Segundo Forza (2002), antes de se iniciar a pesquisa survey, deve-se estabelecer um modelo conceitual, no qual é necessário especificar:
As variáveis envolvidas na pesquisa.
A classificação das variáveis (dependentes, independentes, de controle). A relação existente entre as variáveis.
A delimitação do escopo da pesquisa.
O modelo conceitual que orientou a pesquisa realizada nesta tese baseou-se em uma revisão bibliográfica sistematizada que buscou trabalhos sobre a influência entre os constructos. Para tal, foram pesquisadas, na base de dados dos sites Science Direct e PubMed, as palavras-chave “hospital performance accreditation” e “performance accreditation”. Como resultado, foram encontrados 64 artigos internacionais.
A composição do constructo práticas de Acreditação baseou-se nas práticas e requisitos contidos no Manual Brasileiro de Acreditação. Além disso, foi realizada, também, uma revisão bibliográfica sistematizada para trabalhos que abordavam a composição do desempenho hospitalar. Para a palavra-chave “hospital performance” foram obtidos 749 artigos nos bancos de dados dos sites Science Direct e PubMed.
As dimensões Financeira e de Orientação ao Pessoal, do desempenho hospitalar, foram excluídas do escopo da pesquisa por não terem apresentado diferenças estatísticas significativas em relação às práticas da Acreditação, segundo os trabalhos de
Schmaltz et al. (2011), Macinati (2008), Campos, Gastal e Couto (2008), Braithwaite et al., (2011), Jardali et al. (2008), Lopes (2007) e Nishikuni e Minuci (2006).
As fontes para a pesquisa foram artigos científicos, dissertações acadêmicas, textos técnicos, documentos disponíveis na ONA, capítulos de livros e questionários respondidos por Gerentes da Qualidade dos hospitais.
O modelo conceitual com as variáveis analisadas, suas interrelações e o escopo da pesquisa estão no Apêndice A. A figura 4.1 retrata o modelo conceitual simplificado.
FIGURA 4.1. Modelo Conceitual Simplificado de Pesquisa
Foram analisadas a associação entre as práticas da Acreditação (variável independente) e o desempenho hospitalar (variável dependente) e a ação de fatores intervenientes (porte e propriedade, tempo e nível de Acreditação) nesta relação.
Antes de testar a relação entre os diferentes tipos de variáveis, Forza (2002) afirma que é necessário traduzi-las em elementos operacionais observáveis e/ou passíveis de medição, isto é, realizar a operacionalização dos constructos, por meio da apresentação de elementos que serão tomados como base de observação para análise de cada constructo.
A operacionalização dos constructos envolvidos nesta tese baseou-se na revisão bibliográfica dos capítulos 2 e 3. No Quadro 4.1 são apresentadas as definições operacionais dos constructos envolvidos na variável dependente (desempenho hospitalar). Já nos Quadro 4.2, 4.3 e 4.4, são apresentadas as definições operacionais dos constructos envolvidos na variável independente, Práticas da Acreditação, separadas por Nível de Acreditação (Acreditado, Acreditado Pleno e Acreditado por Excelência, respectivamente).
