3 METODOLOGIA DA PESQUISA
3.5 Modelo dos campos semânticos
Iniciamos a abordagem sobre o Modelo dos Campos Semânticos com a seguinte citação instigativa: “O MCS só existe em ação. Ele não é uma teoria para ser estudada, é uma teorização para ser usada” (LINS, 2012, p.11).
Abordaremos a seguir brevemente sobre o Modelo dos Campos Semânticos (MCS), estudado por Rômulo Campos Lins (2012), o qual norteou nosso processo de análise de dados. Buscamos a análise por meio desta teoria, pois, em nossa pesquisa, temos diferentes respostas às abordagens realizadas, as quais se deram de acordo com a realidade e vivência de cada aluno, ou seja, cada um produziu seu significado para a tomada de decisão frente aos problemas propostos, dependendo daquilo que acredita ser importante em suas vivências pessoais.
Em matemática, ao apresentar ao aluno situações-problemas que os levem a tomar decisões, justificar, argumentar e assumir um posicionamento, estamos oportunizando que haja produção de significados pelos alunos, muito importante para aprendizagem. Neste caso, o professor tem a oportunidade de observar a ideia e interpretar o conhecimento produzido pelo aluno, criando um espaço comunicativo. Ao adotarmos o MCS, utilizamos seus conceitos para interpretar as atividades dos alunos procurando entender o que se está querendo dizer, tentando fazer uma leitura plausível, de acordo com o olhar do autor das atividades. Este modelo nos é favorável para análise dos nossos dados porque não busca identificar
erros ou faltas nas respostas e sim entender o que o aluno fez, pela dinâmica do processo de produção de significados. Em nosso caso, quando os alunos tomam decisões na resolução das atividades, podemos afirmar que optam por elas de acordo com o seu conhecimento sobre o assunto e a situação apresentada.
De acordo com Resende (2013), uma leitura plausível se constitui em buscar fazer a leitura do outro através de suas legitimidades. Procura estar atenta aos motivos e as finalidades que levou o outro a fazer enunciações.
Ao analisarmos uma determinada resolução de um problema que nos possibilite produzir significados, a leitura que é feita pode ser plausível quando fizer sentido e for aceitável dentro do contexto.
O que é proposto no MCS é a ideia de que todo conhecimento produzido e construído pelo aluno tem valor e significado, pois implica na sua interpretação pessoal a respeito do assunto, que em nossa pesquisa se aplica muito bem, pois se trata de situações vivenciadas em seu cotidiano e em sua vida financeira e pessoal como um todo.
Na questão financeira, podemos destacar também a tomada de decisões frente às situações apresentadas nas atividades, cuja opção decorre do sentido de que a ela atribuem pelo significado que tem em sua vida, em seu contexto e ou situação atual e futura. Observamos que, frente ao ato de realizar um orçamento, definir prioridades, elaborar estratégias para sair de uma situação inesperada e de planejar seu futuro, os alunos fizeram escolhas , tomaram decisões de acordo com o que acreditam ser importante, ou seja, estavam significando o conhecimento matemático em função dos sentidos que davam a própria vida, considerando as reflexões que foram efetivando.
O Modelo dos Campos Semânticos (MCS) nos fornece base teórica para que possamos fazer uma leitura plausível, à medida que buscamos perceber as legitimidades que estão envolvidas nas tomadas de decisão frente a situações apresentadas, quando estes justificam suas decisões.
As decisões tomadas pelos alunos foram entendidas como uma produção de significados e que chegaram até nós como resíduos de enunciações. De acordo com Lins, (2012, p. 27) “um resíduo de enunciação é algo com que me deparo e acredito ter sido dito por alguém”.
Tendo em vista o que o MCS nos propicia para análise de dados da nossa pesquisa, sistematizamos as ideias a elas relacionadas:
a) Conhecimento: é entendido como uma crença, algo que o sujeito acredita e expressa, afirmação;
b) Resíduos de enunciação: são informações com as quais nos encontramos e que acreditamos terem sido ditas por alguém;
c) Legitimidade e objetos: a legitimidade está relacionada àquilo que o sujeito julga ser legítimo ou não e objeto são informações sobre as quais sabemos dizer;
d) Significado: é o que uma pessoa efetivamente diz de ou sobre um objeto em um dado contexto;
e) Estipulações locais: são as afirmações, crenças que a pessoa faz e não sente necessidade de justificá-las;
f) Núcleo: é o conjunto de estipulações locais constituídas num determinado contexto;
g) Campo semântico: é a atividade de produzir significado com relação ao núcleo. Algo que se constitui na própria atividade de produção de significados. Isso implica em não intenção de dizer o que se deve ser/acontecer e sim, o que está sendo/acontecendo;
h) Limite epistemológico e obstáculo epistemológico: obstáculo epistemológico seria o processo no qual um aluno poderia produzir significado para uma afirmação e não o faz. E limite epistemológico seria a impossibilidade do aluno em produzir significado para uma afirmação;
i) Processo comunicativo: quando se estabelece relação entre autor-texto-leitor como elementos constitutivos do processo comunicativo;
j) Leitura plausível: é buscar fazer uma leitura do outro através de suas legitimidades, seus interlocutores, compartilhando o mesmo espaço comunicativo.
Buscamos analisar o raciocínio e o desenvolvimento do aluno em nossa base de dados documentais, de acordo com a tomada de decisão evidenciada na resolução de cada atividade proposta, bem como em suas perspectivas e organização para a resolução, observando o significado que ele produziu a partir do conhecimento a ele estimulado.