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Trajectórias de inserção

5. Mobilidade socioprofissional inter-geracional

Contrariamente ao que se verifica com a mobilidade socioprofissional associada às trajectórias de inserção dos diplomados da UL, a análise da mobilidade inter-geracional – i.e., relativamente aos pais - permite- nos concluir que metade da população inquirida está envolvida num processo de mobilidade ascendente. Este aspecto é particularmente relevante se compararmos com o estudo realizado por M. V. Cabral88, no qual 38,3%

da população portuguesa participa em trajectórias de mobilidade social inter-geracional ascendente.

Quando comparamos a actividade profissional que os licenciados exerciam em Maio de 1999 com a do respectivo pai, verificamos que, qualquer que seja a profissão deste último, aproximadamente metade dos inquiridos exerce a profissão de médico, de professor do ensino superior, do secundário ou do 2º e 3º ciclos e de advogado (Quadro nº68). No entanto, a distribuição dos licenciados por estas três profissões assume contornos distintos em função da actividade profissional do pai.

INQUÉRITO AOS DIPLOMADOS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA (1994 -1998)

121 Quadro nº68

Profissão dos diplomados por profissão do pai (%)

QS Adm. Publica e Dir. Emp. Espec. Cf./mat. /eng. Esp. Ciências Vida Informá- ticos Médicos Prof. Ens. Sup2º,3º Sec. Advo- gados Esp. Ciência Saúde Escultores Pintores T. Adm. Pública

Outros Esp. cient./int. Téc. Saúde/ Vida Educado res/prof. 1º C Téc. Inv.

Fís./Quim madores Progra- Téc. Adm./ Gestão Outros T.N. Interm. Pessoal

Adm. Serviços Pessoal Operá- rios

QS Administração Pública 0,0 1,9 1,9 5,8 21,2 19,2 21,1 5,8 3,8 1,9 1,9 0,0 1,9 1,9 0,0 1,9 1,9 3,8 1,9 0,0 Directores de grandes

empresas e de PME 2,0 0,8 0,0 0,8 15,8 17,7 22,5 9,6 2,0 0,8 2,0 2,7 1,4 7,5 2,0 4,1 3,4 4,1 0,0 0,0

Engenheiros e Arquitectos 1,9 0,0 7,4 7,4 29,6 16,7 20,4 0,0 1,9 0,0 0,0 1,9 1,9 7,4 0,0 0,0 0,0 3,8 0,0 0,0

Médicos 2,4 0,0 7,3 2,4 36,6 9,7 9,8 7,3 4,9 0,0 0,0 2,4 2,4 2,4 2,4 0,0 7,3 2,4 0,0 0,0

Prof. Ens. Superior, 2º,3º C e

Secundário 3,0 3,0 12,2 0,0 15,3 15,3 21,2 0,0 9,0 0,0 0,0 0,0 0,0 9,0 0,0 3,0 0,0 9,0 0,0 0,0

Advogados 4,5 0,0 0,0 0,0 22,7 4,5 45,5 9,1 0,0 0,0 4,5 0,0 0,0 4,5 0,0 0,0 0,0 4,5 0,0 0,0

Outros especialistas

profissões cient./int. 0,0 7,3 3,6 1,8 20,0 18,2 21,8 3,6 5,5 1,8 0,0 0,0 3,6 3,6 3,6 1,8 0,0 0,0 3,6 0,0 Técnicos Investigação Física

e Química 11,7 0,0 0,0 2,9 14,7 23,5 17,6 5,9 0,0 2,9 2,9 0,0 0,0 8,8 0,0 2,9 0,0 2,9 2,9 0,0

Técnicos de gestão e

administração 0,0 0,0 0,0 0,0 12,6 25,0 12,5 12,5 0,0 0,0 6,3 0,0 0,0 18,8 6,3 6,3 0,0 0,0 0,0 0,0

