Nesta seção, serão apresentadas as concepções metodológicas mobilizadas para coleta, seleção e análises dos dados. Os dados foram produzidos por meio de gravação em áudio, discursos proferidos em três situações: entrevistas semiestruturadas, reuniões entre professores-supervisores e professores-coordenadores e oficinas ministradas pelos bolsistas nas escolas públicas, os quais serão analisados a fim de responderem aos questionamentos propostos nesta pesquisa.
3.1 Quando o discurso é o corpus: desafios
Como corpus da pesquisa - e aqui concebemos corpus como Elena Tognini- Bonelli (2011) apresenta: uma coleção de textos presumidamente representativa de uma dada língua que é compilada para que possa ser utilizada na análise – optamos pelo discurso dos professores-supervisores em três situações diferentes, mas relacionadas entre si: entrevista individual, reunião com professores-coordenadores de área e oficinas desenvolvidas na escola de educação básica.
E por que analisar discursos? O discurso é o objeto concreto no qual se pode interpretar relações sociais, momentos históricos, posições assumidas pelos sujeitos. É por meio do discurso que se materializa pensamentos, ideias, sentimentos, dentre outros elementos. Foucault (1926-1984) afirmou que ―uma unidade do discurso é feita pelo espaço onde diversos objetos se perfilam e continuamente se transformam‖ (FOUCAULT, 2010, p.37). Por isso, o discurso dos professores-supervisores tornar-se-á o material de análise das concepções acerca da língua, da educação, da formação inicial, enfim, do momento histórico em que as transformações educacionais estão ocorrendo, sendo contraposto nos diversos lugares de onde e para quem se fala.
Patrick Charaudeau (2011) explica que o corpus de uma pesquisa já prediz a discussão acerca do problema que se quer abordar e a base teórica em que esse estudo se estruturou: ―a construção de um corpus, na análise de discurso, depende de um posicionamento teórico ligado a um objetivo de análise, o que chamamos de ―problemática‖‖. (CHARAUDEAU, 2011, p.2)
Ao escolher o discurso de professores-supervisores para se fazer análise, o que se busca é trazer para a pesquisa todos os elementos inerentes a esse corpus: as produções textuais, as condições de produção, a construção do sujeito e sua relação com os outros, confirmando o que Charaudeau (2011) afirma: ― O discurso é um percurso de significância que se acha inscrito num texto, e que depende de suas condições de produção e dos locutores que o produzem e o interpretam‖(CHARAUDEAU, 2011, p.6).
Bakhtin (1995) afirma que, para haver uma análise fecunda dos enunciados, é indispensável compreender o tipo de discurso e as regras sociológicas que o regem, afinal, por serem históricos, os falantes pertencem a uma comunidade que possui crenças, ideologias [....] e produzem discursos nas diversas formações discursivas em que foram ―gestados‖.
Dominique Maingueneau (2004 apud BRANDÃO, 2004, p.3) menciona as seguintes características do discurso:
a- Ultrapassa o nível gramatical, linguístico e depende do interlocutor e da situação;
b- Aborda temas que devem ser conhecidos pelo locutor e pelo interlocutor; c- Está vinculado ao contexto;
d- É produzido pelo sujeito – EU- responsável pelo que se diz;
e- Produz interação, afinal é uma atividade que se desenvolve a partir de dois parceiros;
f- Provoca ação no outro;
g- Trabalha com enunciados concretos (fala/escrita); h- Possui dialogismo, diálogo com o outro;
i- Possui polifonia, ou seja, várias vozes responsáveis por formar o discurso; j- Permite a interdiscursividade, ou seja, a interação com outros discursos numa
rede, oportunizando a pluralidade e a heterogeneidade do discurso.
No entanto, para se propor uma análise do discurso, devemos considerar, além do estudo linguístico, outros aspectos que são essenciais para sua produção: elementos históricos, sociais, culturais, ideológicos, espaços, sujeitos envolvidos nas situações de produção. As condições de produção, por exemplo, são o conjunto de elementos que
cercam a produção como o contexto, os interlocutores, o lugar de onde falam, a imagem que têm de si, do outro e do assunto.
O maior desafio de se realizar um trabalho cujo corpus é analisar discursos de professores-supervisores é interpretá-los considerando os locais de onde são produzidos: enraizados na educação básica e, ao mesmo tempo, envolvidos formação inicial dos licenciandos em letras, afinal são três professores-supervisores, sendo um inserido na realidade do Pibid de uma instituição filantrópica da cidade de Uberaba e dois professores-supervisores com experiências diferentes, um veterano e outro iniciante no programa, inseridos no Pibid de uma instituição federal.
Também pode ser considerado um desafio relacionar a análise discursiva dos textos das entrevistas com a prática em sala com alunos-bolsistas e alunos da escola.
