4 O REFERENCIAL DEJOURIANO NA COMPREENSÃO DA EMANCIPAÇÃO NO
4.3 MOBILIZAÇÃO SUBJETIVA: DO SOFRIMENTO AO PRAZER
Trabalhar é uma mobilização, sobretudo política, que independe da vontade do trabalhador, mas que prescinde da experiência da alteridade, da vivência coletiva. É no trabalhar que o sujeito encontra o reconhecimento, uma retribuição simbólica por sua contribuição com os processos de organização do trabalho, mediante engajamento subjetivo e inteligência empreendida (DUARTE; MENDES, 2015).
Para Dejours (2012a) a mobilização subjetiva está intrínseca ao trabalhar, de modo que ao vivenciar o sofrimento, face ao confronto entre os desejos do sujeito e as normas da organização do trabalho, o trabalhador é impulsionado à busca de alívio para o sofrimento e
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mobiliza recursos subjetivos para preencher a lacuna existente entre o prescrito e o real, transformando o sofrimento em prazer.
A mobilização subjetiva pressupõe o sofrimento criativo, que implica a superação dos obstáculos e solução dos problemas encontrados ao confrontar com o real. No trabalho, o sujeito tem a oportunidade de transformar o sofrimento em criatividade, a serviço da sua saúde (OLIVEIRA; MENDES, 2014). Nessa direção, o sofrimento criativo ocorre quando os trabalhadores encontram espaço, na organização do trabalho, para atender e reorientar as demandas, ressignificar os problemas socioprofissionais, assumir atitudes cooperativas e vivenciar o reconhecimento (FERREIRA et al., 2011). Logo, entende-se que o trabalho proporciona ao trabalhador uma mobilização subjetiva capaz de evitar o sofrimento e ressignificar sua relação com o trabalho.
Mendes e Muller (2013, p.290) definem o prazer como um “princípio mobilizador que coloca o sujeito em ação para a busca da gratificação, realização de si e reconhecimento pelo outro da utilidade de beleza do seu trabalho”. Para as autoras, este prazer é viabilizado pela mobilização da inteligência prática ante os constrangimentos da organização do trabalho, da construção do coletivo, que envolve as regras de ofício e de convivência e a cooperação que permitem a ressignificação do sofrimento. O prazer está sempre associado ao sofrimento, sendo uma vivência acessada quando, em confronto com o real do trabalho, há a vitória do trabalhar. Assim, para que no trabalho seja possível o sofrimento criativo, o prazer e, consequentemente, a saúde, é indispensável a mobilização das condições políticas capazes de conduzir o trabalhador à mobilização da inteligência prática, do espaço de discussão, da cooperação e do reconhecimento no trabalho (DUARTE; MENDES, 2015).
Essa mobilização política dá-se mediante esforços da inteligência prática, inventiva, criativa, referida por Dejours (2007) como astúcia, a qual, por um lado remete à criação e incorporação da inovação ao que já existe e é rotina; e por outro, demanda conhecimento, familiarização com a realidade de trabalho. Essa inteligência é considerada pulsional, sendo manifestada espontaneamente pelo trabalhador ao empregar sua experiência no sentido de criar algo novo, distinto da prescrição. No momento em que os sentidos (o corpo) são convocados, o trabalhador reage, solucionando o problema “em tempo real”, sem necessariamente interromper a atividade (VASCONCELOS, 2013).
A inteligência prática é caracterizada por Dejours (2007; 2011) e corroborada por Vasconcelos (2013), em cinco aspectos fundamentais: é enraizada no corpo, pois, diante do imprevisto, o trabalhador percebe o acontecimento e, baseado em uma situação de trabalho já vivenciada, é solicitado a dar conta do imprevisto do trabalho, ajustando a atividade e propondo
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soluções; concede maior importância aos resultados da ação do que ao caminho empreendido para alcançá-los, encontrando a melhor forma de atingir resultados com o mínimo de investimento em energia; está presente em todas as atividades de trabalho, sejam elas manuais ou intelectuais; possui poder criador na medida em que incorpora astúcia, inventividade e engenhosidade para dar conta do real do trabalho; e é amplamente difundida na sociedade, reforçando o seu aspecto potencial. É nesse movimento em prol da astúcia, que o trabalhador se envolve e se dedica no uso da sua inteligência prática, encontrando sentido em seu trabalho (DEJOURS, 2011b).
Uma forma de retribuição simbólica advinda da contribuição dada pelo sujeito, pelo engajamento de sua subjetividade e inteligência no trabalho é expressa no reconhecimento. Para Duarte e Mendes (2015), quando o trabalhador se sente reconhecido, ele se percebe aceito, admirado, dispondo de liberdade para expressar sua individualidade nas diversas situações de trabalho, e, assim, encontra no trabalho um espaço de constituição de si, de expressão, e não somente de produção para sobrevivência, alienando-se ao desejo de produção do sistema. Na perspectiva dejouriana, o reconhecimento tem relação intrínseca com o coletivo de trabalho, uma vez que para ser reconhecido é necessário o julgamento do outro, dos pares, e, desse modo, é necessário vencer o obstáculo da invisibilidade do trabalho, tornando visíveis as descobertas de sua inteligência e do seu saber-fazer (DEJOURS, 2004).
