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MODALIDADE DE ENSINO E APRENDIZAGEM NA FAMÍLIA

No documento Universidade Católica do Salvador (páginas 48-54)

1 ABORDAGEM RELACIONAL DA FAMÍLIA

1.4 MODALIDADE DE ENSINO E APRENDIZAGEM NA FAMÍLIA

Cada um tem uma modalidade de aprendizagem individual, uma forma

pessoal para se aproximar do conhecimento e conformar seu saber, forma esta que

é construída desde o nascimento, em um processo contínuo de conhecer

desconhecer.

Partindo da questão, “É possível existir ensino e aprendizagem sem

relacionar-se?”, Fernández (2001) e Scoz (2004) respondem afirmando que o ato de

aprender e de ensinar somente poderá ser compreendido se considerado como uma

unidade indissociável, por ser, ao mesmo tempo, constituinte e constituído. Como se

trata de um processo que não se dissocia e é inerente à condição humana, as

primeiras vivências ocorrem nas interações familiares, possibilitando a formação das

modalidades referenciais de ensino e de aprendizagem.

Ao nos relacionarmos no ensinar e no aprender, o fazemos ora com

o outro, como ensinante ou como aprendente, ora consigo mesmo

como aprendente, ora com o conhecimento como um terceiro, de

maneira própria. De acordo com o modo singular que uma pessoa se

relaciona com o conhecimento, pode haver algo que se repete e algo

que muda ao longo da vida (BRAGA; SCOZ; MUNHOZ, 2007, p.

153).

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A modalidade de aprendizagem indica a maneira de operar nas diferentes

situações de aprendizagem. Fernández afirma que

a modalidade de aprendizagem é um molde relacional, armado entre

a mãe como ensinante e o filho como aprendente, que continua

construindo-se nas posteriores relações entre personagens

aprendentes e ensinantes ao longo de toda a vida (2001, p. 76).

Ela se constrói pelo modo como os ensinantes reconheceram e desejaram a

criança como sujeito aprendente e pela significação que o grupo familiar deu ao ato

de conhecer.

Portanto, percebemos a importância da relação primeira do sujeito

com sua mãe e sua família na formação de sua modalidade de

aprendizagem. As possibilidades de se construir uma ou outra

modalidade de aprendizagem estão intimamente ligadas com o tipo

de investimento do outro como ensinante (BRAGA, SCOZ;

MUNHOZ, 2007, p. 152).

O outro influencia na formação da modalidade de aprendizagem do

aprendente, mas não vai determiná-la de forma permanente, uma vez que esta

opera como uma matriz em permanente reconstrução na qual novas aprendizagens

são, a todo tempo, incluídas e cujo uso transforma a matriz. Um dos indicadores de

“problema de aprendizagem” é aquela modalidade que se congela, se enrijece, que

perde a capacidade de transformação. Assim, a figura do ensinante é fundamental,

visto que não é possível pensar em aprendizagem sem ensinante.

Para que uma criança possa apropriar-se do poder de autoria de

pensamento, é preciso que um ensinante a invista da possibilidade

de ser aprendente e dê autorização de um lugar de sujeito pensante.

A criança não anda porque é destinada a andar, ou porque é de sua

natureza andar, mas porque um adulto deseja que ela ande, ou seja,

o ensinante precisa crer e querer que o aprendente aprenda, precisa

saber neutralizar a importância da sua figura e não depender do

aprendente (de seu êxito) para sentir-se satisfeito. Um bom

ensinante deve construir uma postura de aprendente (FERNANDEZ,

2001, p. 93).

A modalidade de aprendizagem do sujeito também é o resultado de uma

história de experiências do indivíduo em sua interação com o grupo familiar,

portanto, importam a maneira pela qual ocorreram as experiências e como foram

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interpretadas pelo indivíduo e por seus pais. A aprendizagem acontece na produção

das diferenças dos pais e dos filhos, apoiada no significado que o aprender tem para

o grupo. A modalidade de ensino, embora se constitua desde o início da vida, é de

algum modo, uma construção a partir da própria modalidade de aprendizagem

(MUNHOZ, 2002).

Entretanto, de acordo com Fernandez (2001), na clínica psicopedagógica,

comprova-se que uma determinada modalidade de ensino dos pais nem sempre

corresponde a uma modalidade de aprendizagem igual ou correlativa dos filhos. Não

é possível indicar relações que impliquem um efeito determinado na modalidade de

aprendizagem, como se a modalidade de ensino fosse causa. Também, por esse

motivo, a modalidade de aprendizagem de um sujeito não é resultado apenas de um

bom funcionamento orgânico; ela se constitui a partir de uma série de fatores dentre

os quais desempenha um papel muito importante a modalidade de ensino familiar.

Pode-se, assim, dizer que “existe uma relação entre determinados modos de se

apresentar o problema de aprendizagem nas crianças e determinadas posturas dos

pais frente ao conhecimento” e, graças a isso, aquilo que aparece como um suposto

problema de aprendizagem, na maioria das vezes, corresponde a um problema do

sistema ensinante, o que revela a importância fundamental da postura dos pais

frente ao conhecimento, que pode “ofender” a autoria de pensamento da criança de

maneiras diferentes.

