Capítulo III -Enquadramento Metodológico
2. Procedimentos Metodológicos
2.3. Modalidade de tratamento e análise dos dados
Após a recolha de dados, estes foram tratados através de uma análise de conteúdo que consiste, segundo Bardin (1979:42), num
(…) conjunto de técnicas de análise de comunicações visando obter, por procedimentos, sistemáticos e objectivos, de descrição de conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.
De um modo geral, trata-se de organizar a informação através de categorias e interpretá-la, tentando perceber os significados e sentidos que lhe são atribuídos e que podem ser reflexivamente extraídos. Interpretar não é apenas descodificar e atribuir significado, mas sim compreender, captar o sentido. Não basta descrever, transcrever aquilo que foi dito, mas compreender o que está por trás do discurso ao olhar para além do senso comum ou de um olhar desprevenido, pois se não aprofundarmos o que nos é familiar caímos numa ilusão do conhecimento através do que é apenas visível a olho nu. Esta perspetiva aproxima-se de Durkheim e Bourdieu na luta contra a «ilusão da transparência», pois tenta afastar-se dos perigos de uma compreensão espontânea, isto é, uma leitura simplista e aparentemente fácil da realidade e, por isso, é importante uma postura crítica de análise face à informação.
De forma a esquematizar a análise tivemos como referência Amado (2014), Bardin (1979) e L’Ecuyer (citado por Leite, 2002). Assim sendo foram definidas as seguintes fases:
1. Definição do problema e dos objetivos do trabalho – fase inicial do processo investigacional essencial à definição do posicionamento e procedimento metodológico;
2. Explicitação de um quadro referencial teórico – reflexão sobre referências teóricas que permitem questionar e interpretar os dados;
3. Constituição de um corpus documental – definição dos documentos a ser analisados, cujos critérios para a sua constituição devem ser a exaustividade, a representatividade, a homogeneidade e a adequação;
4. Leituras preparatórias – o que Bardin (1979) designa por «leitura flutuante», ou seja, uma leitura exaustiva de todo o material recolhido de modo a deixarmo-nos “(…) invadir por impressões e orientações” (idem:96) e captar o que é essencial. São estas leituras que irão despoletar o surgimento das categorias, pela repetição de palavras, frases, ideias e/ou padrões de comportamento nos diferentes textos – unidades de análise;
5. Processo de categorização – definição e enunciação das categorias de análise; 6. Construção de quadros de análise – construção de um quadro com categorias,
subcategorias e as unidades de análise retiradas do corpus documental para ser interpretada;
7. Interpretação dos resultados.
O corpus documental da nossa análise é constituído pelas diversas entrevistas realizadas. Depois de transcritas, estas foram sujeitas a uma leitura atenta de modo a captar as ideias-chave do conteúdo de cada uma e fazendo o registo destas ideias em jeito de categorização temporária, de modo a começar a organizar o material.
As categorias de análise podem ser elaboradas à priori, à posteriori ou uma combinação dos dois (Bardin 1979; Silva & Pinto, 1989). Nesta presente investigação, previamente à leitura das entrevistas, foram elaboradas pré-categorias de análise, considerando os objetivos da investigação e o referencial teórico. Deste modo, ao efetuar as primeiras leituras, já tínhamos como objetivo identificar alguns pontos em concreto apresentados no quadro seguinte.
Dimensões Categorias
Relação com o Bairro
Razões pelas quais habitam no bairro22 Aspetos positivos/ de valorização Elementos negativos/ de desvalorização
Expectativas/ Desejo de mudanças Integração e sentimento de pertença
“O meu bairro” vs “os outros bairros (ou territórios)”
Relação com o meio envolvente
Perceção acerca das opiniões externas Estratégias face à opinião externa
Quadro 5. Dimensões e pré categorias de análise
Com uma leitura repetida e mais atenta da informação recolhida foram sendo formadas novas categorias e subcategorias. Apresentamos de seguida o quadro final com as dimensões, categorias e subcategorias.
