2 ASPECTOS INSTITUCIONAIS E TEÓRICOS SOBRE O SISTEMA POLÍTICO-
2.2 AS TEORIAS EXPLICATIVAS DO COMPORTAMENTO POLÍTICO E SUA
2.2.1 Modelo distributivista
O modelo distributivista centra a análise no comportamento individual de cada deputado e na premissa que todo parlamentar eleito foca a sua atuação sempre voltada para o processo reeleitoral. Na raiz desse modelo, ainda com objeto no Congresso Americano, David Mayhew (1974) traçou assertivas preliminares sobre o tema ao estabelecer “como vetor orientador da ação dos representantes a maximização das possibilidades de sua reprodução eleitoral, ou seja, o conjunto das ações dos representantes no Congresso visando a um só fim: a sua reeleição”.
Nesse último aspecto, podemos afirmar que, mesmo com a defesa feita por alguns estudiosos, como Morgenstern (2002) de que os parlamentares brasileiros podem ser classificados como “progressive ambition”, ou seja, com ambição política de trocar a carreira legislativa por cargos no Poder Executivo, em qualquer das esferas federativas, diferentes pesquisas4 demonstram que a maioria dos deputados
4 Toma-se como referência o trabalho de COSTA, Ivanete de Araújo. Conexão eleitoral: a reeleição na câmara dos deputados e o perfil político dos parlamentares com oito ou mais mandatos consecutivos. Brasília: Centro de Formação, Treinamento e Aperfeiçoamento do Programa de Pós- Graduação da Câmara dos Deputados, 2007. E ainda pesquisa feita pelo DIAP - DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ASSESSORIA PARLAMENTAR..
busca candidatura à reeleição. Além disso, outros incentivos institucionais, como a figura do candidato nato, já referida anteriormente, e analisada tanto por Mainwaring (1990) quanto por Rennó e Pereira (2001) ajudam a identificar que o desejo pela reeleição é dominante no Legislativo brasileiro.
A partir desse desejo reeleitoral, o modelo distributivista assegura que a execução do mandato do parlamentar está vinculada à busca por conquistas específicas para a sua base eleitoral, seja através de recursos financeiros pela proposição de emendas ao orçamento, seja pela formulação de projetos de leis vinculados a esse eleitorado. Nessa perspectiva, podemos afirmar que como o próprio nome desse modelo nos diz a distribuição de benefícios e mais do isso, a vinculação extrema entre a produção legislativa do deputado e sua base eleitoral norteia o comportamento da maioria dos parlamentares.
Esse vínculo extremo mencionado no parágrafo anterior nos remete a uma percepção clara que a esfera eleitoral tem influência considerável e quase determinante no padrão de comportamento legislativo brasileiro, principalmente na Câmara dos Deputados. Nessa mesma análise, Nélson Carvalho (2003, p.32) afirma:
O ponto de partida positivo do modelo consiste na suposição segundo a qual o elemento-chave para a explicação da produção e organização legislativas se localiza em esfera externa ao Congresso, a saber, no momento eleitoral: a forma e os procedimentos pelos quais os representantes se elegem estariam na raiz não só do que se produz no Congresso, mas também na moldura institucional ali observada: a lógica da produção das leis, a estrutura das Comissões e subcomissões, os comportamentos dos representantes e das lideranças partidárias estariam a responder a necessidades localizadas no “momento” eleitoral.
Para adequar as estruturas institucionais do Congresso a esse objetivo comum, são criadas comissões e subcomissões capazes de facilitar a ação dos parlamentares em prol dos interesses de suas bases eleitorais. Explicando esse mecanismo institucional, Mayhew (1974) afirma que “a organização do Congresso satisfaz de forma irrepreensível às necessidades eleitorais de seus membros”. Mesmo que esse cientista político tenha levantado essa hipótese com base no Congresso Americano, as semelhanças com o Parlamento brasileiro são claras na medida em que visualizamos a estrutura institucional das nossas Casas Legislativas.
Ainda nessa perspectiva distributivista, temos a divisão de ações dos parlamentares em três categorias, publicização da reputação pessoal (advertising), a tomada de posição em relação a temas (position-taking) e a reivindicação de crédito pela alocação de benefícios desagregados (credit-claiming). (MAYHEW, 1974; CARVALHO, 2003) Nessa análise, esse último tipo estaria na essência do comportamento do representante, segundo a ótica distributiva.
Além desse elemento caracterizador do mandato parlamentar pelo modelo distributivo, outra característica orientadora que norteia a ação do deputado, levantada por Carvalho (2003), está na delimitação geográfica de população alvo das políticas propostas pelo representante. Nessa perspectiva, a ótica do particularismo domina a representação política, ou seja, as estruturas institucionais são voltadas para a construção de alicerces para a promoção dos interesses locais em detrimento do interesse geral ou nacional. Nas palavras de Khrebiel (1991, p.4) “o que conta é que interesses localizados são reconhecidos dentro da estrutura que regula o processo decisório no interior da casa”.
Esse último aspecto é de grande relevância para diversos outros estudos que abordam a produção legislativa para também caracterizar os Congressos em proativo ou reativo. A dinâmica introduzida pelo modelo distributivo contribuiria para a classificação do Congresso em uma perspectiva reativa, com baixa produção legislativa referente aos temas de abrangência e importância nacional. Esses temas, quando tramitam, normalmente são de origem do Poder Executivo. (FIGUEIREDO; LIMONGI, 1999; MORGENSTERN; NACIF, 2002; CARVALHO, 2003)
Nesta mesma direção, outro importante autor Fiorina (1989) sustenta que, como estratégia dos próprios parlamentares, foram retiradas e diminuídas as discussões amplas de natureza ideológica e programática que possam dividir o eleitorado que pela coesão imposta pelos interesses geográficos locais estariam teoricamente unidos. A unidade criada pelo viés do interesse geográfico local garante ou favorece, assim, a uniformidade necessária para a concentração do voto e a solidez da representação atribuída ao parlamentar de determinada região.
Desta forma, vemos que as características e as consequências políticas trazidas pelo modelo distributivo são de suma importância para esta pesquisa. Tanto a influência do aspecto eleitoral na atividade parlamentar quanto à delimitação geográfica do público destinatário das políticas dos congressistas, alimentadas por um incentivo do sistema político-eleitoral ao particularismo e a preponderância dos
interesses locais, nos remete a percepção que a perpetuação de determinados nomes no Parlamento, mais especificamente, no caso brasileiro está nitidamente atrelada a esse ciclo político (bases políticas geográficas – voto - representação localista - reeleição).