O coletivo de trabalho implica a construção de regras, de pactos entre os trabalhadores que convivem diariamente, como uma forma de encontrar saídas para as adversidades do trabalho. Para Ferreira et al. (2011), trata-se de um esforço coletivo e construção de regras que permitem encontrar, em conjunto, respostas concretas, políticas, ideias para futuros projetos. Embora quase sempre sejam alterados em função das mudanças decorrentes da organização do trabalho e das novas exigências para solucionar os problemas, novas regras serão sempre construídas, sendo essa construção favorecedora do engajamento e maior envolvimento do trabalhador com seu trabalho.
Assim, é no plano coletivo que se pode ocorrer o reconhecimento, sendo indispensável o olhar do outro, o seu julgamento e a visibilidade do trabalho afetivo. Entretanto, Lima (2011; 2013) problematiza a questão da visibilidade no trabalho, expondo que, as formas contemporâneas de organização do trabalho, centradas especialmente na avaliação individualizada de desempenho e na precariedade do trabalho, ameaçam a possibilidade de reconhecimento, enfraquecendo as relações solidárias e cooperativas. Este cenário reforça a invisibilidade do trabalho, a fragilidade dos laços de confiança e de cooperação, intensificando ainda mais o individualismo e a lógica do cada um por si.
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Nesse sentido, a cooperação passa pela mobilização do trabalhador em contribuir, mediante usufruto de sua inteligência prática, para o coletivo de trabalho. Logo, a cooperação, para além da atuação em equipe em prol de um mesmo propósito, assume um caráter emancipatório, embasado em laços de solidariedade, no respeito pelo outro e no compartilhamento e disseminação de saberes e práticas de cunho político e democrático. Conforme ensina Dejours (2008), para construir a cooperação é necessário encontrar compromissos entre as opiniões de uns e outros acerca do trabalho. E os compromissos no trabalho existem, tanto que, graças a estes, muitas pessoas quando trabalham se sentem melhor do que quando não trabalham.
O mesmo ensina ainda que o trabalho pode tanto provocar o pior, como pode também gerar o melhor do trabalhador, algo que se pode argumentar, ilustrar clinicamente e demonstrar. Isso porque, no mesmo espaço em que pode prevalecer a pressão individualizada por desempenho, em que se aprende a sabotar o colega e a agir sozinho, pode-se também encontrar o lugar onde é possível aprender a trabalhar com os outros, a cooperar (DEJOURS, 2008). Assim, apesar da dimensão estratégica e centrada em objetivos de eficiência que o trabalho assume na contemporaneidade, ainda é possível encontrar e constituir espaços de cooperação, de trabalhar com o outro, e de construção de coletivos (FERREIRA, et al., 2016).
Estes espaços são fundamentais à qualificação do trabalho, pois permitem a construção de relações baseadas na confiança, na solidariedade e na cooperação entre os pares, favorecendo o repensar no coletivo, e, mediante interpretação do trabalho, transformar situações geradoras de sofrimento. Para Dejours (2015) a criação de espaços de discussão no coletivo representa um caminho para a identificação de estratégias defensivas, possibilitando ao trabalhador a ampliação da sua percepção sobre ele mesmo, o que favorece o processo de emancipação deste, bem como a consequente intervenção naquilo que o grupo identifica como necessário para melhorar a organização do trabalho.
Merlo, Bottega e Magnus (2013) destacaram a importância dos espaços de discussão no trabalho, afirmando que estes são locais genuínos de livre circulação da palavra entre os trabalhadores, legitimados e validados pelo coletivo, em que os mesmos se sentem confortáveis para problematizar e elaborar questões acerca do trabalho. Para os autores, é no âmbito destes espaços que o trabalhador se dá conta do “milagre da palavra”, pois, como antes não falava e não era escutado, nem por si e nem pelos outros, não percebia a existência de aspectos importantes relacionados ao seu trabalho. Assim, a construção de espaços de discussão coletivos, possibilita a criação de brechas na opacidade da organização do trabalho e a
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potencialização da palavra, conferindo maior visibilidade ao sofrimento, às defesas e patologias, favorecendo a emancipação dos trabalhadores.
O sofrimento no trabalho está relacionado, sobretudo, ao enfrentamento dos riscos, às infrações das leis trabalhistas, e ao sentimento de não atender às expectativas impostas pelo trabalho, sendo este aumentado em função da rigidez da organização do trabalho. Embora o sofrimento seja sempre individual, é resultante das relações com os outros, no coletivo (FLEURY, 2013). Nesse sentido, um dos efeitos benéficos do sofrimento criativo seria o reconhecimento no trabalho. O reconhecimento requer o olhar do outro. Implica no julgamento dos pares, das chefias, dos clientes, constituindo uma ligação imprescindível com a existência do coletivo de trabalho e da cooperação, sendo estas dimensões o ponto primordial na dinâmica intersubjetiva da identidade no trabalho (LIMA, 2013). O reconhecimento refere-se ao esforço em encontrar soluções para os obstáculos, uma forma de fazer o prescrito tornar-se real.