2.2 SUPERVISÃO BANCÁRIA E O RISCO DE MERCADO
2.2.3 Modelo Interno
Uma segunda alternativa de modelagem confere aos bancos a possibilidade de utilização de metodologia própria na aferição do risco de mercado a ser considerado para efeito de adequação de capital. Os bancos passam a ter a permissão de usar seus modelos internos para estimar e controlar a perda diária que poderia ocorrer durante determinado número de dias úteis (metodologia VAR), sendo o capital mínimo exigido para cobrir risco de mercado calculado pela multiplicação desse valor por um coeficiente de capital. A nova metodologia vem criar fortes incentivos para que os bancos aprimorem a gerência de risco de suas operações, pois, quanto melhor forem seus modelos de aferição de risco, menores serão os coeficientes de capital exigido.
Com o objetivo de assegurar um grau mínimo de padronização, transparência e consistência dos resultados obtidos para os diferentes sistemas de aferição de risco desenvolvidos pelos bancos, o Comitê da Basiléia propôs algumas restrições qualitativas e quantitativas para aqueles que optassem pelo uso de modelos proprietários. Dentre as restrições impostas, destacam-se:
2.2.3.1 Critérios Qualitativos
• Os bancos devem possuir uma unidade de controle de risco independente, responsável pela implementação do sistema de gerenciamento de risco, que respondam diretamente à alta administração do banco.
• A necessidade de se avaliar constantemente os modelos, seja através da análise de risco para diferentes tipos de cenários ou mesmo através de testes de comparação entre a medida de risco estimada e os resultados observados para a carteira de investimentos do banco, para longos períodos de tempo.
considerados para a definição de limites diários de posição em carteira dos bancos.
2.2.3.2 Critérios Quantitativos
• O valor em risco das posições de investimento devem ser computadas diariamente, utilizando o horizonte de 10 dias úteis de negociação.
• No cálculo do valor em risco deve ser considerado um nível de confiança de 99%.
• Os bancos podem considerar a correlação existente entre os diferentes tipos de ativos para avaliação do valor em risco da carteira.
• Na utilização de dados históricos para o cálculo do valor em risco deve ser considerado um período mínimo de um ano de observações.
• Para o cálculo do risco associado a posições em opções, deve ser considerada a característica de não linearidade dos preços, e os modelos devem ser capazes de tratar os efeitos da variação da volatilidade dos ativos no tempo.
• Para efeito de exigência de capital para os bancos que usarem seus modelos internos, será considerado o maior dos seguintes resultados:
⇒ Valor em risco computado no dia anterior;
⇒ A média do valor em risco calculado para os 60 dias úteis anteriores, multiplicada por um fator que pode variar de 3 a 4, dependendo de avaliação do órgão supervisor sobre o sistema de gerenciamento de risco.
• Caso o modelo proprietário para avaliação de risco de mercado de uma determinada instituição financeira não leve em consideração o risco específico incorporado ao modelo padrão, restrições adicionais para cobertura de risco específico são impostas ao modelo interno. Para as instituições que trabalham com modelos de risco que consideram esse componente, a restrição de capital imposta não pode ser inferior à metade da restrição de capital definida pelo modelo padrão para cobrir o
risco específico.
A possibilidade de serem adotados modelos internos para avaliação de risco foi bem recebida pelo mercado. A maioria das críticas, por outro lado, foram endereçadas aos critérios impostos. Uma delas diz respeito ao fator de multiplicação, considerado alto o suficiente para desestimular o desenvolvimento de sistemas acurados de avaliação de risco de mercado. No artigo “Overview of
the Amendment to the Capital to Incorporate Market Risks”, o Comitê da Basiléia
ressalta que o fator de multiplicação teria também como objetivo compensar as falhas potenciais intrínsecas nos modelos utilizados para avaliação de risco, entre elas, simplificações estatísticas na modelagem, uso de dados históricos como aproximação de comportamentos futuros de preços, deficiência na avaliação de risco em operações “intra-day”, entre outras.
Além do fator de multiplicação mínimo igual a três, o Acordo da Basiléia considera a possibilidade da existência de um fator adicional, baseado nos resultados obtidos através do chamado back-testing, na avaliação da acurácia dos modelos internos, podendo elevar o coeficiente para 4. O artigo “Supervisory
Framework for the Use of ‘Back-testing’ in Conjunction with the Internal Model Approach to Market Risk Capital Requirements” descreve os critérios adotados na
definição do fator adicional e os critérios estabelecidos para a modelagem dos
back-testing.
