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4.1 CARACTERIZAÇÃO DOS SISTEMAS BIOECOLÓGICOS DOS PROFESSORES E

4.1.1 Modelo pessoa-processo-contexto e tempo (PPCT)

O modelo PPCT requer analisar os processos e contextos em que os docentes (pessoa) estão inseridos e como eles influenciam o desenvolvimento humano e, por conseguinte, suas concepções acerca dos conceitos aqui tratados, ou seja, a saúde e a deficiência. Os elementos que constituem o modelo são interinfluentes e integrados, sofrendo mudanças ao longo dos tempos em que ocorrem. A Figura 7 busca representar essa organização e os fatores que influenciam no desenvolvimento e na formulação de concepções dos docentes entrevistados.

Figura 7 – Modelo PPCT dos professores.

Descrição da imagem: Figura formada por retângulos encaixados em diferentes tons de verde e com escrita em preto. O primeiro retângulo contêm o texto “Tempo: História de vida marcada pela valorização da educação, História de vida marcada por observação da condição social própria e das demais pessoas, Escolas e famílias com um sistema de ensino dotado de exigências e regras, Experiências com pessoas com deficiência ao longo da vida, Experiências de saúde e doença pessoal ou de parentes próximos, Experiências com pessoas com deficiência na IES”. O segundo retângulo contém: “Processos: Ser/estar ativo na prática docente com estudantes com deficiência, mudando de opinião e buscando aperfeiçoamento para qualificar a prática pedagógica, Envolvimento com o processo de inclusão”. O terceiro retângulo apresenta o texto “Contexto: Instituição de Ensino Superior com características e projetos que favorecem a inclusão de pessoas com deficiência, Universidade como espaço de produção e aquisição de conhecimento, Relações familiares e profissionais favoráveis”. Por fim, o quarto retângulo apresenta: “Pessoa: Características dos docentes: determinados, dedicados, comprometidos, responsáveis, atenciosos, inteligentes, observadores, críticos, reflexivos, respeitosos, propositivos, criativos, pacientes, desconfiado, objetivos, Características das pessoas com as quais convive: bem humoradas, trabalhadoras, dedicadas, exigentes, verdadeiras, atenciosas, amorosas, arrogantes, desconfiadas, introvertidas, pouca sociabilidade”.

Fonte: Elaborada pela autora (2016).

No modelo ilustrado, o aspecto pessoa é central. Para Bronfenbrenner (1996), os indivíduos e os ambientes são propriedades indissociáveis, e as ações dos indivíduos interferem diretamente no ambiente em que ele vive. O elemento pessoa oferta enfoque às características daquelas pessoas com as quais os docentes convivem com mais frequência, que, segundo Bronfenbrenner (2011), influenciam diretamente o desenvolvimento humano. As características citadas foram tanto positivas quanto negativas. As positivas foram mais evidenciadas pelos entrevistados, talvez para evitarem exposição, considerando tratar-se de

uma pesquisa que resulta em publicação, mesmo sendo adotadas todas as premissas éticas da pesquisa com seres humanos.

Ao desvelar esses elementos, percebe-se que os docentes apresentam características desenvolvimentalmente instigadoras semelhantes, mesmo com diferentes idades e microssistemas característicos, os quais, por mais que apresentem constituições semelhantes, não imprimem igualdade. As características desenvolvimentalmente instigadoras, como mencionado na seção 3, subseção 3.3.2, envolvem características que favorecem as interações entre as pessoas dentro dos diferentes contextos em que elas transitam, positiva ou negativamente.

Entre os entrevistados, a maior parte das características que foram possíveis de serem observadas pela entrevista são comuns e denotam as propriedades exigidas pela carreira docente. São essas características: ser respeitoso, determinado, dedicado, comprometido, responsável, solidário, atencioso, inteligente, observador, crítico, reflexivo, observador, propositivo, paciente, ético e desconfiado. Os entrevistados EC, EE e EF apresentaram uma característica que pode estar relacionada ao tipo de pesquisa quantitativa a que estão habituados a desenvolver, a objetividade.

As características respeitoso, dedicado, comprometido, atencioso, solidário, paciente e éticos estão relacionadas à prática docente e podem ser consideradas como qualidades de estímulos pessoais, ou seja, movimentam os processos recíprocos de interação pessoal, nesse caso entre docente e estudante especialmente. Já as características determinado, crítico, reflexivo, inteligente, observador, comprometido, desconfiado e responsável são consideradas atributos mais poderosos para o desenvolvimento (BRONFENBRENNER, 2011), uma vez que são constituídas principalmente pela organização do ambiente familiar em que cada um se desenvolveu.