Outros técnicos nível

intermédio 0,0 1,4 0,7 2,7 15,1 25,6 20,9 4,6 1,2 0,0 2,0 1,2 1,2 8,1 2,3 2,3 5,5 3,8 1,4 0,0

Pessoal administrativo 5,5 1,0 1,0 1,8 18,3 22,0 15,5 5,5 1,0 3,7 1,8 2,7 2,7 2,7 1,0 1,8 3,7 7,3 1,8 0,0

Pessoal dos serviços 2,4 0,0 0,0 4,9 17,2 31,7 4,9 2,4 4,9 4,9 0,0 2,4 2,4 4,9 2,4 7,3 2,4 4,9 0,0 0,0

Agricultores 8,3 4,2 0,0 4,2 8,3 33,4 8,3 8,3 0,0 0,0 4,2 0,0 4,2 4,2 0,0 8,3 0,0 4,2 0,0 0,0

Os descendentes de quadros superiores da administração pública, de dirigentes e quadros superiores de empresa e de especialistas das profissões intelectuais e científicas são predominantemente médicos e advogados. A profissão docente ocupa, entre estes inquiridos, a terceira posição. A par deste aspecto, outro há que merece a nossa atenção. Ele reside na elevada reprodução socioprofissional que encontramos entre os filhos de médicos e de advogados.

Nestes dois casos, os 36,6% de descendentes de médicos que exercem a mesma profissão dos pais e os 45,5% de filhos de advogados que exercem advocacia são demonstrativos de um processo de reprodução socioprofissional que apenas encontramos entre estes dois grupos de licenciados, quer porque o portfólio de cursos da Universidade de Lisboa não permite estender este tipo de análise a outras profissões quer porque uma parte significativa dos diplomados está envolvida em trajectórias de ascensão social, o que exclui a possibilidade de reproduzirem a profissão exercida pelo pai.

Existe, no entanto, um grupo relativamente ao qual os dois argumentos avançados não se aplicam. Trata-se dos filhos de professores. Os descendentes dos professores apresentam, do ponto de vista profissional, um comportamento que os distingue dos seus colegas filhos de médicos e de advogados. Ao contrário destes últimos, poucos são os que exercem a mesma profissão do pai (15,3%). O estudo sobre os professores, realizado nos finais da década de 8089, oferece-nos algumas pistas para compreender as estratégias adoptadas

por este grupo.

De acordo com os resultados apresentados nesse estudo, os professores não consideram o seu estatuto socioprofissional socialmente prestigiante: entre as dezanove profissões socialmente mais valorizadas por este grupo profissional, a de docente surge em décimo quinto lugar90. Em sintonia com a conotação social

desprestigiante que atribuem ao seu estatuto, apenas 18,8% gostava que um filho fosse professor91. O facto de

o corpo docente ter uma imagem desvalorizada da profissão e, consequentemente, desejar que os seus descendentes venham a exercer uma actividade diferente da sua, afigura-se-nos como elementos importantes para compreender as opções profissionais dos filhos de professores. A reduzida percentagem destes diplomados que exerce a profissão docente ou, dito de outra forma, a ausência de uma estratégia de reprodução socioprofissional pode, talvez, ser compreendida como o resultado de uma imagem pouco valorizada da profissão docente difundida no grupo doméstico e à qual estes inquiridos parecem aderir.

A posição que a profissão docente ocupa entre os filhos de quadros superiores da administração pública, os dirigentes de empresas e especialistas das profissões intelectuais e científicas altera-se quando analisamos as actividades profissionais exercidas pelos descendentes dos outros grupos profissionais. Quer se trate de filhos de técnicos de nível intermédio, de pessoal administrativo ou dos serviços, de agricultores ou de operários, a profissão docente é a que congrega as suas preferências, ocupando agora a primeira posição entre as três mais escolhidas. A percentagem de licenciados a exercer a profissão de professor aumenta à medida que passamos das profissões de topo para as que se situam na base da estrutura socioprofissional, atingindo o valor mais elevado entre os filhos de operários (36,4%) e de agricultores (33,4%). Aliás, é também nestes dois grupos que encontramos a menor percentagem de inquiridos médicos e advogados.