Análise de Conteúdo – Entrevistas aos moradores
Dimensões Categorias Subcategorias
A Relação com o bairro (Esta dimensão abarca todas as categorias que digam respeito à 1. Aspetos positivos/ de valorização
(Pertencem a esta categoria os enunciados que revelem aspetos que caracterizem positivamente o bairro) 1.1 Alojamento 1.2 Segurança 1.3 Localização/ Acessibilidades 1.4 Outros 2. Aspetos Negativos/ de desvalorização
(Pertencem a esta categoria os enunciados que revelem aspetos
2.1 Más condições de alojamento/bairro 2.2 Conflitos Sociais 2.3 Dinâmica do bairro
22 Esta categoria deixa de existir uma vez que, face ao tempo que os moradores habitam o bairro, sob o ponto
de vista de análise, não se justifica a criação de uma categoria. Esta informação é revelada na caracterização dos participantes como pudemos ver.
forma como os moradores veem e
vivem o seu bairro)
que caracterizem negativamente
o bairro) 2.4 Outros
3. Expectativas/ desejo de mudanças
(Pertencem a esta categoria os enunciados que revelam sugestões de mudança para se viver melhor no bairro)
3.1 Melhoria das habitações
3.2 Vida coletiva
3.3 Outros
4. Mudar de local de residência
(Pertencem a esta categoria os enunciados que revelam vontade de sair do bairro)
5. Integração/ sentimento de pertença
(Pertencem a esta categoria os enunciados que revelam aspetos ligados ao sentimento de bem- estar ou mal-estar no bairro, ligação afetiva e símbolos partilhados)
5.1 Fronteiras Simbólicas
5.2 Ligação afetiva/ gosto pelo bairro
5.3 Relação com a vizinhança
6. “O meu bairro” vs. “Os outros bairros/ territórios”
(Pertencem a esta categoria os enunciados que revelam uma comparação do bairro em que habitam com outros territórios habitacionais)
B 7. Perceção acerca da opinião externa
Relação com a opinião externa (Esta dimensão abarca todas as categorias que digam respeito às perceções dos moradores acerca da forma como os outros olham para o bairro e como lidam com essa
visão)
(Pertencem a esta categoria os enunciados que reflitam a perceção dos moradores acerca da imagem que os outros têm do bairro)
8. Reação face à opinião externa
(Pertencem a esta categoria os enunciados que reflitam a forma como os moradores reagem à opinião externa acerca do bairro) C Intervenção (Esta dimensão abarca todas as categorias que digam respeito à intervenção realizada no bairro) 9. Perceção acerca da intervenção realizada no bairro
(Pertencem a esta categoria os enunciados que reflitam a forma como os moradores
percecionam a intervenção realizada no bairro)
10. Ações entendidas como necessárias para valorizarem o bairro
(Pertencem a esta categoria os enunciados que sejam sugestões de ações que combatam o estigma relativo ao bairro)
10.1 Reabilitação
(casas e espaços envolventes)
10.2 Dinamizar e publicitar o bairro
10.3 Outros
Foi também elaborada um quadro de análise para as entrevistas complementares de forma a facilitar o diálogo entre os diferentes discursos.
Análise de Conteúdo – Entrevistas complementares
Dimensões Categorias Subcategorias
A Relação com o bairro (Esta dimensão abarca todas as categorias que digam respeito à forma como os entrevistados percecionam o bairro) 1. Aspetos positivos/ de valorização
(Pertencem a esta categoria os enunciados que revelem aspetos que caracterizem positivamente o
bairro)
2. Aspetos negativos/ de desvalorização
(Pertencem a esta categoria os enunciados que revelem aspetos que caracterizem negativamente o bairro) 2.1 Más condições de alojamento/bairro 2.2 Conflitos sociais 2.4 Outros 3. “O Bairro do Sobreiro” vs. “os
outros bairros/ territórios”
(Pertencem a esta categoria os enunciados que revelem uma comparação do bairro em que intervêm com outros territórios habitacionais)
4. Perceção externa do bairro
(Pertencem a esta categoria os enunciados que revelem a imagem geral que os entrevistados
consideram que o bairro tem no exterior)
B Intervenção (Esta dimensão abarca todas as categorias que digam respeito à intervenção realizada no bairro) 5. Trabalho desenvolvido
(Pertencem a esta categoria os enunciados que dão conta da intervenção realizada no bairro)
5.1 Respostas Sociais 5.2 Outras dinâmicas 5.3 Representação do bairro 5.4 Manutenção dos Espaços 6. Planos de intervenção futuros
(Pertencem a esta categorias os enunciados que revelem propostas e planos de intervenção a serem desenvolvidos no futuro)
Quadro 7. Entrevistas complementares – categorias e subcategorias de análise
Após esta definição foram elaborados quadros de análise de conteúdo com os enunciados referentes a cada dimensão, categoria e subcategoria (ver apêndices IX e X).