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3.3 Teoria fundamentada nos dados

3.3.2 Modelo do Paradigma

Segundo Strauss & Corbin (2002), o paradigma é um mecanismo analítico conceptual para organizar dados e integrar as estruturas (assuntos que estabelecem o cenário ou criam as circunstâncias nas quais se situam ou emergem os problemas), com os processos (que denotam a ação/interação, no tempo, nas pessoas, organizações e comunidades, em resposta a certos problemas e assuntos). O processo e a estrutura estão muito ligados; sem compreender a natureza de suas relações, é difícil captar o que verdadeiramente está acontecendo.

As Condições Causais são o conjunto de eventos, incidentes, acontecimentos

que produzem ou fazem desenvolver-se o fenômeno. As condições causais têm uma subfamília composta por fontes, razões, explicações, responsabilidades ou conseqüências antecipadas (GLASER, 1978). O Fenômeno é a idéia central, o evento,

o acontecimento e incidente sobre o qual um grupo de ações ou intervenções é dirigido, ou com a qual estão relacionadas. O Contexto é tratado como um grupo específico de propriedades que pertencem ao fenômeno, representando um grupo particular de condições dentro do qual são traçadas as estratégias de ação/interação.

As Condições intervenientes indicam as condições estruturais que se apóiam

nas estratégias de ação/interação e que pertencem ao fenômeno, facilitando ou bloqueando as estratégias traçadas dentro de um contexto específico. Essas condições podem ser: tempo, espaço, cultura, status econômico, carreira, história e outras. As

Estratégias de Ação/Interação servem para lidar com o fenômeno ou responder a ele.

E, finalmente, As Conseqüências são identificadas como os resultados ou expectativas da ação/interação. A subfamília das conseqüências, segundo Glaser (1978) citado por Cassiani (1994), são: resultados, esforços, funções, predições e conseqüências, antecipadas e não-antecipadas.

Com as categorias integradas, mesmo provisoriamente, o passo seguinte é

retornar aos dados e procurar evidências, incidentes e eventos que apóiam ou refutam as hipóteses A idéia é elaborar uma teoria conceitualmente densa, porém com especificidades que a capacite a ser aplicada em momentos diferentes de um dado fenômeno (CASSIANI, 1994).

b2) A amostra seletiva da literatura

Diferentemente de outros métodos, a revisão da literatura, não é o passo inicial do processo de pesquisa: ao contrário, é a teoria emergente da coleta e da análise dos dados que direciona o pesquisador a obter mais dados, também da literatura. Portanto, a amostra seletiva da literatura é o processo indutivo de revisão bibliográfica, a partir dos conceitos emersos da categorização. Quando se ajustam à teoria em desenvolvi- mento os achados da literatura, se tornam um dado de suporte; quando não, suscitam a coleta de mais dados para esclarecer os aspectos discordantes. A literatura é usada como dado para explicar a teoria, não é a teoria que deriva dela (CASSIANI, 1994).

Sobre o manifestado, Serafim (2001) diz que a TFD recomenda

ir ao campo antes de construir o referencial teórico , para que este não funcione como um filtro pelo qual o pesquisador passa a observar o ambiente em estudo. Assim as consultas às teorias existentes se realizam ao longo do processo simultâneo de coleta e análise dos dados. Isso não significa que o pesquisador não tenha preconceitos e pressupostos apriori, mas que ele não

procure antecipada e formalmente organiza-los antes de ir ao campo (SERAFIM, 2001)

b3) A amostragem seletiva dos dados (amostragem teórica)

É o processo de coleta de dados adicionais, efetuada com base no que já se conhece da estrutura conceitual com vistas a desenvolver as hipóteses, considerando a identificação das propriedades das principais categorias; identificar e desenvolver as propriedades das categorias e confirmar conceitos já formados.

