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Capítulo 3. Mobilidade Ocupacional

3.1. Mobilidade e desigualdade

Existem diversos tipos de desigualdade, bem como diversas formas de medi-la. Todas elas buscam mensurar de alguma forma as diferenças nos padrões de vida de determinada população, que podem ser determinados pela sua renda, seu status social ou seu acesso a serviços de educação e saúde, entre outros fatores. Uma classificação utilizada para apreender as diversas dimensões da desigualdade é a divisão entre desigualdade de resultados e desigualdade de oportunidades. Ambas estão relacionadas. A desigualdade de resultados é frequentemente medida em termos econômicos (como renda e posse de riqueza) ou através de indicadores de bem-estar relacionados à saúde e educação. As desigualdades de oportunidades são mais difíceis de medir. Elas estão relacionadas com as possibilidades de um indivíduo desenvolver seus potenciais. As vantagens individuais podem ter origem tanto do esforço individual quanto de fatores circunstanciais, que não podem ser determinados pelo indivíduo, como gênero, raça ou local de nascimento. São esses fatores circunstanciais que determinam as desigualdades de oportunidades (Bourguignon, Ferreira e

Menéndez, 2007).

Em 1973, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) disponibilizou pela primeira vez um suplemento sobre a mobilidade social, onde constavam perguntas sobre a primeira ocupação do entrevistado e a ocupação atual do entrevistado e de seu pai. De maneira geral, os trabalhos que surgiram desde então tem mostrado que a persistência da desigualdade de oportunidades se deve em grande parte à transmissão de status entre gerações, com efeitos sobre a renda pessoal dos indivíduos. Existe um consenso de que as desigualdades de oportunidades, são piores do que as desigualdades de renda, do ponto de vista da justiça social, o que justificaria a utilização de políticas apropriadas, bem como a realização de mais estudos sob o tema da mobilidade intergeracional (Pero e Szerman, 2008).

O conceito de mobilidade trata da movimentação de indivíduos entre diferentes espaços sociais, que podem ser hierarquizados de acordo com determinado critério definido, a ocupação, por exemplo. A posição na ocupação tem enorme importância na determinação não só da renda, mas também do prestígio e do poder nas relações sociais. Trabalhadores em diferentes ocupações também desfrutam de diferentes perspectivas de inclusão socioeconômica. As classes ocupacionais determinam diferenças no próprio estilo de vida dos trabalhadores e de suas famílias em termos de horizonte de vida. Desse modo, a ocupação tem grande importância na determinação da renda e da posição social do indivíduo.

Pode-se realizar um estudo tanto da mobilidade intergeracional, ou seja, entre gerações, quanto da mobilidade intrageracional, que se refere às variações de posição ocorridas ao longo da vida do indivíduo. O tipo de movimento que um indivíduo pode percorrer também é importante. A mobilidade vertical se refere à transição de um indivíduo de um grupo social para outro grupo que se encontre em um nível social diferente do primeiro. Por outro lado, a mobilidade horizontal se dá quando o indivíduo muda de grupo social, mas ambos os grupos estão situados em um mesmo nível social. A mobilidade também pode ser classificada como ascendente, se o indivíduo avança para posições de maior prestígio na escala social, ou descendente, no caso contrário. Mudanças na conjuntura também tem importância no processo de mobilidade. Assim, há mobilidade estrutural quando se operam mudanças na estrutura social, sem que isso seja resultado de mudanças nas características individuais dos trabalhadores. Por exemplo, quando a estrutura social se altera devido à criação acelerada de novas ocupações, o que possibilita a entrada maciça de trabalhadores em determinado grupo ocupacional. Por outro lado, quando não há criação de novas vagas no mercado de trabalho e a entrada de um novo trabalhador em determinada posição de trabalho depende da desocupação da posição por outro trabalhador - por motivo de morte, aposentadoria ou ascensão/descenso social desse indivíduo – então, há o que se denomina mobilidade circular. Nesse

caso, as mudanças de posições ocorrem em decorrência de um processo de mera troca de posições e não como resultado da abertura de novas vagas (Remy, 2007).

Dentre os trabalhos que utilizaram a PNAD-73, o de maior destaque foi o estudo realizado por Pastore (1979). Em seu trabalho, o autor concluiu que mesmo com o aumento da desigualdade, a mobilidade social no Brasil era alta. A explicação seria de que o processo de industrialização havia criado novos postos de trabalhos nos centros urbanos. As novas oportunidades de carreira no trabalho urbano permitiram também que ocorresse o processo de migração da população do campo para a cidade. Esses dois elementos complementares – industrialização e êxodo rural – explicariam os altos níveis de mobilidade social no Brasil. A persistência das desigualdades seria explicada pelo fato de que grande parte da população havia ascendido muito pouco na estrutura social.

Também utilizando a PNAD-73, Silva e Roditi (1988) lançaram um novo olhar sobre a questão da mobilidade no Brasil. Ao analisar o grau de fluidez social, os autores concluíram que, no caso, brasileiro os efeitos da industrialização e da educação sobre a mobilidade social precisavam ser relativizados. A tese de que o processo de distribuição de oportunidades em uma sociedade ocorreria em função do quão rápido e profundo fosse a implementação de uma economia industrial e moderna não poderia ser corroborada pela experiência brasileira. Apesar do “milagre econômico” vivido no país na década de 70, não houve uma mudança no padrão de mobilidade circular dos indivíduos na estrutura de estratificação social. Assim, concluíram que as diferenças na estrutura de mobilidade dependeriam não apenas do desenvolvimento econômico, mas, igualmente, da organização política.

