2.5 Modelos de processo decisório
2.5.5 Modelo político de Allison
Neste modelo, considera-se que as pessoas são individualmente racionais, mas não coletivamente. As organizações seriam sistemas políticos. Isto se daria porque os indivíduos podem ter preferências diversas, não apenas por seus interesses pessoais, mas também sobre os rumos da organização, por exemplo: o crescimento dela ou a distribuição dos lucros aos acionários. Esta distinta postura pode ser influenciada pela posição pessoal na organização, pelas ambições e interesses particulares (EISENHARDT, 1992).
“O paradigma básico deste modelo fundamenta-se nas negociações e coalizões entre grupos para a tomada de decisões entre os envolvidos” (SILVA, 1989, p.27). Tais negociações e coalizões teriam como objetivo formar um poder dominante e assim influenciar ou definir a decisão. A negociação também poderia ter como objetivo a solução do conflito (EISENHARDT, 1992).
Para MILLER (1996), o modelo político estaria relacionado ao uso do poder, podendo este ser legítimo ou não. No primeiro caso, o poder é distribuído de acordo com as posições na cadeia hierárquica. No caso do poder que não seria legítimo,
haveria predominância de interesses pessoais sobre os organizacionais, com eventual manipulação de informações e várias formas de barganha. Para CROZIER (1981), haveria também o poder do perito, oriundo de sua capacidade pessoal para controlar determinada tipo de incerteza, e o poder hierárquico funcional.
O conceito de poder está intimamente relacionado ao modelo político. Para MORGAN (1996), as fontes mais importantes de poder nas organizações seriam:
autoridade formal; controle sobre recursos escassos; uso da estrutura organizacional, regras e regulamentos; controle do processo de tomada de decisão;
controle do conhecimento e da informação; controle dos limites; habilidade de lidar com a incerteza; controle da tecnologia; alianças interpessoais, redes e controle da
“organização informal”; controle das contra-organizações; simbolismo e administração do significado; sexo e administração das relações entre os sexos;
fatores estruturais que definem o estágio da ação e o poder que já se tem.
Para FOUCALT (1995) não há teoria geral do poder. Segundo o mesmo autor o poder não seria algo unitário e global. Haveria formas díspares e heterogêneas de poder, em constante mutação. O poder não seria objeto natural, ou coisa, seria prática social.
Na perspectiva deste modelo, as organizações não seriam grupos homogêneos e predominariam cooptação, manipulação de informações, negociações, preferências e interesses dos atores, incerteza das conseqüências, conflito, poder e coalizões (ALLISON, 1971).
SELZNICK (1971, p. 93) define cooptação como “o processo de absorção de novos elementos na liderança ou estrutura de decisões políticas de uma organização, como meio de evitar ameaças à sua estabilidade ou existência”. O
mesmo autor considera que haveria dois tipos de cooptação: a formal, quando haveria necessidade de estabelecer a legitimidade da autoridade ou de tornar a administração acessível ao público a que se dirige; e a informal, quando haveria necessidade de ajustamento às pressões de centros específicos de poder na sociedade.
As preferências, neste modelo, não versariam somente sobre tecnologia, por exemplo; mas são influenciadas pela hierarquia e pelos interesses do decisor (EISENHARDT, 1992). A barganha ou negociação envolve diferentes níveis hierárquicos. Estas influenciam a percepção dos decisores.
Em relação aos interesses, DEAN (1996) observa que eles são influenciados pelas pessoas dependendo de suas posições funcionais, hierárquicas, além de fatores pessoais.
Esse modelo tem sido estudado principalmente em organizações governamentais, universidades, grandes corporações e empresas com alto teor tecnológico (RODRIGUES, 1985).
Para EISENHARDT (1988), o modelo político não está constituído por alianças temporárias e mutáveis, mas em estáveis coalizões baseadas em características demográficas, como idade e localização do escritório. Entretanto, para BUTLER (1992), as alianças podem ser provisórias, e poderiam ocorrer apenas para uma única decisão.
ALLISON (1971) e EISENHARDT (1988) relatam que nas decisões estratégicas é usual a presença de componentes políticos. Para MINTZBERG (1976), decisão estratégica pode ser definida como aquela decisão que é importante para a organização, em termos de ações tomadas e dos recursos comprometidos.
Geralmente se caracterizam pela inovação, complexidade, ambiguidade e implicam importantes consequências para o futuro da organização.
Mesmo em decisões aparentemente simples, nas quais a melhor solução técnica é facilmente visualizável, podem existir situações políticas complexas se ocorrerem diferentes interesses. Num caso relatado por BUTLER (1992), o Serviço Nacional de Saúde Britânico preconizava uma decisão para alguns hospitais, a qual não era questionada tecnicamente, mas contrariava interesses de médicos, enfermeiras, laboratórios, etc. A solução somente foi implementada após a formação de uma coalisão com poder suficiente para sobrepujar os opositores.
Nesse modelo, as decisões não são as mais acertadas, mas as que ficaram acordadas pelos integrantes do grupo interessado.
Na perspectiva do modelo político, mesmo quando as pessoas, nas organizações, estão perseguindo objetivos organizacionais, certamente estão buscando também alcançar seus objetivos pessoais (PRESTES MOTTA apud LIMA, 1994). Os objetivos poderiam ser definidos como as intenções e os fins desejados pelos indivíduos ou pelas coalizões, mas dificilmente um único indivíduo é poderoso o suficiente para determinar completamente os objetivos (LIMA, 1994).
Prossegue LIMA (1994, p. 54).
Continuam sendo objetivos da organização a eficiência e a sobrevivência. Só que agora esses objetivos já não são uma abstração e tampouco se revestem de uma pseudoneutralidade administrativa, pois estão associados aos interesses de indivíduos e de grupos. Estes, para fazerem prevalecer seus objetivos perante os demais, necessitam da eficiência enquanto recurso para sobreviver e acumular poder.
Pode-se observar que, mesmo na perspetiva do modelo político, a eficácia em relação aos objetivos, além de ser importante para a sobrevivência e crescimento da organização, também é relevante para a sobrevivência e crescimento das pessoas, dos grupos e das coalizões nela existentes. Ou seja, mesmo no modelo político há espaço para a racionalidade econômica.
O modelo político estaria relacionado com as pessoas que tentam influenciar a decisão por interesses pessoais ou grupais, ou com o desempenho ruim da organização (DEAN, 1996). Este desempenho ruim seria propiciado principalmente pela distorção de informações e pelo consumo de tempo e energia não direcionados à tomada de decisão propriamente dita (EISENHARDT, 1988). Os dirigentes tomariam decisões baseadas em informações inadequadas ou incorretas. Entretanto PFEFFER (1981) observa que a política pode ser benéfica, principalmente em ambientes de alta turbulência, pelo seu poder de adaptação.
3. METODOLOGIA