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A MODELAGEM DE PROCESSOS MULTIFUNCIONAIS

A natureza vaga das diretrizes propostas pela série ISO 14040 combinada com um desejo crescente de seguir uma “abordagem de ciclo de vida”, sem uma noção clara do que isso significa, tem levado a confusões acerca do que a ACV pode ou não realizar e acerca de como ela se encaixa em uma abordagem estratégica para assegurar sustentabilidade (CURRAN, 2014). Como resultado, identificam-se estudos de ACV – muitas vezes avaliando o mesmo produto – conflitantes, fornecendo resultados diversos, por conta de falhas de rigor metodológico e de transparência nas escolhas realizadas.

Limitações e incertezas nos resultados da ACV podem advir de escolhas metodológicas feitas nas diferentes fases da técnica. Reap et al (2008a) identificaram os 15 principais pontos de atenção a serem observados nas quatro fases da ACV (Quadro 4. 1), que mais necessitam de pesquisas adicionais e sobre os quais os iniciantes em ACV precisam ser mais cuidadosos.

Fase Ponto de atenção

Definição de objetivo e escopo

Definição de unidade funcional Seleção de fronteiras

Impactos econômicos e sociais Considerações de cenários alternativos Análise de inventário de ciclo de vida

Alocação

Critério de contribuições negligenciáveis (“cutoff”) Singularidade técnica local

Avaliação de impactos de ciclo de vida

Seleção de categorias de impacto e de método Variação espacial

Singularidade técnica local Dinâmica do ambiente Horizontes de tempo Interpretação de ciclo de vida Ponderação e valoração

Incerteza no processo de decisão

Geral Disponibilidade e qualidade dos dados

Quadro 4. 1– Potenciais problemas da ACV por fase (REAP et al, 2008a)

Reap et al (2008a) destacam o fato de que apesar dos critérios de alocação serem definidos na primeira fase – definição de objetivos e escopo, os problemas associados à alocação normalmente surgem durante a análise de inventário. Por isso, na revisão realizada por eles, problemas relacionados à alocação foram contemplados na segunda fase da ACV.

Estes autores ampliam a discussão sobre cada potencial ponto de atenção em duas publicações (REAP et al, 2008a; REAP et al 2008b). Como os demais problemas fogem do escopo da presente tese, o foco daqui em diante é dado ao problema de distribuição de impactos em

processos multifuncionais, simplificadamente chamado por Reap et al (2008a; 2008b) de “alocação”.

Ekvall e Finnveden (2001) definem processo multifuncional como uma atividade que cumpre mais de uma função: pode ser um processo produtivo com mais de um produto, um processo de gerenciamento de resíduos com mais de um fluxo de resíduos, e pode ser um processo de reciclagem fornecendo gerenciamento de resíduos e produção de material. O problema de multifuncionalidade em ACV surge quando um processo cumpre uma ou mais funções para o ciclo de vida do produto investigado e uma diferente função (ou conjunto de funções), para outro(s) produto(s) (EKVALL e FINNVEDEN, 2001). Nesses casos, surge a questão de como dividir e distribuir os fluxos materiais e energéticos – e as correspondentes cargas ambientais – entre as múltiplas funções e/ou produtos gerados. Esta distribuição de impactos ambientais é uma das questões metodológicas mais controversas na ACV, uma vez que influencia significativamente os resultados do estudo (FRISCHKNECHT, 2000; WEIDEMA, 2001; EKVALL e FINNVEDEN, 2001; REAP et al, 2008; SAYAGH et al, 2010).

A ISO 14044:2006, para solucionar o problema da multifuncionalidade, sugere um processo gradual de três passos consecutivos: o primeiro passo consiste em evitar a alocação “sempre que possível”, utilizando uma das seguintes opções: a. divisão do processo multifuncional em dois ou mais subprocessos unitários, que contribuam – cada um – com somente uma função; ou b. expansão do sistema de produto para incluir as funções adicionais relativas aos co- produtos. Segundo Marvuglia et al (2010), entretanto, a opção ‘a’ raramente soluciona o problema da alocação porque a maioria dos sistemas multifuncionais inclui processos que são comuns a alguns ou a todos os produtos gerados, portanto algum tipo de alocação seria sempre necessário. A opção ‘b’, da maneira como é exposta na norma, consistiria em redefinir a unidade funcional e as fronteiras do sistema para incluir as funções adicionais. Em muitos casos, isso poderia representar uma necessidade de tempo e coleta de dados muito maior, uma vez que um novo processo produtivo deveria ser, teoricamente, inserido no sistema de produto inicial (sem mencionar a nova carga de incertezas associadas aos dados adicionais necessários). Tillman et al (1994) e Heijungs e Guinée (2007) demonstraram que a expansão das fronteiras do sistema é conceitualmente equivalente ao método de “impacto evitado” ou “substituição”, no qual o praticante de ACV diminui do sistema de produto inicial as cargas ambientais que deixam de existir por conta da reciclagem do co-produto. Quando não é possível evitar a alocação, a ISO determina que os dois passos seguintes sejam testados, na ordem em que são apresentados.

