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Modalidade de pesquisa e ferramentas metodológicas

2 ANDANÇAS NO ASFALTO: CONSTRUINDO MÉTODO AO CAMINHAR

2.3 Modalidade de pesquisa e ferramentas metodológicas

Este projeto se configura como “Estudo de Caso” que, por sua vez, visa à investigação de um ou mais casos específicos em “profundidade”, ou seja, de modo detido. Essa

modalidade de pesquisa pretende compreender “tanto o que é comum quanto o que é particular em cada caso, mas o resultado final geralmente retrata algo de original [...]” (MAZZOTTI, 2006, p. 642). Como habitar à rua trata-se de uma experiência minoritária e que exige um desprendimento singular em relação a maioria das pessoas que habitam uma cidade, a modalidade de “estudo de caso” facilitou o desenvolvimento da pesquisa por não homogeneizarmos os modos de vida das mulheres.

Para desenvolver essa modalidade de estudo, utilizamos, como instrumentos de produção do corpus da pesquisa três ferramentas metodológicas: observação, conversas no cotidiano e entrevista narrativa. Esses instrumentos são chamados de estratégias metodológicas e possibilitam a produção de novos rearranjos dialógicos e interacionais (ARAGAKI; LIMA et al., 2014). As observações e as conversas no cotidiano foram utilizadas para conhecer como as mulheres exerciam o autocuidado na rua e para acompanhar possíveis redes imbricadas nesse cuidado. Por exemplo, podemos constatar se usavam equipamentos de saúde e assistência social e com que finalidade.

As observações no cotidiano são estratégias metodológicas que visam compreender os modos de vida das pessoas e “busca dar visibilidade às contradições e possibilidades de produzir certa maneira contemplativa, embora abranja uma variedade de enfoques e formas de uso diferenciadas” (CARDONA; CORDEIRO; BRASILINO, 2014, p. 129). Já as conversas são ferramentas importantes para a compreensão das práticas discursivas, bem como dão lugar ao “protagonismo” das pessoas na coprodução do conhecimento (BATISTA; BERNARDES; MENEGON, 2014). Para isso, a familiarização com o local e a criação de vínculos com as participantes foram fundamentais para as conversas fluírem.

Já as entrevistas narrativas foram realizadas para contribuir na construção da história de vida delas, a fim de compreender seus processos de cuidado no cenário da rua. Sendo assim, o cenário das entrevistas foram as andanças por ruas e praças, com seus inúmeros movimentos: cachorros latindo, barulhos de trânsito, apito organizando carros, sirene de ambulância, conversas paralelas, assovios, dentre outros. Ou seja, o cotidiano se fez no ato das entrevistas. As entrevistas, com foco no objetivo de “acompanhar as redes imbricadas em possíveis práticas de cuidado em saúde”, desencadearam-se com vocabulários simples utilizados pela entrevistadora, aproximando-se do vocabulário das interlocutoras, favorecendo o diálogo entre ambas. Assim, as entrevistas mergulharam em um clima clínico em seu sentido amplo, de envolver uma experiência singular, onde narrar sua história “implica uma reconstrução na qual a memória é concebida de maneira dinâmica, compreendendo processos conscientes e também inconscientes” (AZEVEDO, 2013, p. 139). Desse modo, houve também

responsabilidade ética evidenciada na atuação da pesquisadora naqueles momentos junto as mulheres, dando acolhida a suas dores e alegrais, e conforme a gravidade sugerir e/ou acompanhá-las a um serviço especializado.

Acolher sofrimentos e alegrias que estão sendo partilhados foi parte de todo o processo de pesquisa com aquelas pessoas. As mulheres que participaram, o fizeram em uma relação de partilha das situações por elas vividas. Portanto, a implicação “clínica”, deve ser compreendida como essa capacidade de escuta, não somente sobre certo material empírico que é objeto de investigação, mas sobre uma certa elaboração narrativa de si, que têm efeitos sobre quem está falando. Tal escuta impõe cuidado para que não expusemos de modo desnecessário. Nem tudo que foi dito ou visto no cotidiano das praças e ruas com essas mulheres foi explicitado na pesquisa. A empatia e a postura sem pré-julgamentos ou atitudes policialescas, permitiu adentrarmos na vida de rua desvelando o que já sabemos acontecer: comércio ilegal de drogas e brigas por sobrevivência. Mas, ressalte-se, conosco, no momento em que estávamos com essas pessoas elas não faziam usos de produtos ilegais, de algum modo nos preservando. Alguns moradores em situação de rua, nos convidavam para entrar nas rodas de uso de bebida e fumo, até por certa delicadeza, mas compreendiam nossa negativa. Essa situação se assemelha aos estudos de Rui (2014) que aponta a “privacidade” em certos usos de drogas ilícitas, como o crack, tendo espaços específicos para tal prática. De modo semelhante, a prática sexual das mulheres participantes da pesquisa não era realizada na praça, mesmo com a presença de pequenas barracas onde dormiam algumas vezes. Relataram que tal prática era realizada em um “quartinho” alugado no centro da cidade.

Por fim, entendendo que a pesquisa se refere a práticas mesmo quando trata de discursos/narrativas, em nossas análises isso será levado a efeito, tendo como base o conceito de “práticas discursivas”, proposto por Foucault. Para o autor (1986), os discursos produzem efeitos e estão permeados de saberes que possibilitam as condições de produção de determinado “regime de verdade”, em determinado período histórico. Isto é, segundo Boas (2002) “o discurso não pode ser definido fora das relações que o constituem” (p. 62). Assim sendo, discurso é prática, que tem “existência objetiva e material” sob “certas regras a que o sujeito está submetido desde o momento em que enuncia um discurso” (p. 63). Compreendemos que as práticas de cuidado produzidas por elas são práticas discursivas que as posicionam em certos lugares e o que nos interessa saber é quais são os efeitos que essas posições discursivas produzem no cotidiano de suas vidas. Desse modo, dois quadros com transcrições sequenciais de entrevistas foram criados e utilizados como “mapas dialógicos” para a análise (SPINK, 2013). O primeiro quadro chamado de “cotidiano na rua” tem como subtópicos: “redes de

apoio”, “itinerários a pé”, “vida na rua”,”uso de substâncias”, “dificuldades” e “oportunidades”. O segundo quadro chamado de “cuidados em saúde”, tem com os subtópicos: “cuidados formais”, “equipamentos de política pública” e “cuidados informais”.

A escolha por “mapas dialógicos” está diretamente ligada aos referenciais teóricos utilizados na pesquisa e os objetivos da pesquisa, dando visibilidade a análise das práticas discursivas produzidas, pois o intuito é trazer as práticas dessas mulheres relacionadas ao autocuidado, ou seja, escutamos sobre e vimos o cotidiano delas na rua. Isso constituiu-se na produção da pesquisa.