CAPITULO 2 – Enfoque Ontossemiótico do Conhecimento e a Instrução Matemática
2.3. Conhecimento didático do professor de Matemática
2.3.1. Modelo do conhecimento do professor de Matemática
De acordo com Pin-Fan & Godino, (2015), um dos pioneiros nesta área foi Shulman (1986), o qual propôs no seu trabalho três categorias para o conhecimento do professor: conhecimento do conteúdo matemático, conhecimento pedagógico e conhecimento curricular.
Este autor num outro trabalho por ele realizado, Shulman (1987) ampliou a sua ideia e propôs sete categorias do conhecimento, as quais denominou de “categorias do conhecimento base do professor de Matemática:
1) Conhecimento do conteúdo matemático; 2) Conhecimento pedagógico geral;
3) Conhecimento curricular;
4) Conhecimento pedagógico do conteúdo; 5) Conhecimento das características dos alunos;
6) Conhecimentos dos contextos educativos, que vão desde o funcionamento do grupo de turmas, o governo e financiamento dos distritos escolares;
e 7) conhecimento dos fins, propósitos e valores da educação”.
Para Shulman (1987), existem pelo menos quatro fontes principais deste conhecimento de base do professor de Matemática:
1) Formação académica na disciplina a ensinar;
2) Os materiais e o contexto do processo educativo institucionalizado (por exemplo os currículos, os livros de texto, a organização escolar e financiamento e a estrutura da profissão docente);
3) A investigação sobre a escolarização, as organizações sociais, a aprendizagem humana o ensino e o desenvolvimento, e os demais fenómenos socioculturais que influem no trabalho dos professores;
4) A sabedoria que outorga as mesmas práticas, as máximas que guiam a prática dos professores competentes.
Por outro lado, em várias investigações sobre formação de professores de matemática nota- se de forma constante referenciar-se do modelo conhecido como Mathematical Knowledge for Teaching, desenvolvido por Ball e seus colabodores.
O referido modelo para o conhecimento do conteúdo matemático tem semelhanças com a faceta epistémica do modelo Conhecimento Didático-Matemático baseado no Enfoque
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Ontossemiótico do Conhecimento e Instrução Matemática onde se distinguem três categorias de conhecimento: o comum, do horizonte matemático e o especializado. Este pensamento se considera muito útil no desenho de planos de formação de professores de matemática.
2.3.2. Modelo do Conhecimento Didático-Matemático baseado no Enfoque Ontossemiótico
É de referir que no Enfoque Ontossemiótico do Conhecimento e a Instrução Matemática interpreta-se o conhecimento comum, como o conhecimento do conteúdo que as orientações curriculares propõem para o ensino.
Para além do conhecimento comum e ampliado do conteúdo, o professor deve ter também um conhecimento especializado a que podemos chamar de Conhecimento Didático- Matemático, tal como foi descrito inicialmente em Godino (2009) e afinado em Godino & Pin-Fan (2013).
Os autores referenciados propõem que o conhecimento especializado deve incluir a pluralidade de significados de objetos, a diversidade de configurações de objetos e processos inerentes a tais significados e as devidas articulações inerentes entre elas.
O modelo descrito em Godino (2009) e afinado em Godino & Pin-Fan (2013), propõem três categorias gerais de conhecimento sobre o conteúdo matemático que são similares as do modelo Mathematical Knowledge for Teaching. Estes autores reestruturam e redefinem o conteúdo matemático nas seguintes categorias:
1) Conhecimento comum do conteúdo; 2) Conhecimento ampliado do conteúdo;
3) Conhecimento especializado, o qual inclui quatro subcategorias: 3.1) Conhecimento do conteúdo especializado;
3.2) Conhecimento do conteúdo em relação com os alunos; 3.3) Conhecimento do conteúdo em relação com o ensino; e
3.4) Conhecimento do conteúdo em relação com o currículo e o contexto no qual se desenvolve a prática de ensino e aprendizagem.
Neste sentido, para estes autores, o professor de Matemática deve conhecer a Matemática escolar do nível educativo onde ensina, ou onde vai ensinar, assim como também deve poder articular os referidos conhecimentos com os correspondentes dos níveis subsequentes.
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Estes conhecimentos constituem o que se pode chamar por “conhecimento do conteúdo matemático por si” (Scheiner, 2015, p. 3250), em que no modelo proposto pelo Enfoque Ontossemiótico do Conhecimento e a Instrução Matemática constituem, o chamado conhecimento comum (que correspondente ao nível em que se ensina) e ampliado (relativos a níveis superiores).
Neste sentido, de acordo o que foi referenciado, os conhecimentos puramente matemáticos não são suficientes para que o professor realize outras ações, como: de organização, implementação e avaliação dos processos de ensino aprendizagem, pois que existem outros fatores que influenciam também nestes processos tão complexos.
