5. AS (IN)DEFINIÇÕES SOBRE O CONCEITO DE VARIANTE PADRÃO DA LÍNGUA
5.1. Modalidade escrita x modalidade falada da língua
Estudos da Ciência Lingüística têm mostrado que a modalidade de emprego da língua e o grau de formalidade ou de informalidade são definidores das regras a serem empregadas, dadas as particularidades de cada enunciação lingüística e os recursos próprios a elas. As normas que regem ambas as modalidades, a escrita e a falada, ainda que esteja em questão apenas a variedade culta, não convergem em todos os pontos, em razão mesmo das características que lhes são inerentes. Na escrita há um afastamento espaço-temporal dos interlocutores, o que exige uma organização diferente do texto111. Esse afastamento não ocorre na fala, ainda que ela seja proferida via texto previamente planejado e escrito.
Dessa forma, algumas regras prescritas pelas gramáticas normativas serão necessariamente infringidas na modalidade falada, pois escrita e fala se dão por veículos de naturezas diferentes e com pressupostos de interação distintos. Por esse motivo também nos parece pouco provável que haja um único corpo de regras capaz de dar conta de ambas as modalidades em todas as situações de uso. Essas diferenças próprias a cada modalidade são possíveis graças à maleabilidade do sistema lingüístico no qual são proferidas.
As regularidades lingüísticas encontradas na modalidade falada, ainda que na fala considerada culta112, diferem das regras prescritas pelas gramáticas normativas, que são constituídas a partir de textos escritos e, por isso mesmo, suas regras são justificadas apenas pelos usos da escrita, mais especificamente da escrita dos “bons escritores”113. Usos, portanto, que são
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Não pretendemos discutir aqui as características próprias de cada modalidade da língua. Entendemos o afastamento espaço-temporal entre os interlocutores um dos maiores definidores dessas diferenças. Sobre esse assunto, veja-se Preti (2004).
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Assumimos aqui o conceito de fala culta empregado pelo projeto NURC.
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Não nos cabe aqui discutir o conceito da “boa literatura” e de “bons escritores”. Empregamos a terminologia, uma vez que é com esta terminologia que as gramáticas justificam a referenciação das regras que prescrevem.
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social e academicamente valorizados. Essas escolhas, não por último, são calcadas na academia, visto que este é o lugar de afirmação do que é considerado ou não “boa literatura”.
Assim, a variante padrão, sendo a descrição de um estado da língua em determinado momento histórico e político e estando intrinsecamente ligada à modalidade escrita formal, ainda que extraída de corpus literário114, obedece a outros critérios que os da fala. As diferenças entre ambas as modalidades, porém, não são arbitrárias, mas decorrentes da situação em que se processa a comunicação e das peculiaridades de cada modalidade. Na afirmação de Marcuschi (2001, p. 46), “o certo é que a escrita não representa a fala, seja sob que ângulo for que a observemos [...], as diferenças não são polares e sim graduais e contínuas”.
Esse entendimento também é assumido pelo Ministério da Educação e Cultura, via PCN (BRASIL, 1998, p. 30), ao afirmar que a imagem de uma língua única não se sustenta na análise empírica: “[...] ninguém escreve como fala, ainda que em certas circunstâncias se possa falar um texto previamente escrito [...] ou mesmo falar tendo por referência padrões próprios da escrita [...]”.
Nesse sentido, Perini (2004, p. 69) considera que essas diferenças seriam “dois mundos relacionados, mas distintos”. Preti (2004) frisa, no entanto, que não se podem tomar as diferenças entre língua falada e escrita como estanques, uma vez que formam um continuum. Preti (2004, p. 125) sustenta, assim, que a língua falada “tem uma gramática própria que os falantes aprendem no uso diário e cujas categorias de análise diferem da gramática da língua escrita”. Dessa forma, ainda segundo o autor, a escrita não pode ser a representação fiel da fala.