Nesse sentido, buscamos instrumentos que possibilitassem a coleta de dados com variedade de situações em que os discursos dos professores-supervisores se fizeram presentes e onde se podiam observar seus posicionamentos. Construiu-se, assim, um recorte do processo de formação dos licenciandos em letras no Pibid por meio dos discursos dos professores-supervisores, o que será, para nós, objeto de análise e reflexão.
3.2 Pesquisa qualitativa e indiciária: uma análise pormenorizada
A metodologia adotada para realizar este trabalho é a qualitativa indiciária que orienta a descrição e a análise dos discursos dos professores-supervisores nas diversas situações de orientação aos bolsistas.
Carlo Ginzburg (1989), historiador italiano, apresenta o Paradigma Indiciário como o modelo epistemológico que emergiu no século XIX e que é baseado na concepção de que a pesquisa, na área das ciências humanas, não deve ser construída na quantidade de dados, mas na consideração da qualidade desses dados. Importam para essa concepção, indícios, pistas, detalhes, enfim elementos reveladores de fenômenos mais gerais. Para o autor, esses elementos de fato são
formas de saber tendencialmente mudas – no sentido de que, como já dissemos, suas regras não se prestam a ser formalizadas nem ditas. Ninguém aprende o ofício de conhecedor ou diagnosticador limitando- se a pôr em prática regras preexistentes. Nesse tipo de conhecimento, entram em jogo elementos imponderáveis: faro, golpe de vista, intuição. (GINZBURG, 1989, p.179)
Esse tipo de trabalho, embora pareça fácil ou sem rigor, não o é. Os dados embora não sejam analisados matematicamente, devem trazer singularidades de cada acontecimento que os tornam relevantes, pois denotam uma compreensão maior do discurso.
Ginzburg (1989) toma como exemplo Morelli, ao investigar a autenticidade ou falsidade de uma obra de arte, Freud, no estudo dos estados histéricos de seus pacientes e Arthur Conan Doyle, criador do personagem Sherlock Holmes e suas investigações bem-sucedidas, e apresenta um método de pesquisa baseado no rastreamento que fez a partir de um período de produção teórica de diversos pensadores, a saber, três médicos. Dessa forma, esse autor conhece e aplica esse método às suas análises de documentos inquisitórios e o denomina Paradigma Indiciário, já que é realizado a partir de vestígios, pistas, minúcias dos discursos.
Esse método interpretativo ―centrado sobre os resíduos, sobre os dados marginais, considerados reveladores (...) forneceriam a chave para aceder aos produtos mais elevados‖ (GINZBURG, 1989, pp:149-150). Também a menção ao personagem Sherlock Holmes personifica essa busca cuidadosa pelas pistas que são essenciais para o analista. As narrativas surpreendentes desse escritor mostram o método investigativo que, posteriormente, se afirmaria como método científico. Os casos aparentemente insolúveis são criteriosamente analisados pelo personagem fictício criado por Doyle e, mais tarde, se tornará ícone dos detetives e especialistas nas áreas de criminalística (policiais, advogados, juízes...).
No caso desta análise, o objeto de investigação é o discurso dos professores- supervisores. As falas desses profissionais envolvidos na formação inicial dos licenciandos em Letras foram gravadas em situações distintas: nas entrevistas, nas reuniões e nas oficinas ministradas na escola. As palavras são o material de análise e é por meio delas que se fará a investigação do que se ―discursa‖ e por que se ―discursa‖ assim no meio acadêmico e escolar.
Segundo Barbosa (2010, p.47), ―as produções discursivas podem ser vistas como um importante indício do trabalho do sujeito com e sobre a linguagem.‖ Afinal, é por meio da linguagem e sobre a linguagem que o ser humano pensa, expressa, comunica.
Portanto, ao buscar analisar a linguagem dos professores-supervisores do subprojeto de Língua Portuguesa das duas instituições de ensino superior de Uberaba, não se almeja analisar situações discursivas que se repetem, mas particularidades,
detalhes, indícios, pistas, sintomas, enfim minúcias que revelam regularidades ou irregularidades discursivas.
Neste trabalho, há de se considerar ainda os sujeitos envolvidos, bem como as condições de produção dos discursos presentes nas interações entre coordenadores, supervisores, bolsistas e alunos.
A seguir, será exposto o passo a passo da coleta dos dados.
3.3 A modelagem do corpus da pesquisa
A pesquisa foi realizada com três professores-supervisores de duas instituições de ensino superior de Uberaba. Dessa forma, buscou-se privilegiar os discursos de diferentes perspectivas do programa, o discurso do professor-supervisor mais antigo e o do mais novo de uma instituição pública, além do discurso de um professor-supervisor da instituição particular/filantrópica a fim de que fossem verificadas particularidades de cada discurso. As entrevistas permitiram, ainda, aos participantes da pesquisa exporem sua visão particular sobre o Programa, professores-coordenadores, alunos-bolsistas, concepções acerca da linguagem e da formação inicial atual, dentre outros assuntos.