Práticas da Acreditação (Variáveis Independentes)
- Práticas de Gestão de Riscos - Práticas para Mapeamento e Documentação de Processos e
Procedimentos
- Práticas de Gestão por Evidências - Práticas de Melhoria Contínua
Desempenho Hospitalar (Variáveis Dependentes) - Dimensão Eficiência Operacional: produtividade - Dimensão Efetividade: eficácia, segurança - Dimensão Orientação aos
Usuários: satisfação, tratamento de reclamações, atendimento às necessidades dos usuários Fatores Intervenientes (Variáveis de Controle) - Porte - Propriedade - Tempo de Acreditação - Nível de Acreditação
Variável Dependente: Desempenho Hospitalar (Dimensões Afetadas pelas Práticas da Acreditação) Dimensões da Variável Dependente Variáveis da Dimensão
(Subdimensões) Definições Operacionais das Variáveis
Questões Correspondentes no Questionário Dimensão Eficiência Operacional Produtividade
V1 Aproveitamento de recursos (equipamentos, materiais, insumos,
instalações, etc.) Q1 (Bloco B)
V2 Utilização de recursos (equipamentos, materiais, insumos, instalações,
etc.) Q2 (Bloco B)
V3 Tempo médio de Permanência em internação Q3 (Bloco B)
V4 Rotatividade de leitos Q4 (Bloco B)
Efetividade
Eficácia V5 Incidência de erros de medicação Q5 (Bloco B)
V6 Evolução da taxa de mortalidade Q6 (Bloco B)
Segurança
V7 Evolução dos indicadores de riscos e eventos adversos Q7 (Bloco B) V8 Notificação e tratamento de riscos e eventos Q8 (Bloco B)
V9 Evolução da taxa de infecção hospitalar Q9 (Bloco B)
Orientação aos Usuários
Satisfação dos Usuários
V10 Nível de satisfação Q10 (Bloco B)
V11 Oportunidades de melhoria identificadas por meio do nível de satisfação Q11 (Bloco B)
V12 Condições durante o atendimento Q12 (Bloco B)
Atendimento às Necessidades
dos Usuários V13 Consideração de necessidades específicas dos usuários Q13 (Bloco B) Tratamento
de Reclamações
V14 Ocorrência de reclamações Q14 (Bloco B)
V15 Melhoria e aprendizagem geradas a partir de reclamações Q15 (Bloco B)
Variável Independente: Práticas da Acreditação ligadas aos Requisitos de Acreditação, Acreditação Plena e Acreditação por Excelência Dimensões da Variável Independente Variáveis Da Dimensão (Requisitos)
Definições Operacionais das Variáveis
(Práticas de Acreditação do Nível Acreditação) Nomenclaturas das Práticas
Questões Correspondentes no Questionário Práticas do Nível Acreditado R1: Habilitação do corpo funcional V16
Manter equipes de profissionais habilitados, capacitados e compatíveis, em quantidade e especialidades, com a demanda dos serviços
Adequação dos
recursos humanos Q1 (Bloco C) R2: Estrutura básica (recursos) capaz de garantir assistência orientada para a execução coerente de suas tarefas V17
Manter instalações físicas e equipamentos adequados e compatíveis, em quantidade, com a
demanda dos serviços
Adequação da estrutura física e de equipamentos Q2 (Bloco C) R3: Atendimento aos requisitos fundamentais de segurança para o cliente nas ações assistenciais e procedimentos médico-sanitários
V18 assistenciais, profissionais e ocupacionais de P3.1:Mapear riscos sanitários, ambientais, atividades e processos com foco na segurança
Mapeamento e gerenciamento de
riscos
Q3 (Bloco C)
V19 P3.2:Aplicar procedimentos documentados de prevenção de riscos e eventos adversos
Procedimentos documentados para
riscos e eventos adversos
Q4 (Bloco C)
V20 P3.3: Uso de dispositivos de gestão à vista para prevenção de riscos e eventos adversos
Dispositivos de gestão à vista para
gestão de riscos
Q5 (Bloco C)
V21 P2.4: Nomeação de Comissão de Gerenciamento de Riscos e Eventos Adversos para monitorá-los. Gestão de Riscos Comissão de Q6 (Bloco C) V22 P2.5: Aplicar iniciativas de Farmacovigilância e Tecnovigilância (registros, capacitação e
conscientização dos profissionais e Comissão)
Sistemática de Farmacovigilância
e Tecnovigilância
Q7 (Bloco C)
V23 P2.6:Gerenciar estoques e suprimentos com foco na segurança a fim de evitar faltas
Gestão de estoques com foco na
segurança
Q8 (Bloco C)
Variável Independente: Práticas da Acreditação referentes aos Requisitos dos Níveis: Acreditado, Acreditado Pleno e Acreditado por Excelência Dimensões da Variável Independente Variáveis Da Dimensão (Requisitos)
Definições Operacionais das Variáveis (Práticas de Acreditação
Do Nível Acreditação Plena)
Nomenclaturas das Práticas Questões Correspondentes no Questionário Práticas do Nível Acreditado Pleno R1: Identificação, definição, padronização e documentação dos processos do hospital e suas interações
sistêmicas
V24 Elaborar e manter mapas de processos do hospital Mapeamento de processos Q9 (Bloco C)
R2: Existência de normas, rotinas e
procedimentos documentados e aplicados V25
Documentar, atualizar, disponibilizar e aplicar procedimentos e registros na realização de rotinas e atividades.
