CAPÍTULO II. O CONFLITO PARENTAL NA VIDA DA CRIANÇA
3. MODELOS EXPLICATIVOS DO IMPACTO DO CONFLITO PARENTAL NA
3.1. MODELO COGNITIVO-CONTEXTUAL
O modelo cognitivo-contextual, proposto por Grych e Fincham em 1990, constitui uma base para a compreensão dos mecanismos subjacentes à relação entre conflito parental e ajustamento da criança.
Grych e Fincham (1990) entendem que as dimensões mais importantes do conflito são a frequência da ocorrência das interacções conflituosas entre os cônjuges, a intensidade das interacções, o conteúdo sobre o que está ocasionando o conflito e, finalmente, a forma como as situações de conflito são resolvidas.
De acordo com Grych e Cardoza-Fernandes (2001), as percepções e interpretações da criança em face do conflito modelam a resposta afectiva e as emoções decorrem dessas interpretações.
Mas, a percepção da ameaça e da capacidade para lidar com as situações, variam com a idade da criança, sendo que o tipo de ajustamento exibido, como é salientado por Grych e Fincham (1990; 1993), reflecte as características do estádio de desenvolvimento da criança.
Na verdade, Cummings e Cummings (1988) reforçam esta ideia alegando que o estádio emocional e a imaturidade cognitiva podem interferir com a forma como as crianças mais pequenas percebem o conflito. Estas crianças podem sentir-se ameaçadas por um acontecimento perturbador, nomeadamente, o conflito parental, porém, à medida que crescem vão se tornando mais capazes de distinguir as formas subtis do conflito e mais conscientes dos perigos particulares implícitos no desacordo conjugal.
Tal como as teorias cognitivo-sociais, o modelo cognitivo-contextual de Grych e Fincham (1990), reflecte a perspectiva do processamento da informação que embora enfatize a importância da cognição, inclui também o afecto como parte do processo da relação entre o conflito parental e os problemas de ajustamento da criança.
O afecto e a cognição não são entidades separadas, mas sim interdependentes, ou seja, as percepções e interpretações da criança ao conflito parental modelam a resposta afectiva inicial, e as emoções, por sua vez, podem influenciar as interpretações da interacção. Conjuntamente, elas modelam o significado do conflito para a criança. Pode deizer-se que o afecto é o resultado do processo cognitivo, mas também influencia as atribuições, a memória, as estratégias de coping em relação ao conflito parental, e, assim, o comportamento (Figura 1).
Figura 1. Modelo cognitivo-contextual
Fonte: Grych e Fincham, 1990.
Contexto
Distal – Experiências anteriores com o conflito Relação parental com a criança Temperamento Género Proximal – Expectativas Humor Conflito Parental Intensidade Conteúdo Duração Resolução Coping Comportamento Processamento Primário Processamento Secundário Afecto
De forma semelhante a Lazarus, em que a avaliação de situações de stress decorre em duas etapas, primária e secundária, Grych e Fincham, conforme mencionado anteriormente, afirmam que o processamento cognitivo da criança em face do conflito parental envolve dois estádios – o processamento primário e o processamento secundário.
Numa primeira etapa, no processamento primário, a criança determina a significância do conflito parental, consciencializa-se da ocorrência de um acontecimento de stress e vivencia uma reacção afectiva inicial (Grych et al.,1992). O processamento primário é semelhante ao que Lazarus e Fokman (1984) designam de avaliação primária, a qual envolve uma estimação da ameaça ou do estímulo demonstrado pela situação de stress (Grych & Fincham, 1990).
Dado que o processamento secundário requer capacidades cognitivas mais elaboradas, as reacções das crianças muito novas podem ser reflexo apenas do processamento primário.
Se a percepção do conflito é confirmada como ameaçadora, o processamento primário, pode então conduzir ao processamento secundário, estádio este mais elaborado, no qual a criança elabora três avaliações adicionais: atribuições de causualidade (a compreensão da razão da ocorrência do conflito), atribuições de culpa (imputação da responsabilidade) e eficácia do coping (capacidade para lidar com o conflito com sucesso).
Os autores referem que (particularmente nas crianças mais novas) o estímulo emocional do processamento primário pode interferir com o posterior processamento cognitivo.
As avaliações podem não somente influenciar as respostas imediatas da criança ao conflito, mas contribuir para o desenvolvimento de problemas de comportamento e emocionais (Grych & Fincham, 1990; 1992).
