2. REVISÃO DA LITERATURA
2.4. Estilos de Uso do Orçamento
2.4.2. Modelo de Simons
Serão apresentados na sequência estudos variados que utilizaram a tipologia de Simons (1995,
2000) para caracterizar o uso do orçamento em hospitais (Abernethy & Brownell, 1999)
empresas de médio e grande porte (Berland, 2004; Sponem, 2004; Sponem & Lambert, 2010,
Hofmann et al, 2012) e organizações de pequeno porte (Cools et al, 2011). Além disso,
caracterizar estudos que utilizaram no método survey e outros que realizaram estudos de caso,
de modo a demonstrar oportunidades de pesquisa utilizando ambos os métodos de coleta de
dados.
Inicialmente, Abernethy e Brownell (1999) propuseram um modelo teórico para analisar o
relacionamento entre mudança estratégica, estilo de uso do orçamento e desempenho. Cabe
destacar que para a variável de estilo de uso do orçamento foi utilizada a tipologia de Simons
(1995), ou seja, estilo de uso interativo e facilitador. A hipótese testada no trabalho é de que o
estilo de uso interativo do orçamento pode mitigar efeitos disfuncionais do impacto do
processo de mudança estratégica no desempenho da organização. A pesquisa foi realizada
com hospitais da Austrália, através de entrevistas e questionários. Abernethy e Brownell
(1999) desenvolveram um instrumento para capturar o estilo de uso diagnóstico e estilo de
uso interativo do orçamento, propondo duas definições (uma para cada estilo de uso) e quatro
afirmativas que caracterizam o estilo de uso interativo do orçamento, através de escala Likert
de 7 pontos. As afirmativas que caracterizam o uso interativo foram: (i) eu uso as informações
do orçamento, como forma de questionar e debater as decisões e ações em curso do
departamento; (ii) o processo orçamentário é contínuo e exige atenção regular e frequente dos
gestores em todos os níveis; (iii) existe muita interação entre a alta administração e os
gerentes departamentais no processo orçamentário; (iv) eu uso o processo orçamentário para
discutir com os meus colegas e subordinados as mudanças que ocorrem.
Berland (2004) busca mostrar através de sete estudos de caso que existem condições de uso
para que os orçamentos sejam mais ou menos adequados, endereçando diretamente às críticas
dirigidas ao orçamento pelo CAM-I. Desse modo propõe a seguinte questão de pesquisa:
"Como devemos interpretar as críticas ao orçamento?". Em primeiro lugar, parece que as
críticas se concentram em determinados papéis do orçamento, e, além disso, também na forma
como os gerentes o usam. A pesquisa abrangeu empresas de diferentes setores como
(metalurgia, indústria de produtos eletrônicos, indústria de produtos químicos, construção,
etc.), e busca propor duas conclusões. Primeiramente, as críticas ao orçamento parecem se
concentrar em algumas de suas funções, por exemplo, a função de planejamento é menos
criticada. Outra conclusão é que o orçamento também é criticado, a depender de como ele é
usado pelos gestores e, mais particularmente, a atenção que eles dão ao orçamento. Esses
autores sugerem estudos futuros no contexto do uso diagnóstico e interativo do orçamento.
Sponem (2004) e Sponem e Lambert (2010) propõem uma tipologia de práticas
orçamentárias, de modo a entender os seus papéis e críticas, a partir de uma pesquisa com 269
empresas francesas. Dentre as tipologias relacionadas ao orçamento está o uso interativo e
diagnóstico, as quais os autores caracterizaram. O uso diagnóstico remete ao uso do
orçamento como ferramenta de avaliação, cujo foco é no cumprimento de metas. Além do
mais, pode haver pouca participação de gestores de níveis mais baixos na elaboração do
orçamento, poucas revisões, pouco conteúdo operacional e influência direta na avaliação de
desempenho e no bônus. O uso interativo do orçamento empresarial é caracterizado pelo alto
envolvimento dos gestores, maior detalhe nos objetivos operacionais e financeiros, e possuem
uma perspectiva de maior flexibilidade. Por fim, o orçamento é usado como base para a
discussão de mudanças para a organização. A figura 11 apresenta uma caracterização dos usos
diagnóstico e interativo do orçamento de acordo com as dimensões.