Dados adicionais são coletados de maneira seletiva. Este processo é também denominado amostragem teórica porque os dados são coletados para adensar a teoria, com o propósito específico de responder a questões e determinar a importância das variáveis. Strauss & Corbin (2002) consideram a amostragem teórica como a coleta de dados guiada pelos conceitos derivados da teoria em construção e baseada no conceito de “fazer comparações”, cujo propósito é acudir a pessoas ou acontecimentos. Segundo os autores, o propósito da amostragem teórica é maximizar as oportunidades de comparar acontecimentos, incidentes ou sucessos para determinar como uma categoria pode variar em termos de suas propriedades e dimensões. Ao maximizar as oportunidades de comparar os conceitos em conjunto com suas propriedades, com o propósito de procurar semelhanças e diferenças, o pesquisador consegue adensar as categorias até chegar à saturação.

A amostragem teórica é importante quando se exploram áreas novas ou pouco conhecidas, porque permite ao pesquisador escolher as perspectivas de amostragem que podem produzir um maior rendimento teórico. Strauss & Corbin (2002) esclarecem, também, que a amostragem não é de pessoas ou organizações, mas de incidentes, acontecimentos ou sucessos. O enfoque da amostragem muda de acordo com o tipo de codificação pelo qual opta o pesquisador (aberta, axial ou seletiva). Observa-se a tendência de se converter em algo mais centrado, à medida que a pesquisa progride e perdura até alcançar a saturação das categorias, ou seja, até quando já não emergem dados novos ou significativos, e as categorias estão bem desenvolvidas em termos de propriedades e dimensões.

O objetivo da amostragem teórica, segundo Cassiani (1994), é selecionar eventos, incidentes que são indicativos de categorias, de maneira que possa envolvê- las e relacioná-las. Inicialmente, o investigador começa a entrevistar um grupo da população seguindo seus objetivos, quando os códigos elucidados de tais entrevistas são utilizados para direcionar a coleta de dados adicionais, desenvolvendo teoricamente as categorias no que diz respeito a suas propriedades e suas conexões com outras categorias.

Num processo de saturação teórica, a amostragem teórica de qualquer categoria termina quando ela estiver elaborada e integrada em uma teoria emergente. Quando as estratégias da amostragem teórica são empregadas, o pesquisador pode, desde o início do processo de pesquisa, fazer mudanças de planos e ênfases, de tal forma que os dados obtidos reflitam o que está ocorrendo no campo, segundo a sensibilidade teórica emergente (CASSIANI, 1994).

A amostragem seletiva é um processo dedutivo. O referencial conceitual desenvolvido na análise dos dados é testado com novos dados que provam ou desaprovam as hipóteses. Os conceitos que não podem ser apoiados pelos dados são descartados (CASSIANI, 1994).

c) A Codificação Seletiva

Modificação e Integração do Conceito

Segundo Strauss & Corbin (2002), a codificação seletiva, é o processo de integrar e refinar a teoria, até alcançar a saturação teórica, isto é, quando não emergem propriedades, dimensões ou relações novas durante a análise. A etapa da codificação seletiva resulta da emergência da variável central e da integração das categorias. Portanto, a variável central é a que integrará todas as categorias. Uma vez identificada, os dados são reexaminados para determinar o ajuste a ela. A categoria central emerge no final da análise e forma o principal tema em torno do qual todas as categorias giram. As principais categorias formarão as dimensões dessa categoria.

As condições causais, o contexto, as condições intervenientes, as estratégias e conseqüências formam as relações teóricas pelas quais as categorias são relacionadas umas às outras e à categoria central. Esse procedimento força o investigador a

desenvolver alguma estrutura teórica, a ser apresentada sob a forma de diagramas, indo de uma estrutura conceitual, mais descritiva, para uma teórica (CASSIANI, 1994).

Strauss (1987), apud Strauss & Corbin (2002), elaborou uma lista de critérios que podem ser aplicados a uma categoria para qualificá-la como central:

• todas as categorias principais devem relacionar-se com ela; • deve aparecer com freqüência nos dados;

• após relacionar as categorias, a explicação que se desenvolve é lógica e consistente, e os dados não são forçados;

• o nome ou a frase utilizado(a) para descobrir a categoria central deve ser bastante abstrato para poder ser utilizado(a) em investigações em outras áreas substantivas, que gerem o desenvolvimento de uma teoria mais geral;

• à medida que o conceito se refina analiticamente por meio de sua integração a outros conceitos, a teoria cresce em profundidade e poder explicativo.

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