Por esta razão, é necessário que o professor tenha também um conhecimento mais aprofundado da Matemática e da maneira como irá ensinar aos seus estudantes. Este binómio é o que se pode chamar de conhecimento didático-matemático, conforme ilustra a figura 3.
Figura 3. Dimensões e componentes do Conhecimento Didático-Matemático.
Fonte: Adaptado de Pin-Fan & Godino (2015, p. 98)
Fonte: Adaptado de Pin-Fan & Godino (2015, p. 98)
CONHECIMENTO DIDÁTICO-MATEMÁTICO
DIMENSÃO DIDÁTICA
Conhecimento pedagógico do conteúdo
Faceta ecológica Faceta epistémica
Faceta cognitiva e afetiva
Faceta interacional e Mediacional
DIMENSÃO META DIDÁTICO-MATEMÁTICA
Conhecimentos relativos as normas, meta normas, restrições contextuais, reflexões sobre a prática, avaliação da idoneidade didática
DIMENSÃO MATEMÁTICA
Conhecimento do conteúdo
Conhecimento comum do conteúdo
Conhecimento ampliado do conteúdo
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A dimensão matemática do Conhecimento Didático-Matemático, permite ao professor resolver tarefas matemáticas, mas que não é suficiente para a prática de ensino. Por essa razão, o professor deve ter também em atenção as subcategorias:
Do conhecimento especializado da dimensão matemática (faceta epistémica); Do conhecimento sobre os aspetos cognitivos dos alunos (facetas cognitivas);
Do conhecimento sobre os aspetos afectivos, emocionais e atitudes dos alunos (faceta afetiva);
Do conhecimento sobre as interacções que surgem na sala de aula (faceta interacional);
Do conhecimento sobre recursos e meios que podem melhorar a aprendizagem dos alunos (faceta mediacional);
Do conhecimento sobre os aspetos curriculares, contextuais, sociais, políticos e económicos..., que influenciam a gestão da aprendizagem dos alunos (facetas ecológicas).
Para estes autores, o conhecimento especializado da dimensão matemática (faceta epistémica do Conhecimento Didático-Matemático), inclui as concepções levantadas no modelo de competência de Schoenfeld & Kilpatrick (2008, p. 322), sobre o conhecimento da matemática escolar com profundidade e amplitude, assim como a concepção de Hill, Ball e Schilling (2008, pp. 377-378) sobre o conhecimento especializado do conteúdo.
De uma forma geral, a faceta epistémica do Conhecimento Didático-Matemático permite aos professores, ou aos futuros professores de Matemática, responder as questões como:
Além da forma como resolveu a tarefa, existe outra maneira de resolver a mesma? Como se explicaria a solução do exercício proposto a um aluno que não conseguiu
resolvê-lo pelos procedimentos vistos na aula?
Qual o conhecimento que se põe em jogo ao resolver o exercício proposto?
Quanto as facetas cognitivas e afectivas, tal como são definidas na abordagem Ontossemiótico (Godino, Batanero & Font, 2007, Godino, 2009), proporcionam uma melhor aproximação e compreensão do conhecimento que os professores de matemática devem ter sobre as características e aspetos que estão relacionados à forma de pensar, conhecer, agir e sentir dos alunos da turma sobre um problema matemático.
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A faceta cognitiva do Conhecimento Didático-Matemático, oferece aos professores o conhecimento necessário para "refletir e avaliar" a proximidade ou grau de ajuste de significados pessoais (conhecimento dos alunos) em relação aos significados institucionais (conhecimento do ponto de vista institucional.
Para o efeito, o professor deve poder prever os ajustes necessários (durante a fase da planificação ou desenho) e negociar (durante a fase da implementação), com base nas produções do alunos ou nas produções esperadas, respostas possíveis a um problema específico, concepções erradas, conflitos ou erros que surgem em relação à solução, hiperligações (matematicamente corretos ou não) entre o centro de estudo matemático e outros objetos matemáticos necessários para resolver o problema.
Já na faceta afetiva do Conhecimento Didático-Matemático, trata-se dos conhecimentos necessários para se entender os aspetos que os motivam ou não, a resolver um certo problema, etc. Em geral, esse é um conhecimento que ajuda a descrever as experiências e os sentimentos dos alunos dentro de uma aula específica ou com um problema matemático específico, num nível educacional específico, tendo em consideração os aspetos ligados ao cariz ecológico.
O conhecimento adquirido pelos professores como parte das duas facetas (cognitiva e afetiva), ajuda a responder questões do tipo:
Que tipo de respostas se espera dos alunos?
Quais são as principais dificuldades que os estudantes podem ter ao resolver uma determinada tarefa matemática?
Que tipo de erros os estudantes poderiam cometer ao resolver a tarefa proposta? Que medida se implementaria para motivar os alunos a resolver uma determinada
tarefa matemática?