Entretanto, vale mencionar que não há uma ordem na constituição dessas características e que os fatores ambientais, situacionais, cognitivos, socioemocionais e motivacionais podem interferir na manutenção e na transformação delas. “A pessoa é o principal agente ativo que contribui para o seu desenvolvimento” (BRONFENBRENNER, 2011, p. 151), assim, ela colabora para as transformações e a criação dos ambientes externos, que vão interferir no seu próprio percurso de desenvolvimento.

O estudo realizado por Navarro et al. (2016, p. 949) sobre as características dos docentes, identificadas a partir da percepção dos estudantes, foram: “una persona confiable, sociable, cercana, integradora, empática, colaborativa, comprensiva, segura, paciente, humilde, alegre y respetuosa”. Essas características foram consideradas pelos autores como

cotidianas e acadêmicas, mas não se restringem aos limites da instituição, pois envolvem todas as ações diárias dos docentes. Além disso, aquelas grifadas representam, do ponto de vista dos autores, as principais no que tange à atuação com pessoa com deficiência.

Importa considerar também as crenças e o comportamento dos demais, que orientam e direcionam a estruturação dos ambientes, fato pelo qual são consideradas as características das pessoas próximas dos professores. Entre essas características, estão trabalhadores, bem- humorados, dedicados, exigentes, verdadeiros, atenciosos, amorosos, arrogantes, introvertidos e desconfiados. É interessante observar que, entre essas características, são apresentados mais pontos negativos, talvez pelo fato de serem caraterísticas que incomodam e que, portanto, tem um potencial importante no desenvolvimento, convidando ou desencorajando reações nesse ambiente (BRONFENBRENNER, 2011). Todos estes atributos que estão envolvidos nos diferentes ambientes em que a pessoa convive favorecem o desenvolvimento de habilidades para se engajar em atividades diversas, autodirigidas, “como uma função articulada não apenas de sua carga biológica, mas igualmente do ambiente no qual se desenvolveu”, ofertando subsídios para a maturação psicológica e ambiental (BRONFENBRENNER, 2011, p. 172).

Além disso, o fato de os professores se envolverem e se empenharem diretamente com os estudantes a partir de suas características pessoais, por períodos relativamente longos, buscando formas de qualificar sua prática pedagógica, ou seja, como atividades molares, demonstra que há um crescimento psicológico. O elemento processo, neste estudo, está envolvido com a inclusão enquanto paradigma vigente e localizado no sistema bioecológico, em nível do macrossistema. Para os docentes, a inclusão tem perpassado a sua prática cotidiana, não apenas em sala de aula, mas também num contexto macrossistêmico que exige um novo posicionamento frente à diferença. Portanto, ser e estar ativo nesse processo exige transformação e desenvolvimento humano. Ser professor determina a busca constante de conhecimento para além dos aspectos que envolvem a inclusão, incluindo também a formação de pessoas críticas, reflexivas e propositivas.

Considerando ser o processo o principal mecanismo pelo qual o desenvolvimento humano ocorre, como evidenciado na seção 3, por Poletto e Koller (2008) e Brum (2017), evidencia-se a configuração dos processos proximais que incidem sobre as relações estabelecidas entre as pessoas com os quais os docentes convivem. Os processos proximais são identificados como as relações estabelecidas com os familiares próximos (microssistema), como base de apoio, carinho, atenção e cuidado, para as atividades desempenhadas ao longo da vida; com os colegas de trabalho e com os amigos (mesossistema), com os quais há

possibilidade e abertura para reflexões sobre os diferentes aspectos que envolvem as atividades profissionais e aspectos da vida pessoal; com os estudantes com deficiência, com os quais formam díades para a troca de experiências reais sobre a abordagem; com a coordenação e a equipe de apoio da Coordenadoria de Ações Educacionais (Caed) (mesossistema), que orientam sobre os pressupostos básicos para atender às demandas dos estudantes com deficiência.

O estudo de Sampaio, Caldas e Catrib (2015) sobre a rede social de professores universitários portugueses evidenciou a importância das relações familiares e com amigos fora do trabalho ou de outros departamentos para a segurança emocional e para a promoção de saúde. Essas redes viabilizam a construção e a manutenção de laços sociais que são fonte de saúde, pela interação, pela solidariedade e por proporcionam bem-estar e qualidade de vida.

O conceito de saúde, dentro desses processos, está implícito, uma vez que, dada a concepção biomédica tratada pelos docentes e discutida na seção 3.2, remete a tratar a deficiência como falta, concepção que tem uma perspectiva de abordagem entrelaçada com o conceito de saúde. Já a concepção sobre deficiência perpassa a discussão e toma forma dentro dos processos proximais de maneira ampla, pois, ao tratar da inclusão enquanto prática, há necessidade de uma compreensão, mesmo que limitada ou tradicional, de deficiência.