Scherre (2005) partilha da opinião de Preti (2004). Segundo a lingüista (2005, p. 100), “não se pode confundir fala com escrita, seja no plano de unidades gramaticais seja no plano de
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desempenho lingüístico”. Em sua obra, a autora compara regras gramaticais empregadas na modalidade falada, inclusive na fala de pessoas analfabetas, às regras prescritivas da gramática normativa. Embora Scherre entenda que as unidades gramaticais da fala e da escrita não possam ser confundidas, a autora compara também empregos gramaticais de textos escritos115 que contemplam mecanismos da oralidade às regras normativas. Através dos dados daí colhidos, a autora (2005, p. 107) afirma que “transformar estes resultados em textos menos técnicos [que o texto das gramáticas normativas] é compromisso nosso [dos sociolingüistas] com os usuários da língua portuguesa”.116 Sobre os estudos comparativos entre as regras normativas e as regras internalizadas, que se apresentam na fala informal e em textos escritos que contemplam os mecanismos da oralidade, porém, nos ateremos no subitem seguinte.
O entendimento de que a escrita e a fala seguem regras diferentes encontra apoio ainda em outros lingüistas. Essa é, também, uma lição ensinada às personagens de A Língua de Eulália:
novela sociolingüística117 (BAGNO, 2001a, p. 86): “Cada língua tem, portanto, duas histórias:
uma história da língua falada e uma história da língua escrita. Na primeira as coisas andam muito mais depressa que na segunda”. Para Perini (2004, p. 63), “a escrita não é uma simples representação da fala, porque cada uma delas [das modalidades da língua] utiliza uma variedade da língua nitidamente diferente, em sua estrutura gramatical, da outra”. Ainda que nessa passagem o autor considere ambas as modalidades pertencentes ao mesmo sistema lingüístico, em outro texto (2005, p. 36), o autor entende a norma lingüística ensinada na
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Para seus estudos, Scherre (2005) vele-se de diversos gêneros textuais presentes em jornais. A autora os entende como representativos da escrita monitorada.
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Concordamos com Marcuschi, (2001, p. 46) quando afirma que é justamente pelo fato de as duas modalidades não se recobrirem que podemos relacioná-las. Comparações entre ambas as modalidades são bem-vindas para os estudos lingüísticos. Se ambas as modalidades não se recobrem, parece-nos contraditório pretender validar as regras empregadas na modalidade falada como próprias também para a escrita, como sugere Scherre.
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Sobre esta obra, leia-se a Dissertação de Mestrado de Janaína Nicola (2007), realizada na linha da Análise do Discurso, disponível em: http://www.cbc.ufms.br/tedesimplificado/tde_arquivos/13/TDE-2008-04-07T085203Z- 186/Publico/Janaina%20CPTL.pdf. A autora mostra como o discurso da professora (protagonista da obra) não sustenta suas falas.
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escola e a materna como duas línguas diferentes, porém muito parecidas. Isso o leva (2005) a concluir que nossa língua materna não seria o português, mas o vernáculo. Marcuschi (2001) fala em bimodalidade, uma vez que não se trata de dois dialetos diferentes, mas de duas modalidades de uso da língua.
Também referindo-se às diferenças entre ambas as modalidades da língua, Britto (2003, p. 40) argumenta que “ninguém escreve como fala e ninguém fala como escreve. Objetivamente, a escrita organiza-se em bases diferentes das da fala, reorganizando-a e reinventando-a em todos os níveis”. Assim, o autor entende que idealmente se possa ter a gramática da escrita como padrão de correção em alguns casos (BRITTO, 1997, p. 57). Enfim, parece consenso118 entre nossos lingüistas que “[...] existe uma ‘gramática do falado’ que não coincide com a ‘gramática do escrito’” (BASSO; ILARI, 2006, p. 185).119
O surgimento da Gramática do Português Falado (1996) é o resultado de um trabalho que se pauta na preocupação com a coerência entre teoria e prática da análise lingüística. Essa obra corrobora o entendimento de que há a necessidade da diferenciação entre a modalidade escrita e a falada. É a diferença entre as duas modalidades justifica a confecção dessas obras.
