1 ABORDAGEM RELACIONAL DA FAMÍLIA
1.4 MODALIDADE DE ENSINO E APRENDIZAGEM NA FAMÍLIA
Cada um tem uma modalidade de aprendizagem individual, uma forma
pessoal para se aproximar do conhecimento e conformar seu saber, forma esta que
é construída desde o nascimento, em um processo contínuo de conhecer
desconhecer.
Partindo da questão, “É possível existir ensino e aprendizagem sem
relacionar-se?”, Fernández (2001) e Scoz (2004) respondem afirmando que o ato de
aprender e de ensinar somente poderá ser compreendido se considerado como uma
unidade indissociável, por ser, ao mesmo tempo, constituinte e constituído. Como se
trata de um processo que não se dissocia e é inerente à condição humana, as
primeiras vivências ocorrem nas interações familiares, possibilitando a formação das
modalidades referenciais de ensino e de aprendizagem.
Ao nos relacionarmos no ensinar e no aprender, o fazemos ora com
o outro, como ensinante ou como aprendente, ora consigo mesmo
como aprendente, ora com o conhecimento como um terceiro, de
maneira própria. De acordo com o modo singular que uma pessoa se
relaciona com o conhecimento, pode haver algo que se repete e algo
que muda ao longo da vida (BRAGA; SCOZ; MUNHOZ, 2007, p.
153).
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A modalidade de aprendizagem indica a maneira de operar nas diferentes
situações de aprendizagem. Fernández afirma que
a modalidade de aprendizagem é um molde relacional, armado entre
a mãe como ensinante e o filho como aprendente, que continua
construindo-se nas posteriores relações entre personagens
aprendentes e ensinantes ao longo de toda a vida (2001, p. 76).
Ela se constrói pelo modo como os ensinantes reconheceram e desejaram a
criança como sujeito aprendente e pela significação que o grupo familiar deu ao ato
de conhecer.
Portanto, percebemos a importância da relação primeira do sujeito
com sua mãe e sua família na formação de sua modalidade de
aprendizagem. As possibilidades de se construir uma ou outra
modalidade de aprendizagem estão intimamente ligadas com o tipo
de investimento do outro como ensinante (BRAGA, SCOZ;
MUNHOZ, 2007, p. 152).
O outro influencia na formação da modalidade de aprendizagem do
aprendente, mas não vai determiná-la de forma permanente, uma vez que esta
opera como uma matriz em permanente reconstrução na qual novas aprendizagens
são, a todo tempo, incluídas e cujo uso transforma a matriz. Um dos indicadores de
“problema de aprendizagem” é aquela modalidade que se congela, se enrijece, que
perde a capacidade de transformação. Assim, a figura do ensinante é fundamental,
visto que não é possível pensar em aprendizagem sem ensinante.
Para que uma criança possa apropriar-se do poder de autoria de
pensamento, é preciso que um ensinante a invista da possibilidade
de ser aprendente e dê autorização de um lugar de sujeito pensante.
A criança não anda porque é destinada a andar, ou porque é de sua
natureza andar, mas porque um adulto deseja que ela ande, ou seja,
o ensinante precisa crer e querer que o aprendente aprenda, precisa
saber neutralizar a importância da sua figura e não depender do
aprendente (de seu êxito) para sentir-se satisfeito. Um bom
ensinante deve construir uma postura de aprendente (FERNANDEZ,
2001, p. 93).
A modalidade de aprendizagem do sujeito também é o resultado de uma
história de experiências do indivíduo em sua interação com o grupo familiar,
portanto, importam a maneira pela qual ocorreram as experiências e como foram
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interpretadas pelo indivíduo e por seus pais. A aprendizagem acontece na produção
das diferenças dos pais e dos filhos, apoiada no significado que o aprender tem para
o grupo. A modalidade de ensino, embora se constitua desde o início da vida, é de
algum modo, uma construção a partir da própria modalidade de aprendizagem
(MUNHOZ, 2002).
Entretanto, de acordo com Fernandez (2001), na clínica psicopedagógica,
comprova-se que uma determinada modalidade de ensino dos pais nem sempre
corresponde a uma modalidade de aprendizagem igual ou correlativa dos filhos. Não
é possível indicar relações que impliquem um efeito determinado na modalidade de
aprendizagem, como se a modalidade de ensino fosse causa. Também, por esse
motivo, a modalidade de aprendizagem de um sujeito não é resultado apenas de um
bom funcionamento orgânico; ela se constitui a partir de uma série de fatores dentre
os quais desempenha um papel muito importante a modalidade de ensino familiar.
Pode-se, assim, dizer que “existe uma relação entre determinados modos de se
apresentar o problema de aprendizagem nas crianças e determinadas posturas dos
pais frente ao conhecimento” e, graças a isso, aquilo que aparece como um suposto
problema de aprendizagem, na maioria das vezes, corresponde a um problema do
sistema ensinante, o que revela a importância fundamental da postura dos pais
frente ao conhecimento, que pode “ofender” a autoria de pensamento da criança de
maneiras diferentes.
