Comunidade POC
Capítulo 3 Modelos de desenvolvimento
3.2 Modelos de desenvolvimento intencionais ou emergentes
3.2.1 Um modelo tripartido
3.2.1.2 O modelo flexível
O modelo flexível, ao contrário do anterior, pretende gerir a incerteza trabalhando com base num projecto mais modularizado no tempo e submetido, via experimentação do projecto pelos utilizadores, a mudanças que o fazem evoluir e por vezes desviar da sua trajectória inicial. Este modelo pode ser equiparado aos projectos experimentais ou aos modelos adaptativos.
Os responsáveis pelo projecto surgem, neste contexto, como arquitectos de uma realidade social que se constrói caminhando por entre as reacções dos utilizadores e que, por isso, é constantemente chamada a evoluir. A incerteza do projecto é aqui reduzida pelo facto de os criadores do projecto não o encararem como um produto a desenvolver mas
como um processo de construção social progressivo. Diferentes características permitem identificar este segundo modelo:
• A regulação centralizada do desenvolvimento por parte dos criadores; • A separação das funções entre criadores e utilizadores;
• O envolvimento destes, via experimentação, no processo de concepção e de desenvolvimento do projecto;
• A visão do projecto como um processo de construção social aberto à mudança; • O ciclo de vida do projecto inacabado no tempo em que o projecto parece estar
sempre num estado de desenvolvimento contínuo e
• Escolhas técnicas flexíveis, adaptáveis no decorrer do processo de desenvolvimento.
As dificuldades de gestão anteriormente evocadas são abordadas de diversas maneiras. Como já foi frisado, os utilizadores são envolvidos no projecto através de experiências. A melhor maneira de gerir as incertezas parece ser optar por um quadro de opções flexível, no qual as escolhas podem ser adaptadas, em caso de necessidade. O envolvimento dos utilizadores é importante e indispensável para obter informações sobre as adaptações necessárias. Estas devem ser realizadas pelos criadores que mantêm, dessa maneira, um papel central no processo de desenvolvimento. Este papel central pode ser encarado como um papel de conciliador, animador da cidade digital, tentando satisfazer interesses diversos.
Hervé (1997), presidente da Câmara Municipal de Parthenay, sublinha o papel da autoridade local neste tipo de modelo. Segundo ele, ela deve catalizar a acção dos cidadãos trazendo-lhes uma ajuda e facilitando as relações entre os actores. Em resumo, os utilizadores devem apropriar-se das ferramentas de comunicação e tornarem-se produtores de informação e arquitectos das suas cidades.
A segunda dificuldade de gestão, a instabilidade da tecnologia, parece não colocar algum tipo de problema, pelo menos para os criadores, que adaptam frequentemente as escolhas que têm que fazer. No que respeita às fronteiras da cidade, constata-se que existe uma visão aberta da cidade, da comunidade relativamente a fronteiras flexíveis.
De facto, os projectos que correspondem a este modelo têm, quase sempre, ambições mais alargadas que os primeiros, tornando muito difícil, ou até impossível, o
controlo de cada elemento da cidade. É a razão pela qual, na nossa opinião, se torna necessário incluir, sempre que for possível, cada actor no processo de construção social e dar-lhe autonomia deixando-o participar na construção da cidade digital.
Van Lieshout (2000) refere que este modelo é principalmente observado nas cidades digitais de Anvers e de Amesterdão. Esta foi a primeira cidade virtual na Holanda e uma das primeiras na Europa. Nasceu em 1994, numa experiência social de duração limitada (10 semanas), durante as eleições locais. O projecto Digital Metropolis Antwerp, primeira cidade digital na Bélgica, descrita por Pierson (2000), mesmo perseguindo objectivos diferentes, foi considerado no arranque como a irmãzinha da DDS. Nestes dois casos, os utilizadores ou habitantes da cidade participaram na construção das suas cidades erguendo novos bairros, novas casas, novos apartamentos que funcionam como metáfora utilizada na interface. Segundo Van Lieshout et al. (1998), a instabilidade da tecnologia não parece ter instaurado qualquer tipo de problema, porque na DDS, por exemplo, a interface e a estrutura do sítio foram considerados, pelos seus criadores, um terreno de jogo. Estas duas cidades digitais foram frequentemente modificadas. A interface mudou várias vezes para cada um destes sítios, o que implicou também a alteração da estrutura. Estes projectos ainda guardam alguns aspectos de controlo, nomeadamente ao nível do conteúdo de algumas páginas pessoais ou de grupos de discussão ou ainda pelo estabelecimento de uma espécie de netiquette local.
Resumindo, constata-se uma concepção extremamente aberta da cidade e das comunidades que a compõem, com fronteiras muito flexíveis. De notar que numerosos são os habitantes virtuais de Amesterdão e Anvers que não residem fisicamente nestas cidades. O modelo flexível observa-se também noutros casos de cidades digitais (Conford & Naylor, 1998):
• Hampshire e Southampton, nomeadamente, ao nível da escolha da tecnologia aberta, no trabalho de equipa ou ainda na avaliação frequente do andamento do projecto;
• Lewisham & South East London, onde se verifica um desejo real de envolver os utilizadores locais numa aproximação bottom-up, mas com uma regularização central de desenvolvimento e
• Viena de Áustria, onde a estratégia no que respeita às tecnologias da comunicação é considerada como relativamente flexível, antecipando e prevendo as mudanças
tecnológicas necessárias. As escolhas são feitas mais numa base evolutiva, do que com base numa estratégia top-down.
O Projecto Iperbole, de Bologna, frequentemente citado, é um outro exemplo deste modelo de desenvolvimento flexível, segundo uma aproximação bottom-up, mas com alguns toques de controlo. Graham e Aurigi (1998) caracterizam este modelo como um espaço público controlado, de um serviço público interactivo no qual numerosos elementos são construídos pelos utilizadores.
Para Tambini (1998), integra-se numa tradição de descentralização e de abertura controlada. Aqui, o município desempenha um papel importante. Controla inúmeros elementos, nomeadamente, ao nível dos fóruns de discussão (escolha dos assuntos, regras de funcionamento e poder de censura). A separação dos papéis dos criadores e utilizadores é muito clara, ainda que estes últimos sejam considerados como actores importantes, facto que distingue claramente este modelo do primeiro.
Referiu-se anteriormente que, em Parthenay, a autoridade local encara a sua função de propulsionador da acção social. Os utilizadores são vistos como actores e não como meros espectadores. O que está na base do projecto de cidade digital de Parthenay pode ser considerado como um exemplo de modelo de desenvolvimento flexível, como um processo social inovador que integra movimentos sociais e exigências técnicas.
Para Kunzmann et al. (1998), os responsáveis oficiais que quiserem construir cidades digitais devem identificar, ao nível mais básico, organizações não comerciais e suportar a iniciativa sem as dominar. Partilham a ideia de que deve haver a intervenção de uma autoridade local centralizadora, que terá como principal objectivo incentivar os actores da cidade digital a colaborar no projecto. Este ponto de vista também é defendido por Paillard (1993), que refere que as instituições locais devem desenvolver uma nova função organizadora incluindo um papel de iniciativa, animação e organização. A autoridade local deve ser uma intermediária que facilita as relações entre os cidadãos. Para Barré (1995), as autoridades locais devem-se colocar abertamente do lado dos utilizadores, de maneira a ouvir as suas necessidades, de as dar a conhecer e de estimular o desenvolvimento de novas utilizações e aplicações.