Utilizando os dados do suplemento da PNAD de 1996, Pastore e Silva (2000) realizaram um trabalho com o objetivo de averiguar as mudanças no mercado de trabalho desde seu trabalho anterior, realizado pelo próprio Pastore (1979). Ao comparar as PNADs de 1973 e de 1996, o estudo concluiu que houve redução da mobilidade estrutural e elevação da mobilidade circular, efeito atribuído pelos autores ao acirramento da competição no mercado de trabalho. Além disso, ao estratificar a estrutura ocupacional em seis categorias, verificou-se um aumento da participação dos estratos superiores. Ao mesmo tempo, houve uma redução relativa do estrato mais baixo, o que representa uma mobilidade ascendente rumo às esferas médias. A conclusão do trabalho foi de que a sociedade brasileira havia aumentado o seu já elevado dinamismo da mobilidade total, tanto ascendente quanto descendente. No entanto, a mobilidade circular havia aumentado em relação à mobilidade estrutural.

Scalon e Ribeiro (2001) também chegaram à conclusão de que entre 1973 e 1996 a mobilidade circular aumentou ao mesmo tempo em que a estrutural diminuiu. Mas, ao contrário do estudo de Pastore e Silva (2000), o trabalho mostrou que a sociedade brasileira não possuiria altos níveis de mobilidade em relação a outros países. A mobilidade absoluta no Brasil havia apresentado as mesmas tendências dos demais países, exceto que, no Brasil, houve um aumento do grau de fluidez social. Por

outro lado, as desigualdades de oportunidades continuavam a apresentar níveis elevados.

A industrialização criou uma série de novas ocupações nos centros urbanos, não apenas no setor industrial, mas também no comércio e nos serviços. Essas novas oportunidades de emprego atraíram uma grande quantidade de trabalhadores do campo para a cidade. Grande parte da mobilidade encontrada nos estudos que contemplam as décadas de 60 e 70 deve-se a esse tipo de migração, uma vez que as atividades agrícolas são classificadas no estrato mais baixo. Assim, a mera migração de um trabalhador rural para a um emprego urbano significaria uma ascensão na estrutura social. O trabalho de Januzzi (2002) contribui para a discussão ao aglutinar em um único estrato as ocupações rurais com aquelas ocupações urbanas de baixo status, como pedreiros e empregados domésticos. A justificativa, além da maior robustez analítica pelo emprego de apenas cinco estratos, é a de que os dois tipos de ocupação – rural e urbanas de baixo status – apresentam os mesmos níveis médios de rendimento e escolaridade e também o mesmo padrão dos indicadores de precarização calculados a partir do Censo Demográfico de 1980 e de 1991. Utilizando os dados das PNADs de 1982 e de 1996, o estudo apontou para um aumento da mobilidade descendente entre os dois anos, tanto intergeracional como intrageracional, isto é, ao longo da vida dos trabalhadores. As alterações estruturais que haviam sido possibilitadas pela industrialização e urbanização estariam perdendo fôlego. As adversidades no mercado de trabalho enfrentadas nos anos 90, como o processo de desregulamentação do mercado de trabalho, o baixo crescimento econômico e a abrupta abertura da economia, foram responsáveis por um forte aumento da mobilidade descendente e da imobilidade socioocupacional.

Em estudo publicado por Bourguignon, Ferreira e Menéndez (2007), os autores apontaram que os fatores que se originam do background familiar constituem o mais importante conjunto de elementos determinantes para as oportunidades dos indivíduos. Utilizando os dados do suplemento da PNAD de 1996, os autores analisaram o efeito de cinco fatores circunstanciais, isto é, fatores que são inerentes aos indivíduos devido a circunstâncias sobre as quais ele não tem nenhum controle: escolaridade do pai e da mãe, ocupação do pai, cor/raça e região de nascimento. Esses fatores respondem por 10% a 37% da desigualdade de renda entre as coortes no Brasil. Entre as cinco circunstâncias estudadas, as mais importantes foram a escolaridade dos pais e a ocupação do pai, que influenciam não apenas a escolaridade dos filhos como também exercem um impacto no seu rendimento no mercado de trabalho. Esses dados revelam a importância que a ocupação dos pais tem sobre as oportunidades dos seus filhos no mercado de trabalho.

Portanto, parece haver certo consenso com respeito à mobilidade socioocupacional no Brasil para os anos que vão de 1970 à meados da década de 1990. De modo geral, houve mobilidade, principalmente durante os anos de forte expansão econômica e transformação da estrutura produtiva

e do mercado de trabalho, com a criação de novos postos e ocupações. Mas a ascensão de uma grande parcela dos trabalhadores foi comprometida pela mobilidade circular e, também, porque a mobilidade ficou mais concentrada nos estratos intermediários da população, tendo atingido de forma menos intensa as camadas mais pobres da população.

Isso acontece porque, no Brasil, a desigualdade é sentida no mercado de trabalho de uma maneira segmentada. Assim, a expansão econômica e as mudanças no mercado de trabalho são sentidas de maneiras muito diferentes por indivíduos em estratos diferentes, como se houvesse um mercado de trabalho dual, em que uma parcela significativa dos trabalhadores está em ocupações precárias e informais e, por isso mesmo, não sente de forma plena as mudanças positivas pelas quais o mercado de trabalho passa.