O exercício da docência pelos diplomados provenientes dos grupos profissionais mais desprovidos de capital habilitacional e profissional atribui à profissão docente uma importância decisiva no processo de mobilidade social ascendente em que estes diplomados estão investidos.

89 AAVV, (1998). A situação do professor em Portugal. Relatório da Comissão criada pelo Despacho 114/ME/88 do Ministério da Educação. In Análise Social, vol. XXIV, 103-104, pp. 1187-1293.

90 Idem, pp. 1254-1255. 91 Idem ibidem, p. 1253.

INQUÉRITO AOS DIPLOMADOS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA (1994 -1998)

É entre os licenciados cujos pais exercem profissões menos qualificadas que encontramos um movimento de ascensão socioprofissional generalizado (Quadro nº68). Com efeito, aproximadamente dois terços dos inquiridos filhos de técnicos de nível intermédio (71,3%) e a quase totalidade dos descendentes do pessoal administrativo (93,6%), de pessoal dos serviços (100%), de agricultores (100%) e de operários (99,2%) exercem uma profissão que lhes permitiu ocupar uma posição mais elevada na hierarquia socioprofissional. Na prática, são eles os principais responsáveis pela intensidade da mobilidade ascendente inter-geracional que encontramos entre os diplomados da UL (50,8%).

Quadro nº69

Tipo de mobilidade socioprofissional inter-geracional (%)

Mobilidade

Ascendente Mobilidade Horizontal Descendente Mobilidade QS Adm. Públ., Directores de emp. 0,0 1,5 98,5 Especialistas das profissões cient./int. 1,9 85,4 12,7 Técnicos de nível intermédio 5,2 23,5 71,3 Pessoal administrativo 93,6 3,7 2,7 Pessoal dos serviços 100,0 0,0 0,0

Agricultores 100,0 0,0 0,0

Operários 99,2 0,8 0,0

Total 50,8 22,5 27,3

Diferente é a situação dos filhos de quadros superiores, dirigentes de empresas e especialistas de profissões científicas e intelectuais. Entre estes últimos, o tipo de mobilidade que predomina é a horizontal. Tratando-se de uma população cujos pais exercem profissões altamente qualificadas não é, pois, de estranhar que a maioria (85,4%) tenha uma actividade profissional que lhes permite manter a mesma posição na estrutura socioprofissional (12,7%) e que alguns se encontrem mesmo envolvidos em trajectórias de mobilidade descendente.

A mobilidade socioprofissional descendente predomina entre os diplomados cujos pais pertencem às categorias de quadros superiores da administração pública e de dirigentes e quadros superiores das empresas: 98,5% destes inquiridos ocupam uma posição na estrutura de qualificações inferior à ocupada pelo pai. Este facto não é, contudo, de estranhar. Sabendo nós que o acesso aos cargos superiores da administração pública e a criação de uma empresa não podem ser dissociados da experiência profissional, uma das explicações para a desclassificação socioprofissional, tendencialmente transitória, que estes licenciados protagonizam passa pelo factor idade e pela ainda reduzida experiência profissional que lhe está associada92. O aumento da idade e a

aquisição de novas competências decorrentes do exercício profissional tenderão, a médio prazo, a inverter o sentido desta mobilidade, reposicionando estes diplomados na estrutura de qualificações. Enquanto esse reposicionamento não ocorre, são estes diplomados aqueles que mais contribuem para os 26,7% de inquiridos que estão envolvidos neste tipo de mobilidade.

92 Cf, M. V. Cabral, op. cit., pp. 395-396.

INQUÉRITO AOS DIPLOMADOS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA (1994 -1998)

INQUÉRITO AOS DIPLOMADOS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA (1994 -1998)

CAPÍTULO VI