2.2 A POLÍTICA DE SAÚDE
2.2.1 Modelos de Saúde no Brasil
2.2.1.4 Modelo Plural
Em 1978, através do Ministério da Previdência Social (MPAS) foi criado o Sistema Nacional de Previdência e Assistência Social (SINPAS), que foi composto pelas seguintes instituições: Instituto de Administração da Previdência e Assistência Social (IAPAS); Instituto Nacional de Previdência Social (INPS); Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS); Legião Brasileira de Assistência (LBA); Fundação Nacional para o Bem Estar do Menor (FUNABEM); Empresa de Processamento de Dados da Previdência Social (DATPREV); Central de Medicamentos (CEME) e Fundação Abrigo Cristo Redentor (FACR).
Conforme preconiza Bravo (1996, p. 45), estas reformas não contaram com a participação ativa dos trabalhadores. Apenas alguns profissionais da saúde, nesse momento, iniciaram uma reação pretendendo alterar o setor por meio de modificações no sistema atual. Sistema este caracterizado pela predominância de ações realizadas pelo setor privado, ênfase no atendimento hospitalar, e bastante vulnerável à corrupção.
Este grupo de profissionais enfrentou embates constantes com a Federação Brasileira de Hospitais (FBH) que congregava os interesses empresariais e industriais do setor privado, até então, hegemônico que cada vez mais revelam-se altamente lucrativos.
A organização de profissionais da saúde, denominada posteriormente de
movimento sanitarista tinha como base de atuação os institutos de pesquisa
universitários, em especial o Centro Brasileiro de Estudos da Saúde (CEBES), que tinha a finalidade de gerar correntes de idéias que defendessem a saúde coletiva. O movimento pretendia estabelecer um novo relacionamento entre o setor privado e o governo na área da saúde.
No início dos anos 1980, a política de saúde passa por uma profunda crise, uma vez que as reformas implantadas no Governo anterior (SINPAS) não conseguiam dar respostas às demandas que estavam postas (BRAVO, 1996, p. 54). Os movimentos iniciaram uma luta pela saúde, visando a melhoria dos serviços de saúde e alteração das políticas do setor.
Nessa conjuntura, novos atores entram em cena, onde se destacam: os profissionais de saúde, representados pelos seus órgãos, o CEBES, os partidos políticos de oposição e os movimentos sociais urbanos.
É nesse contexto que em 1986, ocorreu a VIII Conferência Nacional da Saúde, conhecida como o marco histórico mais importante na trajetória política de saúde brasileira, cujos eixos temáticos eram: Saúde como direito de cidadania, Reformulação do sistema nacional de saúde e Financiamento setorial (BRAVO; MATOS, 2001, p. 32). Nesta Conferência foi aprovada a bandeira da Reforma Sanitária, que serviu de base na reformulação da Constituição Federal Brasileira.
Conforme preconiza o Relatório da 8ª Conferência Nacional de Saúde (1986), as seguintes questões podem ser consideradas centrais à Reforma Sanitária e definidoras dos novos rumos da política pública de Saúde no Brasil:
- o conceito de saúde, referido não apenas à assistência médica, mas relacionado com todos os seus determinantes e condicionantes, como: trabalho, renda, alimentação, habitação, transporte, meio ambiente, entre outros;
- o direito universal e igualitário à saúde;
- o dever do Estado na promoção, proteção e recuperação da saúde; - a natureza pública das ações e serviços de saúde;
- a organização das ações do Estado em uma rede regionalizada e hierarquizada, constituindo um Sistema único de Saúde gratuito, descentralizado para os Estados e Municípios, sob controle social;
- subordinação do setor privado às normas do Sistema Único e, quando necessário, contratado sob as normas do direito público; diretriz de estatização progressiva;
-desvinculação do Sistema Previdenciário Social, com financiamento autônomo, preservada a gradualidade na substituição das fontes previdenciárias, estabelecimento de pisos de gastos (CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE, 1986).
De acordo com Sônia Fleury, a Reforma Sanitária deve ser entendida como:
[...] um processo de transformação da norma legal e do aparelho institucional que regulamenta e se responsabiliza pela proteção à saúde dos cidadãos e corresponde a um efetivo deslocamento do poder político em direção às camadas populares, cuja expressão material se concretiza na busca do direito universal à saúde e na criação de um sistema único sob a égide do Estado (FLEURY, 1997, p. 28).
O projeto da Reforma Sanitária trazia em seu bojo um modelo de democracia, sustentado na formulação de uma utopia igualitária: a garantia da saúde como direito individual e a construção de um poder local fortalecido pela gestão social democrática (FLEURY, 1997, p. 33).
No processo de redemocratização do país, a política de saúde se destacou pela articulação de seus principais atores em torno do objetivo comum de romper com o modelo federalista centralizado.
O capítulo sobre saúde da nova Constituição Federal, fortemente inspirado nas decisões da 8ª Conferência, instituiu o SUS, que representa completa mudança sobre a situação vigente, uma vez que entende o direito à saúde, como direito de cidadania e o Estado responsável em assegurá-los através de políticas púbicas adequadas.
No Brasil, a Constituição Federal de 1988, deu expressão ao novo conceito de política social reconhecendo todos os cidadãos em iguais portadores de direitos sociais universais. Em seu capítulo consagrado à Ordem Social, estabeleceu os fundamentos da seguridade social e a garantia de direitos básicos e universais de
cidadania, afirmando o direito à saúde, à assistência social e a previdência, em um capítulo específico.
Na reflexão de NOGUEIRA (2002, p. 148), a Constituição Federal de 1988, trouxe um novo ordenamento ao setor saúde, propiciando um desenho particular em aspectos éticos-políticos fundamentais. Dentre os quais, universalizou-se o direito à saúde, direcionando para a garantia do pleno acesso aos serviços de saúde sem quaisquer critérios de exclusão ou discriminação; e democratizou os serviços de saúde, ampliando a participação popular e possibilitando o controle social.
O SUS, definido na Constituição de 1988, entende a saúde como,
Um direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doenças e de outros agravos e o acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação (BRASIL, 1989, p. 81).
Ou seja, é direito de todo cidadão brasileiro ter acesso universal e igualitário aos serviços e ações de saúde pública e gratuita.
Como pontua Nogueira (2002, p. 157), o reconhecimento da saúde como direito social, e a apreensão de sua garantia como um dever do Estado, propicia a recuperação de uma visão que atribui, enquanto direito, a pretensão de que o dever de cumpri-lo é do Estado, deixando reconhecido que a saúde não pode ser um bem ou serviço factível de troca no mercado.
De acordo, o artigo 198 da Constituição Federal, indica que
as ações de saúde integram uma rede regionalizada e hierarquizada e constituem um sistema único, organizado de acordo com as seguintes diretrizes:
I – descentralização, com direção única em cada esfera de governo;
II – atendimento integral, com prioridades para as atividades preventivas, sem prejuízos dos serviços assistenciais;
III – participação da comunidade. (BRASIL, 1989, p.81).
Estes aspectos provocaram significativas alterações em termos técnicos e políticos, uma vez que, foram exigidas ações administrativas de grande envergadura e sustentação política.