O dano moral, também chamado de imaterial ou extrapatrimonial, pode ser considerado direto, indireto ou por ricochete, consoante classificação doutrinária majoritariamente aceita e já incorporada pela jurisprudência pátria. Na sequência, serão abordadas as especificidades de cada uma das três variações antes mencionadas.
3.4.1 Direto
O dano moral direto é caracterizado por estar diretamente ligado com a perda ou diminuição de um bem ou interesse extrapatrimonial da vítima, conforme leciona Coelho (2012, p. 304).
É a interpretação extraída da regra do art. 403 do CC, segundo o qual, em sede de responsabilidade civil contratual, somente os danos (e também lucros cessantes) imediata e diretamente ligados com o inadimplemento são passíveis de indenização27.
Segundo Rizzardo (2011, p. 17-19), o referido art. 403 do CC representa um aperfeiçoamento do art. 1.151 do Código Civil francês. De acordo com interpretação extensiva e analógica, este dispositivo se aplica para estabelecer a exigência de uma relação direta de causa e efeito entre o prejuízo causado na inexecução do contrato (responsabilidade contratual) e, também, no cometimento do ato ilícito (responsabilidade extracontratual), para justificar o surgimento da obrigação de reparação. Segundo ele, o dano direta e imediatamente ligado ao ato ilícito é aquele representado pelo déficit ao bem jurídico sem grau de intermediação, de sorte que, após o evento, já é possível verificar seu conteúdo e sua extensão.
Complementando a explicação, Renner (2012, p. 126) esclarece que o dano é direto e imediato quando é consequência natural do fato lesivo, de acordo com o curso ordinário dos eventos. Em outras palavras, possui uma relação de causalidade imediata com a prática danosa.
27 Art. 403. Ainda que a inexecução resulte de dolo do devedor, as perdas e danos só incluem os prejuízos efetivos e os lucros cessantes por efeito dela direto e imediato, sem prejuízo do disposto na lei processual.
Estritamente de acordo com a doutrina acima exposta, é plausível argumentar que o dano moral direto e imediato é aquela lesão a bem jurídico extrapatrimonial da pessoa, ferindo sua esfera personalíssima, quanto aos seus aspectos físicos ou psíquicos.
Como exemplo, cabe mencionar precedente em que o Tribunal de Justiça de Santa Catarina reconheceu os danos morais diretamente decorrentes da ação lesiva, na hipótese de um acidente de trânsito causar danos morais à vítima, em razão das lesões causados à sua integridade física, com as consequentes dores daí decorrentes.28
Como visto, dos trechos transcritos é possível verificar a ocorrência de danos morais diretos, representados pela ofensa à integridade física da vítima, diretamente relacionada com acidente de trânsito culposo.
3.4.2 Indireto
O dano moral indireto é aquela lesão à satisfação e gozo de direitos extrapatrimoniais que decorreu da perda ou redução de um direito patrimonial. Ou seja, é quando um prejuízo material acarreta, por vias oblíquas, um abalo moral (DINIZ, 2007, p. 91).
No mesmo sentido, Gagliano e Pamplona Filho (2008, p. 67) esclarecem que “[...] o dano moral indireto ocorre quando há uma lesão específica a um bem ou interesse de natureza patrimonial, mas que, de modo reflexo, produz um prejuízo na esfera extrapatrimonial”.
A leitura do art. 403 do CC, em primeira vista, para indicar que somente os danos morais (e lucros cessantes) imediata e diretamente ligados com o inadimplemento são passíveis de indenização29. A legislação, a doutrina e a
jurisprudência confirmam a possibilidade de reparação de danos indiretos.
28 SANTA CATARINA. Tribunal de Justiça. Apelação Cível n. 0023582-10.2006.8.24.0023. Relator: Des. Rubens Schulz. Florianópolis, 06 de dezembro de 2016c. (grifo nosso). Disponível em:
<http://www.tjsc.jus.br/jurisprudencia>. Acesso em: 01 jun. 2017.
29 Art. 403. Ainda que a inexecução resulte de dolo do devedor, as perdas e danos só incluem os prejuízos efetivos e os lucros cessantes por efeito dela direto e imediato, sem prejuízo do disposto na lei processual.
Um exemplo de dano moral indireto admitido pela legislação é aquele decorrente da perda ou destruição de bem material com valor de afeição, conforme previsão no art. 952, parágrafo único, do CC30.
Neste caso, a doutrina explica que há um dano patrimonial (perda de um bem) do qual decorre, de forma indireta, também um abalo moral (valor afetivo) (VALLER, 1994, p. 167).