Diante das colocações dos intelectuais da Lingüística acima referidos, parece contraditório que estudiosos (SCHERRE, 2005; BAGNO, 2002b; BORTONI-RICARDO, 2005) defendam a revisão das gramáticas normativas de modo a que estas contemplem também as regularidades encontradas nas modalidades faladas de nosso idioma. Revisar a gramática normativa com vistas à incorporação de regularidades encontradas na modalidade falada parece não compatibilizar com a assunção de que ambas as modalidades têm gramáticas
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Gostaríamos de registrar aqui que, dos autores por nós pesquisados, Antunes entende que “não existem diferenças essenciais entre a oralidade e a escrita nem, muito menos, grandes oposições” (2003, p. 99). Essa posição também é defendida por Almeida (1990 apud LIMA, 2003, p. 34).
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próprias, ou seja, de que elas são regidas por regras próprias. Pode-se afirmar que esse empreendimento implicaria a negação de diferenças que lhes são particulares.
Interessante notar que a posição de Scherre (2005) a favor da revisão das gramáticas normativas com base na modalidade falada é contraditória em relação a seu posicionamento enfático (2005, p. 100) no sentido de que “não se pode confundir fala com escrita, seja no plano de unidades gramaticais seja no plano de desempenho lingüístico”. Essa contradição também pode ser encontrada em Bagno (2002c, p. 175), ao defender que, na escrita formal, se aceitem “como boas e certas as construções gramaticais que vivem na língua materna dos brasileiros e que eles empregam diariamente milhões de vezes de norte a sul do país”. Ou seja, conforme a fala acima, o autor entende que as gramáticas normativas devem acatar todas as regularidades encontradas nas falas cultas e não-cultas do nosso idioma, uma vez que se refere à “língua materna dos brasileiros” como um todo. Em outro texto (2002b, p. 65), no entanto, essa posição não se mantém, uma vez que entende que “a tarefa de uma gramática seria, isso sim, definir, identificar e localizar os falantes cultos, coletar a língua usada por eles e descrever essa língua de forma clara, objetiva e com critérios teóricos e metodológicos coerentes”. Aqui, Bagno restringe sua preferência às falas cultas do idioma para tal atividade. Não há, pois, uma posição una do autor em relação ao conjunto de regularidades a ser contemplado pela gramática normativa, pois, ora se refere aos falares “maternos” de todos os falantes de nosso idioma, ora se refere apenas aos falares considerados “cultos”.
Considerar todas as “construções gramaticais da língua materna” como boas e corretas na escrita formal, como sugere Bagno (2002c), significa incluir no conjunto de regras lingüísticas normativas todas as regularidades lingüísticas encontradas em nosso território continental “de norte a sul do país”. Assim, passariam a representar a norma padrão de nosso idioma todas as regularidades lingüísticas encontradas na fala dos brasileiros, uma vez que língua materna é aquela modalidade que o falante aprende no seio familiar, na comunidade
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em que o sujeito se insere (BAGNO, 2002b; SCHERRE, 2002; 2005; PERINI, 2005; MURRIE, 2001; CORACINI, 2003). Isso levaria à necessidade de domínio de todas as variantes inerentes a nossa língua, uma vez que a norma padrão seria constituída por todas as construções proferidas de “norte a sul”, como pretende o autor. Certamente haveria uma seara de regras a serem ensinadas na escola.
Câmara Júnior (1999, p. 18), referindo-se à descrição lingüística dos diferentes dialetos, afirma que “em cada um deles [dialetos] há uma gramática descritiva específica”. Pensando em uma descrição da gramática da língua com viés didático, Câmara Júnior (1999, p. 16) afirma que, se uma gramática descritiva tem em vista o ensino escolar, ela “não tomará por base, evidentemente, uma modalidade popular ou remotamente regional”. Porém, com outros objetivos, defende o autor, pode-se fazer a descrição de todos os tipos de dialetos. Concordamos com Câmara Júnior, porém, entendemos que descrever todas as variantes da língua é também um dever da Lingüística, uma vez que esses dados podem ajudar a entender dificuldades dos alunos na aquisição da norma de prestígio.