3 Programa Cédula da Terra
3.2 A Reforma Agrária e o Programa Cédula da Terra (PCT)
3.4.1 Modelo Logit – PCT e Incra vs PNAD
Na Tabela 19, podemos observar os valores dos coeficientes dos parâmetros estimados (B), erros-padrões das estimativas (S.E.), o valor da estatística de Wald (análogo à estatística t na regressão linear múltipla), o número de graus de liberdade (df), o nível de significância (Sig.) e o valor de ˆi
Tabela 19 : Resultados do Modelo logit (grupos PCT e INCRA versus PNAD)
VARIÁVEL B STDB S.E. Wald Df Sig. Exp(B)
IDADE 0,015 0,17869 0,006 7,476 1 0,006 1,016 SEXO(1) 1,221 -0,36007 0,22 30,895 1 0 3,391 VILLAGE1(1) 2,288 -0,79859 0,154 220,731 1 0 9,854 AGUACAN(1) 0,461 -0,20892 0,154 8,896 1 0,003 1,585 LIXO(1) 0,403 -0,15182 0,174 5,361 1 0,021 1,496 ELETRICA(1) -0,712 0,35281 0,144 24,465 1 0 0,491 RDEPEN 1,364 0,321434 0,281 23,534 1 0 3,911 MIGRAMUN -0,345 -0,32447 0,056 37,367 1 0 0,708 ANOSESFA 0,631 1,044344 0,049 164,66 1 0 1,879 ANOSEST -0,139 -0,28219 0,036 14,651 1 0 0,87 NPORCOM 0,133 0,100856 0,077 2,965 1 0,085 1,142 QUALIRES(1) -1,292 0,612922 0,127 104,214 1 0 0,275 DAPOS(1) 8,853 -1,17891 6,623 1,787 1 0,181 6993,982 DPENS(1) 8,787 -0,82056 8,986 0,956 1 0,328 6546,99 DDOAC(1) 0,764 -0,16253 0,243 9,901 1 0,002 2,148 DTRABAL(1) -3,557 1,482051 0,15 564,573 1 0 0,029 ATIVPRIN(1) -1,833 0,4167 0,219 69,749 1 0 0,16 CASAPRO(1) -1,225 0,574624 0,125 96,653 1 0 0,294 BENSDUR -0,184 -0,38044 0,032 32,387 1 0 0,832 Constant 2,914 -1,31066 0,463 39,625 1 0 18,433
Fonte: Buainain et al., 2002
O resultado obtido para a variável VILLAGE1, o qual é positivo e significativo, indica que famílias cuja moradia se localizava em núcleos urbanos rurais (em contraste com moradias localizadas em áreas estritamente rurais) possuem maior probabilidade de pertencer ao grupo de beneficiários do PCT ou Incra. Esse resultado dá margem a diversas especulações, inclusive de que os programas estariam atraindo interessados não afeitos à atividade rural. Contudo, a definição de “povoado urbano rural” claramente não corrobora essa tese. Sendo assim, pode-se imaginar que este resultado poderia ser explicado pelo fato que existe entre os beneficiários um percentual maior de famílias que não possuem terras e, portanto, tendem a residir em povoados rurais ou áreas urbanas de maior dimensão. Em segundo lugar, por residirem nessas
áreas, esses beneficiários possuem maior acesso à informação sobre os programas.
O valor negativo (-0,345) do coeficiente da variável MIGRAMUN indica que quanto maior é o tempo ininterrupto de permanência no município do Projeto/Assentamento menor é a probabilidade de que o domicílio esteja no grupo de beneficiários. Em outras palavras, isso significa que o grupo de beneficiários possui uma parcela maior de indivíduos que migraram. Esse é um possível indicador de que o processo de seleção está atingindo um grupo de famílias que o tiveram que encontraram trabalho nas áreas onde nasceram, especialmente por não possuir terra suficiente para se fixar. Esse resultado é consistente com o obtido na 1ª avaliação do Programa Cédula da Terra, onde mostrou-se que quanto mais tempo um individuo viver no mesmo município, menor sua probabilidade de ser beneficiário do PCT. Essas duas variáveis podem ser consideradas, em conjunto, como representativas da “experiência de vida” dos beneficiários, e os resultados obtidos podem ser considerados positivos para a seletividade dos programas.
O aumento da relação de dependência (RDEPEN) tende a aumentar a chance do domicílio pertencer ao grupo dos beneficiados. O resultado indica que as famílias beneficiárias possuem maior proporção de crianças do que as famílias não beneficiadas. Por um lado, isso revela um impacto social de grande valor, mas, por outro, pode ser um fator limitante para a capitalização dos produtores nos primeiros anos de projeto/assentamento, dado que os gastos dessas famílias são maiores, proporcionalmente aos seus rendimentos. Contudo, no médio prazo, quando essas crianças tornam-se adultos, a família poderá contar com maior oferta de mão-de- obra. Para o PCT sabemos que o número de pessoas na família foi um dos critérios adotados na seleção dos beneficiários, e certamente esse resultado poderia em parte estar refletindo este viés de seleção.
Quando testadas as variáveis ANOSESFA (número de anos de estudo médio do domicílio) e ANOSEST (número de anos de estudo do responsável pelo domicílio), obtêm-se resultados aparentemente contraditórios apesar da alta correlação entre as duas. O coeficiente positivo de ANOSESFA (0,631) significa uma propensão maior para a seleção dos domicílios com maior grau de instrução médio, enquanto o coeficiente negativo (-0,139)
obtido para ANOSEST mostra que com um aumento do número de anos de estudo do responsável pelo domicílio tende a diminuir a probabilidade de seleção em confronto com a probabilidade de não seleção. Possivelmente este resultado resulte dos benefícios advindos da adesão aos programas, que propiciou maior acesso à escola por parte das crianças, elevando assim a escolaridade média da família. Todavia, a menor escolaridade do chefe de família é um traço negativo para a sustentabilidade destes programas, chamando a atenção para a necessidade de políticas ativas de capacitação dos beneficiários, extensão rural e educação de adultos.
Constata-se um sinal positivo (0,133) para o coeficiente da variável NPORCOM indicando que à medida aumenta a número de pessoas por cômodo nos domicílios, aumenta a probabilidade de seleção desse domicílio. Esta variável pode ser considerada uma proxy do grau de pobreza das famílias e, desta forma, o resultado obtido indicaria que o processo de seleção destes programas estaria privilegiando o critério de pobreza.
O valor negativo do coeficiente da variável dummy DTRABAL pode ser interpretado como uma maior propensão para selecionar domicílios em que não ocorre trabalho remunerado, enquanto a variável ATIVPRIN apresenta sinal negativo, indicando que trabalhadores não-rurais tem maior probabilidade de fazer parte do grupo de beneficiários. Esse resultado deve ser analisado com cautela, para que não seja erroneamente visto como um viés de seleção em favor de trabalhadores sem experiência agrícola. Ainda que as freqüências relativas de trabalhadores não-agrícolas sejam maiores para o grupo de beneficiários do PCT e do Incra (11,3% e 11,7% respectivamente) quando comparadas aquelas para o grupo amostral PNAD (3,0 %), ainda são suficientemente baixas para refutar essa hipótese.
Confirmando a constatação anterior de que os programas estariam privilegiando famílias relativamente mais pobres, as estimativas obtidas para as variáveis QUALIRES, CASAPRO e BENSDUR apresentaram coeficientes negativos.