Para a coleta de dados, primeiramente, foram realizados o contato com os coordenadores de área de cada instituição, a solicitação de autorização para realização da coleta de dados e o conhecimento de dias e horários das reuniões entre professores- coordenadores e professores-supervisores, e entre supervisores e bolsistas.6
Depois desse contato, foram realizadas as gravações em áudio das entrevistas semiestruturadas, permitindo assim que os participantes da pesquisa pudessem se expressar livremente, trazendo à tona posicionamentos nem sempre elencados no questionário inicial. As entrevistas foram coletadas em horários agendados com os professores-supervisores no ambiente escolar, reforçando assim o caráter educacional da pesquisa e seguiram um roteiro de entrevista previamente preparado, deixando os participantes à vontade para inserirem os temas que achassem pertinentes.
As perguntas do roteiro de entrevista buscaram identificar as motivações que levaram os professores-supervisores a participarem do Programa, o modo como
6 No dia agendado, em cada instituição, coletamos assinaturas no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Nele, constavam as informações sobre a pesquisa que é desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-graduação da UFTM e que integra um projeto maior denominado Impactos das Ações
do Pibid nas escolas de Uberaba. O termo mencionava, ainda, o apoio da Fundação de Amparo à Pequisa
realizam a parceria com os professores-coordenadores, as concepções de linguagem que cada um possui e as representações sociais que possuem da docência. As perguntas com variados enfoques foram elaboradas a fim de permitir que os professores-supervisores ficassem à vontade e respondessem aos objetivos pré-definidos. Depois foram selecionadas e agrupadas conforme os objetivos estabelecidos:
1- Você cursou a graduação numa instituição pública ou privada?
2- Quanto tempo você tem experiência na escola onde trabalha atualmente? 3- O que o levou a se tornar professor-supervisor?
4- Por qual meio conheceu o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência?
5- Como você analisa os objetivos do Programa?
6- Como é organizada a sua parceria com o professor-coordenador de área? 7- Quais posições você ocupa no trabalho de orientação ao bolsista de iniciação? 8- Na execução dos subprojetos do Pibid, qual o papel do professor-supervisor? 9- Qual o papel do professor-supervisor na formação do bolsista de iniciação? 10- Na sua opinião, qual imagem o bolsista de iniciação tem do professor-
supervisor?
11- Você acredita que o bolsista de iniciação considera o professor-supervisor como formador? Explique.
12- Quais são, na sua opinião, as fragilidades da formação inicial do professor de língua portuguesa?
13- Qual a sua concepção de linguagem?
14- O que mudou na sua prática de ensino de ensino de língua após o contato com o Pibid?
15- Você incentiva os bolsistas de iniciação a exercerem a docência? Se sim, por que e como faz isso?
16- Acredita que os bolsistas de iniciação estejam preparados para exercerem a profissão? Por quê?
17- De que forma organiza a sua´prática em sala de aula quando os bolsistas de iniciação estão presentes?
18- Se pudesse dar sugestões ao MEC sobre a aplicação do programa, o que proporia?
19- Comentário Pessoal
Também foram gravadas em áudio as reuniões entre professores-coordenadores de área, professores-supervisores e bolsistas de iniciação à docência, além de oficinas ministradas pelos grupos supervisionados por cada professor.
Por fim, foram feitas as transcrições das entrevistas com os professores- supervisores, além de alguns trechos dos discursos realizados nas reuniões e nas oficinas. Para organização das sequências discursivas, foram criadas abreviaturas, as quais estarão disponíveis no quadro da seção de análises – página 62.
O corpus foi delineado de forma que respondesse às questões necessárias para se alcançarem os objetivos da pesquisa, ou seja, de forma que se verificassem os discursos dos professores-supervisores e as motivações que levam professores a se tornarem supervisores, a forma como interagem com os professores-coordenadores de área, as concepções de linguagem que possuem e as representações que possuem da docência. Dessa forma, os discursos dos professores-supervisores foram organizados após a referência ao objetivo e aos questionamentos, assim: primeiro, o discurso do professor- supervisor iniciante da instituição pública (S1), depois o discurso do professor- supervisor veterano da mesma instituição (S2) e, por fim, o discurso do professor- supervisor da instituição filantrópica (S3).
Nesse momento, buscamos uma análise pormenorizada dos acontecimentos materializados nos discursos do professores-supervisores que mostram a posição que eles assumem no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência, consequentemente, na formação dos futuros profissionais da educação, a saber professores de Língua Portuguesa.
A próxima seção apresentará o aporte teórico no qual faremos as análises dos discursos dos professores-supervisores, bem como as discussões sobre sujeito responsável pelo discurso e formação discursiva.