O segundo passo define que “as entradas e saídas do sistema devem ser divididas com base em alguma relação física fundamental” entre produto e co-produto (ISO 14044:2006), i.e., deve refletir a maneira como as entradas e saídas são afetadas por mudanças quantitativas nas funções ou produtos fornecidos pelo sistema (MARVUGLIA et al, 2010). Caso a alocação com base em relação física e/ou causal não seja possível, deve-se proceder à opção seguinte. Neste terceiro passo, as entradas e saídas devem ser divididas de maneira a refletir “outras relações entre elas. Por exemplo, os dados de entrada e saída podem ser alocados entre co- produtos proporcionalmente ao valor econômico dos produtos” (ISO 14044:2006). Marvuglia

et al (2010) destacam que deve-se levar em consideração que preços de mercado estão

sujeitos a flutuações significativas ao longo do tempo, o que pode afetar a credibilidade dos resultados de ACV.

A norma ISO para ACV tem sido criticada por não levar em consideração o fato de que diferentes abordagens para solucionar o problema da alocação resultam em diferentes tipos de informação nos resultados (EKVALL e FINNVEDEN, 2001), por falhar em reconhecer a relação entre o método escolhido e os objetivos do estudo (EKVALL e TILLMAN, 1997), e pelo fato da hierarquia de alocação proposta ser muito permissiva, por exemplo, como se pode garantir que a alocação foi evitada “sempre que possível” (MARVUGLIA et al, 2010)? Por conta disso, Ekvall e Finnveden (2001) alegam que pode ser necessário revisar o procedimento proposto pela ISO. Na atualização das normas, publicada em 2006, a hierarquia e os passos para solucionar o problema da multifuncionalidade não foram modificados. Essa ausência de um direcionamento palpável por parte da norma alimenta a falta de consenso entre os praticantes de ACV.

A cada método são atribuídas diferentes vantagens e desvantagens, sendo que, a rigor, os objetivos e circunstâncias do estudo devem guiar a escolha. O uso da alocação com base na massa dos produtos é bem direto, dependendo de valores facilmente calculados, e que se mantêm relativamente constantes com o tempo. Geralmente, em processos industriais, a massa de produto e de co-produto gerada é grande; portanto a alocação com base na massa costuma favorecer a indústria geradora do resíduo, uma vez que grande parte das cargas ambientais é deslocada para a atividade que utilizará o co-produto, retirando boa parte do “peso” ambiental do produto principal.

A defesa dos usuários da alocação com base no valor econômico dos produtos consiste na máxima de que todas as atividades industriais são regidas por princípios econômicos, o que

justificaria a adoção dos mesmos princípios para a distribuição de impactos. A crítica mais comumente observada ao uso de informações de mercado na ACV se baseia na sensibilidade dessas informações a flutuações de mercado, tornando-as consideravelmente variáveis ao longo do tempo, e prejudicando, portanto, a confiabilidade dos resultados obtidos a longo prazo. Uma interessante discussão, nesse sentido, foi publicada por Pelletiers e Tyedmers (2011), ampliando a crítica à alocação com base no valor econômico de produtos. Os autores destacam a inabilidade do sistema econômico vigente em adequadamente considerar mudanças em amenidade ambientais – por essa razão, informações de mercado, como comunicadas por preços ou outros indicativos de mercado, raramente incorporam informações ambientais relevantes. Assim, questiona-se a utilidade dos modelos de ACV cujos resultados sejam fortemente influenciados pelo uso implícito ou explícito de informações de mercado – particularmente quando se considerando que tais análises são desempenhadas amplamente como uma resposta direta à inadequação dos “sinais” de mercado existentes em assistir na gestão das dimensões ambientais de atividades humanas (PELLETIER e TYEDMERS, 2011). A expansão das fronteiras do sistema, como proposta originalmente, melhor se adequa a ACVs consequenciais, uma vez que nesse tipo de avaliação já se prevê um sistema expandido, a fim de considerar as mudanças na demanda de produtos advindas de flutuações na produção do produto principal em estudo (PELLETIER et al, 2015).

Um argumento relevante discutido por Chen et al (2010) e Weidema e Schmidt (2010) se refere ao atendimento às leis de conservação de massa e energia na escolha do método de distribuição. Weidema e Schmidt (2010) defendem que a expansão das fronteiras do sistema sempre respeita as referidas leis, enquanto a alocação quase sempre falha em fazê-lo. Isto porque, segundo os autores, a alocação quebra o sistema original em dois ou mais sistemas artificiais, de acordo com o critério de alocação adotado, e o único equilíbrio que permanece nos sistemas resultantes é aquele dado pelo critério de alocação, i.e., quando a massa regula a alocação, somente a conservação da mesma é respeitada. Como com a expansão do sistema (e seu equivalente, a abordagem do impacto evitado) não há divisão artificial dos impactos, as leis de conservação são respeitadas.

