Vejamos o exemplo do rei Salomão quando do episódio das duas mulheres que diziam ser mãe da mesma criança. Levadas ao rei, cada uma defendia a posição de que o filho era seu e que a outra estava mentindo. Diante dessa situação o rei propôs que a criança fosse cortada ao meio e cada mulher ficaria com metade da criança. Uma das mulheres concordou com a proposta e a outra rejeitou. Então, o rei determinou que a criança fosse entregue à segunda mulher, considerando que era a mãe verdadeira, pois seu interesse era ver o filho vivo, mesmo sob os cuidados de outra mulher.
A justiça foi feita de acordo com o ponto de vista do rei. Acreditamos que a mãe verdadeira era aquela que preferiu ver o filho vivo, mesmo longe dela. Mas e a outra mulher? Talvez algum fato tenha feito com que realmente pensasse que era a mãe verdadeira. Provavelmente se sentiu injustiçada. As duas mulheres optaram por levar o caso ao rei, autoridade máxima, para ele decidir o conflito.
A história da civilização mostra que os povos procuram maneiras peculiares de resolver suas desavenças, de acordo com a evolução do pensamento e da cultura. Na antiguidade, líderes familiares e comunitários mais idosos ou religiosos eram escolhidos para ajudar nessas negociações. Da informalidade inicial, damos um salto histórico em direção a uma sistematização técnica, como método para resolver desavenças ou problemas. Esse processo tem como modelo uma lógica determinista binária do litígio: ganhador x perdedor. Deparamo-nos então com uma cultura empobrecedora das relações interpessoais [...]. Na medida em que se procura um culpado para a situação – bode expiatório -, incentivando ataques que visam à destruição do adversário, acentuam-se os problemas. As consequências dessa atitude são a lentidão e a congestão dos procedimentos legais e a crescente hostilidade nas relações sociais (MARODIN e BREITMAN, 2007, p. 497 - 498).
O exemplo das duas mulheres que levaram o conflito para ser solucionado pelo rei lembra o tradicional modelo que temos nos foros e tribunais brasileiros.
Quando não mais se consegue conversar com a pessoa ou instituição com a qual houve algum problema, quando não mais se negocia com a outra parte e se se acredita injustiçado, leva-se o conflito ao Poder Judiciário, para o juiz decidir quem está certo e errado. Como dito anteriormente, o magistrado se baseia nas leis para julgar. A Constituição de 1988, a Legislação Brasileira e os Códigos de Processo são compartilhados e aceitos pela nossa cultura.
Para Ramos (2001, p. 173), “o principal papel do Poder Judiciário é o de garantir os direitos humanos fundamentais”. O acesso ao Poder Judiciário é o direito de entrar com um processo judicial, em busca de justiça.
O signo mais forte do sistema de Justiça, em que o juiz se insere como agente principal, é o próprio ideal de justiça, ideia- força que, como imperativo categórico, impulsiona a agir contra o injusto. A noção de justiça é imanente ao ser humano, resultante do embate das forças psíquicas profundas que realizam o acertamento da introjeção social. Cada pessoa carrega em si a própria noção de justiça, muitas vezes contaminada das contingências pessoais, que explica a caracterização como justo para si o que recusa a outrem. A ideia geral de justiça é resultante da abstração das contingências individuais, ante a identificação de valores universais (BENETI, 2007, p. 225, grifo do original).
Sampaio e Braga (2007, p. 17) observam que, nos países de língua latina, impera o paradigma de que acesso à Justiça é sinônimo de buscar o Poder Judiciário para resolver controvérsias, provocando a ilusão de que este supre todos os direitos, interesses e necessidades das pessoas.
Braga (2007, p. 63) coloca que paradigma, além de modelo ou padrão aceito, é um conjunto de certezas sociais, que variam de sociedade para sociedade e modificadas de tempos em tempos, conforme a evolução empreendida. “Afirmam uma visão compartilhada e aprovada pela sociedade,
que responde ao pensamento das maiorias. Normalmente cristalizam opiniões e percepções, dando-lhes caráter de verdades”.
Os juristas precisam reconhecer que as técnicas processuais servem a funções sociais; que as cortes não são a única forma de solução de conflitos a ser considerada, e que qualquer regulamentação processual, inclusive a criação ou o encorajamento de alternativas ao sistema judiciário formal, tem efeito importante sobre a forma como opera a lei substantiva – com que frequência ela é executada, em benefício de quem e com que impacto social. Uma tarefa básica dos processualistas é expor o impacto substantivo dos vários mecanismos de processamento de litígios [...], ampliar sua pesquisa para além dos tribunais e utilizar os métodos de análise da sociologia, da política, da psicologia e da economia [...] aprender através de outras culturas (CAPPELLETTI, 1988, p. 12).
O modelo tradicional de disputa judicial é adversarial, no qual invariavelmente um lado ganha e o outro perde. Nesse modelo, a solução é obtida de forma heterocompositiva. De acordo com Watanabe (2007, p. 6), a sentença constitui solução imperativa dada pelo juiz como representante do Estado.
Lagrasta (2007, p.12) comenta que:
Tem sido constante a tentativa de encontrar a solução do litígio na própria litigância, sem pacificar os contendores, através da sentença e do sistema de recursos20, perpetuando o litígio, investindo-se, de forma equivocada, contra uma alardeada morosidade da Justiça, sem considerar a ineficácia e pauperização dos meios.
Observam-se casos em que a pessoa ganha a ação (por exemplo, indenização por danos materiais), e quem perdeu não cumpre o determinado na sentença, não paga o que deve, sendo preciso entrar com outra ação
20 Meio legal para a impugnação de uma decisão judicial, total ou parcial, submetendo-
judicial para executar a sentença, ou seja, fazer com que seja cumprida à força. Nesses casos observa-se a falta de efetividade da primeira sentença judicial. Souza Neto (2007, p. 514) ressalta que é gerada “a sensação de, mesmo ganhando, ser injustiçado, dado o tempo em que tudo transcorreu e a óbvia preocupação sobre, ainda vencendo a demanda, se será possível implementá- la”.
Parece óbvio dizer que o objetivo de quem ajuíza ou contesta uma ação judicial é a vitória, ou seja, o reconhecimento do direito pretendido e o decreto judicial consequente, de procedência ou improcedência da ação. O Direito Processual, como sistema de leis e princípios, constrói-se sob essa premissa, formulando o espaço de relação entre os litigantes a partir do que entende e admite como a finalidade que os movimenta, que é a vitória final (RODRIGUES, 2007, p. 377).
Nas diversas relações interpessoais, quando surge um conflito, muitas pessoas têm grande dificuldade em resolvê-los, principalmente de forma pacífica. Os métodos tradicionais de solução de conflitos giram em torno da adversariedade, porém verifica-se que esta não é uma boa opção (LOPES e KAKUMU, 2008, p.3).
Como alternativa ao modelo adversarial, apresentamos o modelo conciliatório de solução de conflitos.