteridade, nesse caso, não se limita à consciência da existência do outro, mas contempla, também, o pertencimento e o estranhamento. No AVA o sentimento de pertencimento pode favorecer a participação, a interação nos espaços coletivos e a produção de novos conhecimentos.

A visão de mundo bakhtiniana se estrutura segundo uma concepção social do homem, por isso, para Bakhtin, é impossível uma formação humana sem alteridade, em que o outro não faça parte do meu espaço no mundo, constituindo-me ideologicamente e me dando acabamento.

84 Monologismo, segundo a teoria bakhtiniana, opõe-se a dialogismo. “Segundo Bakhtin, no monologismo o autor concentra em si mesmo todo o processo de criação, é o único centro irradiador da consciência, das vozes, (...) O modelo monológico não admite a existência da consciência responsiva e isônoma do outro”. (BEZERRA, 2005, p. 192).

Bakhtin (2000) compartilha do princípio de que o homem transforma o mundo com a utilização de instrumentos e é transformado por ele, como uma via de mão dupla. O autor atribui à linguagem o papel de “instrumento essencial” para esta atuação transformadora e de ferramenta psicológica de organização e constituição dos sujeitos. Salienta, também, a organização do discurso como fator determinante nas relações entre os indivíduos engajados em qualquer tipo de interação.

Enquanto o diálogo geralmente é definido como troca ou discussão de ideias, harmonia, compreendemos, também, segundo a perspectiva bakhtiniana, a dimensão do diálogo como território de conflito, tensão (BAKHTIN, 1979). Desta forma, o diálogo constitui-se como um grande encontro de vozes e entonações diferentes. O Espaço Dialógico foi criado na perspectiva de ser um espaço aberto à interação, ao diálogo.

O dialogismo é concebido, portanto, como espaço interacional entre o eu e o tu, ou entre o eu e o outro. Esta posição justifica, na construção do campo, desenvolver a interação, apoiando o processo de desenvolvimento da pesquisa, nas falas, nas mensagens e nas atitudes dos professores no Espaço Dialógico. Isso, também, nos leva a considerar as reuniões do grupo (presencial e virtual), como espaço interacional e dialógico eleito por excelência como campo de pesquisa.

O conceito de dialogismo é uma visão de mundo. Assim como Faraco (2001), compreendemos o dialogismo não como um conceito entre outros, um instrumento que Bakhtin disponibiliza para apreender o real, mas como:

[...] um olhar compreensivo e abrangente do ser do homem e de seu fazer cultural. Um olhar que não está mirando apenas aspectos desse real, mas pretende captá-lo numa perspectiva de globalidade; que pensa a cultura como um vasto e complexo universo semiótico de interações axiologicamente orientadas; e entende o homem como um ser de linguagem (e, portanto, impensável sob a égide do divórcio homem/linguagem), cuja consciência, ativa e responsiva (e não mero reflexo do exterior, nem origem absoluta da expressão, mas lócus dinâmico do encontro dialógico do externo e do interno), se constrói e se desenvolve alimentando-se dos signos sociais [...]. (FARACO, 2001, p.118)

É nesse olhar afetivo e atento ao fazer cultural do homem que o dialogismo se fundamenta, ou seja, na negação da possibilidade de conhecer o sujeito fora do discurso que ele produz e de suas ações. Observamos que, para Bakhtin (1979), o termo diálogo não compreende apenas o sentido estrito do termo, ou seja, a comunicação entre pessoas colocadas face a face, mas, também, num sentido mais amplo, como toda comunicação, de qualquer tipo que seja.

Nesse sentido, acreditamos nas possibilidades do ambiente virtual de aprendizagem para a produção colaborativa em rede, para a formação dos professores de cursos online, para a criação de comunidades virtuais de aprendizagem, com fundamento no princípio de que, por meio do dialogismo, como forma elementar de comunicação, poderá ser criado um ambiente propício à interação dialógica e, consequentemente, às mudanças no contexto desses professores.

Para Axt (2004, apud MUTTI; AXT, 2008), as comunidades virtuais de aprendizagem, ao estarem situadas no ciberespaço, podem desconhecer as divisões capitalísticas dos espaços- tempos e das hierarquias convencionais, derrubando paredes e habitando a plasticidade da sincronia (que pode ser mediata) e da distância (que pode ser relativa), em que todos podem se expressar. A autora considera que essa abordagem pode transformar a natureza e o modo de gestão do conhecimento, na medida em que a possibilidade ampla de expressão, garantida na dialogia pela escuta, transformaria, por sua vez, a natureza da interação. Uma expressão ampla poderá operar uma passagem em direção a uma nova forma de gestão da própria interação, em que cada um pode aferir e conquistar o tempo/espaço necessário a sua própria expressão, enquanto acaba, na mesma medida e por reciprocidade, por garantir também a escuta do outro.

Bakhtin (2000), ao considerar o diálogo como forma elementar de comunicação, valorizou campos de usos da linguagem que não estão circunscritos aos limites de um único meio, abrindo caminho para as realizações que estão além dos domínios da voz, como os meios de comunicação de massa e as interfaces interativo-digitais. Meios, evidentemente, não estudados pelo autor. Segundo essa formulação, “o campo conceitual do dialogismo não foi simplesmente transportado, mas sim pode ser visto como uma reivindicação de vários contextos e sistemas da cultura” (MACHADO, 2005, p. 163).

Compreendemos que, na interação dialógica, que pode ser possibilitada pelos ambientes virtuais de aprendizagem, podem ser construídos novos conhecimentos. Na relação com o outro, pode haver outra prática pedagógica dos professores de cursos online e a produção de subjetividade singular e autorreferente.

No processo de desenvolvimento da pesquisa, houve necessidade de buscarmos referenciais que pudessem nos ajudar a compreender as atitudes, as ações dos professores no Espaço Dialógico. Naquele momento, tivemos acesso à teoria deleuzo-guattariana, que nos ajudou, tanto no olhar e sentir o campo empírico, quanto nas interpretações dos dados.