Para a elaboração de um esquema matricial da água pluvial é necessário o conhecimento de diferentes factores, que de alguma forma já foram abordados anteriormente.
Para o preenchimento da matriz optou-se por seleccionar os dados anteriormente desenvolvidos, como a precipitação, a evaporação e o superávit hídrico, da estação meteorológica clássica do Instituto Geofísico de Lisboa, por ser a mais antiga e mais representativa da cidade.
Os restantes valores indicados no esquema foram obtidos da Matriz da Água de Lisboa 2004, produzida pela Lisboa E-Nova – Agência Municipal de Energia e Ambiente, elaborada no âmbito da definição da Estratégia Energético Ambiental para a Cidade de Lisboa.
Assim, na Figura 62 encontra-se representada a matriz do ciclo urbano da água em Lisboa, considerando a área do concelho de Lisboa de 84 623 750,5 m2.
Precipitação
61,4 Reservatório Ar
Evapotranspiração
Escoamento Reservatório Biomassa
Reservatório
Solo Evaporação 91,6
Permeabilidade solo
Infiltração Reservatório estado líquido superficial Captação
Hidrogeologia Adução Alimentação águas subterrâneas / aquíferos Tratamento Disponibilidades de água / Superávit hídrico 16,2 Distribuição
Armazenamento de Água Perdas / Fugas
19,5* Necessidades de água Distribuição secundária Consumo / Usos 74.5* Usos Qualidade
Utilização não potávela) DL 236/98 de 1 de
Agosto b) Infiltração Drenagem Descargas directas 21* Tratamento Águas residuais tratadas 59* P e r d a s
Figura 62 – Matriz do ciclo urbano da água em Lisboa, média anual, em milhões de m3, considerando a área do concelho de Lisboa de 84 623 750,5 m2.
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Fonte: (Lisboa E-Nova, 2004)Nesta Figura a nota a) da utilização não potável poderá incluir os seguintes usos: • Rega
• Aquacultura
• Lagos e espelhos de água artificiais (prevendo a sua recirculação) • Reforço de caudal de cursos de água e manutenção das zonas húmidas • Reforço do volume de águas subterrâneas e controlo da intrusão salina • Piscinas
• Produção artificial de neve
• Reserva de protecção contra incêndios • Autoclismos
• Lavagens (arruamentos, passeios, pátios, praças, parques de estacionamento, pavimentos, sanitários, colectores, contentores, garagens, veículos, partes comuns dos edifícios, roupa)
• Sistema de aquecimento-arrefecimento, AVAC (Aquecimento, Ventilação, Ar Condicionado), torres de arrefecimento na indústria
• Construção civil
• Controlo de partículas em obras de construção civil
A nota b) da qualidade refere-se aos anexos presentes no Decreto-Lei nº 236/98 de 1 de Agosto que estabelece normas, critérios e objectivos de qualidade com a finalidade de proteger o meio aquático e melhorar a qualidade das águas em função dos seus principais usos. Esses anexos, indicados seguidamente, permitem comparar, como referência, a qualidade de uma água pluvial com os seus valores máximos recomendados ou admissíveis:
• Anexo I – Qualidade das águas doces superficiais destinadas à produção de água para consumo humano
• Anexo X – Qualidade das águas doces para fins aquícolas – águas piscícolas • Anexo XV – Qualidade das águas balneares
• Anexo XVI – Qualidade das águas destinadas à rega
• Anexo XXI – Objectivos ambientais de qualidade mínima para as águas superficiais
Nesta matriz é visível a representação do ciclo natural da água, com as interligações dos diferentes reservatórios de água (ar / atmosfera, solo / litosfera, água no estado líquido / hidrosfera, biomassa / biosfera), a passagem pelos diferentes estados físicos, a relação com os aspectos hidrogeológicos, a integração da componente urbana de abastecimento e drenagem, suas implicações, e um modo como o uso da água pode ser mais eficiente, pelo aproveitamento pluvial.
No ciclo da água, a partir da precipitação, e conforme a existência de áreas mais ou menos impermeáveis, consoante a ocupação urbana, ocorrerá determinado escoamento que se infiltrará no solo de acordo com a sua taxa de infiltração e características hidrogeológicas indo alimentar os aquíferos e as massas de água superficiais, que por seu turno se interrelacionam. Além do reservatório solo, a água pluvial também atinge directa e indirectamente o reservatório da água no estado líquido e o reservatório da biomassa. A água para atingir o reservatório da atmosfera, que por seu turno voltará a originar a precipitação, evapora-se do reservatório da litosfera e do reservatório da hidrosfera, assim como da transpiração do reservatório da biomassa / biosfera.
Na intervenção humana é efectuada a captação em massas de água superficiais e/ou subterrâneas que será aduzida com realização do respectivo tratamento, distribuição para os diferentes usos conforme as necessidades de água, que após o seu consumo é drenada e executado o seu tratamento, sendo uma parte das águas
residuais descarregada directamente no meio receptor (de acordo com dados de 2004). No transporte das águas também se verificam perdas e fugas, assim como infiltrações de água que interferem com as águas subterrâneas.
No esquema é de destacar a disponibilidade de água ou o superávit hídrico obtido através dos cálculos efectuados para a estação meteorológica do Instituto Geofísico, que será uma indicação para a possibilidade do armazenamento de uma parte desta água pluvial em determinado local ou locais de Lisboa, que permitam a sua distribuição secundária em usos não potáveis e compatíveis com os níveis de qualidade exigíveis, nomeadamente os do Decreto Lei nº 236/98 de 1 de Agosto. É ainda de realçar que o valor do superávit hídrico é bastante inferior ao valor considerado para o consumo de água em Lisboa, subtraindo ainda a taxa de infiltração de água no solo e as perdas resultantes do processo de recolha, do desvio do primeiro fluxo, no tratamento, armazenamento e distribuição secundária da água, sendo por isso insuficiente para suprir as necessidades em água não potável, mesmo supondo que o consumo não potável é 50 % do total.
Estes valores podem ainda ser modificáveis através da sua alteração nos componentes deste modelo, como por exemplo, através das alterações climáticas (capítulo 5.1), que poderá originar: o aumento do valor da evapotranspiração (pelo aumento da temperatura), a diminuição da precipitação, e consequente diminuição do escoamento, da alimentação das massas de água e do valor do superávit hídrico. Pelo aumento da temperatura da água, a sua qualidade diminui interferindo, igualmente, na sua disponibilidade.
A tendência para a concentração dos fenómenos pluviosos no Inverno terá também implicações na capacidade de armazenamento da água pluvial.
O aumento das áreas verdes promoverá a evapotranspiração e diminuirá o escoamento, pela diminuição de áreas impermeáveis resultantes da ocupação urbana. Por outro lado, como são sumidouros de CO2, um dos gases com efeito de estufa, e como atenuam os efeitos das ondas de calor, contribuem para a melhoria do clima urbano.
Outro aspecto a considerar é a diminuição do consumo de água que poderá ser conseguido através do seu uso eficiente, com as propostas do Programa Nacional
para o Uso Eficiente da Água.
Não obstante, ao se contemplar o armazenamento e aproveitamento das águas pluviais este poderá ser não só predial como integrado ao nível da gestão urbanística, ordenamento do território e saneamento em soluções / estruturas de controlo na origem, promovendo a sustentabilidade do ciclo da água.
A implementação das diferentes tecnologias e de sistemas de aproveitamento de águas pluviais requer, como enunciado, que estas sejam sustentáveis aos diferentes níveis (ambiental, económico social e institucional). O conceito de sustentabilidade está patente em diferentes documentos legais como os apresentados no Anexo 3.