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6 FASE 1: DADOS

6.2 ANÁLISE DOS DADOS

6.2.6 Modelo Digital do Terreno

Na hidrologia, o Modelo Digital do Terreno (MDT) pode ser empregado como entrada em programas de geoprocessamento, a fim de extrair informações sobre as características morfológicas do terreno, tais como, depressões topográficas, direções de fluxo, que permitem a delimitação de bacias hidrográficas, definição dos caminhos de fluxo, dentre outras informações (Jenson e Domingue, 1988).

A área de estudo se localiza no estado de Santa Catarina, onde entre os anos de 2010 e 2012 foi realizado o levantamento aerofotogramétrico sob responsabilidade da Secretaria do Estado do Desenvolvimento Econômico Sustentável (SDS). Esse produto resultou no MDT de todo o estado em alta resolução espacial com pixels de 1,0 m e resolução vertical de 0,39 m do solo, disponível no Sistema de Informações Geográficas do Estado de Santa Catarina (SIGSC) na plataforma eletrônica: <http://sigsc.sds.sc.gov.br/>. Após a aquisição do MDT, foi realizada a conversão dos

pixels de 1 m para 10 m, visando a representação das planícies e, ao mesmo tempo,

não comprometendo o tempo computacional de simulação conforme estimado em testes preliminares.

A análise do MDT permitiu observar que em comparação com o ano de 1974, a alteração mais significativa se refere às obras de retificação em um trecho do Rio Tubarão a jusante da área central do Município e no Rio Capivari nas proximidades da sua confluência com o Rio Tubarão. Essas retificações foram executadas pelo DNOS entre os anos 1978 a 1982, posteriormente a ocorrência do evento de 1974 como uma medida de proteção das cheias. Na dragagem efetuada no trecho do Rio Tubarão foram retirados aproximadamente 16.000.000 m³ de sedimentos do rio (Marques, 2010).

No presente estudo, o MDT exerceu duas funções. Em uma delas, as informações do MDT foram usadas para a geração da rede de drenagem, cuja segmentação dos trechos originou as minibacias, unidades de discretização do modelo. Para isso, foi necessário realizar a recuperação do MDT com base em cartas topográficas para representação da rede de drenagem sem as obras de retificação do Rio Tubarão e do Rio Capivari.

A outra função do MDT se refere a representação da área inundada. Para isso, foi necessário extrair a curva hipsométrica, empregando o MDT sem a recuperação do traçado, porém com a adição das profundidades do sistema lagunar existente. A decisão por esse MDT foi baseada considerando: (i) a similaridade entre as cotas do terreno independente do traçado, por se tratar de uma região de planície, (ii) pela unidade de discretização ser a minibacia, cuja definição é realizada empregando o MDT recuperado e, (iii) pelo alto tempo de processamento necessário para viabilizar a extração dos valores das cotas.Remo e Pinter (2007) realizaram procedimento semelhante na recuperação do MDT do Rio Mississippi Médio. Possuindo um acervo bem documentado, os autores utilizaram a batimetria do rio referente ao ano de 1888 e 1889, porém devido à não inclusão da topografia da planície de inundação no levantamento, os autores extraíram essa informação de um MDT do ano de 1998.

6.2.6.1 Recuperação dos canais meandrantes no MDT para geração da rede de drenagem

Com vistas à reconstrução hidrológica e hidrodinâmica do evento de 1974 em Tubarão, uma das etapas consiste em remover o traçado retificado do Rio Tubarão e do Rio Capivari, recuperando o curso sinuoso do rio existente na data do evento. A recuperação do MDT se refere aos locais onde houve a retificação dos rios nas proximidades do município de Tubarão. Para embasar essa etapa, foi realizado o levantamento de registros e cartas topográficas cujos dados apresentam o traçado antes das obras de retificação.

Nas cartas topográficas do Exército em escala de 1:50.000, cujas identificações são elencadas na Tabela 7, foi possível identificar os meandros dos rios antes das obras de retificação. Essas cartas estão disponibilizadas em formato raster

no Banco de Dados Geográficos do Exército pelo endereço eletrônico: <https://bdgex.eb.mil.br/mediador/>.

Tabela 7 – Dados de identificação das cartas topográficas usadas para recuperação do MDT.

Nome da Folha MI Índice de

Nomenclatura

Data de Conclusão Lagoa de Garopaba do Sul 2041-1 SH-22-X-B-V-1 01/01/1976

Laguna 2925-3 SH-22-X-B-II-3 01/01/1976

Tubarão 2924-4 SH-22-X-B-I-4 10/01/1970

Fonte: Banco de Dados Geográficos do Exército.

