3. Policiamento preditivo
3.1. Modelo de Risco de Terreno
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As sociedades atuais apresentam-se hoje como ambientes altamente incertos. “Face
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à incerteza, isto é, quando a probabilidade de eventos futuros é indefinida ou incalculável,
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os decisores recorrem ao risco, enquanto incerteza mensurável” (Knight, 1921). Segundo
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Fernandes (2014, p. 23), de um ponto de vista policial, “o risco é função da probabilidade
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de materialização de uma ameaça específica, que explora as vulnerabilidades do ativo e
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das consequências da materialização da ameaça num determinado espaço e tempo
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específico. Caplan e Kennedy (2011), por sua vez, definem o risco como a probabilidade
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de um evento ocorrer, tendo em conta o que é conhecido sobre os fatores que se
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correlacionam com esse mesmo evento, podendo ser quantificado como positivo,
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negativo, elevado ou reduzido.
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O conceito de risco foi evoluindo ao longo do tempo. Não obstante, o que importa
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realçar é que nas sociedades hodiernas, e para as polícias em particular, a gestão do risco
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- enquanto processo de identificação, avaliação e priorização do mesmo, com o intuito de
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minimizar, monitorizar e controlar a probabilidade e impacto de um evento indesejado
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(Bowers, 2016) - assume-se como modo de ação essencial (Fernandes, 2014). E, numa
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época marcada pela inovação tecnológica, as técnicas de avaliação do risco tornaram-se
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cada vez mais sofisticadas e variadas.
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Combinando as características de um modelo de previsão relativo à ocorrência de
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crimes e a convicção de que uma análise cuidada sobre a influência dos fatores ambientais
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é a chave para a prevenção do crime, o RTM destaca-se enquanto abordagem à gestão do
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risco.
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Um RTM engloba três conceitos chave: i) risco; ii) terreno; e iii) modelação. O
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primeiro, diz respeito à probabilidade de materialização de uma ameaça. O segundo
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consiste no mapa da área de estudo, representando este uma superfície contínua de lugares
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onde existem diversos valores de risco. Por sua vez, o terceiro refere-se ao processo de
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atribuição de qualidades do mundo real a lugares representados nesse mapa, bem como
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ao processo de sobreposição dos vários mapas de terreno com o intuito de produzir um
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único mapa demonstrativo do valor de risco composto do lugar em análise (Caplan &
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Kennedy, 2011).
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Trata-se de uma ferramenta que permite identificar os riscos que provêm dos fatores
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espaciais e analisar de que forma esses criam um ambiente propício à ocorrência dos
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eventos criminais. Não obstante, além da criminalidade, o RTM pode ser aplicado a uma
variedade de outros tópicos como, por exemplo, a saúde pública e a sinistralidade
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rodoviária (Caplan, Kennedy, Barnum & Piza, 2015).
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Um RTM permite representar, através de um SIG, diferentes camadas (layers) de
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mapas. Cada uma delas é demonstrativa da influência e intensidade de um fator de risco
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no terreno, isto é, de um fator ambiental suscetível de levar à ocorrência de certo evento
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criminal num determinado local. Segundo Racliffe e McCullagh (2001) estes fatores
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podem ser identificados através de meta-análise, revisão da literatura, métodos empíricos
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ou senso comum. Na mesma linha de pensamento, Andresen e Hodgkinson (2018),
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Drawve (2016) e Groff e La Vigne (2001), sustentam que os fatores de risco podem ser
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apurados através revisão bibliográfica e da aplicação de indicadores já utilizados por
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outros autores em estudos semelhantes. Por seu turno, autores com Caplan, Kennedy,
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Barnum e Piza (2015) e Silva (2016) optam por consultar os elementos policiais das áreas
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em estudo com o intuito de definir os fatores de risco para os seus modelos.
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Elaboradas as diferentes layers, estas são sobrepostas com o intuito de elaborar um
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mapa de risco de terreno único para o evento criminal em estudo (Caplan & Kennedy,
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2011).