Ainda para Fernandez (2001), os pais podem até ter atitudes consideradas
dificultadoras e, ao mesmo tempo, ter modalidades ensinantes saudáveis, pois o que
define a construção de uma modalidade de aprendizagem e/ou ensino dificultador é
a falta de flexibilidade, a rigidez, ou seja, a repetição de um mesmo modo de relação
com o conhecimento e com o outro em todas ou, pelo menos, em muitas situações.
A modalidade de aprendizagem é “como uma matriz, um molde, um esquema de
operar que vamos utilizando nas diferentes situações de aprendizagem”. Ela é
construída desde o sujeito em seu grupo familiar, de acordo com a real experiência
de aprendizagem e de como esta foi interpretada pelo sujeito e por seus pais.
A Psicopedagogia investiga a modalidade de aprendizagem do sujeito
analisando um conjunto de aspectos – conscientes, inconscientes – da ordem da
significação, da lógica, da simbólica, da corporeidade e da estética e tem como
objetivo principal capacitar a pessoa a se tornar autora de seu pensamento (VISCA,
1987). Por esse motivo, é imprescindível analisar as influências familiares sobre o
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aprendizado escolar, pensar no desempenho do aluno, conhecendo o sujeito
integralmente e mergulhando no principal núcleo do qual este faz parte: a família
(ALMEIDA, 2011).
Os psicopedagogos jamais poderão dispensar a história de vida do sujeito e
a hereditariedade, segundo Polity (2004), já que esses elementos oferecem dados
para a compreensão da sua personalidade, do seu comportamento e de sua
modalidade de aprendizagem a qual marcará uma forma particular de ele se
relacionar, buscar e construir conhecimentos, o seu posicionamento diante de si
mesmo como autor de seu pensamento, um modo de descobrir, construir o novo e
um modo de fazer próprio o que é alheio (FERNANDEZ, 2001).
A condição essencial para que o sujeito adquira novos conhecimentos é o
desejo de aprender, um desejo que só irá se manifestar se o aprendente for visto
como co-participante do processo de aprendizagem. Ele deverá ser ativo, no sentido
de perceber a utilidade do saber para a sua vida. Assim, a aprendizagem envolve o
sujeito autor, objetos a conhecer e o ensinante, e como só ocorre ensino quando
acontece a aprendizagem, precisa existir uma verdadeira interação de quem ensina
com quem aprende e vice-versa (ALMEIDA, 2011; FERNANDEZ, 2001).
Existe uma expectativa da família para com aquele que aprende que
interfere diretamente na aprendizagem, ou seja, uma dinâmica de encorajamento
diante de novas situações, diante dos desafios ou, ainda, um desejo inconsciente de
que esta pessoa permaneça dependente emocionalmente para sustentar alguns
segredos (como, por exemplo, a permanência de um filho em casa para cuidar
fisicamente da sua mãe quando ela estiver mais idosa). Dependendo de como
aconteça esse vínculo com a aprendizagem, de como esteja a autoestima de quem
aprende e de seus interesses, conscientes ou não, o sujeito poderá se transformar
em um pesquisador atuante, devido a sua curiosidade diante do que lhe é
apresentado em situações que não trazem respostas prontas, ou poderá reagir de
modo acomodado e pouco desafiador, repetindo comportamentos pouco criativos
diante de diferentes estímulos. Sendo assim, as pessoas podem desenvolver uma
modalidade fóbica de aprendizagem em que seja fomentado o medo de se lançar
diante do novo, de correr riscos que fará, consequentemente, aparecer a
insegurança em relação ao seu potencial (ZILMERMAN, 1999; ALMEIDA, 2011).
A modalidade de aprendizagem é construída nas relações interpessoais
estabelecidas. Dentro de uma perspectiva piagetiana, valoriza-se a formação do
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sujeito no grupo, pois a inteligência humana somente se desenvolve no indivíduo em
função de interações sociais (VISCA, 1987; VYGOTSKY, 1989). Com a mediação é
que se aprende, até mesmo, a dar os primeiros passos, a falar e a estruturar o
pensamento e essa mediação, além de interferir na formação da inteligência,
estando a criança em contato também com objetos do mundo físico, é responsável
por promover a troca afetiva, de modo geral. É através dessa rede de relações que
se vai desenvolvendo a personalidade.
Dessa forma, realça-se a presença dos pais, professores, parentes, amigos
nas diversas circunstâncias, pois, conforme afirma Fernandez, “a aprendizagem só
existe na circulação de saberes e conhecimentos, entre ensinante e aprendente,
entre o sujeito que tenta compreender o mundo e o outro que se interpõe entre
ambos” (2001, p. 78), ou seja, é algo dialético, onde só ensina quem aprende.