Procedimentos documentados e
registros Q10 (Bloco C) R3: Definição de indicadores para os
processos identificados V26
Uso de indicadores para medição do desempenho dos processos do
hospital
Indicadores de medição dos
processos
Q11 (Bloco C)
R4: Avaliação dos resultados dos
processos V27
Realizar Análise Crítica de processos com foco na melhoria do desempenho dos indicadores, dos serviços e na resolução de
problemas
Análise Crítica para melhoria e resolução de
problemas Q12 (Bloco C)
R5: Programa de educação e treinamento continuado com evidências de melhoria e
impacto nos processos V28
Definir, a partir dos resultados dos indicadores, as temáticas de capacitação dos profissionais e
oportunidades de melhoria Temáticas de capacitação e melhoria baseadas em indicadores Q13 (Bloco C)
Variável Independente: Práticas da Acreditação referentes aos Requisitos dos Níveis: Acreditado, Acreditado Pleno e Acreditado por Excelência Dimensões da Variável Independente Variáveis Da Dimensão (Requisitos)
Definições Operacionais das Variáveis (Práticas de Acreditação do Nível
Acreditação por Excelência)
Nomenclaturas das Práticas Questões Correspondentes no Questionário Práticas do Nível Acreditado por Excelência
R1: Evidências de ações de melhoria e inovações.
V29
P1.1: Adotar inovações em práticas gerenciais para o setor
hospitalar
Inovações em práticas
gerenciais Q14 (Bloco C)
V31
P1.2: Realizar Análises Críticas sistemáticas com evidências de
ações de melhoria focadas em inovação Análises Críticas focadas em inovação Q16 (Bloco C) R2:Utilização de um sistema de informação institucional, baseado em
taxas e indicadores, que permitam análises comparativas com referenciais
adequados e a obtenção de informação estatística que mostrem tendências positivas e sustentação de resultados
V30
Avaliar indicadores de desempenho internamente com
base em referenciais externos pertinentes (hospitais do exterior,
padrões internacionais, hospitais referências, etc.) Indicadores comparados a referenciais externos Q15 (Bloco C) R3.1:Identificar oportunidades de melhoria de desempenho dos processos e
práticas da Organização, comparando-as com outras ações de melhoria implantadas em oportunidades cuja
solução mostrou-se bem sucedida.
V32
Planejar, investir e melhorar continuamente em termos de estrutura, novas tecnologias e capacitação profissional em procedimentos mais atualizados
e/ou inovadores Gestão de estrutura, novas tecnologias e capacitação com foco em inovação Q17 (Bloco C)
Conforme recomendado por Forza (2002), uma vez definidos os constructos, as definições operacionais, as variáveis e suas interrelações e o escopo de pesquisa, foram propostas hipóteses que traduzem tais interrelações e os problemas de pesquisa identificados. Os problemas de pesquisa e suas respectivas hipóteses são apresentados a seguir:
Problema de Pesquisa 1 e Hipótese 1:
P1: O grau de implantação das práticas de Acreditação melhora o desempenho hospitalar percebido?
H0.1: Não existem diferenças estatísticas significativas entre o grau de implantação das práticas de Acreditação e a percepção de melhoria do desempenho hospitalar.
Problema de Pesquisa 2 e Hipótese 2:
P2: O grau de implantação das práticas de Acreditação melhora as dimensões do desempenho hospitalar percebido, consideradas isoladamente (Eficiência operacional, Efetividade e Orientação aos usuários)?
H0.2: Não existem diferenças estatísticas significativas entre o grau de implantação das práticas de Acreditação e a percepção de melhoria das dimensões do desempenho hospitalar, consideradas isoladamente.
Problema de Pesquisa 3 e Hipótese 3:
P3: Quais práticas de Acreditação são críticas à melhoria da percepção do desempenho hospitalar?
H0.3: Não existem evidências estatísticas de práticas de Acreditação que sejam críticas à melhoria da percepção do desempenho hospitalar.
Problema de Pesquisa 4 e Hipótese 4:
P4: O grau de implantação das práticas de Acreditação melhora o desempenho hospitalar percebido sob a ação de fatores intervenientes (porte, propriedade, tempo e nível de Acreditação)?
H0.4: Não existem diferenças estatísticas significativas entre o grau de implantação das práticas de Acreditação e a percepção de melhoria do desempenho hospitalar sob a ação de fatores intervenientes.
As hipóteses, variáveis e constructos foram avaliados na prática em observações realizadas junto às Unidades de Estudo desta tese, abordadas a seguir.