• Nenhum resultado encontrado

O MODELO INSTITUCIONAL DO SETOR ELÉTRICO BRA- BRA-SILEIRO

2 O SETOR ELÉTRICO BRASILEIRO

2.1 O MODELO INSTITUCIONAL DO SETOR ELÉTRICO BRA- BRA-SILEIRO

Com a finalidade de se estabelecer uma indústria de energia elétrica no Brasil, em contraponto ao enfoque de serviço público de eletricidade que vigorou de 1889 até 2004, as bases de uma estrutura de mercado foram introduzidas com o novo modelo. Entretanto, o entendimento era que os segmentos de transmissão e distribuição possuíssem característi-cas de monopólio natural (SILVA,2001) e portanto deveriam ser regulados. Surge então a proposta do modelo institucional do Setor Elétrico vigente que tem como base a Resolução CNPE 005 de 21 de julho de 2003 onde se destacam:

1. Prevalência do conceito de serviço público para a produção e distribuição de energia elétrica aos consumidores cativos;

2. Modicidade tarifária;

3. Restauração do planejamento da expansão do sistema;

4. Transparência no processo de licitação permitindo a contestação pública, por técnica e preço, das obras a serem licitadas;

5. Mitigação de riscos sistêmicos;

6. Manutenção da operação coordenada e centralizada necessária e inerente ao sistema hidrotérmico brasileiro;

7. Universalização do acesso e do uso dos serviços de eletricidade;

8. Modificação no processo de licitação da concessão do serviço público de geração pri-orizando a menor tarifa.

Para promover a implementação destas bases do modelo vigente, as várias institui-ções que formam o SEB e suas respectivas atribuiinstitui-ções de acordo comONS(2009) são:

1. O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), criado pela Lei no9.478 de 1997, é o órgão de assessoramento do Presidente da República para a formulação de políticas nacionais e diretrizes de energia voltadas, entre seus objetivos, para o aproveitamento racional dos recursos energéticos do país, a revisão periódica da matriz energética e o estabelecimento de diretrizes para programas específicos. É órgão interministerial presidido pelo Ministro de Minas e Energia (MME);

2. O Ministro de Minas e Energia (MME) encarrega-se da formulação, do planejamento e da implementação de ações do governo federal no âmbito da política energética naci-onal;

3. A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), Lei 9.427 de 1996, é uma autarquia sob regime especial vinculada ao MME, que tem a finalidade de regular e fiscalizar a produção, a transmissão, a distribuição e a comercialização de energia elétrica, em conformidade com as políticas e diretrizes do governo federal;

4. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Leis 10.847 de 2004 e Decretos 5.184 de 2004 e 6.685 de 2008, é uma empresa pública federal dotada de personalidade jurídica de direito privado e vinculada ao MME. Tem por finalidade prestar serviços na área de es-tudos e pesquisas destinadas a subsidiar o planejamento do setor energético. Elabora os planos de expansão da geração e transmissão da energia elétrica;

5. O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), Lei 10.848 de 2004 e Decreto 5.175 de 2004, é constituído no âmbito do MME e está sob sua coordenação direta, com a função principal de acompanhar e avaliar permanentemente a continuidade e a segurança do suprimento eletroenergético em todo o território nacional;

6. A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), Lei 10.848 de 2004, é uma pessoa jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, sob regulação e fiscalização da Agência Nacional de Energia Elétrica para administrar os contratos de compra e venda de energia elétrica, sua contabilização e liquidação;

7. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Leis no9.648 de 1998 e 10.848 de 2004, por sua vez, é uma associação civil de direito privado, sem fins lucrativos, autorizado a executar as atividades de coordenação e controle da operação da geração e da trans-missão de energia elétrica, no âmbito do SIN.

A Figura 3mostra o relacionamento entre as principais instituições presentes no SEB. No nível hierárquico mais baixo da Figura estão a Eletrobras, e os Agentes de Geração, Transmissão, Distribuição e Comercialização, a parte produtiva do setor cujos segmentos foram destacados no início deste capítulo.

