acessibilidade cultural para pessoas com deficiência nos museus federais do Brasil
38. O Modelo Médico da Deficiência datado dos anos 60, fundamenta o con-
ceito através das características biológicas do indivíduo. Há uma redução da capacidade produtiva da pessoa em decorrência de uma alteração nas funções do seu corpo, sua deficiência é vista como algo a ser tratado, curado ou reabi- litado. É a base do assistencialismo. (MarTins, 2017).
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situações incapacitantes e barreiras que limitarão a participa- ção social da pessoa com deficiência nos mais diversos contex- tos da sociedade.
Em decorrência deste modelo, as pessoas com deficiência têm garantido através das políticas públicas o direito de igual- dade de oportunidade com as demais.
É no âmbito das políticas públicas inclusivas que o termo acessibilidade cultural é cunhado. O extinto Ministério da Cul- tura, atualmente Secretaria Especial da Cultura, já nos anos 90, através do programa Artes sem Barreiras, acabou por for- mar uma rede nacional de artistas com e sem deficiência. Na pessoa de Albertina Brasil, na época funcionária da Funarte/rJ, fomentou a produção artística da pessoa com deficiência em conjunto com instituições que atuavam no campo das lingua- gens estéticas e artísticas. “O programa oportunizou grande visibilidade para este público, bem como o fortalecimento do campo político da cidadania cultural para pessoas com defici- ência”. (dorneLes; aLBerTaCCi JUnior, 2014, p. 107 e 108).
Já nos anos 2000 a Funarte, em conjunto com a Caixa Eco- nômica Federal, lança uma nova ação intitulada “Além dos Limi- tes”. Entre editais e mostras, esta ação também proporcionou bolsas para artistas com deficiência. Entretanto é somente em 2008, através da Secretaria de Identidade e Diversidade Cultu- ral – sid, que as pessoas com deficiência ganham voz de fala e auxiliarão na construção de políticas públicas culturais através da oficina do “Nada sobre nós sem nós”.
Esta oficina tinha como objetivo
[...] escutar, conhecer e sistematizar as experiências no campo da interface de políticas e produção estética, artística e cultural das e para as pessoas com deficiência.
MEMÓRIA & PATRIMÔNIO Patrimônio para todos? Construir, a partir de Grupos de Trabalho sobre o fomen- to, o patrimônio, difusão e acessibilidade, ações e diretri- zes orientadoras para uma política pública cultural para pessoas com deficiência. (dorneLes; aLBerTaCCi JUnior, 2014, p. 108).
A mudança de postura da sid com relação às pessoas com deficiência mostrou-se fundamental para que estas vozes, que durante tanto tempo estiveram caladas, ecoassem e acabas- sem ganhando um protagonismo, onde “Identidade, alteridade, pertencimento vão se colocando de maneira complexa, num jogo de transferências, em que escutar e escutar-se.” (BarTHes, 1990, in Pereira, 2012).
Estas novas vozes
chegam de outros lugares, tempos e culturas, mas que esta- belecem no momento da escuta, a aproximação possível, um tocar e interagir pela escuta da voz e do corpo, onde se estabelecem vínculos comunicativos sentidos como apro- ximação tátil e envolvente. (Pereira, 2012, p. 11).
São corpos que falam a partir de um novo olhar, de um novo lugar, o lugar empoderado de quem quer falar e quer ser ouvido. São “agentes ativos de suas histórias e participantes do proces- so de fazê-las”, como coloca Portelli (1997).
Assim, como um dos resultados deste importante momento da história brasileira, tem-se a ampliação do conceito de aces- sibilidade às pessoas com deficiência, que passará a ir além da gratuidade e de valores acessíveis a espetáculos e outros pro- dutos culturais e o ampliará para o conceito de acessibilidade cultural, onde este visa à garantia do exercício da cidadania cul- tural em igualdade de oportunidades. Cabe ressaltar aqui que este exercício se dá ao entender-se que a cultura é um direito humano basilar de fruição, participação, expressão e produção,
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ou seja, é ir além de apenas “estar” no ambiente cultural.
Desta forma, a acessibilidade cultural acaba por ser uma área interdisciplinar e complexa, onde diversos profissionais de diferentes áreas do conhecimento precisam trabalhar jun- tos para que o maior número de pessoas possíveis possa ter efetivado o seu direito à cultura. Somente tendo em conta este aspecto da área que o paradigma da acessibilidade cultural para pessoas com deficiência vai superar a ideia de que o acesso à cultura é garantido apenas com a reserva de lugares para cadei- ras de rodas, rampas e sanitários adaptados.
Políticas públicas culturais: o estatuto dos museus
Na Constituição Brasileira, no capítulo ii – que dispõe sobre as atribuições da União, o artigo 23º diz que é competência comum da União, dos Estados e dos Municípios “proporcionar os meios de acesso à cultura, à educação, à ciência, à tecnolo- gia, à pesquisa e à inovação” (inciso V).
Ainda na sessão ii, porém referente à Cultura, diz a Constituição:
O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais (Art. 215).
Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natu- reza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira (Art. 216).
Desta forma, pode-se perceber que mesmo antes de exis- tir uma política museal específica, o direito ao acesso à cultura
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e o patrimônio brasileiro já estava garantido pela lei maior da federação.
No Brasil, a política museal foi construída de forma parti- cipativa pelos profissionais dos museus, entretanto ela torna- -se utópica no que tange à acessibilidade cultural para pessoas com deficiência na maioria dos casos, uma vez que ao utilizar termos como “universalidade do acesso” pressupõe-se que os museus buscarão adaptar-se aos princípios do Desenho Uni- versal 39, pois só assim darão conta de incluir grande parte da população e respeitar a diversidade e pluralidade de um país de dimensões continentais como o Brasil.
Os princípios do Desenho Universal asseveram o novo entendimento da acessibilidade que se coloca como um meio para a inclusão. A aplicação do Desenho Universal é consequ- ência de uma tomada de decisão que privilegia o coletivo sobre o individual. A decisão postula, por princípio, a condição “para todos”. No que tange ao museu, a adoção do conceito pode ser o diferencial em ter a inclusão como práxis e o entendimento de que patrimônio acessível se apresenta como lugar para todos.
O Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) foi oficialmen- te instituído através da Lei 11.906/09, como uma autarquia pertencente ao extinto Ministério da Cultura, atual Secreta- ria Especial da Cultura (vinculada ao Ministério da Cidadania), e tem como objetivo “suceder o Iphan nos direitos, deveres e obrigações relacionados aos museus federais” (iBraM, 2009). Assim, para além da responsabilidade pela Política Nacional de