Em contrapartida à argumentação de Weidema e Schmidt (2010), no mesmo ano Chen et al (2010) publicaram discussão oposta. Para justificar a escolha dos métodos de alocação por massa e por valor econômico em estudo do impacto de uso de aditivos em concreto, os autores afirmaram que a expansão das fronteiras do sistema (por meio da abordagem do

impacto evitado) não respeita as leis de conservação de massa quando o produto e o co- produto são considerados conjuntamente.

Apesar da relevância da discussão do respeito às leis de conservação para avaliar adequação dos métodos de distribuição de impactos, percebe-se, pelo exposto acima, que neste aspecto também não se identifica consenso. Dependendo do sistema de produto avaliado e de considerações conceituais acerca da modelagem, as conclusões podem diferir a ponto de serem diametralmente opostas. Hoje, portanto, os escassos argumentos encontrados na literatura abrangendo o respeito às leis de conservação não são suficientes para descartar um método de distribuição.

Sob outra ótica, Schrijvers et al (2016) afirmam que a abordagem do impacto evitado (ou substituição, como chamada pelos autores) nem sempre é vista como correta em ACVs atribucionais, pelo fato do impacto evitado ocorrer ao longo do tempo – o que fere o conceito de “retrato fiel do cenário atual” (Capítulo 3) a ser delineado por este tipo de ACV. Estes autores, entretanto, reconhecem a ampla utilização do método neste tipo de ACVs (SCHRIJVERS et al, 2016).

Frischknecht (2000) chega a argumentar que as empresas ou setores definem critérios de alocação objetivando a otimização ambiental de seus produtos, o que os auxilia a maximizar lucros, mesmo que indiretamente. Por essa razão, juízos de valor são inevitavelmente observados. Por conta da necessidade de subjetividade na escolha do método de distribuição, e porque escolhas subjetivas não podem ser cientificamente defendidas, os critérios para partição de impactos não são defensíveis (FRISCHKNECHT, 2000).

Como identificado na revisão sistemática de literatura (Apêndice 1), são poucas as ACVs de materiais de construção abrangendo modelagem de processos multifuncionais. Foram identificados três estudos tratando do uso de escória de alto forno no cimento e no concreto que utilizavam algum tipo de alocação. Primeiro, Sayagh et al (2010) utilizaram alocação por massa para fazer uma análise de sensibilidade dos resultados de ACV obtidos para reciclar escória de alto forno em estruturas de pavimentação de concreto. Chen et al (2010) alegam que a alocação é geralmente preferível, já que não há estudos que comprovem qual o melhor método, e não há um consenso global entre estudos definindo diferentes fronteiras de sistema. Estes autores aplicaram alocação com base em massa e valor econômico no seu estudo de adições minerais em concreto. Já Habert (2013) propôs um método de alocação com base no

sistema do mercado de emissões de gases de efeito estufa da União Europeia1, conceitualmente equivalente ao sistema de créditos de carbono, que atribui os mesmos ganhos e perdas econômicas a todas as indústrias envolvidas no mercado de co-produtos dentro da cadeia de fabricação de cimento. A aplicação da técnica proposta por Habert (2013) em contextos em que não existam sistemas de créditos de emissão bem consolidados torna-se um desafio.

Apesar de não mencionada na ISO 14044 (2006), percebe-se um uso mais frequente da abordagem do “impacto evitado” na literatura, já que, em contrapartida ao método equivalente de expansão das fronteiras do sistema, esta abordagem não demanda a inserção de um novo processo produtivo no sistema de produto, ou tampouco a reformulação da unidade funcional. Embora sejam conceitualmente equivalentes, e não seja incomum encontrar estudos se referindo à abordagem do impacto evitado como expansão de sistema (MOON et al, 2006; CHEN et al, 2010; SUH et al, 2010), Heijungs (2014) recomenda que os dois métodos sejam distinguidos na documentação do estudo, claramente citando a escolha feita para modelar o processo multifuncional.

4.1 Considerações sobre o capítulo

Neste capítulo discute-se o procedimento para solucionar o problema da alocação proposto pela norma, identificando vantagens e desvantagens da hierarquia ali definida.

Procede-se à descrição das diferentes argumentações em favor de cada método de distribuição, com foco na discussão de leis de conservação de massa e energia, e à confirmação da falta de consenso acerca da adequação dos métodos.

O próximo capítulo delineia a abordagem metodológica utilizada para a realização da presente tese.