O pensamento sobre as amplitudes da moda e seus limites, obviamente, faz-se necessário. Seus alcances enquanto modalidades criativas, o que podemos compreender ainda como projeto estético, vão lhe conferir tanto sua amplitude quanto sua limitação. Dito de outra maneira, aquilo de que se idealiza da moda como projeto de criação pode incorrer na sua limitação criativa em decorrência, em sua maioria, pelas regras impostas pelo mercado que a rotulam e engavetam em caixinhas ou ainda pela não aceitação como proposição criativo-estética. Basta pensarmos que nem sempre uma coleção de moda alcança o que se predispôs a alcançar.
Se nos determos a questões de impactos e relevâncias, a moda, constituída no princípio da “busca pelo novo”, esquadrinha sobretudo nos amplos desenvolvimentos do ato de fazer alinhado ao aparato técnico-industrial das realidades dos séculos XX e XXI uma perversa armadilha que a aprisiona enquanto registro estético de uma época. Esse estatuto da novidade funciona como algo que vai tensionar a moda entre os tempos. No pensar de Adorno (2008, p. 407), “o novo é o herdeiro do que antes queria dizer o conceito individualista de originalidade que, entretanto, apresenta como
pretexto os que não desejam o novo, acusando-o de falta de originalidade, de uma forma progressista da uniformidade”.
Diante dessa armadilha tensionada na busca e proposição constante do novo com as inúmeras coleções de moda que são ofertadas a cada estação de cada ano em capitais da moda, as quais abrangem desde as “big four”50 até outras capitais da moda
(tais como São Paulo, Tóquio, Berlim e Barcelona), o que demonstra o desenho do mapa contemporâneo da moda, acabou por pôr a moda em uma armadilha que se traduz na crise do seu paradigma de existência no mundo contemporâneo. Lipovetsky e Serroy percebem uma realidade de transfronteira para tentar compreender o binômio efemeridade-obsolescência da moda.
“Este é um tempo em que o universo da produção, da comunicação e da distribuição obedece a um processo de obsolescência estilística acelerada, que é o mesmo em vigor na moda. Nas sociedades redesenhadas pelo capitalismo artista, a moda deixou de ser vinculada a uma esfera privilegiada – o vestuário –, como foi o caso séculos a fio. Ela se apresenta como um processo generalizado, uma forma transfronteira que, apoderando-se de cada vez mais domínios da vida coletiva, reestrutura os objetos e os lugares, a cultura e as imagens” (Lipovetsky e Serroy, 2015, p. 79).
Pensar sobre a moda e seu ato criativo implica em pensar sobre as sutilezas do sensível, da potência deste e da existência que põe na mesma realidade a moda, o criador de moda e quem a recebe como roteiro estético de vida. Nesse viés, Rosane Preciosa nos propõe uma alternativa para pensarmos a respeito dessa questão.
“No caso específico da moda, e é bom que eu adiante isso logo
50 Expressão utilizada para contextualizar as forças e contribuições históricas, estéticas e mercadológicas
empreendidas no mundo da moda pelas primeiras capitais a se destacar nesse universo; a saber, Paris, Londres, Nova York e Milão.
para você, eu a percebo como uma forma absolutamente singular de sintonizar ideias, sensações, que vão modelando o contemporâneo, encarnando-as. Neste sentido, ela, em certa medida, pode nos oferecer um diagnóstico do mundo em que vivemos. Nas suas mais variadas manifestações, ela nos propõe modos subjetivos que serão vestidos por nós. Isso exige que estejamos bastante atentos ao sentido das peles que iremos sobrepôr às nossas” (Preciosa, 2005, p. 30).
A realidade contemporânea de existência da moda nos expõe diante de um quadro muito mais complexo do que em séculos passados. Se antigamente questões como a proteção, a moral, o pudor, o ornamento pautavam a constituição da moda enquanto tema com roteiro estético nos cotidianos das sociedades, a modernidade do final do XIX e sua passagem para a vida contemporânea do XX e XXI se pautam numa percepção feérica e espetacular da moda, em que o valor de exposição é elevado ao máximo. Sobre esse tópico, Smyth (2002, p. 161) nos lembra que “(…) os modernos teóricos do vestuário de outras persuasões parecem geralmente concordar com Thomas Carlyle que a origem do vestuário não deve ser localizado em modéstia ou utilidade, mas em ‘exibição’”51.