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Segundo Caplan et al. (2015), um RTM engloba 10 etapas, conforme ilustra a Figura
17 3. 18 19 20 21 22 23
Figura 3. Etapas de um Risk Terrain Model. Adapted from “Risk terrain modeling for spatial risk 24
assessment by Caplan et al. (2015), Cityscape: A jornal of policy development, 17 (1), p.9. Copyright 2015 25
by Office of Policy Development and Research. 26 27 Escolher o evento a estudar Escolher a área de estudo Escolher o período temporal Obter o mapa da área Identificar os fatores que influenciam o risco Modelar os fatores Definir as medidas de influência no modelo Definir o risco de
cada um dos fatores
Representar simultaneamente cada um dos mapas de risco elaborados
Recolher do modelo informações significativas
Elaborado de acordo com os princípios da criminologia ambiental e da gestão do
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risco (Caplan, Kennedy & Miller, 2011), esta ferramenta geoespacial de análise criminal
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oferece “um método estatisticamente válido para a analisar áreas criminogénicas a um
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nível micro, tendo em conta a influência espacial de algumas características do terreno”
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(Caplan & Kennedy, 2011, p.7). Fatores criminogénicos como bares, escolas, paragens
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de transportes públicos ou casas abandonadas, tornam o ambiente vulnerável à ocorrência
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do crime (Kennedy, Caplan, Piza, & Buccine-Schrader, 2016). No entanto, importa
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realçar que estes, só por si, não atraem nem geram o crime, apenas apontam as
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localizações onde, se as condições forem certas, o risco de ocorrência um crime será mais
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elevado. Por exemplo, em dois locais distintos, mas exatamente com os mesmos fatores
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de risco, os indivíduos irão ponderar se existem outros fatores determinantes para o êxito
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do crime, escolhendo o local em que essa probabilidade de sucesso é mais elevada.
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(Caplan & Kennedy, 2011).
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O mapeamento criminal tem sido confinado a mapas de densidade baseados numa
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análise retrospetiva de dados e informações criminais (Groff & Vigne, 2002), assumindo
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que o crime tem uma maior probabilidade de ocorrer precisamente onde ocorreu no
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passado, mesmo que aí tenha ocorrido uma intervenção policial (Johnson, Birks,
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McLaughlin, Bowers, & Pease, 2007). Um RTM constitui uma alternativa eficiente e
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efetiva às técnicas de mapeamento convencionais, permitindo ir além de uma análise
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retrospetiva. Tal modelo representa um método de prevenção do crime, assente no
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princípio de que é possível entender o fenómeno criminal, não apenas com base em
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eventos passados, mas também nos fatores sociais, físicos e comportamentais que
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marcam o contexto em que o crime ocorre (Caplan et al. 2011).
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Apesar dos seus alicerces na técnica de mapeamento de hotspots, o RTM oferece
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uma nova forma de articular e gerir áreas criminogénicas (Caplan & Kennedy, 2011).
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Enquanto uma análise de hotspots tem por base o número de crimes que ocorreram no
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passado em determinado local, sendo por isso uma análise retrospetiva e estagnada que
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ignora os fatores espaciais e o contexto em que o crime ocorre (Kennedy, Caplan & Piza,
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2011), o RTM é uma técnica prospetiva, construída em torno do risco. Este é uma
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realidade dinâmica, cujo valor varia consoante o local e período temporal (Caplan,
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Kennedy & Miller, 2011). Não significa isto que se afaste ou exclua a utilização de outras
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técnicas ou métodos. Segundo Kennedy, Caplan e Piza (2011) é possível recorrer a ambas
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as técnicas, direcionando o policiamento quer para hotspots já identificados, quer para
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zonas de risco elevado identificadas pelo RTM. Ainda assim, um estudo realizado por
Drawve (2016), em que o mesmo compara técnicas de análise de hotspots e um RTM,
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demonstrou que esta última abordagem “é mais precisa, exata e confiável” (Amaral, 2018,
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p. 32). No entanto, para que este modelo se constitua como uma ferramenta útil para as
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polícias é necessário aumentar a pesquisa de dados sobre o risco associado ao contexto
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situacional. É preponderante conhecer quais os estabelecimentos de diversão noturna e
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quais os estabelecimentos comerciais da área, que casas se encontram ao abandono, que
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ruas possuem iluminação insuficiente, bem como qualquer outro tipo de fatores de risco
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que constituam uma oportunidade criminal (Kennedy et al., 2011).
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Por fim, importa realçar que a elaboração de um RTM que preveja as áreas em que a
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probabilidade de ocorrência de certo evento criminal é mais elevada, apenas provocará
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resultados positivos na redução da criminalidade se nessas áreas de risco for realizada
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uma intervenção. Segundo Caplan e Kennedy (2011), a elaboração de um mapa de risco
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de terreno permite produzir informações que suportam a tomada de decisão, quer de
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decisores policiais e não policiais como as Câmaras Municipais e as Juntas de Freguesia
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(Amaral, 2018). Ao utilizar um RTM, capaz de identificar as áreas de risco elevado, as
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forças policiais têm a possibilidade de se antecipar aos eventos criminais e direcionar os
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meios com maior eficácia, bem como a longo prazo, alterar os fatores ambientais que
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tornam esse local atrativo para a prática de crimes (Caplan et al., 2014).
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