Na busca de uma estabilidade regulatória perene que possibilite a garantia do supri-mento ao mercado, expansão permanente e sustentável das atividades, sendo esta orientada pelo equilíbrio entre segurança, justa remuneração e modicidade tarifária, foram implemen-tadas através das instituições já mencionadas, as seguintes ações:

• A desverticalização das empresas do setor, obrigando as empresas a segregarem seus ativos de geração, transmissão e distribuição em empresas distintas, também denomi-nados Agentes de Geração, Transmissão e Distribuição.

• A existência do Produtor Independente de Energia (PIE) e do Consumidor livre.

• A criação de dois ambientes de contratação de energia: O Ambiente de Contratação Regulado (ACR) onde a contratação de energia se dá em um pool de distribuidoras contratando energia de um pool de geradores por meio de leilões promovidos pela ANEEL/CCEE e o Ambiente de Contratação Livre (ACL) onde a contratação se dá por meio de contratos bilaterais entre consumidores e geradores ou comercializadores.

Para se contratar no ACL os consumidores devem ser classificados como consumi-dores livres de acordo com legislação específica.Vallejos(2008) detalha a contratação entre os agentes do setor.

• Obrigatoriedade da contratação de toda a energia consumida por parte dos consumi-dores, quais sejam, distribuidoras, comercializadoras e consumidores livres.

• Despacho centralizado atribuído ao ONS.

• Preço da energia no mercadoSPOTfornecido por modelos (NEWAVEeDECOMP).

• Mecanismo de Realocação de Energia (MRE) criado com a finalidade de mitigar o risco hidrológico ao qual os agentes de geração hidroelétrica são submetidos.

Figura 3: Estrutura Hierárquica Institucional do SEB.

Fonte:ABRADEE(2017)

• Um montante contábil de energia, denominado Garantia Física (GF), facultado ao pro-prietário de ativos de geração e calculado de acordo com método específico, que las-treia os contratos de venda efetuados por este proprietário (BLOOT,2011).

Neste ambiente, o despacho é centralizado e sob a responsabilidade do ONS. Desta forma este decide sobre a geração das usinas de grande porte, fazendo com que o proprie-tário não tenha muito controle sobre a operação de seus próprios ativos, maiores detalhes disponíveis emBloot(2011). Para que o despacho centralizado não prejudique o desempe-nho financeiro dos Agentes de Geração, a operação foi desvinculada da comercialização de energia mediante o uso de alguns instrumentos contábeis como o Mecanismo de Realoca-ção de Energia (MRE) e a Garantia Física (GF). Com o MRE o ONS pode operar o sistema com vistas à otimização sem levar em conta aspectos comerciais, sendo que a estratégia co-mercial de cada agente se realiza através da gestão da sua GF, no âmbito da CCEE, e não da geração física medida em seus geradores. Os modelos utilizados pelo ONS para o planeja-mento da operação fornecem como subproduto do processo de otimização o Custo Marginal da Operação e a CCEE utiliza estes mesmos modelos na apuração do Preço de Liquidação das Diferenças que é utilizado como referência no mercado de curto prazo. As rodadas dos modelos pelo ONS e CCEE são muito parecidas possuindo pequenas alterações nos dados de entrada. Bloot(2011) detalhou a questão do despacho centralizado, comercialização de energia, MRE e GF e a utilização dos modelos de otimização no âmbito da comercialização de energia.

Um último capítulo do atual marco regulatório se deu com a MP 579 convertida na Lei 12.783 de 2013. Ela dispõe principalmente sobre a renovação das concessões de geração e transmissão próximas do vencimento, garantindo a possibilidade de renovação, entretanto com preços regulados pela ANEEL.

Neste ponto é interessante ressaltar que apesar de um dos principais objetivos deste novo modelo do setor ser o estabelecimento de uma indústria de energia elétrica com carac-terísticas de mercado, mediante o qual se buscaria a eficiência econômica, a forte cultura in-tervencionista se manteve presente, tendo em vista que tal eficiência passa a ser promovida pelo planejamento centralizado da expansão pela EPE e da operação pelo ONS. É possível encontrar estudos mostrando que este tipo de cultura é muito comum em países socialis-tas e também em nações que sofreram com colonização cuja espoliação foi organizada em torno de uma autoridade central ligada ao colonizador (GRUDEM; ASMUS,2016).