Cabe mencionar que a jurisprudência catarinense admite os danos morais indiretos. Para exemplificar, cabe mencionar precedente referindo o cometimento do crime de furto de bens em apartamento residencial, em que houve a perda de acervo patrimonial e, de forma indireta, o abalo moral caracterizado pela subtração ilícita de joias de família, passadas de geração para geração, as quais se perderam posteriormente à ação delituosa.31
De acordo com o exposto, o direito brasileiro admite a reparação de danos morais indiretos, decorrentes de lesão a bem material.
3.4.3 Por Ricochete
O dano por ricochete (do francês par ricochet) ou reflexo (do alemão Reflexschaden) é uma modalidade de dano moral caracterizado por atingir pessoas diversas da vítima, porém ligadas com ela, de forma mediata, consoante a lição de Noronha (2007, p. 578). Segundo este autor, tal tipo de prejuízo merece ser reparado, desde que seja demonstrada a relação de causalidade adequada.
Segundo Santos (2012, p. 2), “[...] é necessário diferenciar o dano moral indireto com o dano moral reflexo ou em ricochete”. Conforme o autor, no primeiro caso (indireto), conforme já visto no item anterior, existe dano material que acarreta, de forma indireta, uma violação a direito extrapatrimonial. No segundo caso (ricochete), há um dano moral sofrido por uma pessoa que atinge outra, ligada a ela, de forma reflexa ou por ricochete.
30 Art. 952. Havendo usurpação ou esbulho do alheio, além da restituição da coisa, a indenização consistirá em pagar o valor das suas deteriorações e o devido a título de lucros cessantes; faltando a coisa, dever-se-á reembolsar o seu equivalente ao prejudicado.
Parágrafo único. Para se restituir o equivalente, quando não exista a própria coisa, estimar-se-á ela pelo seu preço ordinário e pelo de afeição, contanto que este não se avantaje àquele
31 SANTA CATARINA. Tribunal de Justiça. Apelação Cível n. 2007.063092-1. Relator: Des. Maria do Rocio Luz Santa Ritta. Florianópolis, 14 de outubro de 2008. (grifo nosso). Disponível em:
Com precisão, Pereira (1998, p. 43) esclarece que “[...] a situação aqui examinada é a de uma pessoa que sofre o ‘reflexo’ de um cano causado a outra pessoa”.
Sobre este assunto, Stoco (2007, p. 1244-1245) explica que o dano por ricochete ou reflexo é aquele que repercute também sobre terceiros, que mantém ou não relação de parentesco com a vítima.
De acordo com este autor, a principal problemática é fixar quais são os limites para tais tipos de danos, de modo a evitar que abranja uma quantidade indeterminada de supostos terceiros prejudicados, ao ponto de poder causar a ruína financeira do lesante, em razão de um único ato ilícito.
O referido autor argumenta que somente os danos em ricochetes que sejam certos e relacionados com a conduta do lesante são passíveis de serem reparados, afastando-se aqueles que são muito remotos com relação ao ilícito.
Apesar de apresentar este critério, o próprio autor reconhece que é insuficiente, sendo necessário a análise de cada caso concreto, de modo a evitar a banalização do instituto e o fomento da chamada indústria do dano moral.
A admissibilidade de tal modalidade de danos já foi reconhecida pelo Superior Tribunal de Justiça. Para exemplificar, cabe mencionar precedente versando sobre aluna que é baleada em campus de Universidade, situação que gerou dano moral por ricochete em favor de pessoas diversas da vítima, mais precisamente seus genitores e irmãos, que foram contemplados com a reparação respectiva.32
Também a Corte de Justiça de Santa Catarina admite esta modalidade de danos morais. Em precedente sobre o assunto, a jurisprudência catarinense tratou de processo cível em que a filha da autora foi vítima de crime de ilícito de cunho sexual, o qual gerou danos reflexos, em razão dos laços afetivos de convivência entre ambas. Segundo registrado no acórdão, o fato foi amplamente divulgado pela
32 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial nº 876.448-RJ (2006/0127470-2). Relator: Min. Sidnei Beneti. Brasília, 17 de junho de 2010. DJe, Brasília, 21 de setembro de 2010. Disponível em:
<https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ITA&sequencial=943566& num_registro=200601274702&data=20100921&formato=PDF>. Acesso em: 03 jun. 2017.
mídia local e implicaram desdobramentos sobre a mãe da vítima, ensejando a reparação cível correlatada.33
De acordo com o exposto, a doutrina e a jurisprudência brasileira admitem o dano moral reflexo ou por ricochete.