Nessa formulação de concepções, existem forças que atuam no sentido de moderar ou modelar os processos que passam a constituir e modelar, juntamente com os demais elementos, as concepções dos docentes. A Figura 8 ilustra esses efeitos com base nas explicações de Bronfenbrenner (2011) e Brum (2017).

Figura 8 – Efeitos moderadores e efeitos modeladores.

Descrição da imagem: Figura formada por um quadro, em cujo centro há um pictograma de uma pessoa atravessada por diversas flechas advindas de palavras contidas em flechas. Na esquerda, as palavras “Pré- concepções; Opinião de leigos; Estudantes; Vivências prévias”; na direita, as palavras “Preconceitos; Orientações de profissionais da área; Estudos; Orientação da coordenação”. Nas laterais, há uma faixa com a inscrição “Efeitos modeladores”. Abaixo da imagem, há uma flecha de duas pontas com o texto “Efeito Moderador: História de vida, políticas públicas e legislações federais e locais”.

Fonte: Elaborada pela autora (2019).

A Figura 8 apresenta os efeitos moderadores, ou seja, trata daquilo que permeia o percurso de desenvolvimento dos docentes, a sua história de vida, bem como o contexto socioeconômico e político que rege a organização das ações no País e no mundo. Já os efeitos modeladores são aqueles que vão intervir no processo e nas interações pessoais ao longo do percurso e, portanto, modificar a interpretação e a abordagem com os demais. Cita-se especialmente as experiências com pessoas com deficiência ou em condições de saúde desfavoráveis, os próprios estudantes com deficiência que lançam um desafio a prática docente, as orientações da Coordenação e dos órgãos de apoio institucionais, as reflexões com amigos e familiares considerados leigos na temática, mas dotados de conhecimentos e opiniões particulares que influenciam a percepção dos docentes e os estudos para buscar alternativas reflexivas para a compreensão das diferentes situações e fenômenos. São esses efeitos moderadores e modeladores, associados aos diferentes contextos, processos e pessoas que vão influenciar o curso do desenvolvimento humano.

O contexto em que esses processos e pessoas se desenvolvem, nesta tese, é caracterizado basicamente pelo sistema de estruturas concêntricas nas quais os docentes estão inseridos, especialmente no que trata da IES em estudo enquanto espaço que perpassa o micro, o meso e o exossistema dos docentes, com suas características e organização que favorecem o processo da inclusão e os sistemas nos quais cada um dos docentes está envolvido. A IES é, portanto, um contexto favorável para que a aprendizagem se efetive dentro de uma perspectiva inclusiva. Além disso, o contexto envolve as relações estabelecidas entre as pessoas que compõem os microssistemas e os processos que ocorrem entre esses sistemas, fato pelo qual elencar as características das pessoas que podem influenciar o desenvolvimento favorece o reconhecimento das concepções aqui apresentadas.

O elemento tempo talvez seja o mais relevante para as concepções aqui abordadas, uma vez que houve uma tendência de reproduzir modelos de saúde e de deficiência considerados ultrapassados, tanto na literatura quanto na legislação que trata sobre a saúde e a deficiência, a partir de um modelo biopsicossocial, amplamente discutidos na seção 3. Destarte, no elemento tempo, estão contidas caraterísticas e histórias das diferentes fases da vida de cada docente e que foram e continuam moldando o seu desenvolvimento humano, desde a infância. Os fatores levantados neste estudo estão relacionados a vidas marcadas pela valorização da educação, como forma de ascensão social, assim como por vivências que resultaram em observação da condição social em seu entorno e que favoreceram desenvolver um nível mais aprofundado de sensibilidade em relação às demais pessoas.

Os docentes apresentaram suas famílias e escolas com caraterísticas de rigorosidade e exigências, que direcionaram para uma formação que exigiu e ainda exige maior dedicação e responsabilidade na busca pela excelência na atuação. Além disso, relataram experiências de saúde e doença pessoal ou de parentes próximos, assim como pessoas com deficiência tanto na vida privada quanto na IES, que fazem refletir sobre o cuidado, seja ele num sentido de caridade ou de solidariedade ou de ofertar subsídios para minimizar as dificuldades.

Segundo Bronnfenbrenner (2011, p. 45), diversas pesquisas têm apontado para a “coexistência de forças subjetivas positivas ou negativas”, derivadas das experiências, envolvendo os diferentes tempos em que cada pessoa vive e que podem modelar a direção do desenvolvimento humano no futuro. Assim, os processos que envolvem a inclusão no contexto da instituição e a caraterística da IES, cuja premissa da inclusão vem sendo amplamente abordada desde 2008, estimulam uma concepção favorável em relação à inclusão. Desse modo, os movimentos, as atividades e os efeitos que perpassam a vida dos professores estão estreitamente relacionados à inclusão como paradigma, que vem exigindo do professor essa

adaptação, haja vista o aumento do número de estudantes com deficiência que ingressam nas IESs.