As credenciais da moda per se na vivência contemporânea demanda em sua existência temporal e espacial compreender seu projeto de realização, seus impactos, mas sobretudo as existências de limites e seus alcances. “A passagem do século XIX para a nossa contemporaneidade é, para qualquer pessoa interessada no mundo da moda, o motor de uma investigação sobre a sensibilidade em torno da moda”, comenta Lilian Santiago (2014, p. 18). Essas sensibilidades que se configuram na dinâmica da contemporaneidade respondem por um roteiro que nos guia para a percepção da moda como fenômeno. Mas um fenômeno que ultrapassa as margens do tempo e que também posso questioná-lo e repensá-lo. Estamos no século XXI, mas podemos ser levados ao
51 “(...) modern dress theorists of otherwise various persuasions seem generally to agree with Thomas
Carlyle that the origin of dress is not be located in either modesty or utility, but in ‘display’” (Smyth, 2002, p. 161, tradução nossa).
XIX ou a qualquer outra época por um coleção que suscite e explore o sensível, a imaginação. Esse é o fantástico na moda, o deslocamento dos tempos que faz com a noção de “limite” possa ser apagada no âmbito histórico, mas que também possa ser percebida quanto ao esgotamento das proposições de ideias estéticas da moda.
E se pensarmos que essa nova modalidade de compreensão da tensão existente entre vestuário e moda e seus limites atinge tanto os seus teóricos quanto seus criadores, nos é fornecida uma chave de interpretação para que possamos percebê-la como um espelho da vida. O que, de alguma maneira, borraria qualquer limitação que possa vir a existir na moda como roteiro definidor, delimitador. “Ora, nessa exigência febril das mudanças, onde buscar fontes de inspiração para a variação indefinidamente renovada dos corpos, dos detalhes, dos gostos e das idiossincrasias?”, questiona-se Santaella (2004, p. 121) ao pensar sobre o traço alucinante da efemeridade na moda. E direcionando sua reflexão para perceber nas relações de aproximações da moda com outros campos ela nos diz que “a solução que a moda encontrou para isso, muito similar ao que ocorreu no mundo da arte e das linguagens pós-modernas, foi a de buscar os estilos do passado remoto e recente para releituras cíclicas e contínuas”.
Pois quando afirmamos que a moda imita a vida, de alguma maneira, também assumimos as implicações que essa afirmação pode gerar. De tudo o que a moda se propõe a realizar, o mais incrível talvez seja sua liberdade. E quando pensamos em liberdade estamos direcionando nossa reflexão para tudo o que de mágico – algo como a teoria da magia de Marcel Mauss – a moda pode produzir para os homens e mulheres.
Muito embora saibamos que por transitar entre o estético e o mercado, a moda padeça do que podemos perceber como isonomia entre o que ela cria e do que isso se transforma em objeto, respingando na sua própria essência enquanto modalidade estética. Talvez resida aí uma possibilidade para entendermos uma limitação para a moda.
criar no universo da moda mapeado de regras de inúmeras ordens que (de)marcam de que maneira esses criadores podem constituir suas ideias inspiracionais para o complexo tempo da atualidade da moda em que a máxima do cânone estabelece limites de ordem física (em relação ao corpo humano, por exemplo), mas também que demanda maneiras de perceber, sentir e esquadrinhar os novos desejos estéticos de moda.
Diante disso, um dos principais limites da moda é a ausência de sensibilidades nos criadores. Pois mesmo diante de adversidades é a sensibilidade aliada aos espírito artístico e do tempo que fornecem modos de luta e enfrentamento diante dos limites físicos, simbólicos ou mesmo de outras naturezas com os quais a moda se depara.