Características Orçamento Diagnóstico Orçamento Interativo
Envolvimento da gestão Média Muito Forte
Participação Fraca Muito Forte
Tipo de negociação Financeira Financeira e Operacional
Desvios de monitoramento Médio Importante
Orçamento para avaliação Forte Muito Forte
Orçamento para remuneração Muito Forte Forte
Atualizações de previsões Frequentes Muito frequente
Revisões Raras Média
Papéis de orçamento Administrativo Administrativo e Estratégico
Críticas Forte Muito fraco
Figura 11. Dimensões do orçamento de acordo com uso diagnóstico e interativo. Fonte: Adaptado de Sponem e Lambert (2010)
Cools et al (2011) analisam o uso do orçamento em quatro organizações de pequeno porte em
relação ao tipo de criatividade da gestão (“expected creativity” e “responsive creativity”),
com base no framework de Otley (1999). Utilizaram Simons (1987) para listar condições
típicas do uso interativo que permitiram a categorização das empresas de acordo com o uso
diagnóstico e interativo do orçamento. As condições foram: (i) a informação gerada pelo SCG
é importante e endereçada aos altos níveis da administração; (ii) o processo demanda atenção
frequente e regular de gerentes em todos os níveis da organização; (iii) os dados são
interpretados e discutidos em reuniões entre superiores, subordinados e pares; (iv) o processo
consiste em desafio contínuo e debate sobre os dados obtidos, crenças e planos de ação. A
partir dessas quatro condições foi feita a categorização em uso interativo e diagnóstico do
orçamento.
Hofmann et al (2012) buscaram analisar os determinantes (fatores contingenciais, fatores
organizacionais e individuais) e os efeitos (formação e implementação de estratégias e
desempenho da organização) do uso do orçamento empresarial, com base no framework de
Simons (1995) através de um estudo empírico com 69 empresas do setor industrial na
Alemanha. Esses autores determinaram o uso diagnóstico a partir das seguintes afirmativas:
(i) a informação do orçamento atua como um sinal demonstrando que as coisas estão corretas
ou se não estão fora do previsto; (ii) o alcance das metas orçamentárias é estritamente
monitorada; (iii) as causas das variações no orçamento são efetivamente monitoradas; (iv) no
caso de desvios, ações corretivas efetivas são iniciadas. Já o uso interativo do orçamento é
caracterizado por Hofmann et al (2012) a partir das seguintes afirmativas: (i) o orçamento
requer atenção permanente de todos os gestores na unidade de negócios específica; (ii) tem
atenção particular para as informações do orçamento, que são altamente relevantes; (iii) as
informações do orçamento são utilizadas como um meio de questionar e debater as decisões e
ações correntes com os pares e subordinados; (iv) a informação que consta no orçamento é
frequentemente discutida entre pares e subordinados; (v) algumas informações do orçamento
são atualizadas a todo momento; (vi) algumas informações do orçamento forçam o gestor e
subordinados a questionar e revisar de modo contínuo as premissas às quais basearam os
planos de negócios.
Em estudos nacionais que trataram o uso diagnóstico e interativo no contexto orçamentário,
pode-se destacar Almeida, Machado, Raifur e Nogueira (2009), que utilizaram o framework
de Simons em um estudo sobre a utilização do orçamento empresarial em cooperativas
agropecuárias. O papel de apoio à formulação e implementação de estratégias, ou seja, o uso
interativo do orçamento foi percebido pela maioria dos respondentes. Os autores utilizaram
como referencial base alguns dos textos apresentados anteriormente.
A intenção de trazer a tipologia de Simons (1995) para estudos de orçamento empresarial na
presente dissertação dentro de uma discussão mais profunda, é que esse framework, dentre os
apresentados no início da seção “Estilos de Uso do Orçamento”, tem sido um dos mais
pesquisados no campo dos Sistemas de Controle Gerencial. Já o framework de Adler e Borys
(1996) é menos consolidado sob o ponto de vista de número de artigos que aplicaram o
modelo, se analisado comparativamente com Simons (1995), no entanto, para o presente
trabalho, entendeu-se que esse pudesse trazer contribuições relevantes. É possível depreender
alguma interseção entre os conceitos de uso diagnóstico e interativo respectivamente com o
uso coercitivo e facilitador (Ahrens & Chapman, 2004), entretanto, as “dimensões”
abrangidas por esses dois frameworks são distintas, o que poderá ser compreendido na
sequência.
No documento
Prof. Dr. João Grandino Rodas Reitor da Universidade de São Paulo
(páginas 60-63)