Neste sentido, o processo de avaliação pode continuar paralelamente ao curso do conflito, pois não acaba necessariamente quando o conflito termina; a criança tanto pode meditar sobre a posterior interacção como elaborar ou mudar a sua compreensão acerca do conflito baseando-se nas suas ponderações ou em nova informação (e.g., explicação do progenitor da razão do conflito) (Baker-Ward et al.,1997).
Assim, quer o afecto, quer o processamento secundário fundamentam a forma como a criança lida com a exposição ao conflito parental.
A literatura acerca do conflito lembra que as crianças representam mentalmente as suas experiências com o conflito parental sob a forma de esquemas (Grych & Cardoza- Fernandes, 2001; Rossman, 1998), os quais podem alterar-se de uma forma negativa face a uma maior exposição ao conflito e à violência.
Baker-Ward et al. (1997) sublinham que
a representação de um acontecimento é baseado na compreensão dos indivíduos desse acontecimento, assim como também da forma como ele é experienciado. Dito isto, a expectativa e conhecimento anteriores orientam a interpretação da experiência e permite a formação da representação, que geralmente abarca mais informação do que aquela que é explicitamente disponível no próprio acontecimento (p.89).
Em favor destas ideias, Grych e Cardoza-Fernandes (2001) referem que os esquemas do conflito representam a compreensão da criança acerca da natureza, expressão e curso da resolução do conflito na relação parental, e, são baseados nas experiências anteriores da criança.
Grych e Cardoza-Fernandes (2001) salientam que o conteúdo dos esquemas muda ao longo do processo de desenvolvimento. As crianças mais novas podem não compreender o conteúdo das discussões parentais, mas são sensíveis às emoções (por exemplo, que o medo é mais evidente em idades pré-escolares). À medida que as crianças se tornam mais velhas, os seus esquemas tornam-se mais elaborados, e, geralmente, incluem informação de afectos, explicações dos acontecimentos (mais do que simples descrições), e inferências que vão além da ocorrência dos acontecimentos (Baker-Ward et al., 1997).
Na verdade, Cummings e Davies (1994) sublinham que as crianças frequentemente expostas a níveis mais elevados de conflito parental são mais sensíveis e mais reactivas a posteriores ocorrências de conflito, pelo que ao primeiro sinal de conflito parental, as expectativas e experiências emocionais reflectem-se em elevada percepção de ameaça, afecto negativo e intenso estímulo fisiológico. Pelo contrário, as crianças que predominantemente testemunham conflitos construtivos estão mais predispostas a percepcionar baixos níveis de ameaça e de afecto negativo, pois confiam que o conflito será resolvido com eficiência e que não terá implicações no seu bem-estar e da sua família.
Grych e Fincham (1990) defendem que a criança avalia subjectivamente o nível de ameaça na situação conflituosa baseada em características do próprio conflito (intensidade do conflito, tópico do conflito, resolução ou não do conflito) e em certos factores contextuais.
Estes factores contextuais podem ser proximais, tais como as expetactivas da criança e o humor naquele momento, ou mais distais, incluindo as experiências passadas com o conflito, a relação parental com a criança, o temperamento e o género.
Estas ideias são sustentadas por pesquisa acerca da associação de factores contextuais, (tais como a idade da criança e a história de exposição ao conflito parental) e as avaliações da criança ao conflito (Grych, 1998).
Neste sentido, Grych et al. (1992) desenvolveram um instrumento, o Children’s Perception of Parental Conflict (CPIC), o qual procura apreender as percepções da criança perante situações de conflito parental. Mais particularmente, este instrumento inclui várias dimensões, nomeadamente as propriedades do conflito relativamente à frequência, à intensidade e à resolução. Além destas propriedades, as crianças também indicam o grau de culpa em relação aos conflitos parentais e ao conteúdo dos mesmos. Outras avaliações incluídas neste instrumento são o grau de ameaça e de eficácia para lidar com o conflito parental.
Em suma, as consequências negativas na criança desenvolvidas ao longo do tempo como resultado das interacções pessoa-ambiente, moldam gradualmente a forma como a criança responde e reage a interacções e acontecimentos sócio-emocionais.
O resultado do conflito parental e da violência, constitui padrões e disposições de respostas específicas, desajustadas, a nível emocional, social e cognitivo.