Ainda para Fernandez (2001), os pais podem até ter atitudes consideradas

dificultadoras e, ao mesmo tempo, ter modalidades ensinantes saudáveis, pois o que

define a construção de uma modalidade de aprendizagem e/ou ensino dificultador é

a falta de flexibilidade, a rigidez, ou seja, a repetição de um mesmo modo de relação

com o conhecimento e com o outro em todas ou, pelo menos, em muitas situações.

A modalidade de aprendizagem é “como uma matriz, um molde, um esquema de

operar que vamos utilizando nas diferentes situações de aprendizagem”. Ela é

construída desde o sujeito em seu grupo familiar, de acordo com a real experiência

de aprendizagem e de como esta foi interpretada pelo sujeito e por seus pais.

A Psicopedagogia investiga a modalidade de aprendizagem do sujeito

analisando um conjunto de aspectos – conscientes, inconscientes – da ordem da

significação, da lógica, da simbólica, da corporeidade e da estética e tem como

objetivo principal capacitar a pessoa a se tornar autora de seu pensamento (VISCA,

1987). Por esse motivo, é imprescindível analisar as influências familiares sobre o

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aprendizado escolar, pensar no desempenho do aluno, conhecendo o sujeito

integralmente e mergulhando no principal núcleo do qual este faz parte: a família

(ALMEIDA, 2011).

Os psicopedagogos jamais poderão dispensar a história de vida do sujeito e

a hereditariedade, segundo Polity (2004), já que esses elementos oferecem dados

para a compreensão da sua personalidade, do seu comportamento e de sua

modalidade de aprendizagem a qual marcará uma forma particular de ele se

relacionar, buscar e construir conhecimentos, o seu posicionamento diante de si

mesmo como autor de seu pensamento, um modo de descobrir, construir o novo e

um modo de fazer próprio o que é alheio (FERNANDEZ, 2001).

A condição essencial para que o sujeito adquira novos conhecimentos é o

desejo de aprender, um desejo que só irá se manifestar se o aprendente for visto

como co-participante do processo de aprendizagem. Ele deverá ser ativo, no sentido

de perceber a utilidade do saber para a sua vida. Assim, a aprendizagem envolve o

sujeito autor, objetos a conhecer e o ensinante, e como só ocorre ensino quando

acontece a aprendizagem, precisa existir uma verdadeira interação de quem ensina

com quem aprende e vice-versa (ALMEIDA, 2011; FERNANDEZ, 2001).

Existe uma expectativa da família para com aquele que aprende que

interfere diretamente na aprendizagem, ou seja, uma dinâmica de encorajamento

diante de novas situações, diante dos desafios ou, ainda, um desejo inconsciente de

que esta pessoa permaneça dependente emocionalmente para sustentar alguns

segredos (como, por exemplo, a permanência de um filho em casa para cuidar

fisicamente da sua mãe quando ela estiver mais idosa). Dependendo de como

aconteça esse vínculo com a aprendizagem, de como esteja a autoestima de quem

aprende e de seus interesses, conscientes ou não, o sujeito poderá se transformar

em um pesquisador atuante, devido a sua curiosidade diante do que lhe é

apresentado em situações que não trazem respostas prontas, ou poderá reagir de

modo acomodado e pouco desafiador, repetindo comportamentos pouco criativos

diante de diferentes estímulos. Sendo assim, as pessoas podem desenvolver uma

modalidade fóbica de aprendizagem em que seja fomentado o medo de se lançar

diante do novo, de correr riscos que fará, consequentemente, aparecer a

insegurança em relação ao seu potencial (ZILMERMAN, 1999; ALMEIDA, 2011).

A modalidade de aprendizagem é construída nas relações interpessoais

estabelecidas. Dentro de uma perspectiva piagetiana, valoriza-se a formação do

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sujeito no grupo, pois a inteligência humana somente se desenvolve no indivíduo em

função de interações sociais (VISCA, 1987; VYGOTSKY, 1989). Com a mediação é

que se aprende, até mesmo, a dar os primeiros passos, a falar e a estruturar o

pensamento e essa mediação, além de interferir na formação da inteligência,

estando a criança em contato também com objetos do mundo físico, é responsável

por promover a troca afetiva, de modo geral. É através dessa rede de relações que

se vai desenvolvendo a personalidade.

Dessa forma, realça-se a presença dos pais, professores, parentes, amigos

nas diversas circunstâncias, pois, conforme afirma Fernandez, “a aprendizagem só

existe na circulação de saberes e conhecimentos, entre ensinante e aprendente,

entre o sujeito que tenta compreender o mundo e o outro que se interpõe entre

ambos” (2001, p. 78), ou seja, é algo dialético, onde só ensina quem aprende.

