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No decorrer da história do ocidente, é possível identificar a existência de uma

tendência arborescente, que se fundamenta no pensamento platônico, a partir da ideia de separação, oposição, polaridade e divisão, até hoje utilizada em vários âmbitos da vida, incluindo até mesmo a própria formação do pensamento ocidental. Pensamento platônico que se baseava em verdades absolutas, referida à essência das coisas – invariante, a-histórica, transcendente, modelar. Priorizava a dualidade, em especial, entre corpo e mente, remetendo a

uma unidade transcendente, diferindo, por este e outros aspectos, do movimento, da diferença e da multiplicidade tão caros à produção dos processos imanentes.

E essas características de separação e compartimentarização se estendem até os dias atuais a todas instancias da vida, podendo ser remetidas, inclusive, próprias às estruturas organizacionais hierarquizadas, num sentido normativo e funcional, onde prevalece um modelo, nesse caso, de rede, cunhado administrativamente a partir de um centro organizador. Nessa perspectiva, as redes são fabricadas e funcionam burocraticamente, fundamentando temporal e espacialmente a dinâmica da organização, em função de sequências previamente estabelecidas, que partem de ponto gerativo. Essa noção de rede, segundo Deleuze e Guattari (2009, p. 21), se expressa a partir de “um eixo genético como uma unidade pivotante objetiva

sobre o qual se organizam estados sucessivos...”. Articula-se de forma extensiva e

organicamente configura uma perspectiva de equipamento centrípeto, ou seja, dirigido para um centro, dimensionando estruturas uniformes. “Do eixo genético ou da estrutura profunda, dizemos que eles são antes de tudo princípios de decalque, reprodutíveis ao infinito”. Trata- se, portanto, de uma lógica arborescente, onde a articulação é hierarquizada, reprodutora de modelo dado a priori. (idem, p.21).

Fleury e Duverney (2007), ao se reportarem às redes de saúde, entendem que o termo rede vem se reconfigurando a partir da estratégia de regionalização da política de saúde e vem assumindo um formato que ganha “proeminência como arranjo interorganizacional para a

formulação e execução de políticas públicas” (2007, p.07). Desvia-se, assim, das

características anteriormente implementadas, expressas “nos organogramas dos ministérios,

secretárias e organizações unitárias” (idem).

Logo, a noção de rede, segundo os mesmos autores, a partir da Constituição Federal de 1988, ganhou uma nova dimensão, sendo determinadas outras configurações, intensificando- se diante das transformações ocorridas no sistema de saúde brasileiro. Com o movimento da reforma sanitária e a consolidação do SUS, ao processo de gestão foram sendo introduzidas novas instâncias e configurações, ampliando-se os vínculos, no âmbito das políticas de saúde. Estratégias se desenvolveram, nesse cenário, para viabilização da atenção em saúde de forma resolutiva, através de propostas de maior grau de acessibilidade e integralidade da população. Ao mesmo tempo, tornou-se necessária uma maior articulação da rede de saúde, composta por uma diversidade institucional, “caracterizada pela dependência mútua, visto que nenhum ator detém o controle dos recursos e do processo total” Fleury e Duverney (2007, p.126).

Estes mesmos autores indicam que a estruturação e organização assistencial do sistema de saúde brasileiro fundamentam uma noção de rede que impulsiona e intensifica a

interdependência entre as unidades de serviço, dentro da perspectiva de diretriz operacional, configurando e delimitando áreas, definindo fluxos interativos, intensificando relações de intercâmbio e determinando a hierarquização dos serviços. Envolve, portanto, o sistema de saúde, na organização de sua oferta de serviços e a sua sustentação. Sob esse aspecto, refere- se às políticas governamentais estrategicamente articuladas para a integração de unidades de serviços, compondo o planejamento necessário e favorável a funcionalidade da rede assistencial.

Estabelecem-se, dessa forma, padrões e diretrizes, compostos por processos de subjetivação, configurados a partir do contexto atual biopolítico contemporâneo, reproduzindo valores e ações hegemônicas, muitas vezes, em descompasso com a heterogeneidade que compõe os encontros de saúde. Tais descompassos são expressos nesses cotidianos, através de inúmeras dificuldades, entre elas, as de acesso aos serviços, que nem sempre são prontamente efetivados, assim como, outras, que dizem respeito às longas trajetórias de saúde, muitas vezes, emperradas improdutivas, onde a integralidade da atenção em saúde se dilui na busca de resolubilidade.

Nestes termos, Pasche (2009, p.2) alerta para a necessidade do “combate ativo à biopolítica - às formas de controle e regulação de necessidades de saúde no contexto do capitalismo” e indica a necessária articulação entre os níveis macro e micro político, numa tentativa de escapar ao controle biopolítico exercido. Para tanto, ressalta a necessidade de dar passagem às diferenças, engendrando redes que se fazem e se desdobram na pluralidade dos processos de atenção a saúde, através da combinação que se efetue entre as “agendas no plano societal e do plano das interações e relações entre trabalhadores, usuários e gestores” (idem ao

anterior). Processo que provoca uma implicação micropolitica e busca viabilizar um plano comum, estabelecendo o cuidado integral de modo criativo e resolutivo através de redes produzidas a partir do que é demandado nos cotidianos de saúde. Redes, que ao constituírem realidades, desdobram linhas, transversalizando diversidades e complexidades dispersas, produzindo “[...]

linhas de articulação ou segmentaridade, estratos, territorialidades, mas também linhas de fuga, movimentos de desterritorialização e desestratificação” Deleuze e Guattari (2009, p.

11).

Posto isso, compreende-se, através desses autores, que nos cotidianos de saúde, onde as práticas de saúde se tornam concretas, há o atravessamento de heterogeneidades, dispostas em circuitos e fluxos, o que remete a uma ideia de rede, móvel, assimétrica e incompleta, demandando lógicas de funcionamento plurais. Difere, portanto, de uma cultura de funcionamento, onde as condutas são de modo transcendente normativas, mensuráveis e

previsíveis, na maioria das vezes, não cabendo diferenciações a outros modos de sensibilidade e de existência, pois se apóiam por processos hegemônicos instituídos, prevalecendo normas previamente configuradas.

Requer, portanto, atenção aos processos de subjetivação, numa produção que avalie constantemente e identifique àqueles que provocam a dispersão de uma construção própria a partir da singularidade das relações cotidianas de saúde. Fortaleça, sim, as implicações que produzam “vínculos” e que inclua a diversidade expressa na demanda produzida na diferença, operadas no micro processo relacional que evolve o cuidado em saúde.