2.2.3.3 Back-testing
O objetivo principal do teste é diferenciar modelos acurados de modelos não acurados. Se os resultados obtidos pelo sistema interno de avaliação de risco forem consistentes com os resultados diários observados da carteira de investimentos, os resultados do back-testing são considerados satisfatórios e consequentemente o fator adicional é definido como nulo. O Comitê da Basiléia reconhece que a metodologia de teste tem suas limitações, porém, considera a
necessidade de se estabelecer uma metodologia consistente de avaliação para incentivar os bancos a manterem a integridade e o aperfeiçoamento de suas medidas de risco.
Segundo as restrições da Basiléia, os modelos devem ser definidos para um nível de confiança de 99%, que servirá de base para comparação dos resultados obtidos. Os testes devem ser feitos de forma regular e devem contabilizar o número de vezes em que os resultados diários observados extrapolam a medida de risco gerada, tendo como base os dados dos últimos 12 meses de negociação, aproximadamente as últimas 250 observações diárias. O órgão supervisor irá utilizar o número de vezes que os modelos internos de risco não conseguem cobrir as perdas ocorridas, servindo como referência primária para avaliação da acurácia dos modelos. As instituições ficam obrigadas a apresentar relatórios a cada trimestre, informando os resultados dos testes.
Devido a algumas limitações estatísticas da técnica utilizada para distinguir bons modelos de modelos inadequados, o Comitê estipulou três zonas de classificação, diferenciadas pela cor, para uma melhor interpretação dos resultados. A zona “verde” é constituída pelos modelos em que os testes não indicam problemas referente à sua qualidade e acurácia. A zona “amarela”, por sua vez, corresponde aos modelos em que seus testes não apontam para conclusões definitivas, compreendendo tanto modelos adequados como inadequados. Os modelos em que os testes indicam a existência de problemas quanto à sua precisão são classificados na zona “vermelha”. A tabela 3 apresenta os possíveis resultados obtidos nos testes e a correspondente classificação dos modelos nas respectivas zonas.
Tabela 3
Definição das zonas de classificação para os resultados do back-testing. Utilizado para avaliação dos modelos internos de risco para efeito de exigência
mínima de capital. Zona de Classificação Número de exceções,
baseado numa amostra de 250 observações Acréscimo no fator de multiplicação. VERDE 0 1 2 3 4 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 AMARELA 5 6 7 8 9 0,40 0,50 0,65 0,75 0,85 VERMELHA 10 ou mais 1,00
Apesar da zona “amarela” poder incluir modelos acurados, existe a hipótese estatística de que quanto maior o número de exceções pior deverá ser o modelo, dando uma indicação de escala para aumento das exigências mínimas de capital para cobrir riscos de mercado. A tabela 3 descreve também as diretrizes para aumento no fator de multiplicação dos bancos, aplicáveis aos modelos internos. Representa uma penalidade que também tem como objetivo incentivar o aperfeiçoamento do modelo. É bom salientar que esse aumento não seria dado de forma automática uma vez que, para a zona amarela os resultados não seriam conclusivos. Foi definido que se daria a liberdade para os bancos explicarem os possíveis motivos para os resultados obtidos. Em contraste com o caso em que a autoridade reguladora exerceria um julgamento na interpretação
dos resultados, modelos classificados na zona “vermelha” levariam à conclusão automática de que o modelo interno tem problemas. Considera-se que é extremamente improvável que modelos adequados gerem 10 ou mais exceções para uma amostra com 250 observações. Dentre as recomendações sugeridas pelo Acordo da Basiléia para os modelos classificados nessa categoria está o aumento automático do fator de multiplicação para 4, investigação das causas que levaram o modelo a obter resultados dessa ordem e a necessidade imediata de aperfeiçoamento do modelo.
Outro aspecto importante a ser considerado é o fato das medidas de risco de mercado serem geralmente baseadas na sensibilidade do valor de mercado de uma carteira estática à variações de preços, para um período determinado de tempo. Isso, na prática, traz algumas complicações que devem ser analisadas para a implementação do back-testing. Entre elas, temos o fato de que medidas de risco não podem ser comparadas diretamente com os resultados diários das operações, por estas estarem “contaminadas” pelas alterações na composição da carteira de investimentos durante o período estipulado. Como forma de contornar estas questões, o Comitê da Basiléia estipulou que os testes devem ser calibrados para “holding period” de 1 dia, com o objetivo de facilitar a análise dos resultados relativos às oscilações de preços e alteração de composição da carteira de forma diferenciada. Além disso, permite o desenvolvimento de dois tipos de testes, um deles considerando os resultados observados no fechamento das negociações diárias (forma “contaminada”) e o outro considerando as variações hipotéticas que ocorreriam no valor da carteira se as posições de fechamento não fossem alteradas (forma “não contaminada”) .