Para que ocorra a construção da aprendizagem nas relações familiares, as

crianças necessitam de adultos que as atendam exercendo autoridade, dando-lhes o

afeto necessário e, principalmente, separando os seus próprios conflitos existenciais

dos conflitos de seus filhos. Parolin declara:

As relações na família são essenciais para a estrutura do sujeito

através de processos que comportam identificação, individuação e

autonomia. Isso vai acontecendo na medida em que a criança vive o

seu dia a dia inserido em um grupo de pessoas que lhe dá carinho,

apresenta-lhe o funcionamento do mundo, oferece-lhe suporte

material para suas necessidades, conta-lhe histórias, fala sobre as

coisas e os fatos, conversa sobre o que sente e pensa, ensina-lhe a

arte da convivência (2010, p. 33).

Pesquisas realizadas entre 1999 e 2006, por Marturano (2006), com mães

de crianças encaminhadas para uma clínica-escola comprovaram que o progresso

na aprendizagem escolar decorre da supervisão e da organização da rotina do lar

tais como horário para tarefas e atividades diárias, oportunidade de interação com

os pais e oferta de recursos do ambiente físico, como livros e brinquedos. Em outra

pesquisa realizada por Coser (2009), esta, ao analisar as queixas relativas ao

desempenho escolar dos filhos de trezentas famílias recolhidas em dezessete anos

de trabalho em consultório, encontrou dois tipos característicos de famílias, as

denominadas “pró-saber” e as “anti-saber”.

As famílias do primeiro tipo eram aquelas que estimulavam em seus filhos a

busca pelo conhecer, forneciam situações de exploração do ambiente à criança,

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respeitavam as atividades escolares dos filhos, providenciavam recursos e

instrumentos para o “estudar”

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, estabeleciam regras coerentes com as contingências

de vida, forneciam consequências positivas ao comportamento de estudar e uma

série de outras condições que têm como efeito, em geral, o aumento da

probabilidade do comportamento desejado. Por outro lado, as famílias do segundo

tipo valorizavam excessivamente as notas de seus filhos, davam prioridade a outras

atividades concorrentes com os estudos, utilizavam regras incoerentes diante das

contingências de vida e, principalmente, se valiam de controle aversivo sobre os

comportamentos dos filhos. Os pais que conseguiram se afastar do modelo

“anti-saber” e se aproximar do “pró-“anti-saber” foram aqueles que obtiveram uma melhora nos

resultados do desempenho escolar de seus filhos.

O modelo anti-saber equivale, na pesquisa conduzida por Bolsoni-Silva e

Marturano (2002), ao conjunto de inabilidades parentais que interferem na

aprendizagem e na socialização dos filhos como: a falta de diálogo, de

expressividade de sentimentos dos pais para com os filhos, de aceitação dos

sentimentos dos filhos; ausência do uso de punições, privilegiando a utilização de

recompensas para os comportamentos adequados; o ignorar do comportamento

inadequado e o esquecimento do cumprimento de promessas; a falta de

entendimento do casal quanto à educação dos filhos e da participação de ambos os

progenitores na divisão de tarefas educativas; e, ainda, a falta de habilidade de dizer

não, de negociar e estabelecer regras para os filhos. Aqui, precisa ainda ser

considerada a falta de habilidade de se desculpar, pois, ao pedirem desculpas, os

pais estarão admitindo os próprios erros e ensinando os filhos a se comportarem de

forma parecida com aquilo que é por eles esperado.

Muitos pais, hoje temem negar coisas para seus filhos por estarem

preocupados com tudo que não conseguem lhes dar em termos de

carinho, atenção, tempo, convívio e, principalmente, orientação

educativa. Tentando se sentir melhor diante da criança, os pais e

familiares vivem a crise de „não‟. Os pais sentem-se mal ao negar

algo para seus filhos e acabam dando-lhes coisas que desejam, quer

tenham ou não condições financeiras, deixando de exercer o papel

4

Estudar é uma classe de comportamento que inclui ações do indivíduo que possibilitem

preencher lacunas de conhecimento desse indivíduo sobre um ou mais assuntos ou,

então, que permitam ampliar o conhecimento a que o indivíduo já tem acesso sobre um

determinado assunto. Os termos estudar, comportamento de estudo e comportamento de

estudar, nesse texto, que faz referências a crianças, são representados pelos processos

de realização da tarefa de casa.

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mais importante de estabelecer limites, de orientar, de educar, de

contribuir para a formação de valores morais e éticos (PAROLIN,

2010, p. 34).

A forma como a família permite a circulação do saber e das informações e

conhecimentos vai construindo, individualmente, o lugar que cada um ocupa nesse

sistema assim como a modalidade de aprendizagem de cada um. Essa modalidade

é sempre singular e específica, pois está relacionada à história vincular de cada um

dos elementos da família e com a dinâmica familiar por eles construída (PAROLIN,

2010, p. 37).

A família é, portanto, o ponto de partida para a criança desenvolver

modalidades de aprendizagem facilitadoras para a autoria do pensamento ou

inibidoras do desenvolvimento, desencadeando dificuldades de aprendizagem.

No documento Universidade Católica do Salvador (páginas 48-54)