A faceta interacional do Conhecimento Didático-Matemático, envolve o conhecimento necessário para prever, implementar e avaliar sequências de interacções entre os agentes que participam no processo. Trata-se do processo de ensino e aprendizagem, orientado para a determinação e negociação de significados (aprendizagem) dos estudantes.
Essas interacções não só são estabelecidas entre o professor e os estudantes (professor - estudante), mas também podem ser estabelecidas entre estudantes (estudante - estudante), estudantes e professores - recursos - estudantes. Neste caso o estudo das normas e Meta
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normas, ocupa um papel importante na gestão da aprendizagem dos alunos, daí que tem grande ênfase nessa faceta interacional.
Finalmente, a faceta ecológica do Conhecimento Didático-Matemático, refere-se ao conhecimento que se deve ter sobre o currículo de matemática do nível em que se ensina o objeto matemático, suas relações com outros currículos e as relações que o currículo tem com os aspetos sociais, políticos e económicos, que apoiam e condicionam o processo de ensino e aprendizagem.
Na Figura 4, se apresenta as seis facetas que compõem a dimensão didática do Conhecimento Didático-Matemático, que por sua vez podem ser usadas para analisar, descrever e desenvolver o conhecimento dos professores ou futuros professores envolvidos nas diversas fases dos processos de ensino e aprendizagem de temas concretos de matemática: estudo preliminar, planeamento ou desenho, implementação e avaliação. Para além disso, como parte de seu Conhecimento Didático-Matemático, o professor deve conhecer e compreender os aspetos envolvidos em cada uma das fases do desenho didático.
Figura 4. Dimensões e componentes do modelo do Conhecimento Didático-Matemático do professor de Matemáticas
Fonte: Adaptado de Pin-Fan & Godino (2015, p. 103)
CONHECIMENTO DIDÁTICO-MATEMÁTICO Níveis de análise (Conhecimento didático ou didático- matemático) Dimensão Matemática Fases do desenho didático Estudo preliminar Desenho Implementação Avaliação Problemas Práticas Objetos Processos Conhecimento comum do conteúdo Conhecimento ampliado do conteúdo
Dimensão Meta didático-matemático
Normas e Meta normas Idoneidade didática
Dimensão Didática (Facetas do conhecimento do professor envolvido no processo de ensino- aprendizagem: Epistemica, cognitiva, ecológica, Mediacional, afetiva e interacional
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De acordo com Pin-Fan, Assis & Castro, (2015), no modelo do Conhecimento Didático- Matemático do professor de matemática, as dimensões são intimamente relacionadas com as fases propostas para a elaboração de projetos de ensino: estudo preliminar, desenho, implementação e avaliação. As três dimensões do modelo do Conhecimento Didático- Matemático do professor de Matemática, podem ser sintetizadas da seguinte forma:
A. Dimensão Matemática: conhecimento que o professor põe em jogo para resolver
um problema na atividade matemática e implementar na aula com seus alunos, assim como a capacidade de o vincular com os objetos matemáticos que são tratados, em conformidade com o currículo, tendo em atenção os cursos ou aulas seguintes.
Esta dimensão considera as subcategorias de conhecimento geral do conteúdo e do conhecimento ampliado do conteúdo. Assim, a primeira subcategoria, trata do conhecimento sobre um objeto matemático que é necessário para resolver problemas em relação a um tema específico das matemáticas num nível de ensino onde se destaca a situação problema (Pin-Fan & Godino, 2015).
B. Dimensão Didática: De acordo com Pino-Fan, Godino & Font (2014), esta dimensão
se refere ao conhecimento pedagógico do conteúdo e inclui as subcategorias: 1) Conhecimento especializado do ensino da Matemática (faceta epistémica); 2) Conhecimento sobre aspetos cognitivos dos alunos (faceta cognitiva);
3) Conhecimento sobre os afectos, emoções e atitudes dos alunos (faceta afetiva);
4) Conhecimento sobre as interacções que se suscitam na aula (faceta interacional);
5) Conhecimento sobre os recursos e os meios que podem ser utilizados pelos alunos (faceta mediacional);
6) Conhecimento sobre os aspetos curriculares, contextuais, sociais, políticos e económicos etc. que podem influenciar a gestão da aprendizagem dos alunos (faceta ecológica).
C. Dimensão Meta Didático-Matemático: considerações que permitem a concepção e
implementação de um exercício matemático específico; envolve conhecimentos sobre as normas e meta normas ligadas com as distintas facetas da dimensão
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didática, o que implica também ter conhecimentos sobre os critérios de idoneidade didática como ferramenta de avaliação e auto reflexão da prática docente.
2.3.3. Componentes e indicadores de idoneidade didática de programas de formação de