Para que ocorra a construção da aprendizagem nas relações familiares, as
crianças necessitam de adultos que as atendam exercendo autoridade, dando-lhes o
afeto necessário e, principalmente, separando os seus próprios conflitos existenciais
dos conflitos de seus filhos. Parolin declara:
As relações na família são essenciais para a estrutura do sujeito
através de processos que comportam identificação, individuação e
autonomia. Isso vai acontecendo na medida em que a criança vive o
seu dia a dia inserido em um grupo de pessoas que lhe dá carinho,
apresenta-lhe o funcionamento do mundo, oferece-lhe suporte
material para suas necessidades, conta-lhe histórias, fala sobre as
coisas e os fatos, conversa sobre o que sente e pensa, ensina-lhe a
arte da convivência (2010, p. 33).
Pesquisas realizadas entre 1999 e 2006, por Marturano (2006), com mães
de crianças encaminhadas para uma clínica-escola comprovaram que o progresso
na aprendizagem escolar decorre da supervisão e da organização da rotina do lar
tais como horário para tarefas e atividades diárias, oportunidade de interação com
os pais e oferta de recursos do ambiente físico, como livros e brinquedos. Em outra
pesquisa realizada por Coser (2009), esta, ao analisar as queixas relativas ao
desempenho escolar dos filhos de trezentas famílias recolhidas em dezessete anos
de trabalho em consultório, encontrou dois tipos característicos de famílias, as
denominadas “pró-saber” e as “anti-saber”.
As famílias do primeiro tipo eram aquelas que estimulavam em seus filhos a
busca pelo conhecer, forneciam situações de exploração do ambiente à criança,
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respeitavam as atividades escolares dos filhos, providenciavam recursos e
instrumentos para o “estudar”
4, estabeleciam regras coerentes com as contingências
de vida, forneciam consequências positivas ao comportamento de estudar e uma
série de outras condições que têm como efeito, em geral, o aumento da
probabilidade do comportamento desejado. Por outro lado, as famílias do segundo
tipo valorizavam excessivamente as notas de seus filhos, davam prioridade a outras
atividades concorrentes com os estudos, utilizavam regras incoerentes diante das
contingências de vida e, principalmente, se valiam de controle aversivo sobre os
comportamentos dos filhos. Os pais que conseguiram se afastar do modelo
“anti-saber” e se aproximar do “pró-“anti-saber” foram aqueles que obtiveram uma melhora nos
resultados do desempenho escolar de seus filhos.
O modelo anti-saber equivale, na pesquisa conduzida por Bolsoni-Silva e
Marturano (2002), ao conjunto de inabilidades parentais que interferem na
aprendizagem e na socialização dos filhos como: a falta de diálogo, de
expressividade de sentimentos dos pais para com os filhos, de aceitação dos
sentimentos dos filhos; ausência do uso de punições, privilegiando a utilização de
recompensas para os comportamentos adequados; o ignorar do comportamento
inadequado e o esquecimento do cumprimento de promessas; a falta de
entendimento do casal quanto à educação dos filhos e da participação de ambos os
progenitores na divisão de tarefas educativas; e, ainda, a falta de habilidade de dizer
não, de negociar e estabelecer regras para os filhos. Aqui, precisa ainda ser
considerada a falta de habilidade de se desculpar, pois, ao pedirem desculpas, os
pais estarão admitindo os próprios erros e ensinando os filhos a se comportarem de
forma parecida com aquilo que é por eles esperado.
Muitos pais, hoje temem negar coisas para seus filhos por estarem
preocupados com tudo que não conseguem lhes dar em termos de
carinho, atenção, tempo, convívio e, principalmente, orientação
educativa. Tentando se sentir melhor diante da criança, os pais e
familiares vivem a crise de „não‟. Os pais sentem-se mal ao negar
algo para seus filhos e acabam dando-lhes coisas que desejam, quer
tenham ou não condições financeiras, deixando de exercer o papel
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Estudar é uma classe de comportamento que inclui ações do indivíduo que possibilitem
preencher lacunas de conhecimento desse indivíduo sobre um ou mais assuntos ou,
então, que permitam ampliar o conhecimento a que o indivíduo já tem acesso sobre um
determinado assunto. Os termos estudar, comportamento de estudo e comportamento de
estudar, nesse texto, que faz referências a crianças, são representados pelos processos
de realização da tarefa de casa.
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mais importante de estabelecer limites, de orientar, de educar, de
contribuir para a formação de valores morais e éticos (PAROLIN,
2010, p. 34).
A forma como a família permite a circulação do saber e das informações e
conhecimentos vai construindo, individualmente, o lugar que cada um ocupa nesse
sistema assim como a modalidade de aprendizagem de cada um. Essa modalidade
é sempre singular e específica, pois está relacionada à história vincular de cada um
dos elementos da família e com a dinâmica familiar por eles construída (PAROLIN,
2010, p. 37).
A família é, portanto, o ponto de partida para a criança desenvolver
modalidades de aprendizagem facilitadoras para a autoria do pensamento ou
inibidoras do desenvolvimento, desencadeando dificuldades de aprendizagem.
No documento
Universidade Católica do Salvador
(páginas 48-54)