O primeiro procedimento se refere ao “aterramento” do canal retificado. As curvas de nível fornecidas pelas cartas topográficas poderiam ser usadas para auxiliar na recuperação das cotas do terreno. Entretanto, essa região é plana, de modo que as cartas topográficas existentes com curvas de nível equidistantes em 20 m, não foram capazes de representar a variação altimétrica. Portanto, para áreas com pouca ou nenhuma variação de altitude, a recuperação do MDT não pode utilizar as curvas de nível provenientes das cartas topográficas do Exército com escala de 1: 50.000. Dessa forma, optou-se por utilizar as informações do próprio MDT para realizar a correção do terreno. O procedimento adotado consistiu em:

(i) criar um arquivo vetorial traçando o centro dos canais retificados tendo por base uma imagem de satélite atual (Figura 22);

(ii) dividir em trechos com declividade aproximadamente constante em torno de 1.000 m cada trecho;

(iii) gerar uma área de influência para cada trecho utilizando a ferramenta de geoprocessamento buffer;

(iv) para cada um dos trechos, calcular a média e o desvio padrão aplicando recursos da ferramenta de geoprocessamento;

(v) assumir para cada um dos trechos, o respectivo somatório entre a média e o desvio padrão;

(vi) no MDT original, sobrepor os trechos com valores constantes de modo a eliminar as cotas os canais retificados.

Figura 22 –Traçado do Rio Tubarão e do Rio Capivari com meandros conforme Cartas do Exército de 1976 sobreposto ao traçado retificado pela DNOS.

Do exutório do Rio Tubarão até 15 km a montante se verificou que a variação dos valores entre o canal do rio e o entorno foi inferior a 0,30 m, de modo que a metodologia de recuperação do MDT foi aplicada apenas no restante do trecho retificado, cerca de 8 km. A área de influência adotada para o Rio Tubarão foi de 150 m para cada lado do traçado central. Já para o Rio Capivari, o trecho retificado apresentou cerca de 9 km, de modo a se obter 9 trechos com área de influência de 100 m para cada lado do traço central.

Posteriormente, o traçado com meandros foi incorporado no MDT corrigido. Para aquisição dos meandros foram utilizadas informações dos cursos d’água das cartas topográficas da Tabela 7 para elaboração de um arquivo vetorial. Nas imagens de satélite recentes foi possível visualizar os meandros abandonados, sendo essa uma forma de verificação (Figura 22). A aplicação de recursos de geoprocessamento possibilita a definição dos meandros no MDT corrigido. Assim, MDT recuperado foi gerado, possibilitando a definição da hidrografia referente ao período anterior a retificação do canal. A Figura 23 exemplifica a recuperação do MDT ao que tange o traçado do Rio Tubarão (c), permitindo a comparação com o MDT cuja retificação foi evidenciada (a), sendo (b) a etapa correspondente ao aterramento do canal retificado.

Figura 23 – (a) MDT com traçado do Rio Tubarão retificado; (b) resultado da etapa (vi) com trechos de 1.000 m, buffer de 150 m para cada lado do traçado central e valores representativos do somatório da média e desvio padrão; (c) MDT com traçado meandrante

do Rio Tubarão.

Outro procedimento relevante no MDT, deve-se ao fato de a discretização das lagoas no modelo hidrológico ser simplificada conforme proposto por Lopes (2017), consistindo na inserção de traçados artificias dentro das lagoas criando uma drenagem principal fictícia em cada uma delas de modo a realizar a conexão entre as lagoas e os rios.

Finalizada a etapa de recuperação do MDT, aplicaram-se os recursos de geoprocessamento para a delimitação da hidrografia por meio das informações do MDT. Entretanto, a aplicação da ferramenta IPH-Hydro Tools (Siqueira et al., 2016) para determinação das informações topológicas de geoprocessamento requer a eliminação dos valores negativos do MDT, assim adicionou-se uma altitude de 1.000 m em todos os pixels.

Com o MDT recuperado e aplicando as ferramentas de geoprocessamento, deve-se realizar a remoção das depressões, geração das direções de fluxo e acumulação dos fluxos, para então realizar a definição da rede de drenagem (Jenson e Domingue, 1988). Esse procedimento gerou a rede de drenagem da bacia hidrográfica com representação do traçado anterior às obras de retificação, cuja segmentação em trechos resulta nas minibacias.

6.2.6.2 MDT para propagação das vazões

Como já mencionado, outro papel relevante do MDT foi fornecer as informações para criação da curva hipsométrica para representação da área inundada. Para essa etapa, empregou-se o MDT sem a recuperação do traçado, porém com a adição das profundidades do sistema lagunar existente.

A busca pela batimetria das lagoas foi realizada nas cartas náuticas da Marinha do Brasil, disponíveis em formato raster na plataforma eletrônica: <https://www.marinha.mil.br/chm/dados-do-segnav/cartas-raster>. No entanto, não consta no levantamento do sistema lagunar.

Na indisponibilidade de dados de batimetria desses corpos d’água, foram adotados valores constantes estimados a partir de levantamento realizado pelo Instituto de Políticas Públicas e Sociais (IPPS, 2010). Para a Lagoa do Imaruí, adotou- se o valor de 7,1 m de profundidade, 2,7 m para Lagoa Mirim e 2,2 m para Lagoa de Santo Antônio. A profundidade das Lagoas de Garopaba do Sul, do Camacho e de Santa Marta foi estimada em 2,5 m e da Lagoa de Jaguaruna em 1 m.

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